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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

EU SOU SUA

Noite de sábado, 20 horas, Cine Brasília. Sessão de encerramento do III Festival Internacional de Cinema de Brasília - III BIFF. O cinema estava bem cheio, mas não lotou, embora a organização tenha distribuído convites para quem comprou ingressos para a Mostra Competitiva nas noites de quarta, quinta e sexta-feiras. Com um pequeno atraso, a cerimônia foi bem informal, rápida e não cansou quem estava esperando a projeção do filme vencedor da Mostra Competitiva. Foram apenas cinco prêmios:
01) Melhor atriz: Amrita Acharia, por sua interpretação no filme norueguês Eu Sou Sua (I Am Yours).
02) Melhor ator: Armando Valdés Freire, por sua interpretação no filme cubano Conducta.
03) Melhor roteiro: Ernesto Daranas, filme cubano Conducta.
04) Melhor direção: Joana Kos-Krauze e Krzysztof Krauze, pelo filme polonês A História de Papusza.
05) Melhor filme: Eu Sou Sua.
Cada um dos agraciados recebeu o montante de U$ 10 mil e um troféu.
Como o filme vencedor eu ainda não tinha visto, fiquei na sala de projeção para conferir esta produção norueguesa de 2013, com 96 minutos de duração, cuja direção coube a Iram Haq.
Eu Sou Sua (Jeg er Din) é a história de Mina (Amrita Acharia), uma norueguesa com ascendência paquistanesa, jovem, mãe solteira, que não consegue viver com um único namorado, até que conhece na capital norueguesa Jesper, um cineasta e roteirista sueco. Os dois se apaixonam e ela se muda para Estocolmo para viver com ele. No entanto, a presença do menino Felix, filho de Mina, vai incomodando o sueco até ele não aguentar mais e pedir um tempo a ela, que, por sua vez, retorna para Oslo. Para piorar sua situação, ela tem sérios conflitos com os pais em mais um filme que aborda a questão do respeito às tradições em contraponto à sociedade moderna, cada vez mais individualista, e exigindo soluções imediatas para todos os problemas. Ainda há uma conturbada relação dela com o pai de seu filho. Mina vira refém de sua opção de vida, mas não consegue se impor perante a dominadora mãe, perante o pai do menino, perante o namorado sueco, perante à comunidade paquistanesa em Oslo. Ela sente que tem de ser de todos, mas não é sequer dona de si mesma. Diferente do que ocorreu em outras sessões do festival, ao terminar o filme, enquanto passavam os créditos, ninguém aplaudiu a película. Todo mundo foi levantando e deixando a sala de projeção. Eu achei o filme mediano. Não me fisgou.

domingo, 7 de setembro de 2014

VINO PARA ROBAR

Vino para Robar, uma produção argentina de 2013, foi mais um filme da Mostra Competitiva do III Festival Internacional de Cinema de Brasília - III BIFF que consegui ver no Cine Brasília. Dirigido por Ariel Winograd, o filme tem no elenco Daniel Hendler (Sebastian) e Valeria Bertuccelli (Natalia).
É uma deliciosa comédia sobre ladrões de obras de arte que passam a perna um no outro até se virem envolvidos em um mesmo problema, tendo que trabalhar em conjunto para roubar uma única garrafa de um vinho tinto elaborado com a casta malbec em Bordeaux, safra 1845, que está guardada no cofre de um banco em Mendoza, Argentina.
As reviravoltas que o roteiro apresenta conferem ao filme uma dinâmica especial, com claras referências a filmes de ação com toques de comédia do cinema produzido em Hollywood, mas com características bem latinas. Mas o melhor de tudo são as críticas veladas aos chamados "enochatos". Tais críticas vem das atitudes do casal central da trama. Há uma cena ótima no qual o pai de Natalia, um produtor de vinhos de Mendoza, entrega uma taça com um de seus vinhos para Sebastian, perguntando-o o aroma que ele sente. Ele leva a taça perto de seu nariz e responde com a maior cara de entendido: aroma de vinho! A cena final, que não contarei aqui, também é uma alusão às atitudes dos tais enochatos.
A escolha dos atores para o casal de protagonistas é perfeita. Tanto Hendler quanto Bertuccelli transmitem ao público o ar de cafajestes de seus personagens de forma segura, leve e humorada.
Não é filme para ganhar prêmios em uma mostra tão repleta de roteiros densos, de reflexões profundas sobre tradições e sobre comportamentos, mas cumpre a função de entreter e muito bem. Como escrevi no início, achei a comédia deliciosa. Ri bastante. Gostei.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O ETERNO RETORNO DE ANTONIS PARASKEVAS

Em 03 de setembro de 2014, fui mais uma vez ao Cine Brasília para ver mais um filme da Mostra Competitiva do III Festival Internacional de Cinema de Brasília (III BIFF). Sessão das 20:30 horas da produção grega de 2013 chamada O Eterno Retorno de Antonis Paraskevas (I Aionia Epistrofi tou Antoni Paraskeva), dirigida por Elina Psykou.
Antonis Paraskevas, um famoso apresentador de programa televiso da Grécia, resolve desaparecer, se isolando em um hotel abandonado no interior do país. A ideia do apresentador era causar uma comoção nacional com seu desaparecimento, retornando à cena em momento oportuno, o que lhe garantiria uma maior projeção do que já tinha enquanto pessoa pública. No entanto, este momento oportuno nunca chega, provocando uma deterioração psicológica em Paraskevas, levando-o a cometer atos impensáveis para uma pessoa civilizada. A crítica ao culto às celebridades é latente na película, assim como até onde vai o ser humano para se tornar querido pela sociedade em que vive. O apresentador acaba se perdendo no meio de tanta gana pelo reconhecimento, ficando sozinho e sem rumo. Talvez uma leitura maior possa ser feita, não sendo apenas o apresentador que está sem perspectivas, mas também o próprio país de origem do filme, pois a Grécia vem vivenciando uma crise econômica há muitos anos.
Descrito assim, o filme pode despertar interesse, mas é muito chato. Embora tenha menos de 90 minutos de duração, o roteiro é arrastado, cansativo, repetitivo, sem muitos diálogos e com uma personagem nada carismática.
Muito ruim.

O MERCADO DE NOTÍCIAS

Cheguei ao Cine Brasília no início da noite de quarta-feira, dia 03 de setembro, pouco depois das 18 horas. Tinha me programado para ver o filme da Mostra Competitiva do III BIFF (III Festival Internacional de Cinema de Brasília) das 20:30 horas. Como era muito cedo, fui conferir o que estava marcado para antes. Era o documentário brasileiro sobre o jornalismo dirigido por Jorge Furtado, produção que estreou nos cinemas em agosto de 2014, depois de ganhar os prêmios de melhor documentário e do júri popular no Cine PE Festival do Audiovisual 2014. O primeiro filme que vi de Furtado foi o curta metragem Ilha das Flores, também um documentário, em 1989, quando militava no sindicato dos servidores públicos. O curta me conquistou logo de cara, tanto pela linguagem moderna, quanto pelo roteiro. Depois de vinte e cinco anos, voltei a ver um documentário de Furtado e novamente linguagem e roteiro me conquistaram.
Entremeando cenas de uma peça encenada por atores gaúchos com entrevistas e fatos recentes da cobertura da grande mídia brasileira, ele nos mostra, sem maquiagem, o que é o jornalismo praticado hoje no Brasil. A peça é O Mercado de Notícias (The Staple of News), uma montagem de texto escrito em 1625 pelo inglês Ben Jonson, dramaturgo contemporâneo de Shakespeare. O contraponto da peça é a série de entrevistas que aparece durante a projeção. Todos os entrevistados são profissionais respeitados e com carreira consolidada no jornalismo brasileiro. Aparecem no documentário, entrevistas com Cristiana Lobo, Jânio de Freitas, Bob Fernandes, Fernando Rodrigues, Raimundo Pereira, Luís Nassif, Renata Lo Prete, Mino Carta, Leandro Fortes, Geneton Moraes Neto, José Roberto de Toledo, Paulo Moreira Leite e Maurício Dias. Os depoimentos giram em torno do jornalismo brasileiro, do fim da imprensa escrita, do que é jornalismo, de como contar uma boa notícia, entre outros temas. Alguns são contados de forma bem humorada, enquanto outros são mais sisudos ou bem formais.
As análises dos casos jornalísticos são sensacionais (José Serra em campanha nas eleições de 2010, quando leva uma bolinha de papel na cabeça; e um "Picasso" decorando uma sala do INSS em Brasília são dois destes casos), desnudando a cobertura parcial, tendenciosa ou sem uma busca profunda da verdade dos fatos narrados. Show de bola.
O filme é tão bom que dá vontade de ver de novo.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A HISTÓRIA DE PAPUSZA

Acompanhar festivais internacionais de cinema é sempre bom, pois tenho a possibilidade de ver filmes que não entrariam normalmente no circuito exibidor de Brasília. Aproveitei o III Festival Internacional de Cinema de Brasília, mais conhecido por sua sigla em inglês, BIFF, para conferir alguns poucos filmes. Como não podia ir a um número grande, concentrei-me na programação da Mostra Competitiva que ocorreu no Cine Brasília. O primeiro dos filmes que vi foi o polonês A História de Papusza (Papusza), dirigido por Joana Kos-Krauze e Krzysztof Krauze. A produção é de 2013.
O filme foi rodado em preto e branco, tendo uma bela fotografia. O roteiro nos mostra a vida de Papusza, interpretada por Jowita Miondilikowska, desde seu nascimento até a velhice. Ela era cigana e foi a primeira mulher da sua comunidade a virar poetisa. Como ela nasceu em 1910, logo imaginei o sufoco e o preconceito que ela enfrentaria ao longo de sua vida, o que se concretizou na telona.
Ainda jovem, teve contato com um escritor que resolveu morar com os ciganos por dois anos fazendo pesquisa para um futuro livro. Ele descobre o talento de Papusza por declamar poemas que ela fazia e a incentiva a continuar fazendo seus poemas, mesmo depois que ele vai embora. Ela se apaixona pelo escritor, mas seu pai lhe arranja um casamento com um homem mais velho. O fato de ela saber ler desde jovem, pois aprendera por vontade própria com uma senhora, e seus poemas serem publicados no jornal provocaram a ira da comunidade cigana, que lhe taxou de agourenta. A partir daí, ela enlouquece e se recusa terminantemente a afirmar que era a autora dos versos publicados. 
Uma das melhores reflexões do filme é o conflito entre a tradição do povo cigano e os hábitos daqueles que tinham moradia fixa em um determinado local. Hoje se fala muito em respeitar as tradições e culturas dos povos tradicionais. Isto me levou a pensar como isto é difícil, quando estamos imersos nos valores de uma sociedade consumista e competitiva como a nossa. De toda sorte, ao ver determinadas características da comunidade cigana retratada na telona, especialmente o fato de não deixarem as crianças irem na escola, das mulheres estarem sujeitas a casamentos arranjados, e de praticarem furtos, fiquei a pensar até que ponto deve-se respeitar a tradição e até que ponto deve-se introduzir valores diferentes nesta mesma tradição, contrapondo-os com a prática, tida como normal entre eles.
A película ganhou o prêmio de melhor direção no III BIFF.
Gostei muito, não só pela história, mas também por possibilitar estes pensamentos. Ao final, um debate ocorreu no cinema com o ator do filme que faz o marido de Papusza.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

UMA DOSE VIOLENTA DE QUALQUER COISA

Mais um filme nacional conferido por mim nestas últimas semanas. Cada vez fico mais fã de filmes produzidos em solo brasileiro. Fui à pré-estréia de Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa no Cine Brasília, a casa do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A direção é do brasiliense Gustavo Galvão. O filme é descrito em seu cartaz como sendo um road cerrado movie, uma vez que traz a história de dois caras pelas estradas de Distrito Federal, de Goiás e de Minas Gerais. Pedro, interpretado por Vinícius Ferreira, desiludido com a vida na capital brasileira, abandona emprego e casa, fugindo de tudo e de todos. No caminho encontra Lucas, em atuação sensacional de Marat Descartes, um outsider que também segue sem rumo pelas estradas brasileiras. Juntos vão viver momentos engraçados, outros nem tanto, cruzando com pessoas tão perdidas quanto eles. Leonardo Medeiros interpreta um traficante paraguaio chamado Jesus que também cruza o caminho de Pedro e Lucas. Um Jesus paraguaio só podia ser traficante de drogas!
A violência a que o título se refere é muito mais psicológica do que física, o que nos motiva a refletir sobre como vivemos na atualidade. Vida corrida, cheia de metas a serem cumpridas, cheia de cobranças, sem muito tempo para devaneios e prazeres. Vida que nos enlouquece. Vida que precisa de ser parada. Vida que precisa de uma fuga.
O roteiro é um pouco confuso, pois há momentos em que ficamos na dúvida se as cenas são fruto de sonhos e pensamentos de Pedro ou se aquilo é real.
A parte mais confusa do roteiro já é no final, quando a história se passa nas ruas da cidade histórica mineira Ouro Preto. Mais personagens fugitivos de si mesmos aparecem neste momento, especialmente Virgínia, interpretada por Catarina Accioly. A interação entre Virgínia e Pedro fica no campo da dúvida. Está ou não está acontecendo? 
O filme é um bom road movie, bem no estilo americano, mas com pitadas enormes de brasilidade. É acima da média. Ótimo para reflexões. E não deixa de ser uma porrada em quem o assiste.
Depois do filme, fui com Hélida G. e Fabíola para a festa de lançamento da película. Festa boa na qual todas as tribos da cidade conviviam dançando ao som de ótima música. Bebemos espumante a noite inteira.

domingo, 26 de dezembro de 2010

FEDERAL

Depois de ver o ótimo curta Ratão, comentado no post anterior, o longa metragem da sessão dupla no Cine Brasília foi o filme Federal, também todo rodado em Brasília. Produção de 2009 dirigida por Erik de Castro, conta no elenco com atores conhecidos como Selton Mello, Carlos Alberto Riccelli e Eduardo Dussek, além de vários atores locais em papeis de destaque na trama, como Adriano Siri, Similião Aurélio, Bidô Galvão e André Amaro. Também tem no elenco o ator americano Michael Madsen, cujo personagem é totalmente dispensável da história. Uma equipe de policiais federais do grupo especial de combate ao tráfico   investiga o tráfico de drogas em Brasília, comandado por um playboy vivido por Dussek. Na trama, a lavagem de dinheiro ganho com a venda das drogas é feita por uma ONG e por um templo religioso. O filme é muito ruim, com roteiro fraco, interpretações pífias dos medalhões nacionais, falhas na condução do enredo, não tem ritmo, abusa de clichês dos filmes americanos, inclui uma cena chupada do primeiro Tropa de Elite (a tortura com um saco plástico no rosto), mas não tem o impacto visual do filme de Padilha. Há fatos não explicados, surgem do nada e voltam para o nada, como Dani, o personagem de Selton Mello, que usa drogas, luta pelos direitos dos presos, se transformando, sem mais nem menos, em um policial agressivo. As cenas de sexo são longas e de um extremo mau gosto. Dos atores conhecidos, o único que está bem é Dussek, mas repete um papel de bandido já feito por ele antes. Dos atores de Brasília, gostei de ver Adriano Siri em um papel dramático, longe das estripulias que o tornaram nacionalmente famoso com o grupo de teatro besteirol Os Melhores do Mundo. Bidô Galvão tem um papel mínimo, como mãe de um capoeirista perseguido pela polícia (sem motivos previamente explicados), mas mostra sua força para papeis dramáticos. Embora haja pontos positivos, eles são poucos para atenuar a ruindade do filme. Detestei. Fizeram bem os quatro que saíram do cinema ao final da projeção do curta Ratão. Talvez já sabiam que não valia a pena ficar para ver o longa de uma hora e meia de duração.

RATÃO

Sempre ouvi que alguns restaurantes de comida chinesa em Brasília são simples fachadas, usados como lavagem de dinheiro oriundo de negócios escusos. Realmente se pararmos para pensar, alguns restaurantes estão em pontos nobres das entrequadras, tem raros fregueses, mas nunca fecham as portas, fato comum na vida gastronômica da cidade. E esta lenda urbana foi parar nas telas de cinema, do cinema produzido na cidade. Fui assistir no Cine Brasília o curta metragem Ratão, dirigido por Santiago Dellape, que participou da edição de 2010 do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, na Mostra Brasília. Estrelado por Mateus Palmieri, André Deca, Evandro Perissè, Larissa Salgado, Andrade Jr., Felipe Eloi, Isabela Vitelli, Mestre Dada, Lina Borba e Leonardo Goya, é uma deliciosa ficção, toda rodada na cidade. Goma é um garoto que ajuda o tio em uma banca de games piratas na Feira dos Importados. Saindo da tal banquinha, esbarra em um chinês, que deixa cair um cd. A partir deste encontro casual, Goma e seus amigos de colégio vão viver uma aventura digna de filme policial americano. Em paralelo, o tio se prepara para uma vida espiritual elevada e uma dupla de policiais investigam a máfia para a qual o chinês trabalha. O Ratão do título é o chinês, que tem um final engraçadíssima. Claro que os garotos vão parar em um restaurante chinês, que não passa de fachada para os negócios ilegais da máfia. O filme é divertido, com bom ritmo, tem humor e os atores mirins estão muito bem dirigidos. Havia menos de dez pessoas na sala do Cine Brasília para ver uma sessão dupla, da qual o primeiro filme era este Ratão. Ao final da projeção, quatro pessoas foram embora, restando apenas cinco, entre eles, eu. Uma pena, pois o curta é muito bom, valendo o ingresso, por sinal, bem barato (R$6,00 a inteira).

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

UM DIA NO CINE BRASÍLIA

Depois de um ótimo café da manhã neste domingo, decido passar a tarde/noite no Cine Brasília (EQS 106/107, Asa Sul), acompanhando a programação do 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Com a experiência de anos anteriores, fui cedo comprar entrada para a sessão da mostra competitiva das 20:30 horas. A bilheteria abria às 15 horas. Saio de casa antes das 14:30, pensando que encontraria uma fila enorme. Ledo engano. Apenas quatro pessoas na minha frente. O primeiro da fila era um senhor que acompanha há vinte anos o festival. Ele me disse que a edição de 2009 está igual à de 2008 (não acompanhei a edição do ano passado), com uma participação de público mais modesta. Os ingressos (R$6,00 a inteira) não estavam mais sendo disputados. Comprei a minha entrada e fui almoçar. Como a intenção era ficar até o final da noite e tendo encontrado uma excelente vaga para estacionar o carro, resolvi ir a pé até o Beirute (SCLS 109, Bloco A, lojas 2 a 4, Asa Sul). Foi uma caminhada de vinte minutos com um sol escaldante. Restaurante cheio, como sempre. Consigo uma mesa bem localizada. Peço um filé a cavalo. Básico. Comida bem feita, preço justo. Volto a pé para o Cine Brasília, já por volta das 16 horas, para conferir a Mostra Brasília 35 mm, com entrada gratuita. Havia duas filas grandes para entrar. Escolho uma e espero. Abrem as portas somente às16:50 horas, quando a sessão tinha início marcado para 16:30 horas. A sala logo ficou cheia, com gente sentada nas escadas e laterais. Nada de brigadistas para retirar estas pessoas. Qualquer situação de emergência podia ter consequências ampliadas, pois não havia acessos livres para as saídas. Para piorar, colocaram nas laterais caixas de som e armações para luzes. A hora passa e nada de começar a sessão. Mais uma prova da desorganização que permeia esta edição do festival. Comentam em cadeiras próximas a que eu estava que no sábado foi o mesmo atraso com o agravante de o ar condicionado ter sido desligado e o som ter falhado na exibição da cópia restaurada do filme A Hora da Estrela, de Suzana Amaral. Às 17:30 horas a apresentadora oficial do festival sobe ao palco e anuncia os três curtas da tarde. Quanto ao longa, O Galinha Preta, de Cibele Amaral, ela comunica que não ficou pronto a tempo. Sobem ao palco diretores e respectivas equipes técnicas dos curtas e fazem seus agradecimentos. O produtor do primeiro curta, Rojer Madruga, critica a gestão de Silvestre Gorgulho à frente da Secretaria de Cultura do Distrito Federal. Aplausos da plateia. Ao final dos agradecimentos, a produtora e a diretora do longa que seria exibido sobem ao placo para pedir desculpas. Cibele Amaral, visivelmente transtornada, diz que fez de tudo para o filme ficar pronto e estrear naquele domingo. Se desculpa mais uma vez, em especial à comunidade de Brazlândia que foi prestigiar o filme. Parte da plateia se levanta e sai da sala. Creio que eram parte das pessoas que se deslocaram para ver O Galinha Preta. As projeções dos três curtas começaram, na seguinte ordem:
01) Senhoras, de Adriana Vasconcelos, com 11 minutos de duração. História singela de duas senhoras, mãe e filha, dentro de um apartamento em Brasília em pleno feriado de Carnaval. Achei fraco. Aplausos protocolares da plateia.
02) A Descoberta do Mel, de Joana Limongi, com 16 minutos de duração. Baseado em um quadro de Piero di Cosimo, é um delírio. Faunos descobrem o mel e se fartam em uma orgia no cerrado. Lembrei-me dos filmes experimentais da década de setenta. Detestei. Plateia dividida, com aplausos ensandecidos e com algumas vaias.
03) Reconhecimento, de Ítalo Cajueiro, com 12 minutos de duração. Início com atores que se transformam em animação. História de um sequestro relâmpago baseado em fatos reais. Inusitado. Gostei. Aplausos e vivas da plateia.
Sem o longa, fiquei na Praça de Alimentação montada atrás do cinema. Uma verdadeira estufa. Li jornais e revistas que tinha dentro da mochila, até a hora do início da sessão noturna. 20 horas. Fila grande. Muita gente vai chegando e ficando na frente. Não se identificava mais a fila. Um bolo de gente se armou na frente da porta. Com novo atraso, abrem as portas às 20:45 horas. Não conferem os ingressos de quem pagou meia ou inteira. Sala novamente muito cheia, com pessoas sentadas nas escadas e vias de acesso. Novamente, nenhum brigadista, embora presentes, age. Os apresentadores anunciam os filmes competidores da noite e as respectivas equipes sobem ao palco para agradecer. O longa, É Proibido Fumar, de Anna Muylaert, trouxe para o palco o par de atores principais, Glória Pires e Paulo Miklos. A projeção tem início na seguinte ordem:
01) Carreto, de Marília Hughes e Cláudio Marques, produção da Bahia com 12 minutos de duração. História de amizade entre um garoto e uma menina com deficiência nas pernas, se passa no Recôncavo Baiano. Emocionante, ganhou a plateia com muitos aplausos. Gostei.
02) A Noite Por Testemunha, de Bruno Torres. Produção de Brasília com 24 minutos de duração. Atores e equipe técnica da cidade, quase todos presentes no cinema. Baseado na fatídica noite de 20 de abril de 1997 quando jovens de classe média atearam fogo no índio Galdino em uma parada de ônibus de Brasília. Filme forte, com boas atuações e muitos cortes, com idas e vindas no tempo. Final marcante e reflexivo. Plateia em delírio. Gostei muito.
03) É Proibido Fumar, de Anna Muylaert, produção de São Paulo com 86 minutos de duração. É uma história de amor entre duas pessoas da classe média baixa paulistana, Baby (Glória Pires), uma professora de violão que mora em um apartamento herdado da mãe, e seu novo vizinho Max (Paulo Miklos), um cantor de churrascaria. Para quem viu Durval Discos, o primeiro e único, até então, longa da diretora, pode soar mais do mesmo, embora com uma roupagem diferente. A solidão, a música, o vinil e a estética retrô estão presentes, como no primeiro filme. A primeira metade é melhor, uma comédia leve. Já a segunda metade, com nuances de policial, perde um pouco o viço. Nada, porém, que prejudique o filme como um todo. Glória Pires e Paulo Miklos dão um show de interpretação. Interessante as aparições relâmpago de Paulo César Pereio (o dono da churrascaria), Antônio Edson (Seu Chico, o porteiro), veterano ator do Grupo Galpão de Belo Horizonte, Antônio Abujamra, André Abujamra e José Abujamra (vô, pai e filho no elevador); Etty Fraser (uma avó que mora no prédio de Baby e Max), Lourenço Mutarelli (o corretor), Pitty (uma das pretensas locatárias), Alessandra Colassanti (Stellinha), Marisa Orth (Pop, irmã de Baby) e Dani Nefussi (Teca, irmã de Baby). Divertido, cativou a plateia com muitas risadas. Palmas calorosas ao final. Parece que já é o favorito do público. Gostei muito, mesmo com a perda de ritmo na segunda metade. Final surpreendente. Ao final, a organização do festival informa que o filme O Galinha Preta será exibido na tarde de segunda-feira. Muitos questionaram em risadas. Será?
O episódio do filme de Cibele Amaral é mais um neste infindável festival de desorganização desta edição do FBCB. Como programam um filme não acabado para uma mostra competitiva? Lastimável. O festival precisa se modernizar. Ele ainda é prestigiado pela imprensa nacional, há muitos prêmios, inclusive em dinheiro, disponíveis e um público cativo em Brasília. Porque não melhorá-lo? Fazer um rodízio de curadoria, por exemplo. Porque não fazer uma pesquisa junto ao público para sentir os motivos da perda de interesse nos últimos dois anos? Excesso de documentários? Fora as questões de infraestrutura, com necessidade de reforma do Cine Brasília mais do que urgente, fato já anunciado e propagado pela imprensa local.
Cansado, ainda dou uma passada na Praça de Alimentação e converso com amigos. Volto para casa depois de meia noite, já na madrugada de segunda-feira.