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sexta-feira, 22 de abril de 2022

MEDIDA PROVISÓRIA

Medida Provisória, 2020, 103 minutos. Direção de Lázaro Ramos, tendo no elenco Alfred Enoch (Antônio), Seu Jorge (André), Taís Araújo (Capitu), Aldri Anunciação (Ivan), Adriana Esteves (Isabel), Mariana Xavier (Sarah), Renata Sorrah (Dona Izildinha), Emicida (Berto), entre outros.

O roteiro é baseado em peça de Aldri Anunciação que foi aos palcos em 2011.

A história se passa em um futuro incerto no Brasil, quando os negros são chamados de melaninados acentuados. Um governo autoritário edita uma medida provisória, de número 1888 (uma referência ao ano em foi assinada a Lei Áurea no país), que determina a todos os cidadãos de origem africana que se desloquem para a África. O governo garante a passagem de ida. Isabel é a chefe do departamento que cadastra e envia tais cidadãos para fora do país. André, um repórter fotográfico que mantém um blog, é um dos que questiona as ordens do governo. Capitu, médica casada com Antônio, ao perceber que a polícia a retiraria à força de um atendimento a um homem ferido na perna para ser enviada para a África, consegue escapar, salvando uma mãe preta com uma filha albina dos policiais, é resgatada por Ivan e abrigada em uma espécie de quilombo, chamado de afrobunker por seus integrantes. Antônio e André ficam isolados dentro do apartamento deles, tendo a vizinha Dona Izildinha, racista de primeira hora, como ajudante de Isabel para fazerem os dois saírem do apartamento. Antônio não sabe onde está Capitu, mas não sai de seu apartamento. Após muita confusão e perseguições, Capitu e Antônio se reencontram, sendo presos por Isabel. Mas o que parecia um final trágico...

A premissa é ótima, o elenco majoritariamente negro é uma raridade no cinema brasileiro, a discussão do racismo estrutural é super atual, mas o todo não funcionou como deveria. Ainda assim, gostei do filme. Merecidas homenagens a Marielle Franco, Ruth de Souza, Zezé Motta, Mestre Moa, entre outros, que aprecem em fotografias, objetos e grafites no filme.

A fotografia em tons amarelados e imagens desfocadas ao fundo foram interessantes artifícios para representar uma época futura sem necessidade de efeitos especiais, nem de uso de objetos futuristas.

Como destaque, cito as ótimas performances de Seu Jorge, Adriana Esteves, Taís Araújo e Renata Sorrah. Continuo não gostando do ator Alfred Enoch. A química entre ele e Taís Araújo não funcionou, os dois não me convenceram como um casal apaixonado. Achei a atuação deste ator inglês filho de brasileira muito forçada, não pelo português, que soa quase sem sotaque, mas pela performance em si. Ele não me convenceu em nenhum momento da projeção, diferente de Seu Jorge, que interpreta o primo André, debochado, bonachão, que entra facilmente em pânico em situações difíceis.

O trabalho de Lázaro Ramos na direção é bom e pode evoluir muito. A cena final, na qual ele aparece, transpira muita emoção.

Disponível nos cinemas.

domingo, 24 de março de 2013

ESTA CRIANÇA

Em cartaz no Teatro I do CCBB de Brasília a peça Esta Criança (Cet Enfant), de autoria do francês Joel Pommerat. Foi a primeira peça deste autor montada no Brasil. A tradução coube a Giovana Soar, integrante do grupo teatral companhia brasileira de teatro, também fazendo parte do elenco. A produção do espetáculo coube à companhia associada com Renata Sorrah, que também atua na peça. Além das duas atrizes citadas, completam o elenco de Esta Criança os atores Ranieri Gonzalez e Edson Rocha. A direção é de Márcio Abreu. São dez esquetes curtas que não se relacionam entre si, onde as relações de família, especialmente entre pais e filho, são escancaradas diante da plateia. Os atores vivem vários papéis e nem sempre todos estão em cena. O cenário é simples, levemente inclinado, como no seriado de televisão Batman, quando aparecia o ambiente dos inimigos do herói mascarado. Esta inclinação me passou uma ideia de que as relações mostradas estavam tão esgarçadas que a qualquer momento o mundo daquela família poderia ruir ou rolar ladeira abaixo. O texto é muito atual, retratando situações que todo mundo já viveu ou ainda vai viver um dia. Todo o elenco está muito bem em cena. Renata Sorrah dá um show de interpretação (ela ganhou o mais recente Prêmio Shell de melhor atriz justamente por este trabalho). Giovana Soar não fica atrás, com uma belíssima performance, especialmente em três esquetes: quando ela está dando a luz encostada em uma parede, como a mulher que acompanha uma amiga no necrotério para reconhecer o suposto corpo do filho, e como uma mãe que resolve dar seu bebê para um casal de vizinhos. O teatro estava lotado, o que ocorreu em todas as seções desde o início da temporada  da peça em Brasília. Digo isto porque tentei comprar ingresso para várias seções anteriores sem sucesso, o que vim a conseguir apenas para a data de sábado, 23 de março, depois de passar um bom tempo esperando o site ingresso.com disponibilizar a venda. Quando isto aconteceu, só tinha um único lugar, na beirada da última fileira. Não tive dúvidas e comprei logo, antes que alguém comprasse. Minhas amigas tinham pedido para eu comprar para elas, mas não foi possível. Fui só e não me arrependi. Belo espetáculo a preço para lá de popular - R$ 3,00 a meia entrada.

artes cênicas