Foram necessários quase cinco décadas para que eu fosse a um show de heavy metal. Entrei 2011 com um propósito de conhecer o que ainda não conhecia no campo cultural. Aproveitei a onda de shows internacionais que invadiu o Brasil neste início de ano, com muita coisa vindo para Brasília, para comprar entrada para o show The Final Frontier World Tour protagonizado por uma das bandas referência deste subgênero do rock, o Iron Maiden. Por R$ 250,00, valor de meia entrada, comprei ingresso para a pista premium, no mesmo local em que assisti a performance de Shakira na semana anterior, ou seja, no estacionamento do Estádio Mané Garrincha. Marcado para ter início às 21 horas, consegui estacionar o carro, bem longe da entrada, por sinal, no momento em que os primeiros acordes de guitarra soaram no ar. Eram 21:25 horas, atraso pequeno em relação aos últimos shows internacionais nos quais estive presente. Enquanto caminhava a passos largos para entrar logo, fiquei espantado de ver a multidão de fãs, todos vestidos com camisetas pretas e calças jeans, que estavam do lado de fora, posicionados em locais estratégicos, tentando ver o show pelo telão à direita do palco. A visão não era 100%, mas dava para acompanhar as performances dos músicos cinquentões. O som da banda era ouvido nitidamente em toda a área do estacionamento. Passei pela multidão, notando que eles faziam a festa e a féria dos vendedores ambulantes de cerveja e de comidinhas típicas de rua. Quando entrei, a banda já tocava a segunda música. Estava lotado (público de 15 mil pessoas segundo informações que li depois, mesma quantidade que conferiu o show de Shakira), mas não tive dificuldades de achar um ótimo lugar com visão total do palco. Quando me posicionei, uma leve chuva caiu por cerca de dez minutos, mas logo o céu ficou limpo. O sexteto ficou o tempo todo do show na parte da frente, pois o palco era fechado com umas espécies de caixas que lembravam containers abandonados, destes que a gente vê em filmes de ficção científica. O único que se movia muito, inclusive correndo de um lado para o outro do palco e em cima destas caixas, onde havia uma passarela do tamanho da largura do espaço cênico, era o vocalista Bruce Dickinson. Ao fundo, enormes paineis pintados em pano eram trocados a cada música. Em muitos deles, o símbolo da banda, o morto vivo Edge era a figura central. Havia um painel que me fez lembrar o cartaz do filme Deus e O Diabo na Terra do Sol, clássico brasileiro de Glauber Rocha, pois Edge estava muito parecido com um cangaceiro, envolto em uma moldura como a do cartaz do filme. Como nunca fui fã de heavy metal, praticamente não conhecia nenhuma música, diferente da maioria que estava presente, pois todos cantavam (alguns gritavam) todas as músicas. Tinha um cara do meu lado que sabia o set list completo e na ordem exata, pois bastava acabar uma música e ele dizia para quem estava do seu lado o nome da próxima música (também li que o Iron Maiden é fiel à ordem de seu set list, não fazendo alterações de um show para o outro na mesma turnê). A idade média do público era quarenta e poucos anos, mas muitos jovens e até crianças acompanhavam seus pais. Todos, como os fãs do lado de fora, devidamente uniformizados com camisetas pretas com estampas do Maiden, como eles gritavam nos intervalos entre uma música e outra, ou com estampas de outras bandas do mesmo estilo. Para mim, dois momentos eram esperados: a entrada de Edge e a interpretação da única música que eu sabia a letra, a apocalíptica The Number of The Beast. Ambos os momentos foram reservados para o final do show. Pouco antes de terminar, antes do bis, o morto vivo entrou em cena. Quando o público viu o boneco do Edge foi uma espécie de histeria coletiva, entre urros, braços levantados e muitos flashs. Já The Number of The Beast veio no bis, com outra explosão do público que gritava o número 666. Pouco depois das 23 horas, terminava o show. Saí com a sensação de que ouvi a mesma música e os mesmos riffs de guitarra do início ao fim. Embora sejam públicos totalmente distintos e até mesmo antagônicos, diria que um show de heavy metal pouco se difere de um show de axé. A histeria está presente, a coreografia coletiva está presente e é incentivada pelo vocalista (no caso, um balançar sem fim de cabeça para cima e para baixo, uma simulação que estão tocando guitarra e um sincronizado levantar de braços soltando urros), o vocalista fala muito (muito parecido com Ivete Sangalo, Durval Lélis e outras estrelas do axé), e a inevitável participação do público respondendo em uníssono os sons vocais feitos pelo cantor. Isto sem contar com a tal sensação de que a música é a mesma, como no axé. Foi uma boa experiência e serviu para conhecer este tipo de show. Talvez um fato que presenciei na noite da quinta-feira diferente de shows de axé foi a grande maresia de maconha que inunda o público, muito mais próximo de um show de reggae (no axé, parece que o público prefere mais cheirar loló). Detesto o cheiro de maconha, mas era impossível fugir dele. A saída do local foi muito tranquila. Como o meu carro estava longe, quando nele cheguei, consegui, rapidamente, alcançar a pista de rolamento para tentar comer alguma coisa, pois a fome era grande, mas parei em dois locais no caminho de casa e ambos dei com a cara na porta fechada. Parei, então, no Giraffa's da quadra onde moro, mesmo local onde uma expressiva quantidade de pessoas que estavam no show também parou, comentando a performance que viram. Fiquei com uma pergunta na cabeça: "será que ainda vou assistir a um outro show de heavy metal ou este bastou?" Juro que não sei responder.
Um pouco de tudo do que curto: cinema, tv, teatro, artes plásticas, enogastronomia, música, literatura, turismo.
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sexta-feira, 1 de abril de 2011
terça-feira, 29 de março de 2011
SHAKIRA
Quando anunciaram o show de Shakira em Brasília, fiquei feliz, pois gosto muito dela e seria uma oportunidade para ver um show da cantora colombiana, mas ao ver a data confirmada, vi que seria impossível, pois estaria na Europa, em viagem de férias. "Fica para uma outra oportunidade", pensei. Isto ainda antes de Shakira ser confirmada para uma das noites do Rock in Rio 2011. Acessando o Facebook, quando estava em Paris, vi várias postagens de amigos reportando o cancelamento do show em Brasília por causa do temporal que caiu na capital brasileira na noite do espetáculo. Fiquei torcendo para não ser um simples cancelamento, mas que houvesse uma nova marcação de data. Dito e feito. No domingo, ainda viajando, li em alguma página na internet que o Pop Music Festival em Brasília estava confirmado para a noite de 24 de março, sem duas das atrações inicialmente previstas por incompatibilidade de agendas, mas que a estrela do festival estava garantida. Enfim, eu poderia ver a estrela pop colombiana. Comprei o ingresso por R$ 250,00 (meia entrada) na Central de Ingressos do Brasília Shopping na hora do almoço de quarta-feira, quando também comprei entrada para o show de Seal, com comentários já postados aqui. Duas atrações antecederiam o show principal: os gaúchos do Chimarruts e os americanos do Train. Nenhum dos dois me interessava. Assim, combinei com um amigo que também iria para chegarmos ao estacionamento do Mané Garrincha, local do show, por volta de 20:30 horas, já que tinha a informação que Shakira entraria no palco às 21:00 horas. Quando chegamos, havia uma enorme fila de carros com os motoristas procurando vagas para estacionar. Depois de uma curta espera, conseguimos uma vaga. Fomos em direção à entrada da Pista Premium. Entramos quando a banda Train tocava sua última música. O local já estava bem cheio (li depois que o público foi de 15 mil pessoas na noite). Assim que os músicos americanos saíram do palco, a movimentação para a montagem dos instrumentos para a atração da noite começou. Plásticos que cobriam a passarela que avançava sobre o público foram retirados, o chão foi secado, um corredor no meio da plateia foi formado com alambrados, uma escada foi posicionada ao final do corredor para acesso à passarela, sinal de que Shakira entraria por ali. Muitos dos presentes começaram a se aglomerar para tentar tirar uma foto, passar a mão ou ver a cantora de perto. Estávamos bem perto deste alambrado, onde encontrei um amigo. Mas logo outros amigos enviaram mensagens para irmos para a frente da passarela, onde fiquei em cima da cobertura da fiação de luz, permitindo que eu tivesse uma melhor visão do palco. Com quase uma hora de atraso, Shakira entrou pelo tal corredor, envolta em uma espécie de tule vermelho, cantando "Pienso em Ti". Entrada triunfal, lentamente, sorrindo para o público que tirava fotos e mais fotos. Tudo era mostrado nos três grandes telões que emolduravam o palco. Depois de subir a passarela e caminhar até o fundo do palco, ela retirou a tule vermelha em um só movimento, mostrando seu corpo esguio e bem torneado, com uma roupa bem justa, emendando várias músicas dançantes, sucessos de várias fases de sua carreira, além de um interessante cover para um sucesso do heavy metal, a música "Nothing Else Matters", do Metallica. Como uma camaleoa, ela se transforma ao longo do show: vira cigana, vira uma dançarina egípcia, fala português, canta em espanhol canta em inglês, dança, susurra, faz movimentos sensuais, conquista a plateia. É simplesmente uma diva. Há um energia positiva que invade o espaço. A sinergia entre Shakira, seus músicos, as dançarinas que aparecem do meio para o final do show, e o público é completa. A esta altura, eu e os amigos já tínhamos conseguido pulseira que davam acesso à área Hot Premium, quando ficamos muito próximos do palco, embora a maioria do show tenha acontecido na enorme passarela. Sucessos do atual cd não podiam ficar de fora, como "Sale el Sol" e "Loca", além da sensual e dançante "She Wolf", de seu trabalho anterior. Com uma hora e vinte minutos de show, ela deixa o palco, mas logo volta para o bis, onde explodiu de alegria o estacionamento do Mané Garrincha com mais algumas músicas, finalizando com o sucesso "Waka Waka", famosa quando de sua apresentação no show de abertura da Copa do Mundo da África do Sul em 2010. Na interpretação de "Waka Waka", o público cantou em uníssono o refrão, acompanhando a coreografia que era apresentada no palco por alguns fãs sorteados para participar daquele momento. Uma chuva de papel colorido picado anunciou o final de um belo espetáculo. Agora é esperar pelo Rock in Rio. Quem sabe vou vê-la novamente. Detalhe: desta vez a chuva deu trégua. Ameaçou cair, mas ficou só na ameaça. Noite maravilhosa para um show idem.
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