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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

POVOS DO CHOCÓ

No segundo andar do Museu Nacional dos Correios vi uma pequena exposição sobe o universo artesanal de dois povos indígenas colombianos, os Cuna e os Waunana, ambos da região do Chocó, que fica no norte da Colômbia. São quase duas centenas de objetos, divididos em setores. O primeiro exibe tecidos trabalhados pelas mulheres para enfeitaram as suas roupas. Este trabalho se chama mola, artesanato tradicional do povo Cuna. São tecidos coloridos, que servem de adorno, cujas figuras remetem à fauna e à flora da região. É a parte mais bonita da exposição, cujas peças foram valorizadas com a disposição na parede como se fossem pequenos quadros. Em seguida, também na parede, estão bastões de madeira talhados pelo povo Waunana. São instrumentos importantes nas mãos dos seus xamãs, especialmente para curar doenças. O próximo setor traz uma série de damaguas, telas decorativas obtidas a partir da maceração do tronco de uma árvore local e pigmentadas com tintas vegetais. Seu simbolismo é forte no meio dos Waunana. Em seguida, ainda do mesmo grupo indígena, estavam trabalhos em fibra guerregué que se transformaram em pratos e cestos de decoração. Ainda dos Waunana, as tallas compõem a próxima parte da exposição, tudo ainda na parede. Tais tallas são esculpidas em madeira e servem de decoração. É um trabalho masculino. Todos os objetos expostos tinham forma de animais. Nada mais são do que as pontas decorativas dos bastões expostos na segunda sessão da exposição. Por fim, também do povo Waunana, barcos decorativos de madeira encerram a mostra. Tais barcos, mostrados protegidos por uma redoma de vidro retangular, também tem a função religiosa, pois as figuras humanas nele inseridas ajudam a lutar contra as enfermidades e contra a morte. Mais uma oportunidade de aprender que não desperdicei.


mola


mola


mola


detalhe da ponta de um bastão


damaguas


prato decorativo feito com a fibra guerregué

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O CASAL DE DEUS - LOURDES E WALDOMIRO


O Casal, 2013, quadro pintado pelo casal de artistas da exposição. À esquerda está a pintura de Lourdes de Deus e à direita, a de Waldomiro de Deus.

Aproveitando que eu estava no Museu Nacional dos Correios, onde fui conferir a exposição A Sagrada Família, resolvi ver as demais mostras temporárias que ocupavam os outros andares do museu. Assim, fui para o quarto andar, onde tinha lugar O Casal de Deus - Lourdes e Waldomiro. O casal tem em comum, além do sobrenome Deus e de serem casados, o gosto em pintar. Filiam-se à arte naif, utilizando os planos chapados, sem perspectivas de profundidade, e as cores vibrantes. Mas eles vão além disto e dão toques distintos às suas pinturas. Lourdes mostra as festas populares e a natureza florida, enquanto Waldomiro prefere retratar o cotidiano, com uma visão crítica bem interessante, o que fica evidente em um quadro  de 2007 chamado O Acidente no Metrô Pinheiro, quando ele retrata carros sendo engolidos pelo buraco que se formou quando da construção da linha amarela do metrô de São Paulo. O ambiente não era bem iluminado, o que prejudicou as fotos, permitidas desde que sem o uso do flash, uma vez que o foco não iluminava de forma uniforme os quadros. Não conhecia o casal e mesmo não sendo um estilo que eu curta, gostei dos quadros, especialmente os de Waldomiro.


Lourdes de Deus retrata a festa de Parintins. De um lado, o Boi Garantido, com sua característica cor vermelha. Do outro, o Boi Caprichoso, com o azul que lhe é característico.


O Acidente no Metrô Pinheiro, 2007


artes plásticas 

terça-feira, 15 de outubro de 2013

A SAGRADA FAMÍLIA

Desde que o Museu Nacional dos Correios foi reaberto em Brasília, tenho tentado acompanhar a sua programação, especialmente as exposições que ocupam suas galerias. Em cartaz desde o dia 29 de agosto, consegui um tempo neste domingo, 13 de outubro, último dia da exposição, para conferir A Sagrada Família. Tratava de um recorte do barroco e da arte popular atual, demonstrando que o tema "religião" esteve sempre ligado à arte escultória no Brasil, especialmente a popular, aquela longe de museus, galerias e ateliês. As esculturas sacras estavam expostas no terceiro andar do museu e eram divididas em dois espaços. O primeiro deles, à direita de quem entrava, era mais sombrio, com paredes cinzas, iluminação mais baixa, focada nas peças. Das paredes saíam cones que lembravam espinhos, o que potencializava o caráter de reverência e de tristeza das peças, todas elas produzidas nos Sécs. XVIII e XIX, representando o barroco brasileiro. Eram peças lindas, bem esculpidas em madeira ou em pedra, a maioria delas de autores desconhecidos. No outro lado da sala, o cenário era bem mais alegre, com vários buquês de flores do cerrado presos em finas cordas formando uma cortina sobre a parede amarela. As peças eram atuais, produzidas no Séc. XXI, mantendo a religiosidade como tema central, mas se revestindo de uma alegria, mesmo quando retratavam momentos tristes da vida de Jesus. O material utilizado vai além de madeira e pedra, com a presença de obras em barro, metal, e até mesmo em madeira de coqueiro. Uma certa subversão da ordem se notava nos presépios, com elementos bem brasileiros. No maior deles, a Sagrada Família é toda formada por pessoas negras. Nesta parte moderna, os autores são identificados, mas ainda há peças atuais cuja autoria ainda é desconhecida. Gostei muito de poder ter apreciado obras de épocas tão diferentes, com técnicas tão diversas, mas que falam a mesma língua.


Sagrada Família - escola mineira - Séc. XVIII - madeira - Coleção Hecilda e Sérgio Fadel


Pietá - Humberto Araújo, 2007 - coleção particular


Pai eterno - autor desconhecido (Portugal) - Séc. XVIII - madeira - coleção particular


arte sacra

segunda-feira, 18 de março de 2013

CAI GUO-QIANG - DA VINCIS DO POVO


Pela primeira vez no Brasil uma exposição individual de Cai Guo-Qiang, artista chinês que já ganhou importantes prêmios internacionais no campo das artes plásticas. A mostra Cai Guo-Qiang - Da Vincis do Povo (Peasant Da Vincis) ocupa os espaços expositivos do Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília e dois andares do Museu Nacional dos Correios. Fui conferir esta exposição em uma tarde ensolarada de domingo. Entrada gratuita. Primeiro fui ao CCBB, onde está a maior parte da exposição. Minha visita se iniciou pelo pavilhão ao ar livre localizado no gramado da parte de trás do centro cultural. Lá estão protótipos de objetos voados, como aviões, asa-delta, helicópteros e disco-voadores, feitos a partir de sucata e material reciclado. Todos estes objetos voadores estão espalhados pelo pavilhão, alguns pendurados com fios que pendem do teto, ficando em alturas diversas, enquanto outros estão colocados em mesas de madeira ou mesmo no chão. Quando o pavilhão é visto de longe, temos uma leitura diferente de quando estamos dentro do pavilhão ou na escada de ferro montada ao lado. Esta visão à distância dá uma ideia de conjunto bem interessante, pois por cima do teto do pavilhão, montado na laje, está um protótipo de porta-aviões, cujos detalhes podem ser observados por quem sobe a escada de ferro. A leitura que fiz é que o porta-aviões flutuava no céu azul de Brasília, levando consigo todas as máquinas voadoras. Para subir, tive que esperar um pouco, pois apenas dez pessoas, por questões de segurança, podem ficar no alto da escada, onde há uma plataforma de observação. Do alto, além de poder ver os detalhes do porta-aviões, obra que recebeu o nome de Complexo (Complex), há ótima vista da Ponte JK, o que rende belas fotos. O navio foi encomendado por Cai a um chinês chamado Tao Xiangli, especializado em construir, de forma amadora, submarinos. Alguns submarinos estão colados no navio na sua parte lateral. Os objetos voadores que ficam no pavilhão também são encomendas de Cai a inventores chineses. A próxima parada foi na Galeria I. No piso principal, uma vídeo-instalação ocupa quase toda a sala, na qual 49 inventores chineses que colaboraram com Cai são homenageados. São 49 pipas brancas que ficam flanando no ar e em cada uma delas é projetado um vídeo de cruta duração sobre um dos artistas. A instalação exige que a sala fique às escuras. No mesmo piso, está uma homenagem a um outro inventor chinês que morreu pilotando um de seus aviões. O motor destroçado do avião é a parte principal da instalação feita por Cai. A sensação de leveza que a obra passa não combina com o pesado motor, parte principal da instalação. No subsolo da galeria estão dezenas de invenções, com robôs feitos de tudo quanto é material. Tais robôs foram confeccionados por camponeses da China. Não gostei desta parte. Achei sem graça e sem apelo artístico. Crianças e aficionados por robôs são os que devem mais gostar desta parte da exposição. Em seguida, fui para a Galeria II, onde está a parte mais interessante da exposição do CCBB. Três grandes painéis ocupam as três paredes da galeria. Todas elas são desenhos inéditos que Cai Guo-Qiang produziu no Brasil, no próprio centro cultural alguns dias antes da inauguração de sua exposição, quando muitos colaboradores da cidade puderam não só ver o artista em ação, mas também puderam ajudar. Os desenhos são únicos, pois são feitos a partir da utilização de pólvora, uma das invenções mais aclamadas da China. Um vídeo completa a exposição nesta galeria, onde o processo de produção dos desenhos ali expostos é mostrado. A série de desenhos recebeu o nome de Ensaio de Carnaval (Carnival Rehearsal). Os desenhos fazem alusão ao carnaval brasileiro e a discos voadores, numa mistura que combina com o imaginário que nos passa o desfile de escolas de samba do Rio de Janeiro. Da Galeria II fui para o Pavilhão de Vidro, onde apenas uma instalação está presente, chamada Em Espera (Waiting). O inventor Tao Xiangli, autor do porta-aviões que está no telhado do pavilhão ao ar livre, é o co-autor da obra juntamente com Li Yuming, uma vez que os submarinos da instalação foram construídos por eles. O que chama a atenção é que todos os submarinos estão presos em um bloco de gelo (o gelo da obra é real), como se esperassem o degelo para prosseguir o curso. Por fim, fui ver a exibição dos robôs que ficam no grande vão entre a bilheteria e o restaurante do local. As crianças ficam fascinadas pelos robôs quando eles estão em movimento. Monitores são os responsáveis por não deixar ninguém tocar nos robôs, por fazer as devidas explicações e por fazer os tais robôs funcionarem. Quando lá estive, três funcionavam: um cachorro de lata, um robô-criança que cuspia água e um robô-pintor que pintava um quadro com tinta azul. Terminado o recorrido no CCBB, peguei o carro e fui para o Museu Nacional dos Correios, onde há mais obras de Cai. Elas ocupam dois andares. Comecei pelo terceiro andar, onde estão oito vídeos sobre os trabalhos realizados pelo artista pelo mundo. Ele foi um dos responsáveis pelo belíssimo show de abertura das Olimpíadas de Pequim, em 2008. Um dos vídeos mostra este show, focando no trabalho do artista. A maioria dos vídeos mostra os trabalhos com fogos de artifício, quando Cai utiliza cores inusitadas para esta atração, como o preto. Nem sempre vejo os vídeos por completo, mas fiquei tão entretido com eles, que só não vi o da abertura das Olimpíadas. Assim que terminei de assistir os pequenos filmes, continuei a visita, descendo ao segundo andar, onde estão mais oito desenhos encomendados pelo Banco do Brasil especialmente para a mostra. São desenhos feitos com pólvora e um deles é colorido. São todos lindos e de uma leveza incrível. De longe, o que mais gostei foram os desenhos feitos com pólvora. As engenhocas de sucata e material reciclável são interessantes, mas não me cativaram.






artes plásticas

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

ROBERTO BURLE MARX - A FIGURA HUMANA NA OBRA EM DESENHO

Enfim tive um tempo para conhecer o Museu Nacional dos Correios, localizado no Setor Comercial Sul, em Brasília. Perdi algumas exposições interessantes que tiveram lugar nas salas do museu. E quase perdi mais uma, pois neste domingo, dia em que o conheci, era o último dia da exposição Roberto Burle Marx - A Figura Humana na Obra em Desenho, que estava em cartaz desde o dia 16 de agosto. O movimento era bem pequeno no final de tarde de um domingo com tempo firme. A exposição ocupava o 2º e o 3º andares do local. Eram 120 desenhos, a maioria em nanquim ou carvão. Para mim, foi a primeira vez que vi tanta obra de Burle Marx juntas. Quando ouço o nome dele, o que primeiro vem a minha mente são os jardins por ele projetados. Brasília tem alguns famosos, como o do Palácio do Itamaraty, o da Praça das Fontes no Parque das Cidades, o da Praça dos Cristais, e no Setor Militar Urbano. Também é dele o projeto paisagístico do Centro de Arte Contemporânea Inhotim, em Brumadinho, MG. Já tive oportunidade de ver uma obra dele aqui, outra ali, mas um acervo de mais de cem peças, era inédito para mim. Gostei muito. A mostra no terceiro andar focou nos retratos, incluindo um autorretrato feito quando ele era jovem. São homens e mulheres, alguns de corpo inteiro, com traços perfeitos. Os retratos de nus masculinos me pareceram bem acadêmicos, destes que um modelo fica horas em uma mesma posição, posando para o artista. Há também uma variação de um mesmo retrato de uma negra bem interessante, pois ele vai colocando traços mais fortes, favorecendo, em primeiro plano, o rosto da modelo em uma sequência de três desenhos. No segundo andar, a presença humana continua, mesmo porque é o tema da exposição, mas desta vez integrada com cenas do cotidiano, com forte presença de mesas de bares. De todos os desenhos, apenas um tinha cor, os demais eram traços negros sobre uma folha de papel.
Gastei quase uma hora para ver, com calma, todos os desenhos expostos. Já que estava com tempo e a sala de exposição era praticamente minha, tive tempo de sobra para observar muitos detalhes destas obras.
Gostei do espaço cultural também. Amplo, moderno, com boas instalações. Falta público apenas, pois ao assinar a lista de presença, observei as presenças de dias anteriores. Raramente chegava a vinte pessoas em um dia inteiro. Espero que o Museu Nacional dos Correios se consolide no cenário cultural brasiliense, assim como o fizeram o Centro Cultural Banco do Brasil, a Caixa Cultural e o Museu Nacional da República.
Em tempo: os desenhos pertencem ao acervo do Sítio Roberto Burle Marx, unidade especial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

exposição
artes plásticas