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quinta-feira, 3 de março de 2022

SALOMÉ

Salomé, 1978, 12 minutos.

Antes de rodar seu primeiro longa metragem, Pedro Almodóvar fez 13 curtas. Resolvi procurá-los para assistir e só encontrei Salomé, justamente o último deles antes dos primeiros longas.

Salomé é baseado em peça de Oscar Wilde e trata da figura bíblica que pede a cabeça de João Batista em uma bandeja de prata por ter dançado a dança dos sete véus.

No entanto, no curta, Almodóvar mistura os personagens bíblicos do Velho Testamento, colocando Abraão (Fernando Hilbeck) como pai de Isaac (Agustín Almodóvar). Ambos estão em uma colina, quando Abraão encontra com Salomé (Isabel Mestres), ficando hipnotizado por sua beleza. Ele a pede para dançar e ela impõe a condição de se o fizer, Abraão terá que cumprir o seu desejo. Ela dança e pede o sacrifício de Isaac. Abraão, cumpridor de sua promessa, se prepara para o sacrifício, quando uma fogueira se ascende do nada e dela sai a voz de Deus (voz de Juan Lombardero), tendo Salomé desaparecido. Era um teste de honradez para com Abraão. Isaac é poupado da morte. Salomé, a fogueira e Deus são a mesma coisa. Almodóvar sempre provocando: a trindade divina de forma diferente e a figura feminina como divindade máxima.

Apesar do roteiro ser bem interessante, a execução é muito rudimentar. Faltou recurso, com certeza. Nem de longe lembra o Almodóvar de filmes icônicos como Tudo Sobre Minha Mãe (meu preferido), ou Fale com Ela. Mas os elementos de provocação e a figura feminina empoderada já estão presentes.

Disponível, em cópia ruim, no YouTube.

quarta-feira, 2 de março de 2022

O QUE EU FIZ PARA MERECER ISTO? (QUÉ HE HECHO YO PARA MERECER ESTO!!)

O Que Eu Fiz Para Merecer Isto? (Que He Hecho Yo Para Merecer Esto!!), 1984, 101 minutos.

Escrito e dirigido por Pedro Almodóvar, este filme tem como protagonista a ótima Carmen Maura (Gloria).

Gloria é dona de casa, casada com um taxista, e vive em um apartamento apertado com o marido, dois filhos e a sogra. O dinheiro nunca chega para pagar as contas da casa, fazendo com que Gloria tenha dupla jornada, trabalhando como faxineira para complementar a renda. Uma de suas faxinas é em uma escola de artes marciais, onde ela fica imitando os movimentos dos alunos usando seus instrumentos de trabalho, cujo aprendizado lhe será útil mais tarde. Nesta escola, ela conhece Polo, um policial, no banheiro masculino, quando tem uma tórrida quase transa no chuveiro. Além da família, ela tem relação com duas vizinhas. Uma é garota de programa (a ótima Verónica Forqué), enquanto a outra é costureira e tem uma filha ruiva. O filme se desenvolve em torno de Gloria, sua família e vizinhos.

Almodóvar nos apresenta várias bizarrices: menina com super poderes, casal que dá golpe em parente, a cleptomaníaca que entrega os objetos que rouba para seu marido devolver para os donos, um lagarto de estimação verde que se chama Dinheiro, se tornando testemunha de um crime, o dentista pedófilo, as fantasias dos clientes da garota de programa, além da decoração kitsch e o uso de cores muito fortes.

Mesmo em se tratando de uma comédia com toques surreais, o machismo é um tema importante no filme, sendo exercido a todo o instante pelos personagens masculinos. Um dos exemplos é o marido machão de Gloria que não permite que ela trabalhe ou se comunique com a vizinha. Gloria, mesmo sem saber, luta por sua liberdade, seja afirmando sua independência financeira, ao comprar um modelador de cabelos, ou mesmo com a realização de seu desejo carnal ao trair o marido no chuveiro da academia de artes marciais.

Outro ponto interessante é a naturalidade com que Gloria conversa sobre a orientação sexual de seu filho mais novo, um adolescente. Ela diz que ele não precisa esconder que dorme na casa do amigo para transar com o pai dele. E depois, com a dificuldade de manter a família, oferece este filho para o dentista.

Desde seus primeiros filmes, Almodóvar é um exímio conhecedor das mulheres, seus anseios, suas lutas, seus desejos.

Comédia que faz refletir.

Disponível na Netflix, Amazon Prime Video e Mubi.

domingo, 16 de janeiro de 2022

MADRES PARALELAS

Madres Paralelas, 2021, 123 minutos.

Filme mais recente de Pedro Almodóvar, estrelado por Penélope Cruz (Janis), Rossy de Palma (Elena) e Aitana Sánchez-Gijón (Teresa).

Janis é fotógrafa, fazendo trabalhos para a revista comandada por Elena. Ao fotografar um famoso antropólogo, ela o convence a fazer um trabalho de abertura de uma cova coletiva na qual foram enterrados vários habitantes do povoado onde nasceu e cresceu. Estas pessoas foram vítimas do regime fascista de Franco na Espanha.

Janis acaba se envolvendo com o arqueólogo, fica grávida, resolvendo ser mãe solteira. Na maternidade, no mesmo quarto, conhece Teresa, uma jovem de 16 anos, que também será mãe solteira. As duas dão a luz no mesmo dia duas meninas. A partir deste momento, o roteiro esquece a parte politica e foca na relação que será construída entre as duas mães e suas filhas.

Quase no final do filme, o roteiro retorna para a questão política, com a cova coletiva sendo aberta na qual somente homens estavam enterrados.

Mais um filme de Almodóvar que joga luz profunda nas mulheres, em seus corpos, em seus desejos mais íntimos e puros.

Um verdadeiro show de interpretação de Penélope Cruz. Quanto à Rossy de Palma, teve pequena participação. Queria mais dela no filme.

Não é o melhor Almodóvar, mas é muito superior à esmagadora maioria dos filmes lançados em 2021.

Foi o primeiro filme que vi em 2022, em 01/01/2022.

Em breve estará disponível na Netflix.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

OS AMANTES PASSAGEIROS

Aos poucos, volto a escrever aqui no blog. Apesar de ter lido algumas críticas negativas, aproveitei um tempo livre na noite de São Paulo, onde estava a trabalho, para conferir o novo filme de Pedro Almodóvar, a comédia Os Amantes Passageiros (Los Amantes Pasajeros). Produção espanhola de 2013, este filme traz de volta o Almodóvar com seus personagens bizarros, sempre em situações inusitadas. O mesmo Almodóvar de Pepe, Luci e Bon, ou de Kika. A história se passa durante um voo da Espanha para o México, quando um problema em um dos trens de pouso obriga os pilotos a ficarem rodando sobre Toledo, aguardando uma pista livre e uma autorização para pouso de emergência. Grande parte do filme se concentra na classe executiva, onde estão poucos passageiros, talvez uma alusão à crise econômica que avassala a Espanha, afetando inclusive os mais ricos. Os tipos de Almodóvar estão presentes nos passageiros: um dono de banco fugindo das suas falcatruas, um galã de cinema; Bruna (Lola Dueñas), que dá vida a uma vidente virgem, um casal de recém casados, um misterioso e reservado homem e Norma, uma personalidade famosa, vivida por Cecilia Roth. O trio de comissários é gay que se alfineta o tempo inteiro. Os passageiros da classe econômica dormem durante todo o voo e tem pouca participação na história, a não ser um jovem bonito, no melhor estilo Almodóvar, que terá uma participação dormindo que me remeteu a Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos e a Fale Com Ela. Ao tornar público o problema do avião, uma necessidade de acertar as contas com as suas vidas privadas toma conta dos personagens, seguindo-se uma série de revelações hilárias. Uma das melhores cenas do filme é a dublagem que o trio de comissários Fajas (Carlos Areces), Joserra (Javier Cámara) e Ulloa (Raúl Arévalo) faz do sucesso de 1982, I'm So Excited, do grupo The Pointer Sisters. A performance é muito engraçada, típica de shows de boates gays. Até a religião tem seu espaço, já que Fajas tem um interessante e colorido altar-mala. A maioria dos atores já trabalhou com Almodóvar, como os já citados Cecilia Roth, Javier Cámara e Lola Dueñas, além de Antonio de La Torre (o piloto Álex Acero). Tem participação especial outras atrizes que já trabalharam sob a direção do diretor espanhol: Paz Vega (Alba), Blanca Suárez (Ruth) e Penélope Cruz (Jessica). Tem ainda a volta de um antigo colaborar de Almodóvar, Antonio Banderas (León). Todos eles em rápida aparição nas telas. Como o diretor sempre faz referências a quem ele gosta em seus filmes, fui pesquisar e descobri que o nome da aeronave, Chavela Blanca, é uma homenagem a cantora Chavela Vargas e à sua amiga Blanca Sánchez. Penélope Cruz, além de aparecer na película, empresta seu apelido, Pe, para a abreviação do nome da companhia aérea responsável pelo voo, a Península, cuja abreviatura está estampada na calda do avião. E ainda tem a participação do produtor do filme, Agustín Almodóvar, irmão do diretor, que interpreta o controlador da torre de voo no aeroporto de La Mancha. Para quem espera ver algo como Carne Trêmula, A Pele Que Habito, Má Educação, Tudo Sobre Minha Mãe ou Fale Com Ela, é melhor nem ir ao cinema, pois pode se decepcionar. As referências na filmografia do diretor espanhol são suas primeiras comédias, cheias de cores e personagens diferentes. Gostei muito.

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sábado, 19 de novembro de 2011

A PELE QUE HABITO


Filme novo de Pedro Almodóvar nos cinemas. Não há como deixar de ir. Estive na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi Brasília e, como sempre acontece, não saí de lá de mãos vazias. Entre as compras, o número mais recente da revista Preview, que traz como cortesia um ingresso para ver o novo filme (há salas em que ele não pode ser usado) do diretor catalão. Verifiquei em que cinemas estava em cartaz e se havia restrição de utilização do ingresso. Uni o útil ao agradável escolhendo a Sala 4 do Cinemark Iguatemi, três dias após a compra da revista. Peguei a seção das 21:30 horas de uma quarta-feira. A sala recebia um bom público, mas não encheu. Gosto das salas desta unidade do Cinemark porque os assentos são marcados no ato da aquisição do bilhete. No meu caso, passei na bilheteria para a troca do convite pelo ingresso. Vamos ao filme.
Além de ser um Almodóvar, o que já me faria ir de qualquer forma, temos a volta de Antonio Banderas trabalhando com o diretor que o projetou para o mundo. Também temos Marisa Paredes, uma das atrizes prediletas de Almodóvar. São 120 minutos de filme. Quando acabou a projeção, notei que o diretor ainda causa impacto na plateia. E que impacto! Não vou contar aqui tudo o que acontece, mas vou roubar uma palavra do filho adolescente de uma colega de trabalho que resume bem A Pele Que Habito (La Piel Que Habito): "perturbador". Uma senhora que estava na mesma fileira que eu não parava de dizer alto que Almodóvar tinha pirado de vez, que tinha feito um filme louco. Banderas é Robert Ledgard, um famoso e requisitado cirurgião plástico, que após sua mulher ter todo o corpo queimado em um acidente de carro, fica obcecado em conseguir produzir uma pele artificial que seja imune às chamas, bem como às picadas de insetos. O médico se torna tão obcecado, fator potencializado com um fato marcante na vida de sua filha, que abandona tudo para se dedicar aos seus planos que se tornam cada mais mais macabros. Em sua casa retirada do centro da cidade de Toledo, Espanha, ele tem a companhia de Marilia (Paredes), uma governanta que ajuda a cuidar da casa e de uma paciente enigmática, Vera Cruz, interpretada pela bela atriz Elena Anaya, que não pode sair do quarto, onde fica confinada. Além deste núcleo central, um jovem filho de uma dona de um brechó, Vicente (Jan Cornet), é peça chave na história. Não podiam faltar alguns elementos clássicos do cinema de Pedro Almodóvar no seu mais recente filme: um personagem bizarro (Zeca, sempre fantasiado de tigre); referências ao Brasil (pelos diálogos de Zeca com Marilia, percebemos que ele morou algum tempo na Bahia, e uma canção cantada em português pela filha de Ledgard); a obsessão por algo diferente, como a do Dr. Robert; temática gay, mesmo que escamoteada; uma cantora aparecendo na história executando uma música ao vivo (a cantora espanhola Concha Buika); cenas de sexo filmadas por ângulos pouco usuais; o uso de cores (mesmo que mais discretamente do que em outras oportunidades, mas há uma interessante cena onde Vera picota todos os vestidos, pega um aspirador de pó e aspira, em ritmo frenético, pedaço por pedaço das peças multicoloridas). Nesta fita, Almodóvar flerta com o gênero terror, mas sem seres fantásticos, chuvas de sangue, instrumentos bizarros. É um terror que assusta, mas que não faz com que viremos a cara ou fechemos os olhos. Durante a primeira metade do filme, há dicas importantes para a chave do enigma, mas isto se percebe somente quando ele é desvendado. Gostei muito.

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