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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

CÁSSIA ELLER - O MUSICAL

Ingressos disputadíssimos para ver Cássia Eller, O Musical, em cartaz no CCBB Brasília. Carol conseguiu comprar para mim. Fui sozinho, na sessão das 20 horas de uma segunda-feira, dia 15 de dezembro de 2014. O centro cultural estava bem movimentado, sinal de que acertaram em abrir à segundas, quando a maior parte dos estabelecimentos culturais da cidade fica fechado. Também sinal que a população curte sair em qualquer dia da semana, basta ter algo interessante em cartaz. Alguns amigos de Belo Horizonte já tinham visto o musical, quando ele esteve em cartaz no CCBB BH, e me recomendaram bastante. A fila para comprar ingressos de última hora estava bem grande, mas todos conseguiram entrar. O teatro ficou quase com lotação completa. Poucos lugares vazios eram vistos aqui e ali, provavelmente ingressos de cortesia que os agraciados não foram buscar.
O espetáculo tem duas horas e quinze minutos de duração, sem intervalo, cuja direção artística coube a João Fonseca e Vinícius Arneiro.
A força deste musical está no repertório, muito bem conduzido pelos atores-cantores que integram o elenco. São trinta e quatro músicas que fizeram parte do universo de Cássia Eller, desde a sua adolescência até a fatídica morte ocorrida em 29 de dezembro de 2001. Lembro-me bem que estava em um hotel em Fortaleza, onde passei a virada de ano de 2001 para 2002, quando soube da morte dela. Foi chocante para mim, pois tinha acabado de ver um show da cantora em Brasília naquele mesmo mês de dezembro. Um dos melhores, senão o melhor, show de Cássia.
Voltando ao musical, Tacy de Campos, a intérprete de Cássia Eller no palco, é muito boa, tanto como atriz, quanto como cantora. Ela estudou bem a maneira como Cássia se postava e comportava nos palcos, fazendo os mesmos gestos e firulas. No entanto, ela não tentou imitá-la na maneira de cantar. Isto foi um ponto super positivo. Ela interpretou as suas canções com estilo próprio, mesmo porque seu timbre de voz é mais grave do que o da cantora homenageada. O restante do elenco, formado por Thainá Gallo, Jandir Ferrari, Emerson Espíndola, Jana Figarella, Juliane Bodini e Eline Porto, segura bem todo o espetáculo, quando se revesam em mais de um papel, sem perder a harmonia. Ainda há uma ótima banda, formada por cinco integrantes, colocando o tempero certo em cada uma das canções. Destaco Juliane Bodini e Emerson Espíndola com excelentes interpretações para Marilu e Nando Reis, respectivamente. A direção musical coube a Lan Lan, a percussionista que integrou a banda de Cássia em seus últimos shows. Por ela ter vivido intensamente a companhia de Cássia Eller, a parte musical é realmente o ponto alto desta peça.
O texto, autoria de Patrícia Andrade, não faz feio, mas é raso, passando pelas etapas da vida de Cássia como um trem de alta velocidade. Para quem não acompanhou a vida da cantora, ficou parecendo que ela chegou em São Paulo em uma noite e no dia seguinte já estava de mudança para o Rio de Janeiro.
Quem for esperando um musical com muita produção cênica, esqueça. Não há mudança de cenário. Tudo se passa no mesmo palco, cuja decoração lembra uma gruta.
Quem busca emoção, como nos recentes musicais Cazuza e Elis, também podem esquecer. A única parte emocionante do musical é o seu final, com uma bela homenagem a Cássia, quando o elenco, com exceção de Tacy de Campos, interpreta a última canção da noite, a que eu mais gosto do repertório de Cássia: Segundo Sol.
Como já escrevi, o forte do espetáculo é a parte musical. Recente, viva, mas atemporal. Gostei do musical. Viva Cássia Eller!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

NAVALHA NA CARNE

Vi, pelo Facebook, que uma nova montagem de Navalha na Carne, de Plínio Marcos, seria levada ao palco do Teatro Goldoni pelo grupo Teatro Gasolina - Combustível em Pesquisa Cênica no final de semana de 12 a 14 de dezembro de 2014. Fui conferir no sábado, sessão das 21 horas. Comprei ingresso diretamente na bilheteria com meia hora de antecedência, quando paguei R$ 40,00 (inteira). O teatro recebeu um bom público. Enquanto as pessoas entravam e se acomodavam em suas cadeiras, a atriz Tássia Oliveira, vestida como uma trabalhadora de fábrica com proteção no rosto, daquelas usadas pelos soldadores de peças metálicas, tocava alguns acordes em uma guitarra, como se ditasse o ritmo dos que entravam, e o ator Márcio Andrade ficava em uma cadeira no palco, ouvindo uma rádio qualquer. Quando entrei, pensei que veria um show do Wando, pois a beirada do palco estava coberta com calcinhas de variados formatos e cores e muita maçã pelo chão. Quando soou o terceiro sinal, as luzes se apagaram, Tássia Oliveira se posicionou no canto direito do palco ladeada por uma parafernália de instrumentos musicais e de eletrodomésticos. Márcio Andrade interpreta Vado, o cafetão que vive às custas da prostituta Neusa Sueli, interpretada por Meny Vieira. Completa o elenco o ator Ronaldo Saad, vivendo a travesti Veludo. A história já é muito conhecida, e para o público brasiliense, ela está bem presente, já que pelo menos dois grupos encenaram parte deste texto em 2014. Caso da Cia Sutil Ato, com Autópsia; e da Dois Tempos Cia de Teatro, com Mundaréu. Isto sem falar na homenagem que uma trupe de Brasília fez em novembro para o autor maldito, em uma noite no Teatro Plínio Marcos, com a performance Bendita Noite Maldita. O texto é o mesmo, mas com enfoques e interpretações bem distintas. Pela cenografia e figurino, esta montagem que vi no Teatro Goldoni é mais cinematográfica. A começar pelas referências visuais, como a caracterização dos personagens (figurino e maquiagem), que me fez lembrar os aloprados da trilogia Mad Max, sucesso dos anos oitenta. Ou ainda na jocosa cena em que Vado e Neusa Sueli imitam a famosa cena romântica de Titanic, com Neusa Sueli de braços abertos sendo abraçada por Vado e ambos cantarolando a música chiclete de Celine Dion. O diretor Júlio Cruccioli também ousou em colocar confete como se fosse água, além de ter usado uma fechadura para representar uma porta trancada. A utilização da sonoplastia ao vivo, executada por Tássia Oliveira, faz uma alusão aos programas de rádio (ou mesmo à sonoplastia utilizada no cinema). Assim, ouvimos sons de secador de cabelo, máquina furadeira e ou liquidificador, além de estridentes pratos de bateria, pontuando algumas cenas. Recurso interessante e que funcionou bem.
A peça tem três partes distintas. Na primeira delas, acontece o encontro de Vado com Neusa Sueli, quando ela retorna para casa depois de um dia de labuta, quando ele a acusa de não deixar o seu dinheiro diário. O texto é jorrado da boca dos atores de forma cruel, bruta mesmo, além de embates físicos que chegam a causar um certo desconforto na plateia. A segunda parte, a melhor delas, tem a entrada de Saad como Veludo, acusado pelo casal de ter roubado a grana de Vado. Em um primeiro momento, causou-me estranheza a forma que Saad falava e ria, com voz grave (mesmo recurso utilizado por Andrade e Vieira na primeira parte), sem nenhuma afetação. A sua performance tem uma curva crescente, com ótimas tiradas, especialmente quando ele se utiliza de gestos mais afetados (ele faz uma cruzada de pernas bem ao estilo Sharon Stone em Instinto Selvagem), para logo se recompor, e voltar a falar grosso. Também aqui as cenas de embates físicos são bem reais, com puxões de cabelo, tapas na cara e empurrões fortes. A terceira parte volta a ser entre Vado e Neusa Sueli, e aqui a peça cai um pouco, culminando com um final nada apoteótico. Ver Neusa Sueli sentada em um banquinho, na penumbra, comendo um sanduíche frio, é triste e melancólico. O público chegou a aplaudir, já que a penumbra se transformou em escuridão, como se ali terminasse a peça. No entanto, houve mais uma curta aparição de Veludo esfaqueando Vado, mas a melancolia da cena anterior tirou todo o impacto desta cena final.
Nesta montagem, a sensualidade, sempre presente, por mais cruel que seja a encenação de Navalha na Carne, esteve completamente ausente. O diretor focou na violência do texto, expondo as características comuns da cena do submundo das drogas, da prostituição e dos marginalizados. E este mergulho no submundo é sugerido no próprio figurino dos atores, pois eles usam, em algum momento, óculos de mergulho ou de natação, o que os torna bizarros e mais ousiders ainda.
Foi uma montagem diferente que preservou a força do texto atemporal de Plínio Marcos.
Saí com a certeza que o teatro feito em Brasília está cada vez melhor.

domingo, 14 de dezembro de 2014

CHACRINHA - O MUSICAL

No domingo, dia 30 de novembro de 2014, fui com Karina, Alberto e Cristiano conferir Chacrinha - O Musical, em cartaz no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro. A faixa etária do público era bem alta, indicando um certo saudosismo que o musical provoca. Adorava ver Chacrinha, especialmente quando ele era atração da Rede Bandeirantes, com menos luxo nos cenários, atrações de maior apelo popular e um desbunde das Chacretes. Minha expectativa em relação ao musical era grande, potencializada pelo fato de ser a estreia do cineasta Andrucha Waddington na direção de um musical, pois gosto muito dos filmes que ele dirigiu.
Cenários e figurinos são muito bons, sinal que a indústria do entretenimento realmente consolidou os musicais como atrações rentáveis no Brasil e está investindo.
A peça dura em torno de três horas, dividida em dois atos.
O primeiro ato é mais onírico, mostrando a formação do apresentador Chacrinha, um dos grandes comunicadores da televisão brasileira. Mistura presente e passado, com apresentações relâmpagos de cenas do programa televiso, com atores interpretando cantores, cantoras e bandas que eram figurinhas fáceis nos palcos da Buzina do Chacrinha e da Discoteca do Chacrinha. Como eram muitos estes cantores, a qualidade de interpretação de alguns deixa a desejar. Algumas destas aparições são ótimas, como as de Adriana, Ney Matogrosso e Titãs, enquanto outras beiram o pastiche, como as de Rosana e Fábio Júnior. Mas a força deste primeiro ato é realmente a construção física e psicológica do famoso comunicador, mostrando a saída de Abelardo Barbosa do interior de Pernambuco para a cidade grande, culminando com sua chegada ao Rio de Janeiro e apresentando seu primeiro programa da Rede Globo. Nesta fase, Chacrinha é interpretado de forma competente e carismática pelo ator Leo Bahia. O fim deste ato mostra, de forma simples, mas cheia de brilhos, em todos os sentidos, a passagem de Abelardo Barbosa para o apresentador Chacrinha, quando Bahia cede o papel para Stepan Nercessian. Hora do intervalo. Roda, roda e avisa, um minuto de comercial...
O segundo ato, na sua maior parte, é uma réplica das tardes de sábado, quando ia ao ar o programa do Chacrinha. Durante o intervalo, algumas pessoas do público presente são escolhidas para compor a plateia do programa televiso, o que os faz ver o restante do musical em arquibancadas montadas no palco. Nesta parte, o musical fica chato e repetitivo, embora Nercessian segure muito bem o papel, com tiradas a la Chacrinha perfeitas. Tem até o famoso bordão "quem quer bacalhau?", quando réplicas em espuma são jogadas para o público do teatro.
Neste segundo ato, muito rapidamente, as Chacretes são apresentadas, mas nada como era nos programas televisivos. Para piorar, a ausência de Gretchen no musical, que era uma das presenças mais constantes do programa, foi "compensada" com a intérprete de Rita Cadillac, talvez a mais famosa das Chacretes, cantando os sucessos da Rainha do Bumbum. Posso até estar enganado, mas não me recordo de Cadillac cantar as músicas de Gretchen durante os programas. Lembro-me dela se lançar cantora na década de oitenta cantando uma música que lembrava os sucessos de Gretchen, mas isto não é retratado no musical, mesmo porque a história enfocada é a do Chacrinha. Faltaram, no entanto, questões ligadas à relação do apresentador com suas assistentes de palco. A aparição das Chacretes ficou muito superficial.
O final volta a ser onírico, com Leo Bahia e Stepan Nercessian juntos no palco, quando passado e presente se fundem na mente confusa do apresentador.
O musical é bom tecnicamente, as canções escolhidas refletem a história do apresentador, mas faltou uma dose de emoção. Deixei o teatro com a sensação de que vi uma história contada mecanicamente.
Poderia ter sido melhor.

artes cênicas

ÓPERA DO MALANDRO

Estive no Rio de Janeiro no último final de semana de novembro, quando aproveitei para conferir alguns espetáculos. Entre eles, a nova montagem de Ópera do Malandro, de Chico Buarque, que ficou em cartaz no Theatro NET Rio de 08 de agosto a 30 de novembro de 2014. Fui na sessão da sexta-feira, 28 de novembro, 21 horas. Tinha comprado o ingresso pela internet, pois tinha lido que estava muito concorrido. E realmente estava, pois o teatro ficou totalmente lotado. Fui com Karina, Alberto e Cristiano. Não conhecia o teatro, embora antigo. Ficamos em local que nos permitiu ótima visualização do palco.
Ópera do Malandro sempre esteve no meu imaginário, em minhas memórias afetivas. Quando da primeira montagem, no final dos anos setenta, eu tinha treze anos e a censura da época não permitia a entrada para menores de dezoito anos., portanto, não consegui ver. Lembro-me bem quando ouvi o LP duplo com as músicas da montagem, lançado na mesma época do musical. Fui passar uns dias na casa de meu padrinho. Ele tinha acabado de comprar o vinil. Eu não me cansava de colocar aquele vinil na vitrola. Logo decorei todas as músicas. Alguns anos depois, meu tio me deu justamente aquele vinil. Foi uma alegria infinita. Hoje não tenho mais nenhum toca discos, mas o LP ainda existe. Está na casa de Ricardo, intacto, perfeito.
Voltemos ao musical.
A primeira montagem ficou marcada pela qualidade do elenco e pela músicas, que criaram vida própria, descolada da peça, com interpretações memoráveis de Gal Costa, Elba Ramalho, Moreira da Silva, entre outros. Ruy Guerra transpôs a história de Chico, que é baseada nas óperas A Ópera do Mendigo e A Ópera dos Três Vinténs, para o cinema em meados dos anos oitenta. É esta referência visual que tenho, além de montagens amadoras feitas por escolas de artes cênicas. Houve uma outra montagem bem cotada no início deste século, que tinha Lucinha Lins como uma das intérpretes, mas não consegui ver.
A ler que esta nova montagem era dirigida por João Falcão, fiquei curioso, pois ele é um diretor que foge do óbvio. Ao ler sobre o elenco, vi que realmente ele se distanciou das montagens anteriores ao escalar apenas atores para todos os papéis masculinos e femininos. Apenas uma atriz integra o elenco, interpretando João Alegre, uma espécie de narrador e costurador da história, com figurino que nos remete aos musicais da Broadway. E outra questão que me deixou curioso foi a escalação do sambista Moyseis Marques para viver o protagonista Max Overseas, já que ele não é ator.
O musical tem muitos personagens. Com apenas quatorze atores em cena, Falcão colocou alguns deles vivendo mais de um papel. Assim, os capangas de Max Overseas são interpretados pelos mesmos atores que fazem as moças do bordel de Duran. Pode haver uma dificuldade de identificação por parte do público, mas os atores conseguiram encontrar um ponto definido para cada papel, com gestual, timbre de voz (especialmente quando cantam), e postura no palco ora masculino, ora feminino.
Quanto à história, Falcão não se utilizou de nenhuma licença poética. Ambientou-a na mesma Lapa do original, assim como na mesma época, anos 40. A história é contada em dois atos, sendo o primeiro mais longo e com um desenvolvimento melhor da história. A segunda parte me pareceu corrida, com um final abrupto, como se tudo tivesse que ser resolvido de uma vez só.
O elenco é o ponto alto do espetáculo. A qualidade técnica e vocal de todos é muito boa, diferente do que acontece em alguns musicais em cartaz nos últimos anos, como Cazuza, onde o elenco de apoio é muito inferior vocalmente do que o protagonista. Destaco o sambista Moyseis Marques, habitué nos bares da Lapa, que além de ótima interpretação musical, se revelou um bom ator. O ator que faz Duran, Ricca Barros, também é destaque, assim como Adrén Alves, que interpreta Vitória, esposa de Duran e mãe de Teresinha de Jesus (Fábio Enriquez). O público escolhe rapidamente seu favorito. Na primeira aparição de Eduardo Landim como Geni, a empatia com a plateia é tanta que quando ele interpreta Geni e O Zepelim (no vinil cantada por Chico Buarque), a ovação é inevitável, assim como na apresentação dos atores ao final do espetáculo.
Após três horas de espetáculo, saí satisfeito, mesmo com a ressalva que o final foi apressado.

artes cênicas

sábado, 29 de novembro de 2014

DESBUNDE

Na quinta-feira, dia 27 de novembro, em noite chuvosa, na companhia de Karina e Allan, fui ao Teatro Dulcina onde está em cartaz até o próximo sábado, dia 06 de dezembro, o espetáculo Desbunde. Comprei os ingressos por R$10,00 cada um na hora do almoço no caixa do Balaio Café. Uma animada aglomeração se formava na porta do teatro aguardando a liberação da entrada. Uma fila involuntária tomou forma e, de repente, nos vimos inseridos nesta fila. Um ator, caracterizado como uma drag queen, surgiu de dentro do teatro para dar o clima do que seria o musical que veríamos a seguir. Bem humorada, com tiradas certeiras, ele/ela mexia com todo mundo. O teatro não ficou lotado, mas recebeu um bom público. Feitos os devidos anúncios, ainda pela drag queen em figurino dominado pelos paetês, as luzes se apagam e surge em cena o ator Tulio Guimarães interpretando Claudia Valeria, sem assentos, pois ela gostava de quebrar regras, especialmente as gramaticais. Esta frase já resumia o enredo da peça. Desbunde é uma ode à liberdade de expressão, à alegria, à ousadia. Desbunde é um desbunde, na melhor concepcão da palavra, muito em voga nos anos setenta. E é justamente a estética, o comportamento e a contracultura da década de setenta que serviram de inspiração para Sérgio Maggio, roteirista da peça, nos brindar com um espetáculo delicioso.
Cinco atores em cena, o já citado Tulio Guimarães, e ainda Roustang Carrilho (Saquarema Satanás), Kael Studart (Petit du Buá), Guilherme Monteiro (Savana Sargentelli) e Túlio Starling (Marquesa), transgridem a ordem, quebram tudo e inceideiam o palco do Teatro Dulcina. O grupo Dzi Croquettes e suas loucuras nos palcos brasileiros e mundiais na década de setenta, em plena ditadura militar no Brasil, servem de combustível para a história contada em Desbunde. Tal história vem em narrativa não linear, com ótimas performances individuais, tocando em temas sensíveis, como a repressão dos tempos em que os militares mandavam no nosso país (tema oportuno, por sinal, tendo em vista as recentes manifestações pedindo intervenção militar pós vitória de Dilma nas eleições de outubro); como o preconceito contra gays, especialmente pós AIDS; ou como relações familiares conturbadas. Desbunde inspira-se, ainda, na era hippie, com a liberdade sexual, o uso de drogas e de roupas coloridas, de uma época de festa, de alegria, de amor, de solidariedade entre amigos.
Para além das performances individuais, que já destaquei acima, o espetáculo cresce, e muito, com as performances coletivas, especialmente nas coreografias sensuais preparadas por Livia Bennet.
A escolha do repertório é outro ponto de destaque, com predominância de músicas brasileiras, de forte apelo junto ao público, como a divertida canção Vingativa, de Rita Lee, que é apresentada pelo grupo logo no início, ou Conga La Conga, sucesso eterno de Gretchen, no auge de sua carreira.
Juliana Drummond e Abaetê Queiroz, os responsáveis pela direção, deixaram Desbunde leve, gostoso, pra cima, mesmo quando os temas mais sensíveis são explorados, e esta sensação de leveza envolve o público de tal maneira que quando a gente percebe, todos nós estamos no universo decadente da boate Desbunde, onde se passa a trama. E esta energia flui de tal maneira que a participação em uma espécie de flash mob no palco torna-se algo natural, com ações e reações do público impensáveis em outros espaços culturais. A entrega é natural. A catarse é inevitável.
Por fim, a escolha do Teatro Dulcina foi acertadíssima. Um espaço icônico para as artes cênicas de Brasília que hoje tem uma áurea decadente, mas que é sempre reverenciado por várias gerações do teatro brasiliense, especialmente em momento delicado para o meio cultural da cidade, com fechamentos de espaços e calotes das verbas do FAC.
Desbunde é ousado, é deboche, é provocativo, é alegre, é pulsante, é vida, é vigor, é teatro feito com paixão.
Saí do teatro com vontade de dançar, de continuar no universo de Desbunde.
Quero voltar e ver de novo. Quero vivenciar esta alegria novamente.

E retornei uma semana depois. Novamente saí com vontade de voltar.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

UM JANTAR COM HITCHCOCK

Fui conferir o mais novo espetáculo concebido por Alexandre Ribondi que está em cartaz no Teatro Goldoni: Um Jantar com Hitchcock. Era noite de estreia. Sala cheia. Comprei o ingresso meia hora antes do horário previsto para ter início a peça, pelo qual paguei R$ 30,00 (inteira). Fiquei na primeila fila. Quando entrei na sala, todos os onze atores já estavam em cena, com maquiagem forte, todas de forma bem macabra, o que me fez lembrar de filmes como Os Fantasmas se Divertem ou A Noiva Cadáver. Pensei que fosse um set de um filme policial ou mesmo um tabuleiro do jogo Detetive, onde peças como candelabro, livros e chapéus se faziam presentes. 
O texto é inspirado em fato real que inspirou uma peça que inspirou o famoso filme Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock. Desta vez, não conhecia, ou não me lembro de ter visto os atores e atizes em outras peças encenadas em Brasília. 
Dois amigos cometem um crime que consideraram perfeito. Para afastar qualquer suspeita, convidam o professor de filosofia que ministrava aulas na escola que frequentavam para um jantar, assim como as Graças, três irmãs que namoravam o filho deste professor. Para apimentar um pouco mais a história, estas mesmas Graças tinham namorado anteriormente um dos amigos que ofereciam o jantar. Um dos assassinos acaba por não conseguir se controlar e suas atitudes e nervosismo geram desconfiança nos convidados, bem como na empregada da casa. E a verdade é revelada ao final.
Ribondi assina texto e direção. Para uma história tipicamente policial e com um final conhecido para quem já viu o filme, ele trouxe elementos diferentes para a cena. Duas atrizes fazem a mesma empregada, mas não há revezamento no palco. Elas dialogam entre si, como se mente e corpo vivessem separados, mas sempre juntos. As Graças são interpretadas por três atrizes que agem juntas, possuem gestuais e figurinos parecidos, com falas complementares. Era como um coro do teatro grego, ou a tríade divina. Três entidades, uma só unidade. Um dos assassinos também é interpretado por dois atores que tem pesonalidades distintas, mostrando que o personagem tinha duplo caráter. Um ator fazia o papel de narrador, mas também interagia com as personagens. Uma das cenas que mais incomodam a quem está assistindo a peça é protagonizada pelo narrador. De muletas, ele dá uma volta ao redor do baú no centro do palco, apenas falando "blá-blá-blá, blá-blá-blá ". Confesso que fiquei agoniado com a cena.
Além destes elementos que fogem à mesmice do gênero policial, Ribondi introduz no texto uma discussão que pautou as redes sociais por ocasião das eleições de outubro, a existência de uma classe de seres humanos superiores. Ele chamou esta classe de o homem superior. E por ser assim, ele pode fazer o que quiser com os que considera inferior, inclusive matar por diversão, como a dupla fez com o jovem que é assassinado. Ou seja, este ser superior pode até matar um inferior que nada lhe acontecerá. Em um momento, uma das Graças se vira para o público e condena os que se acham superiores aos pobres, aos menos afortunados, aos trabalhadores mais simples, aos nordestinos. Uma nítida reprovação de Ribondi ao que ele viu e leu nas redes sociais.
Outro ponto interessante na encenação é o caráter sensual que está presente no texto e na interpetação dos personagens. As insinuações de um romance homossexual entre os dois amigos que cometeram o crime acontecem em vários momentos, assim como fica uma dúvida no ar se o professor também tem interesses carnais para com o aluno mais racional.
Ao final, uma plateia entusiasmada aplaudiu os atores, mesmo depois que eles saíram de cena, fazendo com que retornassem ao palco para agradecer ao público a recepção calorosa.
Gostei do que vi.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

VE (NE) NUS

Convidei Karina, Cristiano e Alberto para ir comigo ver a peça Ve (ne) nus, em cartaz no Pavilhão I do CCBB de Brasília. Espetáculo da companhia brasiliense Teatro dos Ventos - Confraria Artística, cuja dramaturgia e direção coube a Fernando Martins. No elenco, além do próprio Fernando Martins, estão Luiz Felipe Ferreira e Luciana Loureiro. Ingressos esgotados para a sessão das 19 horas de domingo, dia 09 de novembro de 2014.
Cheguei mais cedo para pegar os ingressos e vi a trupe passar no vão do CCBB já paramentados para a peça. Duas crianças que brincavam por ali pararam o que estavam fazendo, ficaram mirando aquelas pessoas estranhas maquiadas e vestidas de preto, perguntando, ao final, ao pai se aquele grupo era formado por extraterrestres. Claro que sorri.
Como o espetáculo é no pavilhão de vidro ao final do estacionamento do centro cultural, um espaço multimeios, a configuração para o teatro contou com a instalação de uma arquibancada ampla. Claro que não tem o mesmo conforto de uma cadeira com encosto, mas a peça é curta, com cerca de uma hora de duração, o que não chega a incomodar ficar sentado nas pranchas de madeira da arquibancada.
No palco, além dos três atores, havia uma banda executando a trilha sonora ao vivo, postada do lado esquerdo, além de mais seis atores vestidos de negro. Tais pessoas faziam parte do coro, em uma alusão ao teatro grego, já que o tema tem ligação direta com a mitologia grega.
Os efeitos cênicos são muito bons, incluindo iluminação e sonoplastia. O figurino seguiu o cenário seco, nu, bem escuro. A ideia era passar um clima tenso, meio de terror, contando uma versão bem diferente da Vênus glamourizada que estamos acostumados a ler e a ver em obras de arte. Vênus aqui, ou Ve (ne) nus, é má e exerce esta maldade enlouquecendo seus pretendentes e levando-os à morte. Nesta versão, Vênus é mais do que a deusa do amor e da fertilidade. Ela flerta descaradamente com a morte.
Quanto ao texto, confesso que não gostei. Recheado de metáforas e para quem não lê o folheto da peça que é entregue quando ainda estamos na fila para entrar, fica um pouco confuso perceber estas metáforas verbais e visuais.
Acho louvável um trabalho de pesquisa e de concepção teatral como o grupo fez, incluindo vários elementos cênicos que distanciam a encenação do teatro praticado na Grécia antiga, embora mantendo um coro interessante que faz parte do todo. No entanto, tais elementos cênicos - trilha sonora ao vivo, sonoplastia, iluminação, figurino, projeção de vídeo, utilização de maquete para marcar o dia e a noite, narrativas ao vivo em um microfone colocado no lado direito do palco, estética de filmes de terror (lembrei-me de Hitchcock e seu sensacional Os Pássaros por mais de uma vez) e de ação (não sei porque, mas me veio à mente os filmes da saga Jogos Vorazes) - suplantaram, e muito, o texto e a encenação. Em alguns momentos, ficou incompreensível o que os atores ou o coro falavam, pois havia muita informação sonora e visual ocorrendo ao mesmo tempo.
Ao final, a plateia estava visivelmente dividida. Alguns aplaudiam entusiasticamente de pé, enquanto outros permaneceram sentados praticando as palmas protocolares.
Fiquei neste último grupo.
Ao sair, vi as crianças que chamaram o pessoal da trupe teatral de extraterrestres. Meu sorriso desta vez foi mais longo.

domingo, 9 de novembro de 2014

POEIRA

Depois de uma semana pesada, com reuniões, viagens, deslocamentos longos de avião e coordenação de grupos de discussão, retornei a Brasília com fome de teatro. Escolhi ver Poeira, espetáculo que voltou para à grade de programação do Espaço Cena. Como o teatro é pequeno, liguei umas duas horas antes do início da peça e reservei meu ingresso, que custou R$ 30,00 (inteira). Sessão de sábado, dia 08 de novembro de 2014, 21 horas. Cheguei faltando quarenta minutos para o horário previsto para ter início Poeira. Uma pequena mesa fazia a vez de bilheteria. Identifiquei-me, paguei e peguei meu ingresso. Um fotógrafo perguntou se eu poderia posar para uma foto em frente ao banner da peça com o programa na mão. Fiz com prazer a pose. Sentei-em em uma das simpáticas mesas colocadas no corredor do bloco. Como não há lanchonete ou café no local, uma pessoa vendia alguns quitutes para os que chegavam ao teatro e aguardavam a liberação da entrada.
Com aviso discreto para deixarem os respectivos celulares em modo silencioso, liberaram a entrada pouco depois das 21 horas. Digo discreto, porque alguns não devem ter ouvido, pois celulares soaram no recinto por mais de uma vez (e não era o celular que tocava em cena!).
No pequeno palco, as três atrizes de Poeira desfiavam histórias resgatadas do passado enquanto o público se acomodava nas cadeiras dispostas em forma de arquibancada. Fiquei na última fileira, em bancos sem encosto, com ótima visão para a cena, mas muito quente, pois o ar condicionado não chegava até lá.
Poeira foi idealizado por Tatiana Carvalhedo, cuja dramaturgia partiu de poemas muito pessoais de Cristina Carvalhedo. A direção coube a Jonathan Andrade. No palco três psicólogas - Cristina Carvalhedo, Lydia Rebouças e Nayla Reis - que aceitaram o desafio de atuar neste espetáculo. A mão de Jonathan é visível, não só no aspecto visual, pois o cenário e o figurino são de sua autoria, mas também no modo de atuação destas não atrizes. Emoção e catarse.
Memórias de um passado que não volta, de um marido que faleceu, de aventuras quando a juventude era explosiva, de uma rebeldia gostosa, feliz. Memórias alegres e tristes. Memórias que emocionam qualquer pessoa. Memórias que poderiam pertencer a qualquer um dos presentes.
A utilização de barulho de avião para a passagem do tempo foi um recurso que gostei muito, assim como a espontaneidade das atrizes ao dialogar com a plateia, como se estivessem em seus consultórios. No entanto, em papéis invertidos. O público era o psicólogo que observava e ouvia o que as reais psicólogas tinham a dizer.
Compartilhar a dor em cena foi um modo de extirpar fantasmas, de mudar, de continuar a vida, bela como ela deve ser.
Um cena belíssima, carregada de elementos emotivos, é aquela em que Nayla Reis está sentada em uma cadeira, nua, molhada, chorando de saudade do marido que não mais estava presente. As amigas ajudando-a a se vestir e o seu choro convulsivo são tocantes.
Poeira fala da morte, enaltecendo a vida.
Vida longa para Poeira.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

AMORES SURDOS

O grupo teatral Espanca!, sediado em Belo Horizonte, completa dez anos de atividades com uma mostra no Centro Cultural Banco do Brasil de BH. A primeira vez que os vi foi no Galpão Cine Horto, também na capital mineira, com a deliciosa peça Por Elise. Depois disto, os vi em todas as ocasiões em que estiveram em Brasília, inclusive revendo Por Elise. Durante minha rápida passagem por Belo Horizonte, ao consultar a programação cultural da cidade, vi que estava em cartaz no Teatro 2 do CCBB BH Espanca! 10 Anos - Mostra 2014. Não tinha dúvidas. Comprei quatro ingressos, o máximo que poderia comprar, todos meia entradas, pois eu e meus convidados somos clientes do Banco do Brasil. Cada entrada custou R$ 5,00, acrescidos de R$ 2,00 por ingresso pelo fato de eu tê-las comprado pela internet. A peça era Amores Surdos, sessão das 20 horas de uma segunda-feira, dia 06 de outubro de 2014. Convidei Rogério, Emi e Kitty. Emi não pode aceitar o convite porque tinha aula de gastronomia na mesma noite.
Precisava trocar os ingressos na bilheteria até quarenta minutos antes do início do espetáculo. Aproveitei que ainda estava de férias, cheguei no centro cultural mais cedo, troquei os ingressos e sentei-me no Café com Letras Liberdade, localizado no térreo do espaço cultural, esperando Kitty e Rogério chegarem. Faltando meia hora para começar a peça, fomos para o segundo andar do prédio, onde já se formava uma fila na porta do Teatro 2, já que não havia lugar marcado. Em frente à bilheteria havia uma fila de espera para ingressos não trocados, pois estavam esgotados. Um rapaz entrou no hall do teatro perguntando se alguém tinha algum ingresso para vender. Só então me lembrei do ingresso do Emi. Dei a entrada para ele que ficou com cara de quem não estava acreditando que eu não queria vender a entrada excedente. Entramos perto de 20 horas no teatro. Naquela altura, eu tinha me lembrado de que já vira a peça Amores Surdos, especialmente da água barrenta que escorre no palco e a presença de um hipopótamo. Teatro lotado. Após os anúncios de praxe, as luzes se concentram no palco para ter início Amores Surdos, peça que estreou em 2006, no Paraná. O texto é de Grace Passô, enquanto a direção é assinada por Rita Clemente. Cinco atores integram o elenco: Assis Benevuto, Grace Passô, Gustavo Bomes, Marcelo Castro e Mariana Maioline.
Como diz um dos atores, logo em sua fala inicial, Amores Surdos é uma história normal, pois todas as histórias já tinham sido contadas ao longo dos tempos. A peça trata do cotidiano de uma família, onde a convivência diária cria uma forma peculiar e bem íntima de todos se relacionarem. O pai ausente é citado a todo momento, inclusive sendo chamado para tarefas banais em conjunto, como tomar um chá, por exemplo. A mãe é superprotetora e autoritária, exercendo um poder incrível nos filhos, inclusive em Júnior, o filho que mora fora do país e liga sempre para a família. Além de Júnior, há um filho com problemas respiratórios, outro que tem dificuldades de sair de casa, um terceiro que é sonâmbulo e a única filha que se tranca em um mundo próprio, quase nunca tirando o fone de ouvido das orelhas. O texto é forte, com diálogos recheados de metáforas, o que nos faz refletir muito sobre nossas relações, não só familiares, mas também com todos os que conhecemos. Uma frase da mãe, vivida por Grace Passô, ecoa até hoje em meus pensamentos. Ela diz mais ou menos assim: tem coisas que foram feitas para a gente viver com elas. Pura realidade!
Algumas cenas são incômodas, como a do filho com dificuldades de sair de casa que tem que deixar o lar, pois era o seu primeiro dia. Não se sabe de que, mas deduzi que era para trabalhar. Mas ele só consegue passar da porta de vidro e fica nela encostado, desesperado, querendo retornar para a segurança de seu lar. A água barrenta que escoa grande parte do espetáculo pelo palco, deixando os atores sujos, me deu uma aflição crescente. Os personagens eram tão cegos com sua vidinha rotineira, que não percebiam que algo estranho e inusual acontecia dentro da própria casa. De tão incômodas, algumas destas cenas acabaram por provocar risos nervosos na plateia.
O sapateado no momento do chá é uma estratégia interessante de mostrar como a vida deles era rotineira, sendo obrigatória a participação de todos. Por falar em sapateado, o rito de passagem da infância para a adolescência/fase adulta é bem representado justamente quando o personagem Pequeno, o que tem problemas respiratórios, calça seus sapatos para solar uma dança marcada, sem vontade, mas carregada de resignação. Já era o final do espetáculo.
Palmas entusiasmadas e longas ao final da peça.
Gostei muito de rever Amores Surdos.

sábado, 4 de outubro de 2014

TRÁGICA.3

Passei uma agradável tarde de quinta-feira, dia 02 de outubro, com meu amigo Adilson no Café com Letras do CCBB BH. Combinamos às 16 horas. Ambos fomos pontuais. Ri muito com as histórias de meu amigo, especialmente sobre sua viagem recente à Europa. Ele tinha dois convites para ver a estréia da peça Trágica.3 em Belo Horizonte, no Teatro 1 do CCBB BH, motivo pelo qual só poderíamos ficar batendo papo até perto de 19:30 horas. A estreia era somente para convidados. Por coincidência, eu tinha comprado entrada para a mesma peça um dia antes para a sessão de domingo, dia 05 de outubro. Lá pelas tantas, Adilson recebeu uma ligação. Era seu amigo dizendo que estava impossibilitado de acompanhá-lo naquela noite no teatro. Assim, fui agraciado com o convite. Desta forma, veria a peça duas vezes. Para aquela sessão, marcada para 20 horas, não havia lugar marcado, motivo pelo qual fomos para a fila às 19:40 horas. Há muito não frequento o mundo teatral de BH, não conhecendo quase ninguém, mas Adilson conhece todo mundo, pois trabalha com assessoria de comunicação na parte cultural. Ele me apresentou a vários atores, atrizes, diretores, produtores, enfim, aqueles que fazem arte na capital mineira. Pouco antes das 20 horas permitiram o acesso à sala onde seria encenada a peça Trágica.3. O teatro não é grande, tendo capacidade para 254 pessoas. Moderno, com boa inclinação da plateia, sentamos na quinta fileira. Com apenas oito minutos de atraso, teve início a peça.
Trágica.3 é uma versão atualizada de clássicos do teatro grego. Traz para o tablado três fortes personagens femininas: Antígona, Electra e Medeia. Três personagens femininas que tem a morte como fator marcante na vida delas. São três esquetes distintas. com três adaptações feitas por diferentes pessoas. Começa com Antígona (texto de Caio de Andrade), interpretada por Letícia Sabatella; segue com Electra (texto de Francisco Carlos), vivida por Miwa Yanagozawa; fechando com Medeia (texto de Heiner Müller), interpretada por Denise Del Vecchio. Completam o elenco os atores Fernando Alves Pinto e Marcelo H. A direção é de Guilherme Leme.
O cenário é despido de qualquer mobiliário, a não ser os instrumentos musicais tocados pelos próprios atores. A forma de atuação é diferente do que estamos acostumados a ver nos palcos teatrais. Não há muita movimentação das atrizes, com raros momentos na esquete de Antígona. O que vale é a forma de dizer o texto. Sabatella mistura partes cantadas na sua forma de dizer o texto. Ficou enfadonho. A falta de movimentação e os acordes de Sabatella, além da tristeza em cena, potencializada pela iluminação, tornam a esquete muito chata. Ao final, vi gente levantar para deixar a plateia. Antígona é a parte mais longa. Cansei.
Miwa Yanagozawa vem em sequência, ficando ajoelhada, com os braços abertos em forma de um V de cabeça para baixo quase o seu monólogo inteiro. Com maquiagem de destaque, como se estivesse sempre chorando, despeja seu texto de forma direta, verborrágica. Difícil de acompanhar. Gostei da parte em que ela dá um grito silencioso. Apenas a boca aberta, e a expressão forte e chorosa.
A última a entrar em cena é Del Vecchio, vestindo uma túnica preta, postada no lado esquerdo do palco, permitindo que todos vissem o vídeo com duas crianças brincando na beira mar que era projetado no telão ao fundo do palco (uma alusão aos filhos que ela teve com Jasão que ela mata). É a parte que mais apreciei, embora a atriz tenha ficado no mesmo lugar no palco o tempo inteiro, com poucos movimentos de braços.
Ao final de 75 minutos, findou-se Trágica.3. Os presentes aplaudiram de forma protocolar. Custaram a se levantar para aplaudir de pé. Alguns permaneceram sentados, que foi o meu caso.
O ponto alto da peça é a sonoplastia.
Depois do espetáculo, o público foi agraciado com um coquetel no hall em frente à porta de acesso ao teatro. Pelo que ouvi, as opiniões eram mais desfavoráveis à peça.
Durante a encenação de Sabatella, eu já havia decidido que não veria Trágica.3 por duas vezes. Devolverei os ingressos comprados para a sessão de domingo.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

SOPRO

O Coletivo Irmãos Guimarães vem apresentando, nos últimos anos, um interessante trabalho calcado na obra de Samuel Beckett, especialmente naqueles textos bem curtinhos, quase sem palavras. Não foi diferente com o mais novo trabalho do Coletivo. Estreou na noite de quinta-feira, dia 18 de setembro, no Teatro Sesc Garagem, a montagem Sopro, uma livre adaptação das peças Passos e Ato sem palavras I do dramaturgo inglês Beckett. Para conseguir um ingresso, basta levar dois quilos de alimentos não perecíveis. Os ingressos começam a ser distribuídos uma hora antes do horário previsto para ter início o espetáculo. Cheguei uns cinquenta minutos antes. Na minha frente, apenas quatro pessoas, todas elas do meio teatral brasiliense. Os Irmãos Guimarães sempre gostam de encenar seus espetáculos em locais menores, com plateia reduzida. Ao entrar, o público se depara com apenas uma arquibancada no teatro, quando normalmente são usadas três delas. A arquibancada ficou cheia para ver Sopro.
Uma projeção indica a primeira peça a ser apresentada, baseada em Passos. Uma única atriz (Liliane Rovaris) em cena, caminhando em um tablado feito com madeiras claras destas que se usam para fazer caixotes. Ao fundo, uma porta entreaberta, deixando escapar um feixe de luz. A atriz caminha de um lado para o outro, contando seus passos, enquanto dialoga com sua mãe, que não aparece em cena. Apenas uma voz em off, de alguém que sofre, de alguém que espera alguma coisa. Uma idosa com cerca de noventa anos de idade. A iluminação dá o tom melancólico que a cena necessita. O ir e vir da atriz se torna rotineiro, mas ao mesmo tempo carregado de angústia. Ela fica contando passos até que para em um canto e despeja o texto na forma em que foi escrito, incluindo a menção de quem está falando a frase, se a mãe ou sua filha, em um diálogo de acerto de contas nunca terminado. A angústia e a melancolia da cena me remeteram à solidão, algo tão vivo nos dias corridos em que vivemos.
Em seguida, nova projeção, indicando a segunda parte de Sopro, quando há uma livre adaptação para Ato sem palavras I. No fundo do teatro, uma cena poética, mas carregada de angústia. Uma senhora com bengala, perto dos oitenta anos, tenta se virar sozinha em uma sala, com todas as dificuldades de arrumar a mesa para tomar um simples chá da tarde. Um retrato vivo das intempéries da vida, especialmente as vivenciadas pelos idosos. Para representar tais intempéries, os Irmãos Guimarães optaram por usar um potente ventilador cuja velocidade do vento vai aumentando, não deixando nada em pé sobre a mesa onde a senhora tenta tomar seu chá.
Mais uma vez os Irmãos Guimarães ousaram, não ficaram no óbvio, e trouxeram o tema da solidão para uma reflexão coletiva.
Neste Sopro, a sinergia entre atrizes e cenário é fundamental, pois este último tem um papel importantíssimo no espetáculo, tornando-o visivelmente impactante e angustiante. Na medida em que a velocidade do vento produzido pelo aparelho avançava, eu ficava a pensar se aquela senhora frágil no palco aguentaria ficar de pé até o final. Fiquei imaginando se ela também voasse como os objetos voaram em cena.
Ao sair, fui cumprimentar Fernando, um dos irmãos Guimarães, quando fiquei sabendo que a senhora era Yara De Cunto, importante nome nas artes cênicas do início de Brasília e que não pisava em um palco há 52 anos. Fiquei impressionado com a disposição daquela senhora em enfrentar o ventilador.
Saí com a certeza que ventos de ousadia continuam a soprar da cabeça dos Irmãos Guimarães.

domingo, 14 de setembro de 2014

ÉDIPO

Nunca imaginei a peça Édipo Rei, escrita por Sófocles, ser encenada como uma comédia. Vi algumas montagens, boas e ruins, mas sempre na linha do drama grego. Eis que entra em cartaz no Teatro da Caixa Cultural de Brasília a montagem Édipo da Companhia do Chapitô, trupe portuguesa com quase duas décadas de existência. Releitura no estilo comédia, na qual Édipo, embora rei, é um rejeitado, um coitadinho. Fui conferir o espetáculo na noite de domingo, sessão das 19 horas. O teatro não ficou cheio, mas recebeu um bom público. Pelo ingresso, paguei R$ 10,00 (meia entrada - doador de um brinquedo).
Quando as luzes se apagaram e a cortina se abriu, apresentou-se um palco completamente nu, sem cenário e com iluminação fixa. Apenas três atores em cena: Jorge Cruz, Marta Cerqueira e Tiago Viegas. Não há figurinos de época, nem mesmo figurinos atualizados. Os atores usam a mesma roupa do dia a dia que todos nós usamos.
História clássica do teatro, sem cenário, sem figurino? Foi a pergunta que me fiz bem no início da peça. Com três minutos de encenação, meus temores se foram. Os atores se bastam e garantem o excelente espetáculo. O trabalho de corpo dos três é sensacional, até mesmo nas expressões mais toscas, próprias de comédias no estilo pastelão. Eles se revezam para interpretar todas as personagens da história escrita por Sófocles. E brincam com esta situação ao longo da encenação.
A história é a que conhecemos: em uma consulta ao oráculo, Jocasta e Laio descobrem que o filho deles, Édipo, matará o pai e se casará com a mãe. Eles abandonam o filho em uma montanha para que ele morra por lá, mas Édipo sobrevive, cresce em outra cidade, e, ao voltar para a sua terra natal, mata Laio no meio do caminho, desvenda o indecifrável enigma da Esfinge e se casa com a rainha Jocasta. Sem saber nada do real grau de parentesco que tinha com estas pessoas. A profecia foi cumprida.
O que é diferente é a forma como a Companhia do Chapitô encena esta tragédia grega. Da maneira mais cômica possível, mas sem perder a face dramática da história. Algumas adaptações que eles fizeram ao texto deixam a história com uma cara de atualidade. O enigma da Esfinge tem relação com a teoria da relatividade de Albert Einstein. O caminho para Tebas é indicado como se Édipo estivesse em Brasília. Os atores utilizam expressões bem brasileiras, como "arre égua" e "vixe Maria", aproximando o texto do público.
Ri muito enquanto assistia esta versão portuguesa dirigida por John Mowat e José Carlos Garcia, especialmente com as dúvidas que surgem quando Édipo descobre que Jocasta, sua mulher, é sua mãe. As perguntas que Jocasta, Édipo e Creonte fazem são de rolar de rir. Seriam os filhos de Édipo e Jocasta também netos de Jocasta e irmãos de Édipo? E outras tantas são feitas, deixando a plateia rindo sem parar. 
Destaco quatro cenas nas quais o trabalho de corpo da trupe valeu a minha presença no teatro na noite de domingo, a saber o nascimento de Édipo; a consulta que ele faz ao oráculo; o confronto do mesmo Édipo com a Esfinge; e a tortura que a pastora sofre para confessar o que tinha feito com o filho de Jocasta e Laio. O contorcionismo de Marta Cerqueira como a pastora sendo torturada é tão impressionante, como se fosse uma artista do Circo Imperial da China ou do Cirque du Soleil, que o público não resistiu e aplaudiu em cena aberta.
Ao final, longos minutos de ovação, com muitas palmas e gritos de bravo ecoando da plateia.
A Companhia do Chapitô fez uma ótima releitura da tragédia Édipo Rei. Gostei muito do que vi.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

(DES) ESPERAR

Chegou o fim de semana e lá fui eu novamente para o teatro. Mais uma peça de Brasília. Conferi a montagem da Andaime Cia de Teatro que voltou em cartaz no Teatro Funarte Plínio Marcos, dentro da programação da Ocupação Funarte. Comprei ingresso na hora. Inteira a R$ 20,00. As cadeiras foram colocadas no palco. O público, antes de entrar, foi avisado que apenas a primeira fileira da plateia poderia ser utilizada além das cadeiras do palco, o que formou um quadrado em torno do local onde as quatro atrizes encenaram (Des) Esperar. No elenco estão Ana Luisa Bellacosta, Kamala Ramers, Patrícia Del Rey e Tatiana Bittar, esta última também assina a direção.
A peça é uma livre adaptação de Esperando Godot, de Samuel Beckett. Quatro mulheres estão juntas esperando alguém ou alguma coisa. Neste esperar, elas se completam, não conseguindo mais se separarem. Ficam dependentes e interdependentes. E elas estão juntas dia após dia a espera daquela que não comparece. Neste tempo, memórias de cada uma delas vem à tona, rendendo momentos descontraídos e bem humorados ao espetáculo. Cada uma tem um talento e as outras, para passar o tempo, pedem para que tal dom seja revivido, seja novamente mostrado. E assim a vida passa, dia após dia, em uma rotina sem fim. A espera leva ao desespero, que conseguem vencer para novamente esperar.
Nitidamente há improvisos ao longo do espetáculo. Um barulho de uma moto que passa na rua ou vozes de crianças do lado de fora do teatro são suficientes para entrar algo no texto. Isto torna única cada encenação.
A movimentação das atrizes em cena é um ponto de destaque da peça. Utilizam todo o espaço cênico para marcar uma passagem do tempo, seja para trás, seja para frente, e, quando estão na eterna espera, ficam confinadas em um quadrado de luz no centro do tablado. E a passagem do tempo também é poeticamente marcada por uma areia que jorra no palco, como se fosse uma ampulheta.
Para completar, a trilha sonora é executada ao vivo por dois instrumentistas.
A espera continua.
Vale o ingresso.

sábado, 6 de setembro de 2014

(M) EU CAIO - MAIS UMA DE AMOR

Já escrevi aqui que cada vez mais gosto das peças produzidas em Brasília. E na noite de sexta-feira, dia 05 de setembro, esta afirmação mais uma vez se confirmou. Em todas as vezes que o monólogo (M) Eu Caio - Mais Uma de Amor esteve em cartaz na cidade não consegui ir por algum motivo.
A peça entrou em cartaz novamente em Brasília, desta feita no Teatro Funarte Plínio Marcos, dentro da programação de setembro da Ocupação Funarte. Fui conferir. Ingressos na bilheteria, somente em dinheiro, por R$ 20,00 (inteira). Montagem da Cia Provisória de Teatro (DF), com dramaturgia e direção sob a responsabilidade de Carolina Vianna.
Tinha pouca gente no teatro. Uma pena, pois o espetáculo vale a pena.
O cenário é formado por várias caixas de papelão, com nichos que servem de prateleiras e estantes, além de um inusitado bar. Ao centro, dois bancos, também de papelão, servem de apoio para o desenvolvimento do monólogo. Assim que o público se acomodou, a sala ficou entregue à escuridão. Quando o palco foi iluminado, o ator Arthur Tadeu Curado estava sentado de costas para a plateia, com um cigarro aceso em uma das mãos e faz, ainda de costas, a sua apresentação como Caio Fernando Abreu, escritor gaúcho cujos textos, contos e escritos sempre me atraíram. O monólogo traz os pensamentos de Caio.
Em cerca de cinquenta minutos, Arthur Curado desfila uma coletânea de pensamentos do escritor, entremeados com frases de personagens criados por Caio em suas publicações. O texto toca em temas pungentes, como a morte (o escritor morreu em decorrência da AIDS), a amizade e o amor, assunto recorrente na obra deixada por ele. A mistura de frases do escritor com as faladas por suas personagens ficou muito interessante. O texto ficou coeso, trouxe temas importantes para reflexão, sem apelações. Curado está leve em cena, incorporando o escritor de forma humorada, mas com profundidade.
Tem certas falas que ele olha fundo nos olhos de quem está mais à frente da plateia, como se o escritor estivesse falando com a pessoa em tempo real.
A trilha sonora também é digna de nota. Para mim, foi muito bem escolhida.
Gostei do que vi.

domingo, 31 de agosto de 2014

LA FUNCIÓN POR HACER - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Ainda sábado, 30 de agosto de 2014. Terceira peça do dia. Ainda Cena Contemporânea 2014. Sessão das 21 horas no Teatro Sesc Garagem para ver a montagem espanhola La Función Por Hacer, do grupo Kamikaze Producciones. Pela primeira vez neste festival, exigiram o comprovante de meia entrada na porta do teatro. No meu caso, paguei meia por ser correntista do Banco do Brasil. Sala completamente lotada. Cadeiras dispostas nos quatro cantos do teatro, com o palco ao centro, como se fosse um teatro de arena. As luzes ficaram acesas o tempo inteiro e o ar condicionado, muito frio quando entramos, foi desligado assim que começou o espetáculo. Na medida em que o tempo passava, mais e mais pessoas se abanavam com o que tinham nas mãos. O calor era cada vez mais forte. Os atores suavam em cena, mas ninguém se mexeu para ligar o ar. Ficamos assando até o final da peça, que durou perto de uma hora e meia. Uma mulher da plateia chegou a pedir, em alto e bom som, quando uma das atrizes sai correndo e abre a porta da sala para que ela deixasse a porta aberta. Sei que muitos atores pedem para desligar o ar, mas fico imaginando se eles fariam isto se estivessem se apresentando em algum teatro de Dubai.
Quanto ao espetáculo, é uma adaptação de texto clássico de Luigi Pirandello, Seis Personagens A Procura de Um Autor. Com roupagem naturalista, o grupo traz a história para os dias atuais, e consegue debater a essência do teatro, deixando cada um dos presentes absorvidos com o que se passava no tablado. Atuações ótimas, texto bem falado. Mesmo sem nenhum tipo de tradução, não foi difícil compreender o que os atores falavam, sempre em espanhol, mesmo nos momentos em que os diálogos ocorriam em velocidade máxima.
Um belo espetáculo que faz jus aos vários prêmios que já recebeu na Espanha.
Gostei muito.

A BICICLETA DO POETA - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Ao sair do Teatro II do CCBB no final da tarde de sábado, 30 de agosto, deparei-me com o início da performance do artista Emmanuel Marinho, oriundo da cidade de Dourados, em Mato Grosso do Sul. Ele estava andando em uma bicicleta (era na verdade um triciclo), cantando uma música de sua autoria. Algumas pessoas foram se posicionando na grama, bem próximo de onde acontecia a cena. Fiz o mesmo. Era o início do poético espetáculo A Bicicleta do Poeta, também integrante da programação do Cena Contemporânea 2014. Em cerca de 45 minutos, o ator/poeta cantou, declamou suas poesias, mexeu com o público, que foi chegando aos poucos, distribuiu poemas, deu tarefas para pessoas que estavam na plateia, enfim, interagiu de forma tranquila, espontânea, agradável e feliz com o público. Suas poesias que tinham os bichos do Pantanal e do Cerrado como tema são divertidas e agradam a crianças e adultos. Duas meninas que aparentavam ter cinco anos estavam absortas com os "causos" poéticos de Emmanuel. Até mesmo seu nome entrou na roda, em um poema que fala da ema, do anel, do ano e de Emmanuel. Também teve poesia que remetia a fatos históricos recentes da política brasileira, como o mandato de Fernando Collor na Presidência da República.
Mas o melhor foi a movimentação que ele fez para a sua bicicleta voar. Quando me vi, estava eu ajudando o artista, segurando um pano/cartaz com um poema que se apropriava da famosa frase "gentileza gera gentileza", enquanto ele declamava e cantava. Depois, todos fomos chamados a ajudar a bicicleta a  voar, quando seguimos, em cortejo, atrás do poeta e de sua bicicleta pelos espaços abertos do CCBB, despertando a curiosidade daqueles que estavam no restaurante ou simplesmente passeando pelo vão central do centro cultural. Poeticamente, a bicicleta voou, assim como todos nós.
Fui embora mais leve.

FIOS DE HISTÓRIAS - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Fios de Histórias foi mais uma peça da programação do Cena Contemporânea 2014 de procedência local. Dirigida ao público infantil, é baseada em livro de Salman Rushdie chamado Haroun e o Mar de Histórias. Idealizada por Mariza Vargas e dirigida por Míriam Virna, a peça entrou em cartaz no Teatro II do CCBB, que recebeu excelente público, entre adultos e crianças, para a sua sessão de estreia ocorrida no sábado, dia 30 de agosto, às 17 horas.
O cenário, adereços e figurino chamam a atenção pelo material utilizado em suas confecções: papelão, plástico, tampinhas de garrafas pet, entre outros itens recicláveis. Este uso já demonstra a preocupação de transmitir uma mensagem de preservação do meio ambiente, no caso, da água. O espetáculo dura cerca de uma hora e cumpre seu papel de entreter senhores, senhoras, meninos e meninas, como eles anunciam logo no início.
A interpretação é claramente baseada em desenhos animados, o que garantiu uma melhor aproximação com as crianças presentes, que não desgrudavam os olhos do palco, prestando atenção nas aventuras de Haroun e seu pai, Rashid Kalifa, um contador de histórias que perde o poder de contar histórias quando Soraya, sua mulher, o abandona. Pai e filho vão à Cidade Tagarela e lideram a luta contra o malvado Kathan Shud para salvar o Mar de Histórias.
Com exceção de Kael Studart, que interpreta o garoto Haroun, todos os demais atores se revezam em mais de um papel. E justamente o que faz um único papel, Studart, é o ponto fraco da peça. Sua interpretação é linear. Nem mesmo com expressões faciais fortes, que usa e abusa durante o espetáculo, ele consegue passar verdade. Já os demais atores estão bem caracterizados em cena, com destaque para a ótima interpretação de Mário Luz, ator que também esteve em outra montagem neste festival: Autópsia. Ele interpreta o gavião-avião, o vizinho de Haroun, o pretendente da princesa e o terrível Kathan Shud. A aparição dele como o pretendente da princesa foi tão forte que assustou uma criança que estava na primeira fila. O menino chorava tanto que seus pais tiveram que tirá-lo do teatro na mesma cena.
Usando muita fantasia, o texto trata de temas muito atuais, como a necessidade de preservação do meio ambiente, e o valor da amizade.
História deliciosa.

sábado, 30 de agosto de 2014

OTHELO - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Othelo, clássico de William Shakespeare, foi a décima quarta peça que vi no festival Cena Contemporânea 2014. Foi na noite de sexta-feira, dia 29 de agosto, no Teatro I do CCBB, sessão das 21 horas. Teatro bem cheio para conferir esta montagem de um grupo argentino, integrado por quatro atores, conduzido por Gabriel Chamé Buendía. Confesso que fui para o teatro sem muita vontade de ver a peça, pois não gostei do que li na sinopse disponível no catálogo do festival. Buendía propõe releituras dos grandes clássicos do teatro, especialmente de textos escritos por Shakespeare, utilizando linguagens pouco ortodoxas, como o teatro burlesco ou elementos do clown (detesto esta palavra!), além de abusar do teatro corporal, no qual os atores tem que demonstrar excelente preparo físico e muita maleabilidade em cena. Não gosto do teatro que abusa de linguagem própria de palhaços no circo. É certo que já vi, e gostei, de peças encenadas pelo grupo Clowns de Shakespeare, do Rio Grande do Norte, o que me motivou um pouquinho para conferir esta montagem de Othelo.
Mas foi duro de aguentar. Quase duas horas de espetáculo, cheio de gagues típicas de programas de humor que passam na TV aberta ou das comédias pastelão que são sucesso de público nos palcos do Brasil. Há elementos interessantes nesta montagem, como a utilização de projeções ao vivo de algumas cenas, com os atores fazendo caras e bocas, além de recursos cênicos de movimento de água utilizando panos prateados, mas, no geral, não me agradou a peça.
O texto ficou em segundo plano. O que se sobressaiu foi a comédia burlesca, resvalando no pastelão. Era como se eu estivesse vendo Os Melhores do Mundo falando em espanhol. Com quarenta minutos de espetáculo, já tinha visto o suficiente para saber que não iria gostar. Com uma hora e vinte minutos, pensei que estava vendo um filme que nunca tem fim, como Lawrence da Arábia ou E O Vento Levou...
Ao final, a esmagadora maioria do público presente no teatro aplaudiu de pé, com gritos calorosos, demonstrando a satisfação que teve em ver aquela montagem de Othelo. Percebi que minha sintonia era totalmente diferente, mas não estava só. Karina e André P. também não gostaram. Carol, também minha amiga, gostou muito. Realmente não apreciei o espetáculo.

NOCTILUZES - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Festival Cena Contemporânea 2014, décimo primeiro dia, sexta-feira, 29 de agosto. Chegou a vez de Noctiluzes, outra montagem brasiliense na programação do festival. Teatro Goldoni, 19 horas. A peça já tinha estado em cartaz no Teatro II do CCBB, no primeiro semestre deste ano. Em cena, a Cia Plágio de Teatro. Quando li que era uma encenação de texto do argentino Santiago Serrano, fiquei empolgado, pois gostei muito de dois textos dele que já foram encenados por atores de Brasília, Dinossauros e Fronteiras. Ambos poéticos, ambos com personagens que não se conhecem, ambos com reflexões profundas sobre o ser humano, suas decepções, desilusões e sua necessidade de interagir com outros.
Noctiluzes me instigou mais ainda por ser um texto escrito por Serrano para o grupo brasiliense.
Em cena, os atores Chico Sant'Anna, que dá vida a um cego; Sérgio Sartório, responsável também por tradução e direção, que interpreta um homem que precisa cumprir uma promessa feita para a esposa; e Vinícius Ferreira, vivendo um homem desiludido. Nenhum dos três se conhece, mas estão no mesmo píer de uma cidade portuária que não mais recebe navios. É noite. Cada um está no píer por motivos que só eles sabem e não querem, a princípio, compartilhar seus medos e segredos com ninguém. Ao longo dos cerca de 80 minutos de duração do espetáculo, surpresas e reviravoltas pontuam a história, deixando o público cada vez mais ligado. As tiradas do cego são sensacionais.
A poesia de Serrano continua presente neste texto, assim como a discussão da solidão, da falta de solidariedade, mas também tem a construção de elos fortes de amizade, mesmo entre desconhecidos, a comunhão em prol de um bem comum.
As interpretações dos atores estão em ponto certo, sem arroubos gestuais, em perfeita comunhão com a situação. O cenário, simples, mas carregado de significados, também é digno de nota. Gostei muito.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

TOMORROW - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Ainda na noite de quinta-feira, dia 28 de agosto de 2014, após ter conferido Adaptação no CCBB, fui para o Teatro Funarte Plínio Marcos, onde acontecia a estréia de Tomorrow, montagem do grupo escocês Vanishing Point Theatre Company. Quando lá cheguei, uma fila enorme já se formava para entrar. Encontrei-me com Hélida G. e André P. e ficamos batendo papo sobre as peças que já tínhamos visto até então dentro da programação do Cena Contemporânea 2014. Tomorrow é a primeira co-produção do festival. Muita expectativa, ainda mais que um ator brasiliense, William Ferreira, estaria em cena. Teatro completamente lotado. O calor de sempre na sala de espetáculo, já que lá não tem ar condicionado. Antes de iniciar, o diretor da peça, Matthew Lenton apareceu no palco para um recado ao público. Disse que a peça seria falada em inglês, com legendas em português, e que algumas falas não seriam traduzidas, o que era normal, não seria uma pane no sistema de legendagem. Os atores improvisavam em cena. Disse para a plateia prestar atenção no que ocorria no tablado, seria tudo perfeitamente entendível. Informou, ainda, que figurino, aparelhos de iluminação, entre outros objetos, ficaram retidos na alfândega brasileira no aeroporto de Guarulhos. Agradeceu à equipe do festival por ter conseguido providenciar o que precisava para colocar a peça em cena.
A história gira em torno de um asilo de velhos, todos senis, contando a rotina diária deles com os empregados do local. Para envelhecer os atores, o diretor optou por usar aquelas próteses de borracha, muito comum nos filmes hollywoodianos. Embora com feições totalmente distintas, os velhinhos ficaram sem expressão. Não gostei.
A ideia da peça até que é interessante, mas a forma como foi contada não me agradou. A julgar pelos que deixaram o teatro enquanto rolava a encenação, não fui o único a pensar assim. Roubando uma intervenção de minha amiga Hélida G., soou muito moralista, o típico moralismo inglês, que não consegue expiar seus pecados históricos. Tive uma sensação de ser culpado por todas as mazelas contra velhinhos existentes no mundo, especialmente em asilos. A tentativa de colocar a culpa em toda a humanidade é patente. Uma pena que foi assim, pois a iluminação e a movimentação dos atores em cena é muito boa. A cena da tentativa de revolta dos idosos, com direito a tentativa de fuga como se fossem prisioneiros de um cárcere de segurança máxima, é hilária. Mas fica por aí. Ao final, pela primeira vez no festival dentre as peças que assisti, não ouvi nenhum grito de entusiasmo. Ouvi apenas palmas, até diria que foram palmas protocolares. Vi muita gente sentada, sem nem mesmo aplaudir, grupo ao qual me filiei. Na saída, comentários diversos, mas nenhum deles de forma entusiasmada pelo que viram em cena. Realmente não gostei do que vi.