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segunda-feira, 11 de abril de 2022

A COR PÚRPURA - O MUSICAL


Mais uma vez o algoritmo do Instagram me ajudou, pois apareceu para mim uma postagem patrocinada sobre o musical A Cor Púrpura que faria três apresentações em Belo Horizonte no Grande Teatro do Sesc Palladium. Assim que vi o anúncio, acessei o site da Sympla e comprei duas entradas inteiras, uma para mim e outra para Gastón, o que nos custou R$ 202,00. Sessão das 18:00 horas, dia 24/03/2022, um domingo.

O musical tem direção de Tadeu Aguiar, cuja versão brasileira foi feita por Artur Xexéo. Baseado no livro de Alice Walker, que teve uma versão para o cinema com direção de Steven Spielberg.

Coincidência eu ter visto o filme, em 1985, no Cine Palladium, que agora é o Grande Teatro Sesc Palladium. 

Teatro lotado, todo mundo de máscara no rosto. O espetáculo começou no horário.

Elenco maravilhoso, com destaque para Letícia Soares que interpreta Celie, mesmo papel que foi de Whoopi Goldberg no cinema, e para Flávia Santana, dando vida a Shug Avery. Além de atuarem muito bem, as duas, assim como os demais do musical, são ótimas cantoras, entregando performances sensacionais.

Com uma hora e meia de musical, houve um intervalo de quinze minutos, tempo para filas enormes nos banheiros masculino e feminino. Faltou um café no foyer do teatro para matar a sede e a fome. Após a pausa, voltamos para o segundo ato, que teve a mesma força do primeiro.

Apesar do texto ser antigo e a história se passar em época distante, ele permanece muito atual. Acompanhamos a vida de Celie, que teve um casamento arranjado pelo pai, enfrentando o racismo, o machismo, a misoginia, o preconceito, mas sempre firme, de cabeça em pé, crescendo internamente para dar o tão esperado grito de liberdade. Celie é amor, é entrega, é bondade, é perseverança, é amizade, é compreensão, é linda.

Na versão brasileira, houve um ótimo acréscimo em uma das músicas, cantada só por mulheres, que termina com um efusivo Não é Não, todas de punhos cerrados levantados para cima. Foram ovacionadas pela plateia.

Saímos extasiados do teatro.

sábado, 9 de abril de 2022

LOVE LOVE LOVE - GRUPO 3 DE TEATRO


Quando morava em Brasília, fui ao CCBB para ver uma peça com o Grupo 3 de Teatro. Era Contrações, do dramaturgo inglês Mike Bartlett, com direção de Grace Passô Fiquei impactado com o texto e com a encenação, especialmente de Yara de Novaes e Débora Falabella.

Eis que o algoritmo do Instagram me mostra uma postagem patrocinada sobre uma peça do Grupo 3 de Teatro em Belo Horizonte. Não tive dúvidas em comprar ingresso (inteira: R$ 59,00). Em 18 de março de 2022 estava eu no belo teatro do Centro Cultural Minas Tênis Clube para conferir Love Love Love, mais um texto de Mike Bartlett encenado pelo grupo.

A direção é de Eric Lenate. No elenco estão Débora Falabella, Yara de Novaes, Alexandre Cioletti, Augusto Madeira e Mateus Monteiro.

A trama acompanha três gerações de uma família inglesa, tendo como marco inicial a primeira transmissão ao vivo da televisão para 26 países, em 1967, de uma apresentação dos Beatles cantando a música All You Need is Love. A segunda fase é ambientada nos anos 1990 e a terceira e última etapa ocorre em 2014.

Em cena, conflito de gerações, sonhos de classe média, infidelidade conjugal, relacionamentos com altos e baixos.

Neste espaço temporal - 1967-214, vemos como o decorrer dos anos transforma as pessoas. Enquanto na juventude eram libertários, cheios de ideias, pregando o amor livre, mas quando se tornam pais, agem como os seus próprios pais. Aí me lembro da frase da música de Belchior eternizada na voz de Elis Regina: ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.

Todo o elenco está muito bem. Destaco Débora Falabella, ótima interpretando a jovem Sandra nos anos 1960 e Rose, a filha de Sandra, nos anos 1990 e em 2014; e Yara de Novaes, sempre maravilhosa no palco, desta vez dando vida à Sandra nas duas fases finais da peça.

Na fase final, Sandra convoca a família para exigir uma espécie de reparação à frustração de sua vida e fala que a geração dos pais dela é a grande responsável pela grande frustração de sua geração, pois eles nunca contribuíram em nada para mudar as coisas, se entregando para o consumismo e assistindo inertes aos acontecimentos mundiais.

O texto diverte e nos faz refletir.

Belíssimo espetáculo. Casa cheia, com público majoritariamente idoso.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

CABEÇA, UM DOCUMENTÁRIO CÊNICO


Dei uma pausa nos filmes e séries, sempre vistos no aconchego de meu lar, para ir conferir o espetáculo Cabeça, Um Documentário Cênico, que integra a vasta programação do Festival Rock Brasil 40 Anos, em cartaz no CCBB de Belo Horizonte no período de 26 de janeiro a 21 de fevereiro de 2022.

Comprei a entrada antecipadamente na pré-venda para clientes Ourocard, pagando meia entrada, R$ 15,00, pelo aplicativo da Eventim. Eram dois dias de espetáculo, 02 e 03 de fevereiro, quarta e quinta-feira, Teatro I do CCBB BH, às 20:00 horas.

Lembro-me que este espetáculo esteve em cartaz em Brasília em 2017, mas eu já havia me mudado para Belo Horizonte, ficando com vontade de vê-lo. Enfim, pude conferir no dia 02/02/2022.

Seguindo os protocolos de segurança impostos pela Prefeitura Municipal de Belo Horizonte para conter o avanço da variante omicron da Covid 19, era obrigatória a apresentação de certificado de vacinação completo antes de fazerem a leitura do ingresso. Também por causa da Covid, o teatro abriu as portas meia hora antes do início do espetáculo. Eu cheguei cedo, aproveitando para conferir a bela exposição sobre Nise da Silveira - Nise, a revolução pelo afeto - no térreo do centro cultural. Às 19:30 horas apresentei meu certificado de vacinação com três doses, meu ingresso, entrando em seguida, acomodando-me no assento previamente escolhido no momento da compra.

Ao soar o terceiro sinal, a plateia era bem pequena. A ocupação nem chegava a 1/3 da capacidade do teatro. Todos os presentes usavam máscaras cobrindo boca e nariz. A peça teve início com dez minutos de atraso.

Cabeça, Um Documentário Cênico, escrito e dirigido por Felipe Vidal, que também atua no espetáculo, tem oito atores-cantores no palco, que formam uma banda que apresenta o icônico disco Cabeça Dinossauro, lançado em 1986 pelo grupo Titãs (meu grupo preferido do Rock Brasil). A apresentação, ao vivo, com os músicos também tocando os instrumentos, é potente. Eles executam as músicas do disco na ordem em que está no vinil, Lado A e Lado B. Inclusive, há um intervalo de dez minutos quando termina a execução do Lado A.

Fazendo ligações com as músicas, há uma contextualização com os fatos ocorridos em 1986, com paralelos para os dias atuais, além de depoimentos da vida pessoal de cada um dos oito integrantes do grupo, o coletivo teatral Complexo Duplo, sobre suas vivências em 1986. Também há uso de recursos multimídia, como projeções enquanto há os depoimentos dos atores, e até mesmo cenas de show dos Titãs (o final une a música O Que cantada no palco com um show do grupo paulista, ainda com Arnaldo Antunes no vocal).

Na contextualização político-social, entre outras, há menções ao crescimento das religiões neopentecostais ao longo das trinta décadas que separam o lançamento do vinil Cabeça Dinossauro, em 1986, e o ano de lançamento do espetáculo, em 2016.

E temos direito a um bônus track, Vai Pra Rua, que não entrou no vinil por falta de espaço e foi lançada no CD lançado em 2016 em comemoração aos trinta anos do disco.

Citações pontuais do Rock Brasil dos anos 1980 estão nas falas dos atores, como músicas do Kid Abelha, Barão Vermelho, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, entre outros.

Um ótimo espetáculo. Pena que o público era pequeno.



quarta-feira, 8 de julho de 2015

PURO BLA BLA! - LOS BLA BLA

Quando estive em Buenos Aires em fins de maio, Gastón me convidou para ver uma peça de teatro com um grupo chamado Los Bla Bla. A princípio, fiquei com receio de não compreender muita coisa, pois se tratava de uma comédia, poderiam falar muitas gírias e fazerem piadas com questões locais. Gastón me tranquilizou dizendo que o grupo era bem dinâmico e que exploravam bastante o teatro físico. Topei ir. Fomos em uma sessão na noite de domingo, 31 de maio, no Xirgu Espacio Untref (Chachabuco, 875). O teatro é antigo, pequeno e tem formato de ferradura. Estava lotado. A peça chama-se Puro Bla Bla!
Antes de começar, houve uma performance de um músico do qual não me recordo o nome, ainda com as cortinas fechadas, que se apresentou tocando teclados do lado direito do palco. Cantou cinco ou seis músicas, todas com uma levada de comédia. Uma delas foi cantada em português, imitando os cantores pianistas da fase áurea da Bossa Nova brasileira. Havia uma clara referência ao modo de cantar de Tom Jobim. Eu ri muito e Gastón não entendia o motivo. Após esta curta apresentação, a peça teve início com cinco atores do grupo espalhados pela plateia, um deles em um dos camarotes. As cenas que se sucederam foram hilárias. São esquetes curtas, mas que tem uma ligação entre elas, nas quais os atores desempenham diversos papéis, usando e abusando de versatilidade, do teatro físico e do humor escrachado, algumas vezes muito próximo de uma comédia estilo pastelão. No entanto, eles trabalham muito bem o humor, deixando claro nos textos curtos e diretos uma conotação bem social. Um humor que leva à reflexão, fato ausente em uma comédia no estilo pastelão. E os cinco integrantes do grupo, Manuel Fanego, Pablo Fusco, Sebastian Godoy, Julián Lucero e Tincho Lups são muito eficientes no que fazem. Completava o grupo o pianista Sebastián Furman, que tocava ao vivo.
Uma marca forte na apresentação de todo o grupo é o teatro físico, no qual misturam técnicas circenses, de mímica, de ginástica e de dança, dando uma conotação leve e bem humorada para as esquetes, embora todas elas tenham uma forte conotação de crítica social. Assim, não pouparam a religião, principalmente quando temos hoje um Papa argentino; a paixão dos hermanos pelo futebol; questões de preconceito contra as mulheres (haveria uma passeata na semana seguinte que tinha relação com questões de gênero e preconceito, fato inclusive lembrado durante a peça); uma visão do modo de vida das pessoas idosas; crise econômica; desemprego, entre outros. Temas como igualdade social, identidade nacional e cultural permeiam todas as esquetes. A plateia ri muito durante os cerca de 100 minutos de espetáculo, com entusiasmados aplausos ao final.
Duas cenas me chamaram a atenção, a saber: a que um dos atores se traveste de uma cantora que interpreta músicas regionais, não só pela performance em si, mas também por chamar para uma reflexão sobre a necessidade de se manter uma identidade cultural argentina, além de convocar a plateia para a tal passeata que mencionei acima. A outra esquete que destaco é a que se passa em uma missa católica que se transforma em um espetáculo de hip hop.
Ao final, entendi praticamente 90% dos diálogos. Quando a piada era muito interna ou usavam expressões locais, Gastón me explicava baixinho.
Gostei do que vi.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

VE (NE) NUS

Convidei Karina, Cristiano e Alberto para ir comigo ver a peça Ve (ne) nus, em cartaz no Pavilhão I do CCBB de Brasília. Espetáculo da companhia brasiliense Teatro dos Ventos - Confraria Artística, cuja dramaturgia e direção coube a Fernando Martins. No elenco, além do próprio Fernando Martins, estão Luiz Felipe Ferreira e Luciana Loureiro. Ingressos esgotados para a sessão das 19 horas de domingo, dia 09 de novembro de 2014.
Cheguei mais cedo para pegar os ingressos e vi a trupe passar no vão do CCBB já paramentados para a peça. Duas crianças que brincavam por ali pararam o que estavam fazendo, ficaram mirando aquelas pessoas estranhas maquiadas e vestidas de preto, perguntando, ao final, ao pai se aquele grupo era formado por extraterrestres. Claro que sorri.
Como o espetáculo é no pavilhão de vidro ao final do estacionamento do centro cultural, um espaço multimeios, a configuração para o teatro contou com a instalação de uma arquibancada ampla. Claro que não tem o mesmo conforto de uma cadeira com encosto, mas a peça é curta, com cerca de uma hora de duração, o que não chega a incomodar ficar sentado nas pranchas de madeira da arquibancada.
No palco, além dos três atores, havia uma banda executando a trilha sonora ao vivo, postada do lado esquerdo, além de mais seis atores vestidos de negro. Tais pessoas faziam parte do coro, em uma alusão ao teatro grego, já que o tema tem ligação direta com a mitologia grega.
Os efeitos cênicos são muito bons, incluindo iluminação e sonoplastia. O figurino seguiu o cenário seco, nu, bem escuro. A ideia era passar um clima tenso, meio de terror, contando uma versão bem diferente da Vênus glamourizada que estamos acostumados a ler e a ver em obras de arte. Vênus aqui, ou Ve (ne) nus, é má e exerce esta maldade enlouquecendo seus pretendentes e levando-os à morte. Nesta versão, Vênus é mais do que a deusa do amor e da fertilidade. Ela flerta descaradamente com a morte.
Quanto ao texto, confesso que não gostei. Recheado de metáforas e para quem não lê o folheto da peça que é entregue quando ainda estamos na fila para entrar, fica um pouco confuso perceber estas metáforas verbais e visuais.
Acho louvável um trabalho de pesquisa e de concepção teatral como o grupo fez, incluindo vários elementos cênicos que distanciam a encenação do teatro praticado na Grécia antiga, embora mantendo um coro interessante que faz parte do todo. No entanto, tais elementos cênicos - trilha sonora ao vivo, sonoplastia, iluminação, figurino, projeção de vídeo, utilização de maquete para marcar o dia e a noite, narrativas ao vivo em um microfone colocado no lado direito do palco, estética de filmes de terror (lembrei-me de Hitchcock e seu sensacional Os Pássaros por mais de uma vez) e de ação (não sei porque, mas me veio à mente os filmes da saga Jogos Vorazes) - suplantaram, e muito, o texto e a encenação. Em alguns momentos, ficou incompreensível o que os atores ou o coro falavam, pois havia muita informação sonora e visual ocorrendo ao mesmo tempo.
Ao final, a plateia estava visivelmente dividida. Alguns aplaudiam entusiasticamente de pé, enquanto outros permaneceram sentados praticando as palmas protocolares.
Fiquei neste último grupo.
Ao sair, vi as crianças que chamaram o pessoal da trupe teatral de extraterrestres. Meu sorriso desta vez foi mais longo.

domingo, 9 de novembro de 2014

POEIRA

Depois de uma semana pesada, com reuniões, viagens, deslocamentos longos de avião e coordenação de grupos de discussão, retornei a Brasília com fome de teatro. Escolhi ver Poeira, espetáculo que voltou para à grade de programação do Espaço Cena. Como o teatro é pequeno, liguei umas duas horas antes do início da peça e reservei meu ingresso, que custou R$ 30,00 (inteira). Sessão de sábado, dia 08 de novembro de 2014, 21 horas. Cheguei faltando quarenta minutos para o horário previsto para ter início Poeira. Uma pequena mesa fazia a vez de bilheteria. Identifiquei-me, paguei e peguei meu ingresso. Um fotógrafo perguntou se eu poderia posar para uma foto em frente ao banner da peça com o programa na mão. Fiz com prazer a pose. Sentei-em em uma das simpáticas mesas colocadas no corredor do bloco. Como não há lanchonete ou café no local, uma pessoa vendia alguns quitutes para os que chegavam ao teatro e aguardavam a liberação da entrada.
Com aviso discreto para deixarem os respectivos celulares em modo silencioso, liberaram a entrada pouco depois das 21 horas. Digo discreto, porque alguns não devem ter ouvido, pois celulares soaram no recinto por mais de uma vez (e não era o celular que tocava em cena!).
No pequeno palco, as três atrizes de Poeira desfiavam histórias resgatadas do passado enquanto o público se acomodava nas cadeiras dispostas em forma de arquibancada. Fiquei na última fileira, em bancos sem encosto, com ótima visão para a cena, mas muito quente, pois o ar condicionado não chegava até lá.
Poeira foi idealizado por Tatiana Carvalhedo, cuja dramaturgia partiu de poemas muito pessoais de Cristina Carvalhedo. A direção coube a Jonathan Andrade. No palco três psicólogas - Cristina Carvalhedo, Lydia Rebouças e Nayla Reis - que aceitaram o desafio de atuar neste espetáculo. A mão de Jonathan é visível, não só no aspecto visual, pois o cenário e o figurino são de sua autoria, mas também no modo de atuação destas não atrizes. Emoção e catarse.
Memórias de um passado que não volta, de um marido que faleceu, de aventuras quando a juventude era explosiva, de uma rebeldia gostosa, feliz. Memórias alegres e tristes. Memórias que emocionam qualquer pessoa. Memórias que poderiam pertencer a qualquer um dos presentes.
A utilização de barulho de avião para a passagem do tempo foi um recurso que gostei muito, assim como a espontaneidade das atrizes ao dialogar com a plateia, como se estivessem em seus consultórios. No entanto, em papéis invertidos. O público era o psicólogo que observava e ouvia o que as reais psicólogas tinham a dizer.
Compartilhar a dor em cena foi um modo de extirpar fantasmas, de mudar, de continuar a vida, bela como ela deve ser.
Um cena belíssima, carregada de elementos emotivos, é aquela em que Nayla Reis está sentada em uma cadeira, nua, molhada, chorando de saudade do marido que não mais estava presente. As amigas ajudando-a a se vestir e o seu choro convulsivo são tocantes.
Poeira fala da morte, enaltecendo a vida.
Vida longa para Poeira.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

SOPRO

O Coletivo Irmãos Guimarães vem apresentando, nos últimos anos, um interessante trabalho calcado na obra de Samuel Beckett, especialmente naqueles textos bem curtinhos, quase sem palavras. Não foi diferente com o mais novo trabalho do Coletivo. Estreou na noite de quinta-feira, dia 18 de setembro, no Teatro Sesc Garagem, a montagem Sopro, uma livre adaptação das peças Passos e Ato sem palavras I do dramaturgo inglês Beckett. Para conseguir um ingresso, basta levar dois quilos de alimentos não perecíveis. Os ingressos começam a ser distribuídos uma hora antes do horário previsto para ter início o espetáculo. Cheguei uns cinquenta minutos antes. Na minha frente, apenas quatro pessoas, todas elas do meio teatral brasiliense. Os Irmãos Guimarães sempre gostam de encenar seus espetáculos em locais menores, com plateia reduzida. Ao entrar, o público se depara com apenas uma arquibancada no teatro, quando normalmente são usadas três delas. A arquibancada ficou cheia para ver Sopro.
Uma projeção indica a primeira peça a ser apresentada, baseada em Passos. Uma única atriz (Liliane Rovaris) em cena, caminhando em um tablado feito com madeiras claras destas que se usam para fazer caixotes. Ao fundo, uma porta entreaberta, deixando escapar um feixe de luz. A atriz caminha de um lado para o outro, contando seus passos, enquanto dialoga com sua mãe, que não aparece em cena. Apenas uma voz em off, de alguém que sofre, de alguém que espera alguma coisa. Uma idosa com cerca de noventa anos de idade. A iluminação dá o tom melancólico que a cena necessita. O ir e vir da atriz se torna rotineiro, mas ao mesmo tempo carregado de angústia. Ela fica contando passos até que para em um canto e despeja o texto na forma em que foi escrito, incluindo a menção de quem está falando a frase, se a mãe ou sua filha, em um diálogo de acerto de contas nunca terminado. A angústia e a melancolia da cena me remeteram à solidão, algo tão vivo nos dias corridos em que vivemos.
Em seguida, nova projeção, indicando a segunda parte de Sopro, quando há uma livre adaptação para Ato sem palavras I. No fundo do teatro, uma cena poética, mas carregada de angústia. Uma senhora com bengala, perto dos oitenta anos, tenta se virar sozinha em uma sala, com todas as dificuldades de arrumar a mesa para tomar um simples chá da tarde. Um retrato vivo das intempéries da vida, especialmente as vivenciadas pelos idosos. Para representar tais intempéries, os Irmãos Guimarães optaram por usar um potente ventilador cuja velocidade do vento vai aumentando, não deixando nada em pé sobre a mesa onde a senhora tenta tomar seu chá.
Mais uma vez os Irmãos Guimarães ousaram, não ficaram no óbvio, e trouxeram o tema da solidão para uma reflexão coletiva.
Neste Sopro, a sinergia entre atrizes e cenário é fundamental, pois este último tem um papel importantíssimo no espetáculo, tornando-o visivelmente impactante e angustiante. Na medida em que a velocidade do vento produzido pelo aparelho avançava, eu ficava a pensar se aquela senhora frágil no palco aguentaria ficar de pé até o final. Fiquei imaginando se ela também voasse como os objetos voaram em cena.
Ao sair, fui cumprimentar Fernando, um dos irmãos Guimarães, quando fiquei sabendo que a senhora era Yara De Cunto, importante nome nas artes cênicas do início de Brasília e que não pisava em um palco há 52 anos. Fiquei impressionado com a disposição daquela senhora em enfrentar o ventilador.
Saí com a certeza que ventos de ousadia continuam a soprar da cabeça dos Irmãos Guimarães.

domingo, 14 de setembro de 2014

ÉDIPO

Nunca imaginei a peça Édipo Rei, escrita por Sófocles, ser encenada como uma comédia. Vi algumas montagens, boas e ruins, mas sempre na linha do drama grego. Eis que entra em cartaz no Teatro da Caixa Cultural de Brasília a montagem Édipo da Companhia do Chapitô, trupe portuguesa com quase duas décadas de existência. Releitura no estilo comédia, na qual Édipo, embora rei, é um rejeitado, um coitadinho. Fui conferir o espetáculo na noite de domingo, sessão das 19 horas. O teatro não ficou cheio, mas recebeu um bom público. Pelo ingresso, paguei R$ 10,00 (meia entrada - doador de um brinquedo).
Quando as luzes se apagaram e a cortina se abriu, apresentou-se um palco completamente nu, sem cenário e com iluminação fixa. Apenas três atores em cena: Jorge Cruz, Marta Cerqueira e Tiago Viegas. Não há figurinos de época, nem mesmo figurinos atualizados. Os atores usam a mesma roupa do dia a dia que todos nós usamos.
História clássica do teatro, sem cenário, sem figurino? Foi a pergunta que me fiz bem no início da peça. Com três minutos de encenação, meus temores se foram. Os atores se bastam e garantem o excelente espetáculo. O trabalho de corpo dos três é sensacional, até mesmo nas expressões mais toscas, próprias de comédias no estilo pastelão. Eles se revezam para interpretar todas as personagens da história escrita por Sófocles. E brincam com esta situação ao longo da encenação.
A história é a que conhecemos: em uma consulta ao oráculo, Jocasta e Laio descobrem que o filho deles, Édipo, matará o pai e se casará com a mãe. Eles abandonam o filho em uma montanha para que ele morra por lá, mas Édipo sobrevive, cresce em outra cidade, e, ao voltar para a sua terra natal, mata Laio no meio do caminho, desvenda o indecifrável enigma da Esfinge e se casa com a rainha Jocasta. Sem saber nada do real grau de parentesco que tinha com estas pessoas. A profecia foi cumprida.
O que é diferente é a forma como a Companhia do Chapitô encena esta tragédia grega. Da maneira mais cômica possível, mas sem perder a face dramática da história. Algumas adaptações que eles fizeram ao texto deixam a história com uma cara de atualidade. O enigma da Esfinge tem relação com a teoria da relatividade de Albert Einstein. O caminho para Tebas é indicado como se Édipo estivesse em Brasília. Os atores utilizam expressões bem brasileiras, como "arre égua" e "vixe Maria", aproximando o texto do público.
Ri muito enquanto assistia esta versão portuguesa dirigida por John Mowat e José Carlos Garcia, especialmente com as dúvidas que surgem quando Édipo descobre que Jocasta, sua mulher, é sua mãe. As perguntas que Jocasta, Édipo e Creonte fazem são de rolar de rir. Seriam os filhos de Édipo e Jocasta também netos de Jocasta e irmãos de Édipo? E outras tantas são feitas, deixando a plateia rindo sem parar. 
Destaco quatro cenas nas quais o trabalho de corpo da trupe valeu a minha presença no teatro na noite de domingo, a saber o nascimento de Édipo; a consulta que ele faz ao oráculo; o confronto do mesmo Édipo com a Esfinge; e a tortura que a pastora sofre para confessar o que tinha feito com o filho de Jocasta e Laio. O contorcionismo de Marta Cerqueira como a pastora sendo torturada é tão impressionante, como se fosse uma artista do Circo Imperial da China ou do Cirque du Soleil, que o público não resistiu e aplaudiu em cena aberta.
Ao final, longos minutos de ovação, com muitas palmas e gritos de bravo ecoando da plateia.
A Companhia do Chapitô fez uma ótima releitura da tragédia Édipo Rei. Gostei muito do que vi.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

(DES) ESPERAR

Chegou o fim de semana e lá fui eu novamente para o teatro. Mais uma peça de Brasília. Conferi a montagem da Andaime Cia de Teatro que voltou em cartaz no Teatro Funarte Plínio Marcos, dentro da programação da Ocupação Funarte. Comprei ingresso na hora. Inteira a R$ 20,00. As cadeiras foram colocadas no palco. O público, antes de entrar, foi avisado que apenas a primeira fileira da plateia poderia ser utilizada além das cadeiras do palco, o que formou um quadrado em torno do local onde as quatro atrizes encenaram (Des) Esperar. No elenco estão Ana Luisa Bellacosta, Kamala Ramers, Patrícia Del Rey e Tatiana Bittar, esta última também assina a direção.
A peça é uma livre adaptação de Esperando Godot, de Samuel Beckett. Quatro mulheres estão juntas esperando alguém ou alguma coisa. Neste esperar, elas se completam, não conseguindo mais se separarem. Ficam dependentes e interdependentes. E elas estão juntas dia após dia a espera daquela que não comparece. Neste tempo, memórias de cada uma delas vem à tona, rendendo momentos descontraídos e bem humorados ao espetáculo. Cada uma tem um talento e as outras, para passar o tempo, pedem para que tal dom seja revivido, seja novamente mostrado. E assim a vida passa, dia após dia, em uma rotina sem fim. A espera leva ao desespero, que conseguem vencer para novamente esperar.
Nitidamente há improvisos ao longo do espetáculo. Um barulho de uma moto que passa na rua ou vozes de crianças do lado de fora do teatro são suficientes para entrar algo no texto. Isto torna única cada encenação.
A movimentação das atrizes em cena é um ponto de destaque da peça. Utilizam todo o espaço cênico para marcar uma passagem do tempo, seja para trás, seja para frente, e, quando estão na eterna espera, ficam confinadas em um quadrado de luz no centro do tablado. E a passagem do tempo também é poeticamente marcada por uma areia que jorra no palco, como se fosse uma ampulheta.
Para completar, a trilha sonora é executada ao vivo por dois instrumentistas.
A espera continua.
Vale o ingresso.

sábado, 6 de setembro de 2014

(M) EU CAIO - MAIS UMA DE AMOR

Já escrevi aqui que cada vez mais gosto das peças produzidas em Brasília. E na noite de sexta-feira, dia 05 de setembro, esta afirmação mais uma vez se confirmou. Em todas as vezes que o monólogo (M) Eu Caio - Mais Uma de Amor esteve em cartaz na cidade não consegui ir por algum motivo.
A peça entrou em cartaz novamente em Brasília, desta feita no Teatro Funarte Plínio Marcos, dentro da programação de setembro da Ocupação Funarte. Fui conferir. Ingressos na bilheteria, somente em dinheiro, por R$ 20,00 (inteira). Montagem da Cia Provisória de Teatro (DF), com dramaturgia e direção sob a responsabilidade de Carolina Vianna.
Tinha pouca gente no teatro. Uma pena, pois o espetáculo vale a pena.
O cenário é formado por várias caixas de papelão, com nichos que servem de prateleiras e estantes, além de um inusitado bar. Ao centro, dois bancos, também de papelão, servem de apoio para o desenvolvimento do monólogo. Assim que o público se acomodou, a sala ficou entregue à escuridão. Quando o palco foi iluminado, o ator Arthur Tadeu Curado estava sentado de costas para a plateia, com um cigarro aceso em uma das mãos e faz, ainda de costas, a sua apresentação como Caio Fernando Abreu, escritor gaúcho cujos textos, contos e escritos sempre me atraíram. O monólogo traz os pensamentos de Caio.
Em cerca de cinquenta minutos, Arthur Curado desfila uma coletânea de pensamentos do escritor, entremeados com frases de personagens criados por Caio em suas publicações. O texto toca em temas pungentes, como a morte (o escritor morreu em decorrência da AIDS), a amizade e o amor, assunto recorrente na obra deixada por ele. A mistura de frases do escritor com as faladas por suas personagens ficou muito interessante. O texto ficou coeso, trouxe temas importantes para reflexão, sem apelações. Curado está leve em cena, incorporando o escritor de forma humorada, mas com profundidade.
Tem certas falas que ele olha fundo nos olhos de quem está mais à frente da plateia, como se o escritor estivesse falando com a pessoa em tempo real.
A trilha sonora também é digna de nota. Para mim, foi muito bem escolhida.
Gostei do que vi.

domingo, 31 de agosto de 2014

LA FUNCIÓN POR HACER - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Ainda sábado, 30 de agosto de 2014. Terceira peça do dia. Ainda Cena Contemporânea 2014. Sessão das 21 horas no Teatro Sesc Garagem para ver a montagem espanhola La Función Por Hacer, do grupo Kamikaze Producciones. Pela primeira vez neste festival, exigiram o comprovante de meia entrada na porta do teatro. No meu caso, paguei meia por ser correntista do Banco do Brasil. Sala completamente lotada. Cadeiras dispostas nos quatro cantos do teatro, com o palco ao centro, como se fosse um teatro de arena. As luzes ficaram acesas o tempo inteiro e o ar condicionado, muito frio quando entramos, foi desligado assim que começou o espetáculo. Na medida em que o tempo passava, mais e mais pessoas se abanavam com o que tinham nas mãos. O calor era cada vez mais forte. Os atores suavam em cena, mas ninguém se mexeu para ligar o ar. Ficamos assando até o final da peça, que durou perto de uma hora e meia. Uma mulher da plateia chegou a pedir, em alto e bom som, quando uma das atrizes sai correndo e abre a porta da sala para que ela deixasse a porta aberta. Sei que muitos atores pedem para desligar o ar, mas fico imaginando se eles fariam isto se estivessem se apresentando em algum teatro de Dubai.
Quanto ao espetáculo, é uma adaptação de texto clássico de Luigi Pirandello, Seis Personagens A Procura de Um Autor. Com roupagem naturalista, o grupo traz a história para os dias atuais, e consegue debater a essência do teatro, deixando cada um dos presentes absorvidos com o que se passava no tablado. Atuações ótimas, texto bem falado. Mesmo sem nenhum tipo de tradução, não foi difícil compreender o que os atores falavam, sempre em espanhol, mesmo nos momentos em que os diálogos ocorriam em velocidade máxima.
Um belo espetáculo que faz jus aos vários prêmios que já recebeu na Espanha.
Gostei muito.

FIOS DE HISTÓRIAS - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Fios de Histórias foi mais uma peça da programação do Cena Contemporânea 2014 de procedência local. Dirigida ao público infantil, é baseada em livro de Salman Rushdie chamado Haroun e o Mar de Histórias. Idealizada por Mariza Vargas e dirigida por Míriam Virna, a peça entrou em cartaz no Teatro II do CCBB, que recebeu excelente público, entre adultos e crianças, para a sua sessão de estreia ocorrida no sábado, dia 30 de agosto, às 17 horas.
O cenário, adereços e figurino chamam a atenção pelo material utilizado em suas confecções: papelão, plástico, tampinhas de garrafas pet, entre outros itens recicláveis. Este uso já demonstra a preocupação de transmitir uma mensagem de preservação do meio ambiente, no caso, da água. O espetáculo dura cerca de uma hora e cumpre seu papel de entreter senhores, senhoras, meninos e meninas, como eles anunciam logo no início.
A interpretação é claramente baseada em desenhos animados, o que garantiu uma melhor aproximação com as crianças presentes, que não desgrudavam os olhos do palco, prestando atenção nas aventuras de Haroun e seu pai, Rashid Kalifa, um contador de histórias que perde o poder de contar histórias quando Soraya, sua mulher, o abandona. Pai e filho vão à Cidade Tagarela e lideram a luta contra o malvado Kathan Shud para salvar o Mar de Histórias.
Com exceção de Kael Studart, que interpreta o garoto Haroun, todos os demais atores se revezam em mais de um papel. E justamente o que faz um único papel, Studart, é o ponto fraco da peça. Sua interpretação é linear. Nem mesmo com expressões faciais fortes, que usa e abusa durante o espetáculo, ele consegue passar verdade. Já os demais atores estão bem caracterizados em cena, com destaque para a ótima interpretação de Mário Luz, ator que também esteve em outra montagem neste festival: Autópsia. Ele interpreta o gavião-avião, o vizinho de Haroun, o pretendente da princesa e o terrível Kathan Shud. A aparição dele como o pretendente da princesa foi tão forte que assustou uma criança que estava na primeira fila. O menino chorava tanto que seus pais tiveram que tirá-lo do teatro na mesma cena.
Usando muita fantasia, o texto trata de temas muito atuais, como a necessidade de preservação do meio ambiente, e o valor da amizade.
História deliciosa.

sábado, 30 de agosto de 2014

OTHELO - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Othelo, clássico de William Shakespeare, foi a décima quarta peça que vi no festival Cena Contemporânea 2014. Foi na noite de sexta-feira, dia 29 de agosto, no Teatro I do CCBB, sessão das 21 horas. Teatro bem cheio para conferir esta montagem de um grupo argentino, integrado por quatro atores, conduzido por Gabriel Chamé Buendía. Confesso que fui para o teatro sem muita vontade de ver a peça, pois não gostei do que li na sinopse disponível no catálogo do festival. Buendía propõe releituras dos grandes clássicos do teatro, especialmente de textos escritos por Shakespeare, utilizando linguagens pouco ortodoxas, como o teatro burlesco ou elementos do clown (detesto esta palavra!), além de abusar do teatro corporal, no qual os atores tem que demonstrar excelente preparo físico e muita maleabilidade em cena. Não gosto do teatro que abusa de linguagem própria de palhaços no circo. É certo que já vi, e gostei, de peças encenadas pelo grupo Clowns de Shakespeare, do Rio Grande do Norte, o que me motivou um pouquinho para conferir esta montagem de Othelo.
Mas foi duro de aguentar. Quase duas horas de espetáculo, cheio de gagues típicas de programas de humor que passam na TV aberta ou das comédias pastelão que são sucesso de público nos palcos do Brasil. Há elementos interessantes nesta montagem, como a utilização de projeções ao vivo de algumas cenas, com os atores fazendo caras e bocas, além de recursos cênicos de movimento de água utilizando panos prateados, mas, no geral, não me agradou a peça.
O texto ficou em segundo plano. O que se sobressaiu foi a comédia burlesca, resvalando no pastelão. Era como se eu estivesse vendo Os Melhores do Mundo falando em espanhol. Com quarenta minutos de espetáculo, já tinha visto o suficiente para saber que não iria gostar. Com uma hora e vinte minutos, pensei que estava vendo um filme que nunca tem fim, como Lawrence da Arábia ou E O Vento Levou...
Ao final, a esmagadora maioria do público presente no teatro aplaudiu de pé, com gritos calorosos, demonstrando a satisfação que teve em ver aquela montagem de Othelo. Percebi que minha sintonia era totalmente diferente, mas não estava só. Karina e André P. também não gostaram. Carol, também minha amiga, gostou muito. Realmente não apreciei o espetáculo.

NOCTILUZES - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Festival Cena Contemporânea 2014, décimo primeiro dia, sexta-feira, 29 de agosto. Chegou a vez de Noctiluzes, outra montagem brasiliense na programação do festival. Teatro Goldoni, 19 horas. A peça já tinha estado em cartaz no Teatro II do CCBB, no primeiro semestre deste ano. Em cena, a Cia Plágio de Teatro. Quando li que era uma encenação de texto do argentino Santiago Serrano, fiquei empolgado, pois gostei muito de dois textos dele que já foram encenados por atores de Brasília, Dinossauros e Fronteiras. Ambos poéticos, ambos com personagens que não se conhecem, ambos com reflexões profundas sobre o ser humano, suas decepções, desilusões e sua necessidade de interagir com outros.
Noctiluzes me instigou mais ainda por ser um texto escrito por Serrano para o grupo brasiliense.
Em cena, os atores Chico Sant'Anna, que dá vida a um cego; Sérgio Sartório, responsável também por tradução e direção, que interpreta um homem que precisa cumprir uma promessa feita para a esposa; e Vinícius Ferreira, vivendo um homem desiludido. Nenhum dos três se conhece, mas estão no mesmo píer de uma cidade portuária que não mais recebe navios. É noite. Cada um está no píer por motivos que só eles sabem e não querem, a princípio, compartilhar seus medos e segredos com ninguém. Ao longo dos cerca de 80 minutos de duração do espetáculo, surpresas e reviravoltas pontuam a história, deixando o público cada vez mais ligado. As tiradas do cego são sensacionais.
A poesia de Serrano continua presente neste texto, assim como a discussão da solidão, da falta de solidariedade, mas também tem a construção de elos fortes de amizade, mesmo entre desconhecidos, a comunhão em prol de um bem comum.
As interpretações dos atores estão em ponto certo, sem arroubos gestuais, em perfeita comunhão com a situação. O cenário, simples, mas carregado de significados, também é digno de nota. Gostei muito.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

TOMORROW - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Ainda na noite de quinta-feira, dia 28 de agosto de 2014, após ter conferido Adaptação no CCBB, fui para o Teatro Funarte Plínio Marcos, onde acontecia a estréia de Tomorrow, montagem do grupo escocês Vanishing Point Theatre Company. Quando lá cheguei, uma fila enorme já se formava para entrar. Encontrei-me com Hélida G. e André P. e ficamos batendo papo sobre as peças que já tínhamos visto até então dentro da programação do Cena Contemporânea 2014. Tomorrow é a primeira co-produção do festival. Muita expectativa, ainda mais que um ator brasiliense, William Ferreira, estaria em cena. Teatro completamente lotado. O calor de sempre na sala de espetáculo, já que lá não tem ar condicionado. Antes de iniciar, o diretor da peça, Matthew Lenton apareceu no palco para um recado ao público. Disse que a peça seria falada em inglês, com legendas em português, e que algumas falas não seriam traduzidas, o que era normal, não seria uma pane no sistema de legendagem. Os atores improvisavam em cena. Disse para a plateia prestar atenção no que ocorria no tablado, seria tudo perfeitamente entendível. Informou, ainda, que figurino, aparelhos de iluminação, entre outros objetos, ficaram retidos na alfândega brasileira no aeroporto de Guarulhos. Agradeceu à equipe do festival por ter conseguido providenciar o que precisava para colocar a peça em cena.
A história gira em torno de um asilo de velhos, todos senis, contando a rotina diária deles com os empregados do local. Para envelhecer os atores, o diretor optou por usar aquelas próteses de borracha, muito comum nos filmes hollywoodianos. Embora com feições totalmente distintas, os velhinhos ficaram sem expressão. Não gostei.
A ideia da peça até que é interessante, mas a forma como foi contada não me agradou. A julgar pelos que deixaram o teatro enquanto rolava a encenação, não fui o único a pensar assim. Roubando uma intervenção de minha amiga Hélida G., soou muito moralista, o típico moralismo inglês, que não consegue expiar seus pecados históricos. Tive uma sensação de ser culpado por todas as mazelas contra velhinhos existentes no mundo, especialmente em asilos. A tentativa de colocar a culpa em toda a humanidade é patente. Uma pena que foi assim, pois a iluminação e a movimentação dos atores em cena é muito boa. A cena da tentativa de revolta dos idosos, com direito a tentativa de fuga como se fossem prisioneiros de um cárcere de segurança máxima, é hilária. Mas fica por aí. Ao final, pela primeira vez no festival dentre as peças que assisti, não ouvi nenhum grito de entusiasmo. Ouvi apenas palmas, até diria que foram palmas protocolares. Vi muita gente sentada, sem nem mesmo aplaudir, grupo ao qual me filiei. Na saída, comentários diversos, mas nenhum deles de forma entusiasmada pelo que viram em cena. Realmente não gostei do que vi.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

ELEFANTE - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Já vi vários espetáculos e filmes que têm a velhice e/ou a relação do homem com a morte como tema. Alguns ótimos, outros bons e outros sofríveis. Assim que terminou a peça Elefante, dentro da programação do Cena Contemporânea 2014, imediatamente a coloquei no rol das ótimas. Fui ver a sessão das 21 horas do domingo, dia 24 de agosto, no Teatro Funarte Plínio Marcos. Além das cadeiras normais do local, foram colocadas outras tantas no palco, dando uma sensação de teatro de arena, com a trama sendo desenvolvida em um círculo no centro do palco. Teatro completamente lotado. Iluminação marcada e o texto indicavam o espaço físico onde rolava uma determinada cena, podendo ser na casa do fotógrafo casado com uma médica, na casa dos pais do fotógrafo, ou no consultório médico da mulher do fotógrafo. Não há troca de figurinos. O destaque fica por conta do texto, da direção e da interpretação leve, bem humorada, mas no tom certo, sem a comédia suplantar o drama, ponto alto da peça. Montagem da Probástica Cia de Teatro, grupo do Rio de Janeiro, que conta no elenco com Igor Angelkorte (também responsável pela direção), Samuel Toledo, Fernando Bohrer, Chandelly Braz e Livia Paiva. Elefante tem como mote a velhice, a forma como todos nós lidamos com ela, além de discutir a relação dos humanos com a própria morte.
A história acontece em um tempo onde as pessoas permanecem jovens a partir de uma descoberta de uma pílula da juventude. Mas existe uma ilha, para onde só se vai com autorização do governo, chamada Sênica, onde as pessoas não tomam esta pílula, envelhecem e morrem naturalmente. A pílula garante a juventude sem doenças, mas não garante vida eterna. As pessoas continuam a morrer por causas não naturais, como acidentes e assassinatos. Por causa da longevidade, o governo exerce um rigoroso controle de natalidade, só podendo ter filhos os casais que recebem uma autorização para tal. O fotógrafo vai para a ilha fazer um trabalho encomendado pelo governo para estampar mais uma campanha publicitária da pílula. O contato com os moradores da ilha, especialmente os mais velhos, e com o modo de vida daquele local, transformam sua vida e sua forma de pensar a morte, a sua própria morte. Ele decide largar tudo para viver em Sênica. Dez anos depois, ele retorna com as marcas da velhice esculpidas em seu corpo e também acaba por mudar a vida da sua mulher e de seus pais. Tudo isto é contado de forma leve, mas sem deixar de lado a profundidade do tema. Além da questão da velhice e da morte, a busca desenfreada pela juventude nos dias atuais, por meio da medicina e da tecnologia, também é retratada no texto. Em todo momento, em todas as cenas, mesmo as mais banais, há pontos para uma boa reflexão.
A cena mais tocante acontece quando o fotógrafo, já velho, vai tirando a sua roupa em frente a sua mulher, mostrando suas rugas, sua corcunda, as marcas do tempo em seu corpo. Ela, tocada com a situação, pega uma máquina fotográfica e faz algumas fotos dele ali parado, nu, no centro do palco. Uma lágrima rolou pelo canto dos meus olhos. Muito choro silencioso rolou no teatro.
Lindo, comovente, bem dirigido, bem encenado.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

MISANTHROFREAK - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Início da noite de domingo, dia 24 de agosto de 2014. Pouco antes das 19 horas eu já estava na fila para entrar no Teatro Goldoni para conferir mais uma atração do Cena Contemporânea 2014. Era a peça Misanthrofreak, montagem do Grupo Desvio (DF), com atuação, direção, luz e som de Rodrigo Fischer. Mais uma vez, sala completa para ver Fischer em cena. Inspirada em Samuel Beckett, a peça tem pouco menos que uma hora de duração. O ator já estava em cena quando o público começou a entrar e se acomodar nas cadeiras do local.
Dois telões, uma parafernália de equipamentos eletrônicos, papéis A4 espalhados pelo chão, uma boneca inflável, uma mala, um balão prateado em forma de coração, e alguns brinquedos compõem o cenário. Fischer vestia um figurino que me lembrou Carlitos (parafraseando a música de João Bosco e Aldir Blanc, O Bêbado e A Equilibrista). Não há muito texto. O que vale é a movimentação do ator em cena, de sua interação com os equipamentos eletrônicos, com as imagens que rolavam nos telões, com a plateia, e o seu trabalho de corpo. Mesmo com pouco texto, é super compreensível o que se quer passar. No palco, Fischer lida com questões profundas do mundo individualista em que vivemos. Medo, solidão, fracasso, insegurança, sonhos, entre outras questões, são mostrados de forma poética, com humor, o que permitiu uma perfeita sinergia com o público. As referências cinematográficas acontecem a todo o instante, seja no próprio figurino do ator, seja na sua forma de atuar como se estivesse em um filme mudo, seja nas muitas cenas de beijos projetadas no telão, enquanto ele aborda, dança e transa com a boneca inflável. A cena é ao mesmo tempo poética, engraçada e triste.
Um providencial karaokê em que o ator participa termina com a participação natural da plateia.
Há uma cena sensacional, quando ele declara seu amor por alguém que assistia ao espetáculo (no dia, pareceu-me que era um ator estrangeiro de uma peça integrante do festival) e o leva para o altar, com direito a troca de alianças (um enorme anel azul de plástico), enquanto outra pessoa do público segurava uma câmara do cenário, filmando a cerimônia, com transmissão ao vivo para nós do público. É divertida, mas também serve para refletir sobre as nossas dificuldades em tratar certos temas em público.
Gostei muito do que vi. 

domingo, 24 de agosto de 2014

CUARTETO DEL ALBA - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Ainda sábado, dia 23 de agosto de 2014. Depois de ver Mundaréu, peça que estava em cartaz no Teatro II do CCBB, era vez de conferir mais um espetáculo da programação do Cena Contemporânea 2014. Não precisei sair correndo, pois a peça estava programada para o Teatro I do CCBB. Deu tempo até para fazer um rápido lanche no café do centro cultural. A movimentação de pessoas do mundo teatral brasiliense era grande no hall de acesso ao Teatro I. Todos para ver a montagem espanhola da Laurentzi Producciones S.L.. Pela primeira vez nesta edição não vi a sala de teatro completamente tomada, embora estivesse com ótimo público. A peça era Cuarteto del Alba, texto de Carlos Gil Zamora, direção de Lander Iglesias. Ao entrar, a iluminação do cenário que consistia de quatro cordas caindo nos quatro cantos do palco, com uma providencial fumaça cênica, despertou minha curiosidade. Assim que as luzes se apagaram, dois atores e duas atrizes entraram com seus respectivos bancos, se posicionando ao lado das cordas, cada um em seu canto. Começaram a jorrar, em uníssono, um discurso que se perpetuaria ao longo dos setenta minutos de duração do espetáculo. Nada foi traduzido deste embaralhar de palavras inicial. Mas, em seguida, cada um falou, ou melhor, discursou pausadamente, com legendagem simultânea em projeção estrategicamente colocado no alto do palco. A trama, se é que tem uma, é desenvolvida em capítulos. Uma verborragia é despejada no público, tocando em temas tão díspares, mas ao mesmo tempo tão próximos entre si, como política (o fantasma da era Franco na Espanha é uma constante nas últimas peças espanholas que tenho visto e nesta não foi diferente), a desilusão de um amor, a dependência química ou memórias de uma história não vivida. O texto é denso, é bom, mas a forma de executá-lo no palco me pareceu chata, enfadonha. São quatro pessoas em cena, mas que tem seus discursos próprios. Foram quatro monólogos longos, com certa poesia em alguns momentos, méritos para a iluminação de Iñaki Garcia.
Confesso que não gostei. Ao final, como muitos da plateia, nem mesmo aplaudi, quanto mais ficar de pé. Não sei se ainda estava sob o impacto de Mundaréu, peça que tinha visto poucas horas antes, mas esperava mais. Mas festival é assim mesmo. Não há como gostar de tudo.

MUNDARÉU - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Quinto dia do Cena Contemporânea 2014. Mais um ingresso na mão para conferir outra peça integrante da programação do festival. Desta vez no Teatro II do CCBB. Camilo e André também tinham entrada para o mesmo espetáculo. Assistimos juntos. Como estava marcada para ter início às 19 horas, meia hora antes já estávamos na rampa de acesso ao teatro. A montagem era Mundaréu, textos de Plínio Marcos adaptados por Alexandre Ribondi, dirigido por Alice Stefânia e encenado pela companhia brasiliense Dois Tempos Cia de Teatro. A cena inicial aconteceu quando ainda estávamos na fila, do lado de fora, na grade bem perto de onde eu estava. Cena rápida, mas de uma energia fenomenal. Dois adolescentes em um embate para ver quem domina a área no submundo do crime. Duas performances fortes que nos deram o tom de como seria dentro do teatro. Já devidamente acomodados, mais uma vez a produção conta o número de cadeiras vazias e libera a venda de ingressos para quem esperava na bilheteria do CCBB. Teatro lotado. Três músicos posicionados do lado esquerdo do palco. Uma música pontua o seguimento da trama. O cenário nem tem grandes arroubos, todo em ferro, com estruturas que os atores empurravam entre uma cena e outra, bem dentro do clima tenso dos textos sempre atuais de Plínio Marcos. Tais estruturas serviam como cama, como esconderijo, como prisão, tudo dependia do que era retratado no momento. O adolescente é Querô (há um filme brasileiro que narra a história deste personagem), que fora atingido por um tiro dado por um policial. Ele agoniza enquanto um jornalista quer gravar seu depoimento para uma reportagem. Ao mesmo tempo, o grupo nos mostra a mãe de Querô, uma prostituta que tem seu filho retido pela cafetina Violeta logo que ele nasce e vai trabalhar com uma travesti, em prostíbulo definido pelo texto como um mocó. A história tem narrativa não linear, indo e vindo no tempo, fazendo um contraponto entre a história do adolescente Querô e sua mãe Dilma tentando economizar dinheiro para dar ao filho uma vida decente. Os atores se entregam nos seus papéis de forma contundente, passando uma verdade nua e crua. Alice Stefânia tem uma direção segura, sem firulas, onde o que importa é a verdade passada pelos atores em cena, em excelente trabalho corporal.
A cena das mortes de Dilma e Querô, que acontecem em tempos distintos na cronologia da história, mas que nós, o público, presenciamos acontecendo ao mesmo tempo no palco, tem um apelo tão forte junto ao público que algumas pessoas chegaram a se emocionar. Um jovem sentado na mesma fila em que eu estava chorava tanto, com resfolegares intensos, que tive a impressão que Davi Maia, um dos atores do grupo, ao dizer sua fala final, tentava achar, no público, de onde vinha aquele choro.
Além da força do grupo, as interpretações individuais são dignas de nota. Miguel Peixoto, além de fazer a travesti, é um dos músicos do trio que toca ao vivo durante os cerca de setenta minutos do espetáculo.
Helena Miranda dá um show fazendo dois papéis: a cafetina Violeta e a prostituta amiga de Dilma.
Ao sair do teatro, só ouvia elogios dentre aqueles que tiveram o privilégio de assistir àquela sessão. Já é uma das minhas peças favoritas do Cena. E olha que ainda faltam mais oito dias para terminar esta maratona de teatro.

sábado, 23 de agosto de 2014

PERDOA-ME POR ME TRAÍRES - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Fabíola quis ir comigo ao teatro para ver Perdoa-me Por Me Traíres, terceira montagem do grupo brasiliense Novos Candangos, em cartaz no Teatro Goldoni e integrante da programação do Cena Contemporânea 2014. Ela não tinha ingresso. Chegamos uma hora antes do horário previsto para ter início a peça. Fabíola pegou a décima senha para a fila de espera. Às 19 horas, tocaram o tradicional sino do teatro, sinal de que a entrada estava liberada. Todos que tinham bilhete entraram e se acomodaram. Os nove atores já estavam em cena, fazendo uma performance com passos lentos, apenas com roupas íntimas, distribuindo olhares expressivos entre eles. Com todos assentados, a produção contou os lugares vagos, liberando a venda de ingressos para quem estava na fila de espera. Fabíola conseguiu entrar, sentando ao meu lado.
Perdoa-me por Me Traíres tem texto original de Nelson Rodrigues. O grupo adaptou a história de Glorinha, criada pelo seu tio Raul após a morte de sua mãe. Seu tio é apaixonado pela sobrinha e a cria sob rédea curta. Glorinha é levada a um prostíbulo por uma amiga de colégio e se encanta pelo que vê. Para se libertar do tio, Glorinha planeja uma forma de se livrar dele. Lendo o que escrevo, quem conhece Nelson Rodrigues pensa logo em um dramalhão clássico. No entanto, a trupe candanga levou este universo rodrigueano para o universo dos filmes, com elementos de Rocky Horror Picture Show, icônico filme lançado em 1975, dirigido por Jim Sharman. Assim, o drama teve pitadas de comédia e de terror, além de musical, pois o grupo tem a característica de inserir números musicais em suas montagens. O resultado foi inusitado. Teve alguns poucos que abandonaram o teatro antes de terminar a encenação, enquanto outros aplaudiram entusiasticamente ao final, com gritos de satisfação. Uma mulher desceu as escadas do Goldoni repetindo a frase "orgulho de ser brasiliense".
Os seguidores puristas de Nelson Rodrigues não gostariam desta adaptação, cheia de gritos, músicas, elementos alusivos a desenho animado, caras e bocas nas interpretações das personagens. Os que curtem uma ousadia nos palcos, adorariam.
Quanto a mim, digo que gostei, embora alguns pontos não me agradaram. Um deles foi a inserção das músicas. Enquanto na montagem anterior do grupo, Os Beatniks em A Gaivota, o elemento musical tenha funcionado tão bem, desta vez achei desnecessário, não agregando muito ao contexto. Também não gostei do tom dado às interpretações musicais. Outro ponto que achei desnecessário foi colocar a ótima atriz Tati Ramos como um cachorro na primeira parte da trama.
Por falar em partes, é visível a divisão da encenação em duas delas. A primeira, que se passa no prostíbulo, é muito focada na estética do cinema, enquanto na segunda parte, o drama teatral toma conta e tem performances ótimas de Xiquito Maciel e Tati Ramos.
Embora o público soltasse risadas após cada vez que a personagem vivida por Diego de Leon dizia a frase "tá na hora da homeopatia", na segunda parte da história, achei que isto quebrava o clima de drama que rolava no centro do palco. Esta performance me fez lembrar personagens de frase únicas de desenhos animados. Talvez isto seja proposital, quem sabe?
Mas os pontos de destaque positivo suplantam aqueles que dos quais não gostei. Começo por cenário e figurino, ambos concebidos por Cyntia Carla. Ela usou como inspiração tanto o filme Rock Horror Picture Show, quanto o que se usava na década de 1950, época em que foi escrito o texto original da peça. Também achei ótima a interpretação de Xiquito Maciel como o tio Raul. Mas o que mais me chamou a atenção foi a cena do aborto. Justamente a cena que divide a trama em duas partes. Várias referências são fundidas em uma cena original: O Massacre da Serra Elétrica, Rock Horror Picture Show, videoclipes, Irmãos Guimarães, Nelson Rodrigues, desenho animado, enfim, uma miscelânea da cultura pop. O único senão para esta cena fica por conta do cheiro de ketchup que toma conta do ar e fica até o final do espetáculo.
Foi a quarta peça que vi do Cena. Todas até aqui tinham um elemento de ousadia, de quebrar paradigmas. E esta não foi diferente.
O grupo voltará em cartaz no mesmo Teatro Goldoni a partir de 05 de setembro, primeiro final de semana após terminado o festival Cena Contemporânea. Para quem perdeu, nova oportunidade de ver este ousado e inusitado trabalho dos Novos Candangos.