Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Conto. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 9 de junho de 2015

ERES MI NÚMERO



Para Gastón

Domingo, 26 de abril de 2015. Assim que ele chegou ao seu quarto do Hotel Pestana, em Buenos Aires, pegou seu celular para se conectar à rede sem fios do local e acessar seus aplicativos. Havia 119 mensagens no whatsapp, a maioria delas de três grupos que participava. Ignorou-as e abriu o aplicativo de encontros para ursos, como são chamados os gays corpulentos e peludos em uma definição bem rasteira. Sua ideia era que o aplicativo o localizasse na capital argentina, deixando seu perfil à mostra para os portenhos. Saiu em seguida para jantar com Beto, seu colega de trabalho, que viajava com ele para participar de um evento do Mercosul contra o trabalho infantil.
Ao voltar para o hotel, já no início da madrugada, acessou novamente o aplicativo para checar se recebera mensagens. Havia pelo menos uma dúzia. Viu uma por uma e ninguém lhe interessou. Deitou e logo adormeceu.
Segunda-feira, 27 de abril de 2015. O evento acontecia no próprio hotel onde ele estava hospedado. Tomou café da manhã, se encontrou com os demais colegas de trabalho, cumprimentou os conhecidos de Argentina, Paraguai e Uruguai, colocou um paletó, seguindo para o centro de eventos do local. Aproveitou o atraso no início das atividades para checar novamente o aplicativo. Novas mensagens. Um perfil lhe interessou. Era Oscar. Respondeu e logo trocaram whatsapp. Combinaram de se encontrar às 19 horas do dia seguinte, terça-feira, dia 28 de abril. O local escolhido foi um café perto do hotel. Ele seguia os conselhos de uma amiga. O primeiro encontro em tempos de redes sociais e conhecimentos virtuais sempre deve ser em um café. Isto porque um café pode ser curto ou longo, dependendo da química que rola entre as duas pessoas. Em um restaurante, se não rolar química, a saia justa é maior, pois um almoço ou um jantar demoram mais do que um café. O restante do dia foi dedicado ao evento e a noite foi a um jantar oficial.
Terça-feira, 28 de abril de 2015. Após tomar o café da manhã com os colegas de trabalho, verificou suas mensagens no whatsapp. Não havia nenhuma de Oscar. Enviou um “olá”, mas não teve resposta. Acessou o aplicativo para ver se Oscar estava on line. Não estava, mas uma mensagem lhe chamou a atenção. Era um simples “hola!”, mas as fotos do perfil disseram-lhe algo mais. Respondeu com outro “hola!”. Para sua surpresa, foi respondido imediatamente. Sua vontade de conhecer aquele argentino era tão grande que nem pensou duas vezes em lhe fornecer seu whatsapp. Trocaram várias mensagens ao longo da manhã. Combinaram de se encontrar no início da noite. Havia Oscar! Resolveu enviar uma mensagem, cancelando o encontro, dando uma desculpa qualquer ligada ao evento, que, de todo, não era mentira, pois as coisas não caminhavam muito bem naquele dia, com atrasos na programação.
Ainda por mensagem, o argentino lhe perguntou onde queria ir. Usou a estratégia de devolver a pergunta sem responder. O argentino sugeriu um café. Conexão total. Proposta aceita. Endereço fornecido e horário marcado: 20 horas. A tarde passou lenta. A sensação era que o atraso na programação se perpetuaria para sempre. A ansiedade era grande. Ele não tinha tal sensação há muito. Estava separado há quase dois anos, após uma relação de mais de quinze anos. Neste tempo pós-separação, estava solto na pista, aproveitando a vida. E este encontro fazia parte desta etapa de vida, mas algo lhe dizia que seria diferente. Pensava em sexo.
O evento, programado para terminar às 17 horas, se prolongou até 19:10 horas. Assim que terminou, subiu feito um raio para seu quarto, tomou um banho, vestiu a roupa que estava mais à mão e seguiu para o encontro. O argentino tinha lhe ensinado como chegar ao local de táxi. Eram aproximadamente 1,5 quilômetros desde o hotel. Não tinha trocado dinheiro. Estava sem pesos para pagar o táxi ou mesmo ir de ônibus. Resolveu ir a pé, apesar de suas fortes dores na região lombar da coluna. Viu o mapa no seu celular, consultando o melhor caminho. Saiu do hotel às 19:35 horas.
No trajeto, sua ansiedade crescia, assim como suas dores. Diminuiu o ritmo para suportá-las. Na pressa de sair, esquecera de tomar um analgésico. Seguia pela Calle Paraguay em direção ao bairro Recoleta. Nem prestava atenção nos arredores, nas pessoas, nos prédios, coisa que sempre faz quando está caminhando, mesmo em ritmo acelerado. Seu coração bombeava mais forte na medida em que se aproximava da rua na qual teria que virar à direita. Checava os nomes das ruas no mapa de seu celular, pois algumas delas não tinham placas indicativas. Quando chegou a hora de virar à direita, um frio percorreu sua espinha. Caminhou um quarteirão, atravessou uma rua. O local marcado era na próxima esquina. Viu uma lanchonete, mas não viu ninguém. Consultou o endereço de novo. Era um pouco mais à frente. Não era um café, mas sim a entrada de um edifício residencial. Um gigante estava na porta, consultando o celular. Era o argentino. Ficou paralisado. Muito mais interessante do que nas fotos. Outro calafrio lhe percorreu o corpo. Aproximou-se e se apresentou. Como todos os argentinos, o gigante se abaixou como se fosse lhe dar um beijo no rosto. Ele, como todos os brasileiros, logo lhe estendeu a mão. Um gesto que poderia se analisado como frio e distante. Mas para ele não o era. Era apenas uma formalidade entre duas pessoas que estavam acabando de se conhecer.
O argentino lhe apertou a mão. Seus olhos se cruzaram. Olhares fixos, olhares profundos. O brasileiro viu além dos olhos. Achou que viu a alma do argentino. Foram segundos, mas pareceu-lhes uma eternidade. O silêncio foi quebrado com um convite para subir. O café seria no apartamento do argentino. Ele aceitou sem pensar. O toque de pele e o olhar do argentino lhe abateram ali, no porta do prédio. O apartamento ficava no segundo piso. Subiram de elevador. Ficaram frente a frente, conversando sobre trivialidades. Ele tinha o pensamento longe. Por um momento o filme de seus 51 anos de vida passou como um trem bala em sua cabeça. O elevador deu um solavanco quando parou no segundo andar. Ele voltou à realidade. Um pequeno corredor separava o elevador da entrada do apartamento. O argentino abriu a porta e lhe convidou para entrar. O brasileiro misturava ansiedade e nervosismo. Pediu um copo de água. Bebeu dois goles e começou a falar. Falava pelos cotovelos. O argentino estava sentado à sua frente. Ouvia tudo com muita atenção e aproveitava as pausas de respiração do brasileiro para também falar. Falaram de tudo um pouco. Da separação que ambos vivenciaram, do trabalho, da vida que levavam, de cachorros, de suas atividades de trabalho. A voz grave falando espanhol fascinou o brasileiro, que fixava seu olhar nas mãos do argentino. Queria segurar aquelas mãos e nunca mais largar. Seus corpos se aproximavam cada vez mais, mas não se tocavam. Até que uma mão segurou a outra. Um calor invadiu o espaço. Um cheiro bom vinha do argentino. O brasileiro estava dominado em quase todos os cinco sentidos: olfato, audição, toque, visão. Faltava o paladar. Queria beijar aquela boca que estava a poucos centímetros da sua. Segurou firme nas mãos portenhas, se aproximou e tascou um beijo. Era o que faltava para lhe conquistar de vez. Levantaram-se e se beijaram longamente. Um beijo efusivo, mágico. Olharam-se, um sorriso tomou ambos os lábios. Seguiu-se um forte e aconchegante abraço. O brasileiro quis morar naquele abraço argentino. Naquele momento, percebeu que uma magia acontecia ali. Algo que há muito não vivenciava. Olhou o relógio. Era hora de ir embora. Os dois tinham compromissos. Agendaram para se ver no dia seguinte. Um jantar a ser preparado pelo argentino. O que o brasileiro buscava no início de tudo não se consumou. Não houve sexo naquela noite. Ao despedir-se do argentino, já na rua, teve uma certeza. Queria aquele homem em sua vida. Tinha esquecido das dores nas costas. E, ainda sem dinheiro, voltou, leve e sorridente, para o hotel. Quando lá chegou, um aviso sonoro no celular indicava o recebimento de uma mensagem. Era o argentino lhe convidando para jantar. Compromisso cancelado. Em vinte minutos estavam juntos novamente, conversando em uma pizzaria. Já no início da madrugada, o argentino pagou a conta, pois o brasileiro continuava sem dinheiro, e caminharam juntos até o Hotel Pestana. Despediram-se com um forte abraço.

O brasileiro pegou seu celular e enviou uma mensagem para o argentino: ERES MI NÚMERO! 

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

UM DIA APÓS O OUTRO

Hoje recebi de presente esta deliciosa história escrita pela querida amiga Diana. Gostei tanto que compartilho aqui no blog:

Para Leo Soares (Noel)

Murinardo! Acorda, Murinardo!
Outra vez o grito. Todos os dias, exatamente à mesma infame hora, Panerai, com pontualidade suíça, repetia as palavras que faziam Murinardo lembrar. E ele lembrava que queria, mas não lembrava o quê.
Sabia que havia uma necessidade. Lembrava dela assiduamente. Ou melhor, lembrava da existência dela. Não do que ou de quem ela era.
Como era terça feira e tinha mesmo que abrir a porta para Solange – quando Dolly ainda morava em casa ficava livredessa tarefa irritante, mas, agora não havia outro jeito – levantou. Com um pouco de mau humor, um resto de Tylenol PM embaçando os pensamentos, uma leve dor no ombro e um temorzinho de ir ao banheiro e sentir que a litotripsia não tinha sido completamente bem sucedida, destrancou a porta da frente e foi cuidar de sua higiene matinal.
No rosto, apenas água termal, bem fria. Estava proibido pelo dermatologista de utilizar qualquer sabonete ou outro produto de limpeza na pele sensível. Dentes, banho, barba, Musc Nomade. Findo o ritual, o barulho de Solange na cozinha e o aroma de Rosabaya diziam que o desjejum já estava pronto.Suco verde (arrgh! Mas necessário!), omelete de claras e, sim, por favor, café! No último gole o "ping" do telefone. Whatsapp. Vivian e Claudete? A essa hora? "Me bate um abacate", pensou. Bom dia, Muri, querido. Acredita que o carregamento com os vinhos para o jantar da confraria ficou retido na Receita Federal? Vamos ter que adiar para quinta. Pode ser? Nem pensar!!! Na quinta era o jantar com Vicente. Jantar, não. Seria, na verdade, a última ceia. Não agüentava mais aquele convívio; já lhe embrulhava o estômago o visco imaturo e (seria mesmo?) interesseiro. O ardor juvenil já não era máscara competente para esconder a total desnecesidade daquela relação. Um grande "x". Pronto! Já foi! O jantar seria apenas uma delicadeza. Um arremate.
Três ligações no caminho para o trabalho: Pablo, animadíssimo, comunicando o casamento no mesmo dia da abertura de um novo bistrô; Kitty desesperada com alguma decisão estúpida do presidente; Ewenilson para confirmar a viagem para Vanuatu. Meu Deus!! Vanuatu? Minúsculo, um monte de praias (credo!) e nem um restaurante no guia Michelin. Ainda se perguntava o que iria fazer lá; mas sabia a resposta. Viagem com o grupo, para qualquer lugar do mundo, era compulsória. Já antevia as reclamações de Renato com os preços dos jantares, as compras de Robério, o nariz  torcido de Bibiana (que não iria) quando soubesse que Vivian, mais uma vez viajaria com eles e que todos iriam de primeira classe. Divah surtaria. Era simplesmente viciada em viagens e adorava lugares exóticos, mas não tinha uma conta bancária condizente com o vício e, ainda por cima, ia ser avó outra vez e, claro, queria pajear o pimpolho. Pensou em Dolly. Quereria ir? Claro que sequer seria convidado, não poderia arcar com os custos. Uma pontadinha de sei lá o quê parecido com saudade, uma rápida análise do passado e do futuro e...
O outdoor já próximo do trabalho fez lembrar o show de Ellen Oléria. Nelson Laranja faria abertura e Murinardo não perderia por nada! Desviou o caminho e foi comprar os ingressos. Quantos? Giralda adoraria, mas estava na Espanha, Clara, em Paris – e mesmo que não estivesse acabaria desistindo na última hora, Janaína já estaria dormindo (o show começava às 23:00horas), Henrique Luís não sairia de casa a não ser que fosse para um show sertanejo, Frida também circulando na Europa...Geane estava em seu enésimo retiro espiritual achando tudo lindo e maravilhoso.  Comprou dois. Só por precaução.
No trabalho só por volta das dez. Passou pela sala de Riva e Bibiana para marcar o almoço. Contou logo da viagem. Bico automático de Bibiana e sorriso de Mona Lisa de Riva pensando nas taças de champanhe que também tomaria em sua viagem para Vegas, com Alessandro, no carnaval. O ciúme desvelado de Bibiana disparou outra memória. Franziu a testa pensando em como era irritante ter ciúme de Dolly. Não que algum dia tivesse confessado o ciúme. Ao contrário; Murinardo sabia que fazia sucesso, que era "conquistante", tinha vários pretendentes e dispensava outros tantos. Ciúme tinha sido sempre, e ainda era incabível. Ainda assim o sentimentozinho enjoado de "o que poderia ter sido" ameaçava.
Ministros, dignitários, secretários e diretores mais tarde, na sobremesa - uma divina bavaroise de morangos que seguia o levíssimo e delicioso suflê de espinafre, enquanto Bibiana roçava sua perna por baixo da mesa, pensou em mudar radicalmente de vida. Deixaria a cidade, o país; aceitaria uma das propostas de trabalho no exterior, passaria alguns anos fora, respirando e vivendo novas culturas, emoções e pessoas. Não mais os aborrecimentos conhecidos, não mais as mesmas batalhas diárias, não mais a rotina, a repetição. Seria essa a necessidade incômoda e desconhecida?
Pouco antes do final do expediente, uma ligação de Lulu, cheia de saudades. Entre as notícias da família, o anúncio das orações e o envio das bênçãos, Murinardo sorria e pensava na reação da mãe se ouvisse falar na decisão de sair do país. Lulu, muito mais prática ultimamente, encerrou a conversa o dizendo que queria vê-lo mais feliz. Apaixonado e feliz. Murinardo suspirou.
Jantou sozinho no seu restaurante peruano preferido e, às 22:00 horas, já a caminho do teatro, ainda não tinha encontrado destinatário para o ingresso extra que comprara. Seguiu assim mesmo, acostumado, já, a desfrutar sozinho e não deixar passar as boas coisas e oportunidades da vida para as quais nem sempre tinha companhia.
No centro cultural, saindo de uma visita preventiva ao toaleteantes do show, quase esbarra em alguém. Dolly? Não sabia que você gostava de Ellen Oléria! Um sorriso fácil: há muito de mim que você não conhece, Murinardo. Mas, não estou aqui para o show. Na verdade, Dolly viera muito cedo, visitar a exposição de animais à procura de uma cadelinha com pedigree razoável para fazer companhia a Juscelino, o pequeno Shi Tzu de quem tinham "guarda compartilhada". Não encontrara nenhuma e acabara fazendo hora no café. O ingresso extra tinha, enfim, um dono.
Murinardo! Acorda, Murinardo!!
Outra vez o grito. Panerai era constante e incansável. Dolly sorriu. Esse negócio não acaba nunca, né? Todo dia, na mesma hora! 
Murinardo lembrava que queria alguma coisa. Lembrou do dia anterior, das emoções, das quase decisões, dos encontros, das lembranças, das necessidades desconhecidas.
Levantou rápido, abriu a porta para Solange, fez sua higiene pessoal, tomou o desjejum, deu todas as ordens domésticas, olhou para Dolly com um olhar metade Capitu metade de Thundera e pensou: ta boa, canoa!? Fui, despediu-se já na porta.
Dolly suspirou, meneou a cabeça e constatou: você é impossível, Murinardo...
Por cima do ombro Murinardo estalou discretamente a língua em um "tsk": "keep calm", nada como um dia após o outro.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

SIM

Para Fabíola

Uma brisa suave enchia o local com o cheiro de patchouli. Não estava forte, pois a cerimonialista tinha recomendado colocar poucos sachês em pontos estratégicos, perto de onde aconteceria a cerimônia. O dia estava lindo, sem nenhuma nuvem no céu. Como era perto de 16:30 horas, o calor era mais ameno. O local escolhido também favorecia, pois era às margens do Lago Paranoá, em uma mansão do Lago Sul, cujo gramado impressionava os convidados de tão verde e vivo, mesmo sendo final do período da seca na cidade.
No ponto onde foram colocadas as cadeiras para os convidados já não mais batia sol diretamente. Cerca de trezentos lugares, simetricamente arrumados, sendo cento e cinquenta de cada lado. Ninguém passava pela passarela instalada ao centro. Davam a volta pela frente, onde estava o altar. Não era um qualquer. Ele remetia a várias religiões e seitas. Elementos do budismo, do catolicismo, do espiritismo, do candomblé enfeitavam aquele altar, conferindo-o uma energia fora do normal, uma vibração eclética. Era um altar ecumênico. A imagem da Virgem de Nazaré ocupava um lugar de destaque. As cadeiras tinham uma tonalidade azul claro, feitas de madeira, remetendo aos barcos que percorriam a Baía do Guajará diariamente, levando e trazendo pessoas, mercadorias, sonhos e desilusões. Separando as cadeiras da passarela central estava uma grossa corda de sisal de ambos os lados, o que fazia lembrar a grandiosa festa do Círio de Nazaré.
Os convidados começaram a chegar desde cedo, alguns vindos de longínquas partes do país. Tinha gente de Manaus, do Rio de Janeiro, de Uberlândia, de Florianópolis, de Aracaju, de Maceió, de São José dos Campos, de Redenção, de Marabá, de Castanhal, de Santarém, de Goiânia, de Fortaleza, de Belo Horizonte, de Vila Velha, de Vitória, de Bocaiúva, de Alfenas e, como não poderia faltar, de Ananindeua. Até de Miami veio gente. Todos ansiosos por aquela cerimônia.
A organização da festa colocou ilhas com bebidas geladas e salgadinhos para entreter os convidados. Eram salgadinhos que faziam sucesso nas festas infantis das décadas de 60 e 70, ignorados solenemente nos últimos anos e agora redimidos. Foram chamados de salgados vintage. Naquela altura, as caixas de som soltavam uma deliciosa música de Lia Shopia. Ainda no repertório musical da festa estavam músicas de Felipe Cordeiro, Dona Onete, Gang do Eletro, Pinduca, Luiz Félix, Aldo Sena, Vazo Novo, Emília Monteiro. Só não tinha Gaby Amarantos. A dona da festa não gostava. Gaby crescera junto com ela no Jurunas. Passaram bons e maus momentos. Ela lembrava com orgulho, mas aquilo fazia parte de seu passado.
A música parou por um instante. Um anúncio foi feito. A cerimonialista pedia a todos para se acomodarem, pois em quinze minutos a cerimônia teria início. Alguns correram para pegar um lugar mais perto da passarela, onde teriam uma melhor visão do que aconteceria. Ao fundo, uma enorme cortina marrom bordada com motivos verdes e vermelhos lembrava uma obra de Emmanuel Nassar. Dali, sairia a dona da festa. Quinze minutos.
Uma turma de recém ingressados na Polícia Militar era uma das mais ruidosas entre os convidados. Riam muito, se divertiam. Todos estavam impecavelmente vestidos, com muito gel nos cabelos. Conseguiram sentar na terceira fileira do lado esquerdo do altar.
As mulheres abusaram nos seus modelitos, usando apliques, coques e chapéus enormes. Afinal, a cerimônia pedia isto. Vestidos frescos, esvoaçantes, com decotes ousados. Uma ou outra convidada tinha errado a mão, com muito brilho nas roupas. Os homens pareciam em ambiente fabril, usando o mesmo uniforme. Camisa social branca, geralmente de linho, calça chino e sapatos dock sider, invariavelmente na cor azul marinho. Claro que alguns se destacavam pelo inusitado na forma de vestir. Um dos convidados usava uma calça amarela que reluzia no meio da multidão. Ele tinha um blog, onde escrevia suas impressões de tudo aquilo que apreciava.
Os amigos de sempre, aqueles que tinham um grupo longevo no Whatsapp, se sentaram juntos, na primeira fila, onde também estavam os parentes da dona da festa. Só uma estava ausente. Era Giralda, que tinha ido estudar na Espanha. Uma mensagem cheia de mimimi, como de costume no seio deste grupo, foi deixada por ela. Os demais estavam todos lá, incluindo a sonolenta Janaína, pois ainda sofria os efeitos do fuso horário, posto que tinha chegado da Alemanha, onde ficou por mais de um ano, dois dias antes daquela festa. Frida foi a última a se sentar. Tinha voltado a uma das ilhas de salgadinhos para pegar mais uma coxinha. Ao morder, percebera que o recheio não era o mesmo que tinha comido alguns instantes atrás. Era de tucumã. Sentiu vontade de cuspir, mas como já estava sentada, pronta para ver a cerimônia, engoliu sem mastigar, evitando deixar aquele gosto estranho na boca. Riva também foi para sua cadeira com uma taça de champanhe nas mãos, cujo ato foi seguido por diversas outras pessoas. Henrique Luís estava furioso com a cor da roupa de sua namorada. Ela tinha escolhido um vestido em tonalidade rosa bebê. Aquela cor realmente o perseguia. Clara, sempre usando a cor amarela, nada falava. Apenas observava o ambiente, procurando um passarinho verde. Tivera dúvidas de quem ela levava como companhia na festa. O paulista ou o mineiro. Nenhum dos dois. Escolheu o baterista, minhoco da terra. Lu esbanjava alegria com seu marido francês e sua filhinha Juju. Geane tinha na face a expressão da tranquilidade. A cicatriz na sua mão praticamente tinha desaparecido. Efeito de seus inúmeros retiros espirituais. Kitty era a mais falante, como sempre, não parando de tagarelar um minuto sequer. Parecia a Emília, de Monteiro Lobato. Frida, ainda com uma coxinha nas mãos, perguntou onde estava Divah. Lu, agora adepta de regressões, fechou os olhos, meditou e viu Divah em uma sala fechada. Era a única que teve acesso à dona da festa antes da cerimônia. Os pensamentos de Lu foram interrompidos com um sinal sonoro, seguido de uma revoada de pombos brancos, que foram soltos por detrás da cortina marrom bordada com motivos em tons verdes e vermelhos. Divah apareceu pela abertura desta cortina. Um óóóhhh, em uníssono, se fez ouvir no local. Cybele e seu filho gritaram loucamente para Divah. Esta apenas abriu um pequeno sorriso nos lábios, olhou em frente e caminhou na passarela em direção ao altar. A cor de seus cabelos era o que mais chamava a atenção. No altar, ela se posicionou à direita, local reservado para os padrinhos. Era única. Reinava absoluta naquela condição. Mais um sinal sonoro, nova revoada de pombos, o tapete que cobria a passarela foi recolhido para trás, revelando uma espécie de rio artificial, com uma pequena corredeira. Os convidados ficaram de boca aberta. Na correnteza vinham vitórias régias floridas. Eram lindas. Eram falsas. Não estavam sós. A maioria das bolsas de grife que estava na festa também era falsa. Os convidados tinham dificuldades para crer no que presenciavam.
Quando toda a passarela, agora transformada em um rio, ficou repleta de plantas aquáticas, ouviram-se os primeiros acordes da Marcha Nupcial. Todos os olhos se voltaram para trás, para a cortina marrom. Surgiu a ponta de uma canoa de madeira que começou a singrar aquele rio. A cortina se abriu totalmente. Queixo caídos para o que viam. Bibiana reluzente, em pé no centro da canoa, distribuindo sorrisos. Sua boca tinha um vermelho urucum forte, daqueles que grudam, que nunca sai. O vestido era de noiva, mas não era branco. Ela preferiu usar uma cor palha. Não tinha calda, nem muita roda na cintura. Perfeito para um casamento no final da tarde. O cabelo estava com suas voltas e ondas naturais. Enfim, ela tinha deixado a química de lado. Era outra mulher. Vinha devagar naquele rio. Seus pensamentos eram muitos, mas não conseguia reter nenhum deles. Como vinham, iam. Olhava de um lado para o outro, reconhecendo amigos e parentes. Nas mãos, carregava um belo arranjo feito com as ramas do açaí. Uma tiara brilhava na sua cabeça.
As pessoas se amontoaram ao longo da corda, o que lembrou ainda mais as festividades do Círio. Todos queriam vê-la de perto, fazer parte daquela cenografia. Queriam tirar fotos, postá-las imediatamente nas redes sociais. Bibiana distribuía cada vez mais sorrisos. Olhava para o altar, altiva, decidida. Divah debulhava-se em lágrimas. A juíza de paz já estava a postos. A família Albatroz chorava, comovida com a cena. Edcléia e Cecília, de mãos dadas, pensavam quando teriam aquele momento.
No meio do caminho, a canoa parou. Tudo estava programado. Bibiana olhou para o céu. Um casal de araras azuis voou baixinho. Eram eternamente fiéis, assim como os pinguins. Que assim seja, pensou a noiva. Ela lembrou de seu passado, quando andava, por força do trabalho, em grandes propriedades rurais e via dezenas de vacas e apenas um touro. Riu internamente. A canoa voltou a navegar naquele rio.
Chegou ao altar, desceu da canoa, se posicionou e mirou a cortina marrom. Um tapete de madeira imediatamente cobriu o rio. Era chegada a hora. O noivo surgiu. Inverteram totalmente a ordem. Bibiana era clássica, mas não gostava do óbvio.
Os convidados ficaram mais uma vez surpresos. A música escolhida para a entrada do noivo também nada tinha de convencional. Gal Costa cantando Meu Bem Meu Mal. Bibiana não cabia dentro de si tamanha a sua felicidade. Naza chorava baldes. Divah já tinha detonado sua maquiagem, assim como quase todas as mulheres presentes. Muitas lágrimas derramadas. A turma da polícia tinha ficado em silêncio. De todos eles, Júnior era o mais pensativo.
O noivo, com sua roupa em tom cinza, também era pura felicidade. Ele entrou de cabeça erguida. Passos lentos, firmes. Não olhou para nenhum dos lados. Seus olhos estavam hipnotizados pela presença reluzente de Bibiana que o aguardava com ansiedade.
No altar, o noivo segurou forte a mão de sua amada.
Olhou para a juíza e disse SIM.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

ANDANDO DE ÔNIBUS

Para Vera

O dia amanhecera quente. Seis horas da manhã e o calor já era insuportável. Regina abriu a janela do seu quarto para ver se entrava alguma brisa, mas nada. O ar condicionado estava no mínimo possível, mas não conseguia refrescar o ambiente. Era melhor ficar debaixo do chuveiro. Naquele horário, ainda era possível tomar um banho frio, pois no meio da manhã a água já sairia quente de tanto o sol bater no reservatório do hotel. Abriu a água em jato bem forte e se deixou mergulhar, mesmo sendo o box diminuto. Ao desligar a torneira, o bafo quente que entrava pela janela aberta lhe desanimou. Nem precisou enxugar muito, pois rapidinho a água evaporava do corpo.
Era hora de descer para encontrar os demais amigos que viajavam com ela. Todos a postos no restaurante do hotel para um vigoroso café da manhã. Estavam em Pequim. O roteiro previa uma visita ao longínquo Parque Olímpico, sede das Olimpíadas de 2008. Assim que terminaram a primeira refeição da manhã, pediram para a recepcionista do hotel anotar em um cartão o endereço para onde iam. Tinha de ser em mandarim, pois tinham lido que a maioria dos taxistas chineses não entendia outra língua. A garota foi muito simpática, anotando em quatro cartões, um para cada um dos amigos. Em seguida, pediram para ela chamar um táxi. Imediatamente o seu semblante se fechou. Apontou para a porta, dizendo que eles poderiam pegar o táxi lá na rua. Regina saiu irritada, sendo seguida pelos demais.
Na rua, nenhum táxi parado. Nenhum ponto. Depois de fazer sinal para mais de uma dezena de táxis, sem sucesso, um parou. Um senhor aparentando 65 anos era o motorista. Regina entregou o cartão, o motorista olhou, virou de um lado, virou de outro, colocou o cartão de cabeça para baixo. Entregou o cartão de volta e balançou a cabeça negativamente, arrancando o carro. Isto fez os quatro ficaram atônitos. Licurgo voltou para a recepção do hotel, retornando com o número do ônibus que parava na rua transversal, tendo seu ponto final justamente no Parque Olímpico. Cenira e Dinorá apoiaram a ideia de pegar um ônibus. Regina, contrariada, seguiu os três, sempre repetindo:
- Se tem uma coisa que odeio é andar de ônibus!
Esperaram pouco. Logo o número 46 apareceu. Não havia lugar para sentar, mas o ônibus não estava cheio. Acharam estranho ter dois tipos de preços. Um para os chineses e outro para os turistas. Claro que para os últimos era mais caro. O ônibus não tinha avançado nem trezentos metros quando Licurgo teve um estalo e foi mostrar o cartão com o endereço para o motorista. Ele sorriu, apontando para o outro lado da rua. Tinham pegado o ônibus na direção errada. Desceram rindo muito, atravessaram a rua e pararam no ponto, mas não conseguiam parar de rir. Uma senhora os abordou em um parco inglês perguntando se queriam ajuda. Um anjo caído do céu, pois ela tomaria o mesmo ônibus e desceria um ponto antes do ponto final. Tínhamos garantia de ajuda em todo o percurso.
O ônibus chegou. Totalmente lotado. Regina fez cara de poucos amigos, mas a senhora colocou as mulheres para dentro, não se sabe como. As portas se fecharam. Licurgo ficou do lado de fora. As amigas gritavam, em português, para o motorista abrir a porta, enquanto a senhora idosa se dirigia ao motorista para que ele deixasse Licurgo entrar. O homem levantou de sua cadeira, pegou um microfone e começou a gritar. A senhora esperou a porta se abrir e puxou Licurgo pelo braço, explicando-lhe que o motorista pedia para as pessoas andarem um pouco para trás do ônibus. Os quatro novamente juntos. Regina apenas com o dedo indicador encostado na barra de ferro tentava se equilibrar, pois não queria pegar naquelas barras onde todo mundo passava a mão que não se sabe onde foram colocadas antes. Licurgo ria muito da situação. O calor apertava, ficava abafado, pois as janelas estavam fechadas. Ninguém parecia se incomodar com a temperatura interna do ônibus. Parecia um inferno. Mais um ponto. Mais gente entrando. Era uma lata de sardinhas. O trânsito foi ficando lento. O tempo passava. O ônibus não andava. Regina foi transpirando. Seu suor pingava do rosto. Um chinês resolveu dar uma cusparada. Regina e Cenira tamparam os ouvidos. As pessoas que estavam perto gargalharam. Foi o sinal para uma sinfonia de puxadas de garganta, de fungadas de nariz e de cuspes no chão acontecerem de uma só vez. A cara que Regina fazia era digna de uma postagem no Instagram.
Enfim, o ônibus deixou a rua de trânsito parado e acelerou. Uma freada brusca mais à frente, quando teve que parar para subir mais gente, fez Regina se desequilibrar, caindo sobre dois chineses que dividiam uma cadeira onde normalmente somente uma pessoa se sentaria. Licurgo riu muito, sendo seguido pelos chineses. Regina ameaçou descer no próximo ponto, mas ao ser lembrada da dificuldade de tomar um táxi, desistiu, repetindo seu mantra:
- Se tem uma coisa que odeio é andar de ônibus!
Quatro horas depois, a senhora que os ajudara a entrar naquele ônibus disse que estava chegando o destino deles. Mas ainda demoraria mais meia hora, quando, enfim, avistaram o Ninho de Pássaros, nome dado ao Estádio Olímpico. O ônibus parou. Em um verdadeiro empurra-empurra, todos foram descendo. Licurgo se apressou para também descer, mas a senhora disse que o ponto final não era ali. Era o próximo. Quando viram, somente os quatro ficaram no ônibus, que seguiu seu destino. Chegaram ao ponto final. Desceram, começando a tirar fotos do local. A fome bateu forte. Decidiram procurar um local para comer dentro do próprio Parque Olímpico. Nada acharam de interessante. Para refrescar, decidiram comprar picolés. Apenas um sabor estava sendo vendido. Era o mais popular na cidade. Sabor ervilha. Regina experimentou e fez cara feia.
Foram caminhando para o portão do Estádio Nacional. Nenhum movimento de pessoas nos arredores do estádio, o que era muito estranho por se tratar de Pequim. Assim que chegaram, deram com os portões fechados. Era domingo. O estádio não abriria para visitação naquele dia.
Regina bufou. Andara de ônibus em vão. Não voltaria na mesma condução. Procuraram um táxi. Avistaram dois carros parados perto de onde estavam. Correram para lá. Entregaram o cartão para o primeiro motorista, que estava de pé encostado na porta de seu táxi. Ele pegou o cartão, entrou no carro, e deu a partida sem ninguém, deixando o cartão cair no chão. Regina ficou furiosa, pegou o cartão e o mostrou para o outro motorista. Ele fez cara de paisagem e apontou para o ônibus 46 que estava parado no ponto. Em seguida, repetiu o que o colega fez, saindo com seu táxi dali.
Os quatro foram para o ponto. Regina repetiu:
- Se tem uma coisa que odeio é andar de ônibus!
 Voltaram de ônibus.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

NO SALÃO DE BELEZA

Para Diana

A luz do sol entrou pela fresta da janela atingindo seu rosto. Ela acordou sentindo um calorzinho bom na pele. Olhou para o lado e seu marido ainda dormia o sono dos justos. Virou-se de lado para sair melhor da cama. Sua coluna deu uma fisgada. Era a sexta vez que isto ocorria em seis dias. Era melhor procurar um especialista o quanto antes. Enfiou os pés na pantufa rosa, ficou de pé, fechou a cortina para o sol não incomodar o marido e foi para o banheiro. Percebeu que seu cabelo já flutuava em alguns pontos da cabeça, com a raiz despontando altiva, alva como a neve. Precisava urgentemente ir ao salão de beleza. Assim que ficou pronta, deixou um bilhetinho na mesa de cabeceira, pegou a bolsa e desceu para o café da manhã. Passou pela recepção do hotel para perguntar onde havia um bom salão de beleza nas redondezas. A recepcionista lhe atendeu sorridente, explicando que o salão mais próximo ficava na rua de trás, mas que ele era um salão muito caro. Ela não gostou desta abordagem. Que petulância desta moça! Será que ela acha que eu não posso pagar? Respirou fundo para não brigar. Afinal, era seu primeiro dia de férias, longe dos filhos e netos. Uma nova lua de mel com seu marido. Tinha trabalhado tanto na semana que antecedeu a viagem que nem pode ir ao salão renovar a pintura de seu cabelo. Queria ir logo, ainda cedo, pois seu marido costumava dormir até mais tarde, o que lhe permitiria pintar o cabelo sem necessidade dele ficar esperando. Pediu a recepcionista para escrever o nome e o endereço do salão. A moça, sempre sorrindo, logo lhe entregou um pedaço de papel. A mocinha tinha até desenhado um mapa para ela não se perder. Além do nome do salão, Juracy Coifeur, estavam no papel o endereço, Rua 29 de Agosto, e o tal mapa. Ela quase teve uma síncope ao ver escrito “vire a ezquerda, na segunda rua”. Com o papel nas mãos, aproximou-se da moça sorridente e lhe disse quase sussurrando:
- Lindinha, há três erros de português em uma simples e curta frase. O certo é vire à esquerda na segunda rua. O a é craseado, esquerda se escreve com esse e não existe esta vírgula onde você colocou. Bom dia!
O sorriso da moça foi esmaecendo até desaparecer do rosto. Apenas agradeceu aquela gentileza da madame e pegou o telefone que estava tocando em momento providencial.
Com o endereço do salão nas mãos saiu toda faceira, esquecendo-se de tomar seu café da manhã. Andou cerca de quatrocentos metros, chegando ao seu destino. Era cedo, mas o salão já estava aberto. Ela olhou atentamente para o letreiro do local. Além do nome em letras enormes, cheias de estilo e curvas, em tom vermelho forte, uma frase indicava a especialidade da casa: hair, make up and fun. Cabelo, maquiagem e diversão? O que seria aquilo. Entrou. Foi recebida por uma mulher jovem com cara de poucos amigos.
- Tem horário marcado?
- Não, mas vejo que o salão está vazio. Vocês podem me atender? Preciso pintar meu cabelo.
- A senhora trouxe sua tinta?
O telefone do salão tocou. A atendente pediu licença e foi atender.
- Juracy Coifeur, bom dia! Sim, oi Josefine. Não, sua mãe não está. Está, sim, está. Mesmo? Que desaforo! Pode deixar comigo. Beijos.
Desligou o telefone, pegou um espanador e saiu a limpar o porta revistas que ficava na recepção. Nem ligou para a madame que deixara esperando. Mas a madame não se fez de rogada e tascou uma pergunta em francês:
- Vouz parlez français?
- Não estou entendendo nada do que a senhora está dizendo.
- Eu perguntei se você fala francês.
- Não, porque deveria falar?
- Porque o salão tem o nome em francês. Chama-se Juracy Coifeur. Diga-se de passagem há um erro de grafia no letreiro, falta uma letra efe na palavra “coiffeur”.
- Não sou a dona. Apenas trabalho aqui. A senhora trouxe ou não trouxe a tinta?
- Que educação é esta? É assim que você trata as clientes? Não tenho nenhuma tinta comigo, mas é fácil, a cor é preto profundo. E chama logo alguém para me atender. Vou sentar aqui nesta cadeira.
A atendente atravessou uma cortina de vidrilho e sumiu. Ela ficou ali sentada, mexendo em seu celular, respondendo mensagens que chegavam sem parar. Estava tão absorta na telinha de seu aparelho que nem viu uma esguia mulher se aproximar da sua cadeira.
- Bom dia. Sou Juracy, a dona do salão. Atenderei a senhora. Veja se esta marca de tinta lhe satisfaz, por favor.
- Bom dia. Não conheço esta marca. O que me diz dela?
- É a que mais uso aqui no salão. Minhas clientes estão satisfeitas. Não tenho reclamações.
- Como é apenas para passar estes dias de férias, pode usar. Preto profundo, certo?
- Certo. Vamos logo começar, pois daqui a pouco este lugar vai ficar lotado e tenho muita gente agendada. Haverá uma super festa à noite, a mulherada quer ficar bonita. Afinal, o que importa é ver e ser visto.
Juracy reclinou um pouco a cadeira, deixando a madame com o rosto virado para o teto. Em seguida, começou a passar a tinta, puxando, de vez em quando os seus cabelos. Aquilo foi irritando-a de uma forma que logo ela protestou.
- A senhora está puxando os meus cabelos. Está doendo.
- É assim mesmo, pois seu cabelo é grosso, está sem vida e muito seco.
Um sorriso sarcástico apareceu no rosto de Juracy. E deu mais uma puxada no cabelo com a escova. Desta vez foi tão forte, que saiu um pequeno tufo de cabelo no seu instrumento de trabalho. Ela gritou tão alto que deve ter acordado o marido lá no quarto do hotel. Mas era durona, não sairia dali sem o preto profundo em seus cabelos.
- What the hell are you doing?
- Desculpe-me senhora, não foi minha intenção. Já terminei, agora vou passar a tinta. A propósito, não entendi o que a senhora disse.
- Lá fora está escrito “Juracy Coifeur - hair, make up and fun”. A senhora não sabe inglês?
- Não. É mais chique escrever assim. E ninguém se importa se está certo ou não a grafia. Sei que a senhora disse para minha atendente que faltava um efe na palavra escrita em francês. Para dizer a verdade, nem sabia que era francês. Pedi a uma amiga que me ajudasse a escolher um nome estrangeiro e ela veio com ele pronto. Gostei, mandei fazer o letreiro e o coloquei na frente do salão. Goste a senhora ou não, este é o nome que eu escolhi. Por falar em nome, ainda não sei o da senhora.
- É Divah, com agá no final.
- A senhora corrigiu a sua mãe, ou o homem do cartório onde foi feita a sua certidão de nascimento?
- Qual o motivo desta pergunta?
- Porque Diva não se escreve com agá no final. Posso ser ignorante em estrangeiro, mas sei como se escreve Diva.
- Minha mãe não tem nada a ver com isto. Eu mudei a grafia depois que fiz uma consulta com um numerólogo. O agá me dá mais energia, mais segurança, mais firmeza.
- E a senhora escreve seu nome assim, com agá no final?
- Claro. É meu novo nome. Consegui até alterar minha cédula de identidade.
- Para a senhora ver, eu não posso ter um nome que eu escolhi para o meu salão que a senhora logo vem chegando, corrigindo, enquanto para seu nome, até alteração na carteira de identidade a senhora fez.
- Cést la vie!
- O que?
- Nada não. Vamos terminar logo com esta pintura!
- A senhora não está satisfeita com meu serviço?
- Não é isto. Quero aproveitar as minhas férias ao lado de meu marido. Deixei ele dormindo e vim para o seu salão.
- Como a senhora soube de meu salão?
- A recepcionista do hotel onde estou me indicou. Burrinha, você precisava ver. Em uma frase com seis palavras ela cometeu três erros de português. Falta qualificação para este pessoal que trabalha no setor de turismo. Aqui mesmo em seu salão, a atendente é mal humorada e ninguém fala uma outra língua. A cidade é turística, como vocês pretendem atender aos turistas que aqui vem todos os verões?
- Vou apressar sua pintura.
E as duas nada mais falaram. Passaram-se mais de duas horas. Enfim, o cabelo estava pronto. Antes de levantar a cadeira, Juracy baixou a cabeça até seus lábios ficarem bem próximos ao ouvido esquerdo de sua cliente, quando sussurrou:
- A recepcionista do hotel que lhe indicou meu salão é minha filha.

Divah ficou vermelha, sem saber onde colocava sua cara, enquanto Juracy subia sua cadeira. Seu cabelo estava pronto. Olhou no espelho para ver como tinha ficado.
Ficou sem palavras.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

FUMBAMBAS

Para Renata

Dentro da caixa de correio havia apenas um envelope amarelo. Riva estava exausta, pois as planilhas nas quais trabalhara o dia inteiro a deixaram zonza. Só queria saber de cair na cama. Esperou o elevador com o envelope nas mãos. Não havia indicação de quem enviara aquela carta a ela. Tinha uma das mãos ocupada com papeis do trabalho, o que a impossibilitou em abrir o envelope. Seu cansaço era tão grande que suplantava qualquer resquício de curiosidade. Ao entrar em casa, Riva jogou tudo no tapete da sala e caiu prostrada no sofá. Dali não queria sair. Ficou a olhar para a parede, mas sem fixar algo definido. Era como se mirasse o nada. O envelope amarelo chamava a atenção, jogado no tapete. Adormeceu.
Ela não soube precisar o quanto dormira, mas sabia que tinha adormecido no sofá. Acordou com dores por todo o corpo. Aquele sofá, que tinha custado uma fortuna por ser objeto de design, definitivamente não servia para um corpo cansado. Riva olhou o seu relógio e a noite já avançava na madrugada. Uma leve fome a fez levantar. Abriu a geladeira, pegou o leite e encheu um copo. Deu duas goladas e deixou o resto. Não gostava de leite, mas sempre tinha em casa porque sua mãe lhe dizia que era importante uma mulher na sua idade beber aquele líquido horroroso e insosso. Voltou para a sala e viu o envelope.
Revigorada pelo sono, mesmo com as dores pelo corpo, a curiosidade bateu para saber o que havia dentro do envelope amarelo.
Tentou abri-lo com delicadeza, mas estava muito bem colado. Rasgou nas laterais. Um cintilante convite, também amarelo, era o conteúdo da carta.
Em letras que pareciam saltar do papel, um pequeno texto a chamava para uma festa. Era um amigo que não via há anos e que comemoraria seus cinquenta anos em um barco. Festa restrita. Poucos convidados. Junto ao convite, um mapa. A festa seria no sábado. O barco sairia às 11:00 horas da manhã. No convite havia a solicitação de confirmação via telefone. O que intrigou Riva foi o texto:
"Romualdo convida para seu aniversário de 50 anos com um ano de atraso. Favor confirmar presença pelo telefone abaixo indicado. Mapa para chegar ao local de partida do barco está atrás deste convite. Cuidado, pois a região é cheia de fumbambas".
Romualdo, como sempre, muito original, pensou Riva. Na verdade ele estava completando 51 anos, mas como não conseguiu fazer uma festa quando fez meio século, resolveu dar esta festa agora, por isso o tal convite com um ano de atraso. E ainda tinha o alerta para ter cuidado com os fumbambas. Mas que diabos eram os fumbambas. Riva pegou o celular para consultar o Google, mas ao clicar no ícone do seu navegador, apareceu um aviso de bateria fraca. O telefone apagou em seguida. Ela colocou o celular para carregar e foi tomar banho. Esqueceu completamente da consulta.
Na manhã seguinte, sexta-feira, levantou no horário de sempre para ir trabalhar. Assim que ficou pronta, recolheu os papeis do tapete e deu de cara com o convite novamente. Lembrou de ligar para confirmar presença. A festa seria no dia seguinte, mas como era muito querida de Romualdo, a pessoa que atendeu disse que ela nem precisava da confirmação, pois sabiam que ela estaria no barco na hora marcada. Ao finalizar a ligação, a moça perguntou se Riva iria sozinha. Recebeu resposta afirmativa. Iria de carro, sem levar ninguém. A moça agradeceu a ligação, despedindo-se com um alerta: "cuidado com os fumbambas". Riva desligou o telefone, clicando no navegador, mas nova ligação a impediu de pesquisar sobre os fumbambas. Era do trabalho. Problemas urgentes para resolver. E assim foi sua sexta-feira. Pesada, cansativa, urgências atropelando urgências. Esqueceu completamente dos fumbambas. De volta para casa, Riva tomou um remédio para dormir, acordando por volta de sete horas da manhã do sábado. Arrumou uma bolsa grande, colocando itens de quem vai passar o dia navegando no mar. Pelo que conhecia de Romualdo, a festa seria em um veleiro. Sabia mais ou menos a direção que deveria tomar, mas resolveu se certificar no Google Maps. De sua casa até o destino, cerca de duas horas de carro. Tinha tempo de sobra. Passou um bom protetor solar no rosto, pescoço e braços, deixando para passar no restante do corpo assim que entrasse no barco. Saiu em seguida. Maria Bethânia cantando Roberto Carlos seria a sua trilha sonora no caminho. O dia estava lindo. O celular ficou ligado no acendedor de cigarros para não descarregar, pois Riva usaria o Google Maps o tempo todo. Ela sabia que o aplicativo funcionava como GPS, mesmo sem sinal de internet. Quando Riva acompanhava Bethânia na música Fera Ferida, ela ouviu uma voz feminina mandando-a virar à direita em quatrocentos metros. Era o Google Maps. Riva olhou para a tela do seu celular, percebendo que estava sem sinal de internet. Maldita operadora!
No local indicado, virou à direita. O asfalto acabara. Era hora de percorrer uma estrada de terra. Já tinha rodado por mais de 75 minutos. Faltava pouco para chegar, mas como a estrada era ruim, Riva calculou que ainda teria que rodar por uns quarenta minutos. Voltou a cantar com Bethânia.
Uma curva acentuada à direita a fez reduzir a velocidade. Ao finalizar a curva, uma placa lhe chamou a atenção: "Região de fumbambas, tenha cuidado!" Ela não tinha pesquisado o que era aquilo e estava sem sinal de internet. Tinha que perguntar para Romualdo.
E mais uma curva apareceu em sua frente. Três cruzes brancas no meio da curva chamaram a sua atenção. Será que tinha morrido gente em acidente naquele local? Atrás das cruzes, tinha uma placa caída. Riva apurou a visão. Conseguiu distinguir a palavra "fumbambas". Pensamentos nebulosos lhe passaram pela cabeça. Será que os tais fumbambas tinham matado as pessoas que aquelas cruzes representavam?
Aumentou o volume do som do carro, deixando seu pensamento mergulhar na letra de "Detalhes". Mas apenas fumbambas povoavam sua cabeça. Começou a pensar que seriam integrantes de uma tribo canibal, preservada pela turma dos direitos humanos e que ela corria perigo. Checou se janelas estavam completamente fechadas e travou todas as portas do carro. Colocou um pouco mais de pressão no acelerador.
Outra placa, desta vez enorme, fincada no morro à esquerda da estrada, exibia novo alerta: "local de travessia de fumbambas, dirija com muito cuidado". Meu Deus!, soltou Riva. Não eram canibais, mas sim animais gigantes, pensou. Algo como mamutes, que estavam preservados pela turma do meio ambiente. Seria esmagada debaixo de uma das patas de uma espécime de paquiderme. Pegou o celular, mas sem sinal nenhum. A tela estava travada na página do Google Maps lá do início da estrada de terra.
A paisagem começou a mudar. A mata ia ficando rala, deixando lugar para um terreno arenoso, sinal de que se aproximavam do mar. A lama em certos pontos também indicava que um manguezal estava nas proximidades. Riva estava gelada. A qualquer momento uma horda de fumbambas poderia aparecer e ela estaria frita. Porque não ficara em casa. Bethânia continuava a cantar, alheia a qualquer perigo.
Enfim, o mar surgiu ao longe. Uma placa estava no meio da pista. Era um novo alerta sobre os fumbambas. Riva teve que jogar o carro na areia e quase ficou sem conseguir sair do lugar. Pisou fundo no acelerador, derrapou, jogou areia para todos os lados, mas conseguiu voltar para a estrada. O celular deu um apito. O sinal do GPS voltava a pegar. A mesma voz feminina disse que em seiscentos metros estava o seu destino. Riva avistou o veleiro e uma pequena canoa na praia. Um homem de meia idade a esperava.
Parou o carro ao lado de outros que estavam estacionados, pegou a bolsa, olhou bem para para todos os lados ainda dentro do veículo. Não avistou nenhum fumbamba, nada desconhecido. Desceu, fechou a porta, acionou o controle de travamento à distância, correndo até onde estava a canoa. Respirando ofegantemente, sentiu-se tonta, escorando no senhor, que perguntou se ela estava bem. Riva não conseguia falar nada. Fez sinal de positivo com o polegar, entrando na canoa. O senhor empurrou o pequeno barco e começou a remar em direção ao veleiro.
Na medida em que se aproximavam do veleiro, o som alto, rock brasileiro dos anos oitenta, podia ser ouvido de onde Riva estava. Ela foi relaxando aos poucos. Ao recuperar o fôlego, perguntou para o senhor o que eram os fumbambas. Ele apenas sorriu e disse que ela saberia no barco. Ficou apreensiva.
Riva era a última a chegar para o passeio. Atracaram no veleiro. O senhor a ajudou a subir em uma escada de metal que dava acesso à proa do barco. Romualdo a recebeu com um largo sorriso no rosto e uma taça de Veuve Clicquot nas mãos. Deu ordem para o marinheiro partir. Brindaram. Seguiu-se um longo abraço. Riva perguntou sobre os fumbambas. Romualdo não disse nada, apenas a conduziu até o outro lado do barco, onde uma turma se esbaldava com muita bebida, música e cigarro. Ao lado de cada um dos convidados havia um balde alaranjado no chão. Na mesa, vários bastões de madeira em forma de cilindro. Romualdo colocou Riva em uma cadeira ao seu lado e lhe mostrou o balde.
- Aí estão os fumbambas.
Riva gargalhou alto, muito alto. Ficara apavorada por causa de caranguejos.
Sim, fumbambas nada mais eram do que caranguejos.
Com uma expressão sádica no rosto, devorou os fumbambas de seu balde.
O veleiro já estava ao sabor dos ventos.

terça-feira, 22 de julho de 2014

DANÇA

Para Girão
- Código localizador e um documento, por favor.
- Aqui está. Não se esqueça de colocar meu número do cartão fidelidade.
- Fique tranquila que não deixarei de inserir seu fidelidade. A senhora não marcou assento. O voo está tranquilo por enquanto.
- Quero qualquer assento no meio.
- No meio? Mas há assentos livres no corredor e na janela.
- No meio, por favor.
- OK, senhora, mas fiquei surpresa, pois nunca vi alguém pedir para se sentar no meio. Pelo contrário, as pessoas sempre reclamam quando só restam poltronas do meio.
- Pois eu adoro o meio. Tenho a chance de sentar entre dois guapos. Quem sabe um deles não se torna meu futuro marido...
Sorrindo, a atendente da TAM devolveu os documentos de Giralda, bem como o seu cartão de embarque, desejando-lhe boa sorte.
O voo estava no horário. Embarque previsto para o portão 25, dali a cinquenta minutos. Com um lenço verde na cabeça, batom vermelho nos lábios, um belo vestido estampado com grafismos lembrando uma tela de Mondrian, Giralda foi esbanjando simpatia pelos corredores do aeroporto.
Na sala de embarque, foi a primeira a se apresentar para embarcar, mas antes se certificou que o voo estava cheio. Estava. Abriu um sorriso enorme. Quem sabe aquele seria o dia de encontrar o homem da sua vida.
Sentou-se na poltrona 14B. As pessoas foram entrando. Giralda ficava a mirar os homens. Alguns eram candidatos em potencial para viverem para sempre ao seu lado, mas eles passavam direto. Nunca viu tanta gente passar para se sentar depois da fileira 14. Na frente, tudo estava ocupado. Após meia hora de embarque, ninguém mais entrou. As poltronas ao seu lado vazias, mas as portas da aeronave não tinham sido fechadas, o que deixava Giralda mais apreensiva. Ela tinha acordado com a certeza de que naquele dia ela conheceria seu futuro marido. A comissária usou o sistema de som para anunciar que estavam esperando mais dois passageiros que vinham de um voo de conexão. Eram os companheiros de fileira de Giralda, com certeza.
Mais cinco minutos e um deles aparece. Parrudo, gorro na cabeça, perto de quarenta anos, barbudo. Giralda gostou do tipo, embora o físico não fosse o que idealizara. O cara pediu licença. Estava na 14A. Giralda se levantou, sorrindo para ele. O parrudo nem notou. Pegou um livro na mochila. Giralda olhou de soslaio para ver o título. O cara parecia ser exotérico, pois lia Eram Os Deuses Astronautas?, de Erich Von Daniken. Ela logo o apelidou mentalmente de astronauta.
Entrou outro homem, um pouco mais velho, cabelos grisalhos, corpo esguio, porte atlético, sorriso permanente no rosto. Cumprimentou Giralda com um balançar de cabeça, retirou um livro da sua pasta e se sentou. Mais um leitor ao seu lado.
As portas do avião se fecharam. Os avisos foram dados. A aeronave partiu na hora. Assim que as luzes se apagaram, com o sinal identificando que os passageiros poderiam usar seus aparelhos eletrônicos, Giralda se acomodou na poltrona, puxando papo com o grisalho do seu lado direito, já que o astronauta tinha o olhar fixo para as páginas de seu livro esotérico. Ela queria saber o que ele estava lendo.
Ele fechou o livro, lhe mostrando a capa. Era a biografia de Isadora Duncan. Disse que gostava de dança e que estava indo para Fortaleza para participar de um festival internacional de dança de salão. Giralda se interessou imediatamente, perguntando o nome dele e querendo saber quem era a parceira dele na competição. João Marcos era seu nome. Quanto à parceira, ele ainda não a conhecera, pois o diferencial daquele festival era eles formarem os pares minutos antes das provas. Giralda gostava de dançar e tinha tido aulas durante anos. Atualmente frequentava aulas de dança egípcia.
- Você também se inscreveu para o festival?, perguntou João.
- Não, nem sabia.
- Ainda dá tempo. Porque não se inscreve assim que chegar. Li que terá um balcão do festival no aeroporto. Quem sabe você não dança comigo!
- E você dança bem?
Ele ruborizou. A pergunta foi direta. Ele não queria responder. Devolveu a pergunta.
- E você, já participou de alguma competição de dança?
- Nunca. Apenas apresentações para amigos.
Giralda esforçava-se para ver se João tinha aliança. Quando conseguiu ver as duas mãos, ficou feliz, pois aparentemente ele não tinha nenhum adorno nos dedos.
João insistiu para que ela se inscrevesse. E elogiou o vestido dela. Giralda ficou radiante. Ele quis saber seu nome.
- Giralda. É Geralda, mas com o “i” no lugar do “e”. E antes que você ria, saiba que adoro meu nome.
João riu e Giralda riu junto. Um braço encostou no outro. Giralda viu os pelos do braço dele se eriçarem. Ela viu que ali tinha futuro. E o papo continuou firme até chegarem ao saguão do aeroporto, onde João procurou o balcão do festival para ela se inscrever. Quando ele chegou perto, uma multidão de fotógrafos disparou cliques e flashes. Giralda nada entendia. João pedia apenas que ela se inscrevesse, ao mesmo tempo em que ia sendo levado por uma mulher esguia. Giralda ficou perplexa. Pediu uma ficha, preencheu. Recebeu seu número e as regras da competição. Não viu mais João. Leu o livreto. A competição seria na noite daquele dia. Tinha apenas cinco horas. Pegou um táxi, deixou as malas na casa de seus pais, e foi arrumar o cabelo, pois esta era uma exigência do festival. Aproveitou para renovar a maquiagem. Precisava de um vestido esvoaçante. Lembrou que tinha feito uma compra em um site chinês de um vestido que usaria em um casamento como dama de honra, mas não tinha gostado quando ele chegou. Achou com cara de princesa Disney. Aquele era o momento de usá-lo.
Na hora indicada, estava no centro de convenções da cidade. Nem sinal de João. Seu coração batia forte. Todas as mulheres estavam em uma sala e os homens em outra. Chegou uma notícia ruim. Eram 17 mulheres e 16 homens. Iriam cortam a última inscrita. Giralda ficou apreensiva. Na certa, ela tinha sido a última. Anunciaram que Carol estava cortada, pois aniversariantes não poderiam participar. Sua alegria voltou. A primeira dupla foi chamada. Veio a segunda, a terceira, a quarta, a quinta. Giralda estava inquieta, pois não sabia quem eram os homens que já tinham sido chamados. As duplas se apresentavam e ninguém podia voltar para a sala onde esperavam para ser anunciados.

Giralda foi a última a ser chamada. Suas mãos estavam molhadas. A ansiedade era grande. Entrou no túnel que conduzia ao salão. As luzes eram fortes, ofuscaram seus olhos. Nada enxergava. Uma mão forte pegou em sua mão. Ela olhou de lado, mas estava cega de tanta luz. Entrou confiante. Os gritos da galera a deixaram mais eufórica. Sortearam o ritmo. Dançaria um tango. A música começou e aquela mão forte a conduziu. Dança marcada, sem erros, aplausos sem fim. A música terminou. Apupos de já ganhou, já ganhou ecoaram no salão. Giralda só via luzes e mais luzes. O resultado saiu. Realmente Giralda tinha ganhado a competição. Quando olhou para o segundo lugar viu João Marcos arrasado. Ela não tinha dançado com ele. Quem era seu par? Estava tão cega que sempre achou que João era seu parceiro o tempo inteiro. Esfregou os olhos. Seu companheiro de dança sorria de braços abertos, acolhendo-a em um aconchegante abraço. Era o parrudo astronauta que viajara ao seu lado. Simplesmente, o melhor dançarino de sua vida. Giralda teve a certeza de que aquele era o seu futuro marido.

EXPERIÊNCIA CÓSMICA

Para Carol


Uma batida na porta foi o bastante para Clara acordar. Ainda estava escuro e fazia muito frio. A noite de sono tinha sido tão reconfortante que ao abrir os olhos e se deparar com um crucifixo na parede em frente à cama em que dormia, assustou, pois era agnóstica. Mas logo se deu conta de onde estava.
Era na Casa dos Peregrinos Dom Silvério, na Serra da Piedade, em Caeté.
Hora de se levantar para as atividades do dia. Cinco horas da manhã. Nova batida na porta. Com o cobertor enrolado no corpo, ela abriu a porta e lhe entregaram um copo com três dedos de limão espremido. Tinha que beber antes mesmo de escovar os dentes, fazendo um grande bochecho com água fria para não prejudicar o esmalte de seus dentes. Esta e outras orientações constavam do folheto que recebera ainda no ônibus, na saída da rodoviária de Belo Horizonte.
Clara gostava de viver alternativamente. Já tinha seguido o movimento Hare Krishna quando estudava Direito na UFMG, depois entrou para a Seicho No Ie, largou tudo, virou vegana, leu tudo sobre o auge dos hippies no Brasil, chegando a visitar uma aldeia remanescente da comunidade em Arembepe no litoral baiano. Agora, ela não acreditava em nada, mas gostava de meditação e a ioga lhe proporcionava bons momentos de encontro consigo mesma.
Ao entrar em um ônibus em BH, se sentou em frente ao famoso Jornal do Ônibus. Neste jornal, com informativos de interesse da população, estava pregado um cartão, provavelmente deixado por alguém, com o formato de um passarinho verde. O cartão lhe chamou a atenção. E ficou com uma enorme curiosidade quando viu que no corpo do pássaro tinha um telefone celular e a seguinte frase: venha entrar em contato com o cosmos.
Nem pensou duas vezes, ligou, pegou as informações, especialmente local, data e valor. A atendente insistiu em explicar que não se tratava de um curso, mas de uma experiência transcendental. Clara pegou todos os dados para fazer o pagamento, o que fez pelo próprio celular.
Em dia e horário indicado, estava na Rodoviária de Belo Horizonte, de onde o ônibus com seus colegas de experiência partiu para a Serra da Piedade. No ônibus, ela pegou o folheto com as orientações e dormiu, pois estava muito cansada. A viagem é curta, distante apenas 48 quilômetros da capital mineira. Eram vinte e seis pessoas ao todo. Cada um ficou em quarto individual.
Naquela época não existia peregrinação para o Santuário Nossa Senhora da Piedade, motivo pelo qual a pousada estava liberada para aquela experiência cósmica.
Clara tomou o suco de limão puro fazendo muita careta. Não escovou os dentes, apenas fez um longo bochecho. Em seguida, tomou um banho muito frio, pois o chuveiro elétrico tinha sido desligado para potencializar a experiência. Ao sair do quarto, o silêncio reinava. A meditação já tinha começado.
Nenhum barulho se fez ouvir no refeitório, onde estavam todos para a primeira refeição do dia. Apenas um copo de leite de amêndoas. Clara sorveu o líquido ralo e esbranquiçado com um certo temor de ficar com fome mais tarde.
Um jovem apareceu com uma placa indicando a direção que deveriam seguir. Foram para a beira de um precipício.
O dia amanhecia. O visual era deslumbrante. Tonalidades de azul tomavam conta do céu, que estava repleto de nuvens. A luz do dia ainda era fraca, o que dava à vegetação uma cor também azul. Ali todos se sentaram, abriram a boca, colocando suas línguas para fora. Sempre de olhos fechados. Era o banho de sol na língua, prática comum dos higienistas. Cinco minutos bastavam para matar os germes. Clara achou aquilo engraçado. Queria falar, mas as regras eram claras. Nada de conversas, apenas meditação coletiva.
Quando ouviram o estalar de dedos, fecharam a boca. Um leve gosto de queimado tomou conta do palato. De olhos abertos, fixaram o horizonte e se deixaram levar pelos pensamentos. Clara não sabia em que pensar. Deixou a mente fluir e nada vinha. Sem relógio no pulso, nem celular, era difícil saber quanto tempo estava ali sentada, mirando o nada. Sim, ela mirava o nada, pois de tanto fixar o horizonte, nada mais via. O silêncio foi quebrado por um coro de vozes femininas. Era um coro distante, mas ouvia-se perfeitamente que eram desafinadas. Clara percebeu que a música lhe era familiar. Quando cantaram o refrão, não teve dúvidas. As mulheres cantavam Jesus Cristo, sucesso antigo de Roberto Carlos. Ela sentiu uma vontade enorme de cantar também, mas foi firme. Fixou mais ainda o nada. Alguém do grupo cantou. Outro o seguiu no refrão. Quebraram a regra. Foram retirados dali. Sobraram vinte e quatro. Como eram rígidos os tutores do grupo. A música cessou.
Uma senhora chegou com um galão e serviu suco de tamarindo para todos do grupo. Alimentariam de líquidos? Isto não estava no folheto com as orientações. Assim que todos terminaram de beber, nova tabuleta. Desta vez a orientação era para formarem duplas e se abraçarem. Clara abraçou um homem de uns quarenta anos que estava ao seu lado. O abraço tinha que ser forte. Ficaram juntos, corpo no corpo. Um calor interno subia pelo corpo de Clara. Ela queria se desgrudar do homem, mas tinha medo de ser retirada daquela experiência. Uma eternidade se passou. Ninguém desobedeceu às regras. Hora de voltar a ficar só. Novamente sentados. Novamente olhando para o horizonte. A esta altura, o sol já tinha vencido as nuvens e iluminava a vegetação, cujo verde dominava a paisagem.
Clara ainda tinha dificuldades em mirar o nada. Um oco no estômago. Era a fome. E, como por encanto, uma nova placa indicando almoço. Foram para o refeitório. Uma pessoa espirrou. Três disseram amém. Mais três fora da experiência com o cosmos. Uma variedade de alimentos crus estava em um aparador. Cada um podia se servir à vontade, mas apenas uma vez. Clara colocou somente folhas e brotos de cereais em seu prato. Sentou-se na cabeceira da mesa comunitária. Todos se sentaram na mesma mesa. O silêncio era tanto que o mastigar dos presentes era ouvido. Um ritmo interessante. Alguns mais rápidos, outros de forma vagarosa. Todos absortos na alimentação e em pensamentos. Clara só pensava em quantos ainda restariam ao final do dia, quando a experiência se completaria.
Após o almoço, todo mundo teve que se sentar em redes, levantar a blusa, deixando a barriga de fora. Na altura do umbigo, colocaram uma toalha molhada em água gelada. Em quinze minutos, a toalha estava seca. Nas orientações estava escrito que aquilo facilitava a digestão. Clara pensou que qualquer coisa facilitaria a digestão daquele almoço. Em seguida, todos foram para seus respectivos quartos, que estavam completamente fechados, sem nenhuma nesga de luz. Clara se deitou, mas não tinha sono. Uma música instrumental suave e um aroma de flores silvestres invadiu o ambiente. Novo mergulho em pensamentos. Clara, enfim, conseguiu pensar em algo. Pensava em seu gosto musical. Muito rock, especialmente de Guns N’ Roses. Pensou tanto que achou que tinham mudado o tipo de música, pois poderria jurar, caso acreditasse em juras, que o som que ouvia era a voz de Axl Rose. Estaria delirando?
Uma batida na porta indicou que era hora de sair novamente do quarto. O frio da manhã tinha ido embora, deixando em seu lugar um calor gostoso. Todos foram para a beira de um tanque do tamanho de uma piscina semiolímpica. Um forte aroma de mel se fez sentir. Quando Clara olhou para dentro do tanque, viu um enxame de abelhas. Uma placa indicou que eles deveriam se despir e entrar no tanque. Nove pessoas se recusaram, pois tinham medo de picadas de abelha. Clara continuava firme e forte. Sem pudor, tirou sua roupa e deixou o frescor da brisa envolver seu corpo. Entrou bem devagar no tanque com o auxílio de uma escada. O contato com o mel foi esquisito. Aquele líquido viscoso, as abelhas pousando em seu corpo. Ela fechou os olhos e se deixou levar. Quando deu por si, estava sentada, cabelos grudados, mas feliz. Não percebeu que mais quatro pessoas tinham sido retiradas da experiência. Restavam oito pessoas. Para Clara, a experiência no tanque de mel durou horas. Mas foram apenas quinze minutos. Quando saiu, um homem jogava um forte jato de água gelada no corpo de cada um, retirando rapidamente o mel que estava agarrado.
Clara recebeu uma toalha, enxugou, vestiu sua roupa e foi para a direção indicada. Era uma gruta, onde se sentou, tomou um outro copo de suco de tamarindo e mirou a escuridão do local. Ali ficou até o final do dia. Viajou em pensamentos, em ideias, fazendo um balanço de sua vida até ali. Quando a chamaram, não tinha mais ninguém com ela. Uma mulher lhe abraçou, parabenizando-a pela conquista. Tinha conseguido chegar ao final do dia sem quebrar as regras. Era hora de vivenciar o cosmos. Duas pessoas se encarregaram de despi-la, lavá-la com água perfumada, enxugá-la, vestindo-a novamente, desta feita com uma túnica azul. Clara foi conduzida para uma cabana dominada também pela cor azul. Deitaram-na em uma esteira e saíram. Ela ficou ali, estática.
Uma voz feminina pediu para ela imaginar uma luz azul envolver o seu corpo. Clara começou a rir por dentro, sem emitir sons. Já tinha tido aquela experiência anos atrás. A voz continuou suavemente a falar em azul, em azul, em azul. Clara sentiu um formigar pelo corpo, uma dor intensa nas juntas, até não aguentar mais e desmaiar. Quando acordou, tudo era vermelho em sua volta, até a túnica que usava. Um enorme ovo ornava o ambiente. Uma voz ríspida ordenou que ela acordasse. Não via ninguém, apenas uma fumaça do tipo de gelo seco. Uma ventania. O vermelho virou amarelo e, em seguida, virou verde. Um pássaro verde entrou no ambiente onde Clara estava. Era o mesmo pássaro do cartão que ela pegara no ônibus em BH. O passarinho voou ao redor dela e pousou em seu braço. Abriu o bico, mas nenhum som se ouviu. Ele mirou o ovo, levantou voo e se chocou violentamente contra aquele grande ovo, que se partiu em milhares de pedaços, deixando seu líquido tomar conta de todo o ambiente. Clara e clara se tornaram uma única matéria. A experiência cósmica se completara.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

UM TESTE, UMA VIAGEM

para Luena

Estava atrasada e não conseguia achar uma vaga no estacionamento em frente à clínica. Já tinha dado três voltas e nada.
Pegou o celular para avisar que estava em frente ao prédio, mas ainda sem conseguir parar seu carro, quando um senhor com semblante fechado caminhou em sua direção. Ele fez cara de poucos amigos, olhou bem no fundo dos olhos dela e apontou para um carro preto. Ele não conseguiria sair se ela continuasse parada onde estava.
Lu sorriu para o senhor, colocou a primeira marcha e puxou o carro para frente, ligando a seta para mostrar seu interesse em estacionar exatamente na vaga do sedan preto.
O senhor continuou com a cara fechada, entrou em seu veículo, deu a partida e saiu, sem nem mesmo fazer um aceno de cabeça em sinal de agradecimento. Quando Lu engatou a ré, viu um carro entrando na vaga. Ela buzinou, gritou, mas a motorista nem ligou. Acabou de parar seu carro, pegou uma bolsa enorme, ajeitou os óculos escuros no rosto, deu uma balançada na cabeça para arrumar o cabelo, olhou para Lu, beijou o ombro e saiu a rebolar.
Lu ficou furiosa. Sua vontade era de pegar aquela mulher e guilhotiná-la, no melhor estilo francês.
Assim que a ladra de vaga sumiu do seu alcance visual, Lu saiu de seu carro, abriu a bolsa, procurando alguma peça pontiaguda. Achou uma pinça. Servia. Foi até o carro da mulher, abaixou perto de um pneu, tirou a tampa da sua válvula e usou a pinça para esvaziá-lo. Não se importou se alguém a via fazendo aquilo. Até achava bom se isto acontecesse. O ato de esvaziar o pneu fez tão bem a ela que resolveu repetir o procedimento em todos os outros pneus do carro.
Sorrindo, voltou para seu carro e deu mais uma volta. Desta vez com sucesso. Duas vagas ao fundo do estacionamento a aguardavam. Escolheu a que era mais fácil para entrar, estacionando perfeitamente. Ao sair do carro, repetiu, de forma instintiva, os mesmos gestos da mulher ladra de vaga. Arrumou os óculos no rosto, deu uma sacudida no cabelo e beijou o ombro. Quem viu, nada entendeu. Entrou no prédio da clínica com uma sensação de leveza inacreditável.
Na portaria, teve que se identificar, posou para uma foto digital e recebeu uma senha para digitar na catraca antes de alcançar os elevadores. Claro que Lu reclamou da senha, afirmando, em tom enérgico, que o mundo estava sendo dominado por senhas e que ela não mais lembrava de nenhuma. Tinha um aplicativo no seu smartphone que tinha a função única de guardar senhas. Para acessá-lo, uma senha era necessária. Mas era a única que memorizava. A senha que acabara de receber era a centésima oitava que entrava em sua lista.
Os seis números foram digitados. O painel da catraca indicou que ela podia passar. Eram oito elevadores modernos. O andar devia ser apertado do lado de fora. Dentro do elevador nenhum painel, apenas um botão para ser usado em caso de emergência. Décimo quarto andar. Era o piso onde ficava a clínica ortomolecular onde tinha um horário marcado para fazer um teste de intolerância alimentar.
Nova recepção, nova identificação. O convênio não cobria. Pagamento antecipado: R$ 490,00. Ao perguntar se aceitavam cartão, obteve a resposta que somente de débito. Fez o pagamento e pediu recibo.
A recepcionista, na maior cara de pau, disse que com recibo tinha que acrescentar R$ 50,00 no preço. Lu ficou furiosa, ameaçou ligar dali mesmo para a fiscalização de tributos. Chegou a pegar seu telefone para isto, mas não foi preciso. A recepcionista disse que faria uma concessão. Não cobraria a taxa extra, mas emitiria o recibo.
Ela disse que o teste estava atrasado, com duas pessoas na frente de Lu, mostrando onde ela deveria esperar. Na salinha indicada, um homem triste, com roupa em tons sombrios, e a mulher ladra de vaga. Lu olhou para ela e sorriu. Um sorriso leve, discreto, nem de longe a gargalhada sonora que passava em sua cabeça. Logo o homem triste entrou na sala do teste. As duas ficaram sós, olhando uma para a outra. Lu pegou uma revista Caras. Excelente oportunidade para ver fotos de famosos e outros não tão famosos assim. Na verdade, ela não conseguia distinguir quem era quem, sendo necessária a leitura das pequenas legendas. Mesmo assim, continuava sem saber quem eram aquelas pessoas que ilustravam a revista semanal.
O homem triste saiu do teste mais triste ainda. Sem dar uma palavra, olhava para o chão e assim seguiu até sair da sala.
Chamaram Andressa. Era a mulher que lhe roubara a vaga do carro. Ela entrou, mas logo saiu. Não era o teste que ela tinha marcado.
Chegara a vez de Lu. Assim que entrou, foi acomodada em uma cadeira do tipo que os dentistas utilizam. Entrou, então, a mulher que aplicaria o teste. Era pálida, com cara amassada, olhar profundo, cabelo liso, como de uma índia, mas com uma enorme mecha branca. Na orelha esquerda, uma pena rosa servia de brinco. Tinha as mãos trêmulas. A mulher balbuciou qualquer coisa, mas era impossível entendê-la. Lu viu o crachá, no qual estava escrito Glenda.
Recebeu um formulário para preencher. Pedia informações de possíveis reações alérgicas ao longo da vida, se era fumante, se bebia, se praticava alguma atividade física, se tomava remédio de uso contínuo, se tinha sido submetida a alguma intervenção cirúrgica, e coisas do gênero. Lu preencheu a ficha e a entregou de volta para Glenda, que continuava a falar palavras ininteligíveis.
Glenda se aproximou da cadeira e suas mãos trêmulas foram empostadas junto ao umbigo de Lu. A mulher entrou em transe. Que teste é este? Era a pergunta que Lu não parava de fazer, mas não obtinha resposta. Glenda revirava os olhos, as mãos ficando mais e mais trêmulas. Uma haste de cobre começou a rodar por cima da cadeira. Havia um pêndulo na ponta da haste. Lu ficou com medo daquele pêndulo cair em sua cabeça. Lu não conseguia se mexer. O corpo estava inerte na cadeira, mas a mente estava em alta atividade. Os olhos fixavam o pêndulo, mesmo sem querer fazê-lo. As mãos de Glenda percorriam todo o corpo de Lu, sem contudo tocá-lo. Seus pensamentos começaram a ficar confusos. Sua mente a levava para outro lugar. Local familiar, local há pouco visitado. Era o estacionamento em frente ao prédio onde ficava a clínica. Viu seu carro perfeitamente estacionado. Viu a ladra de vaga explodir de raiva ao ver os quatro pneus esvaziados. Ela gritava ao telefone com alguém, dizendo que estava atrasada e uma cadela tinha feito aquilo com o carro dela. Lu riu muito. Riu alto. Gargalhou. Glenda aumentou a velocidade de suas mãos pelo corpo inerte da sua paciente e Lu voou dali, alçou alturas inimagináveis. Mas ainda sentia a presença de Glenda, a presença das mãos daquela mulher pálida envolvendo seu corpo.
Um túnel negro, com luzes coloridas aparecendo aqui e acolá. Lu viajava, mas não sabia para onde. Na cadeira, estava imóvel, seu corpo não obedecia aos comandos que vinham da parte do cérebro que não tinha viajado. A outra parte, bem maior, se regojizava ao ver quadros, esculturas, fotografias. Não sabia onde, mas sabia que viajava pela cultura, pela história.
O vestuário que passava à sua frente foi ficando antigo e mais antigo. Não mais via carros, apenas carruagens, cavalos, gente andando a pé por ruas sujas, apertadas, cheia de mendigos pedindo comida. Um rio cortava a vila onde se encontrava. De repente, sua viagem chegava ao fim. Ela se viu em um aglomerado de pessoas que gritavam palavras de ordem. As pessoas estavam eufóricas, como se algo muito importante estivesse por acontecer. Ela vivia a história, era testemunha viva de um acontecimento que mudaria o mundo.
Um menina ficou ao seu lado. Pegou na sua mão. Lu ficou encantada com a garota e lhe perguntou o nome, recebendo uma resposta evasiva:
- Você sabe qual é o meu nome.
Lu insistiu e ela lhe respondeu que se chamava Amanda. A menina lhe olhou ternamente, lhe chamou de mãe e disse: 
- Hoje é 14 de julho de 1789, dia de seu aniversário. A Bastilha está caindo! Você não pertence a este tempo. Ainda vamos nos encontrar novamente um dia.
Lu não viu mais nada. Sua mente voltou a viajar, entrando em modo inacreditavelmente veloz para retornar à sala do teste.
Glenda já não mais tinha as mãos trêmulas. Parecia bem mais amigável. Disse para Lu que o teste tinha sido perfeito. Ela tinha apenas uma intolerância alimentar: cítricos.
Lu tentou falar sobre sua experiência de regressão, mas Glenda saiu da sala. Lu ficara só. Pegou suas coisas e saiu. Olhou no calendário da parede a data. Era 14 de julho de 2014. Dia de seu aniversário. Amanda a esperava em casa para comemorarem juntas. O bolo? Sabor limão.