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sexta-feira, 22 de abril de 2022

MEDIDA PROVISÓRIA

Medida Provisória, 2020, 103 minutos. Direção de Lázaro Ramos, tendo no elenco Alfred Enoch (Antônio), Seu Jorge (André), Taís Araújo (Capitu), Aldri Anunciação (Ivan), Adriana Esteves (Isabel), Mariana Xavier (Sarah), Renata Sorrah (Dona Izildinha), Emicida (Berto), entre outros.

O roteiro é baseado em peça de Aldri Anunciação que foi aos palcos em 2011.

A história se passa em um futuro incerto no Brasil, quando os negros são chamados de melaninados acentuados. Um governo autoritário edita uma medida provisória, de número 1888 (uma referência ao ano em foi assinada a Lei Áurea no país), que determina a todos os cidadãos de origem africana que se desloquem para a África. O governo garante a passagem de ida. Isabel é a chefe do departamento que cadastra e envia tais cidadãos para fora do país. André, um repórter fotográfico que mantém um blog, é um dos que questiona as ordens do governo. Capitu, médica casada com Antônio, ao perceber que a polícia a retiraria à força de um atendimento a um homem ferido na perna para ser enviada para a África, consegue escapar, salvando uma mãe preta com uma filha albina dos policiais, é resgatada por Ivan e abrigada em uma espécie de quilombo, chamado de afrobunker por seus integrantes. Antônio e André ficam isolados dentro do apartamento deles, tendo a vizinha Dona Izildinha, racista de primeira hora, como ajudante de Isabel para fazerem os dois saírem do apartamento. Antônio não sabe onde está Capitu, mas não sai de seu apartamento. Após muita confusão e perseguições, Capitu e Antônio se reencontram, sendo presos por Isabel. Mas o que parecia um final trágico...

A premissa é ótima, o elenco majoritariamente negro é uma raridade no cinema brasileiro, a discussão do racismo estrutural é super atual, mas o todo não funcionou como deveria. Ainda assim, gostei do filme. Merecidas homenagens a Marielle Franco, Ruth de Souza, Zezé Motta, Mestre Moa, entre outros, que aprecem em fotografias, objetos e grafites no filme.

A fotografia em tons amarelados e imagens desfocadas ao fundo foram interessantes artifícios para representar uma época futura sem necessidade de efeitos especiais, nem de uso de objetos futuristas.

Como destaque, cito as ótimas performances de Seu Jorge, Adriana Esteves, Taís Araújo e Renata Sorrah. Continuo não gostando do ator Alfred Enoch. A química entre ele e Taís Araújo não funcionou, os dois não me convenceram como um casal apaixonado. Achei a atuação deste ator inglês filho de brasileira muito forçada, não pelo português, que soa quase sem sotaque, mas pela performance em si. Ele não me convenceu em nenhum momento da projeção, diferente de Seu Jorge, que interpreta o primo André, debochado, bonachão, que entra facilmente em pânico em situações difíceis.

O trabalho de Lázaro Ramos na direção é bom e pode evoluir muito. A cena final, na qual ele aparece, transpira muita emoção.

Disponível nos cinemas.

sábado, 2 de abril de 2022

QUE HORAS ELA VOLTA?

Que Horas Ela Volta?, 2015, 112 minutos. Direção de Anna Muylaert.

É um filme feito por mulheres, sobre mulheres e para mulheres. É sensível, emociona, gera sentimentos diversos no espectador, mostra uma realidade que muita gente finge não ver, é cativante, é sobre amor de mãe, é sobre relação de poder.

Val, interpretada magnificamente por Regina Casé, trabalha para uma família de classe média alta paulistana, e dorme no emprego. Tem uma filha, Jéssica (Camila Márdilla), que não via há anos, pois morava em Recife, que vai a São Paulo fazer vestibular para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Jéssica, sempre muito questionadora, ficará com Val, a princípio, em seu quartinho de empregada, mas sua chegada na casa vai desestruturar a aparente harmonia instalada naquele local. Bárbara (Karine Teles) e César (Lourenço Mutarelli) são os patrões de Val, que cuidou desde criança do filho deles, Fabinho (Michel Joelsas). Val tem um amor incrivelmente maternal por Fabinho e o mima como se filho fosse, mas nunca esqueceu de Jéssica, enviando mensalmente dinheiro para que sua filha fosse bem cuidada e estudasse. Jéssica conseguirá, com suas atitudes, revelar a verdadeira face do casal Bárbara e Carlos, além de tirar Val da submissão inconsciente que tinha para com os patrões.

A câmera da diretora gosta de focar Val e a maior parte das cenas são mostradas sob a perspectiva dela. Assim, o espectador escuta a conversa da família na mesa de jantar, mas apenas vê a cabeceira da mesa, pois a câmera está posicionada na visão de Val, desde a cozinha. Por falar em cozinha, Val sempre está desenvolta nos ambientes que lhe são "permitidos" transitar livremente na casa: a cozinha, a área da piscina onde ela joga água nas plantas, o corredor de acesso aos quartos da casa e no lado de fora da casa, quando leva a cadela dos patrões para passear. A cena em que Val serve quitutes aos convidados na festa de aniversário de Bárbara é impactante. Bandeja na mão, andando pelos ambientes da casa, oferecendo comida e sendo ignorada pelos convidados. Seu semblante de "o que eu estou fazendo aqui?" resume seu sentimento sem uma palavra sequer, tendo apenas a música Águas de Março acompanhando o seu caminhar em zigue zague.

Revi o filme para o ciclo Cinema & Filosofia do Clube de Análise Fílmica, conduzido pelo Prof. Alisson Gutemberg. Neste ciclo, ele fez um ótimo paralelo entre Que Horas Ela Volta? e o pensamento de Michel Foucault, especialmente a questão de quem detém e quando exerce o poder. Foi interessante a análise das cenas, os olhares de cima para baixo e vice-versa, indicando quem está exercendo o poder naquele momento, naquele diálogo. Já quase no final do filme, Val demonstra seu momento de poder na beira da piscina em um diálogo sem rodeios com Bárbara sobre sua decisão.

Não posso deixar de mencionar a belíssima cena em que Val, enfim, entra na piscina da casa, que está cheia somente até a altura da batata da perna, à noite e liga para sua filha Jéssica para falar que estava dentro da piscina. Ali foi o ponto de virada da personagem, seu momento de redenção e de tomada de decisão sobre os rumos de sua vida.

O filme mostrou que a filha de uma empregada doméstica poderia entrar na universidade, qualquer que seja ela, bastando para isso ter oportunidades. Uma realidade que, infelizmente, o Brasil não vive mais desde os idos de 2016, após o golpe contra a Presidenta Dilma.

Outro destaque que preciso fazer é para o elenco, todos afiadíssimos e afinadíssimos. Não é à toa que Regina Casé e Camila Márdilla ganharam o prêmio de atuação no Festival de Sundance.

Filme obrigatório.

Disponível na Netflix.

quinta-feira, 3 de março de 2022

GOSTOSAS, LINDAS E SEXIES

Gostosas, Lindas e Sexies, 2017, 111 minutos.

Direção de Ernani Nunes, tendo como protagonistas Caroline Figueiredo (Beatriz), Mariana Xavier (Marilu), Cacau Protásio (Ivone) e Lyv Ziese (Tânia).

Há muito tempo não via um filme tão ruim. Quatro amigas, todas elas gordas, com seus problemas pessoais. Não há unidade na história, mas sim um amontoado de historinhas. O roteiro abre muitos arcos e não fecha a maioria deles. O exemplo mais evidente é o diálogo de Ivone, que é negra, com seus dois filhos gêmeos, uma menina branca e um menino com traços asiáticos. Eles perguntam quem é o pai deles e ficam sem respostas. 

O filme poderia até nos levar a refletir sobre a gordofobia, pois as quatro amigas sofrem preconceitos, com frase mega gordofóbicas dos demais personagens, mas o próprio roteiro estraga esta possível reflexão ao colocar as quatro amigas relacionando apenas com homens sarados, com corpos esculpidos em academias.

Apesar de ser comédia, pouco nos faz rir.

Paulo Silvino tem uma participação muito caricata, o que me lembrou o programa Os Trapalhões nos finais de tarde de domingo na Globo nos anos 1980.

Clichês e mais clichês de comédia.

Ao final fica aquela sensação de "apesar de gordas, são gostosas, lindas e sexies". Mais gordofóbico que isso não há.

Disponível na Netflix.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

MACUNAÍMA

Macunaíma, 1969, 110 minutos.

Outro filme tema da quarta e última aula sobre Cinema Novo que assisti foi Macunaíma. Na verdade, já o tinha assistido um par de vezes antes. Direção de Joaquim Pedro de Andrade a partir da obra de mesmo nome de Mário de Andrade.

No elenco, Paulo José (mãe de Macunaíma e Macunaíma branco), Grande Otelo (Macunaíma preto e filho de Macunaíma branco), Milton Gonçalves (Jiguê), Rodolfo Arena (Maanape), Dina Sfat (Ci), Joana Fonn (Sofara), Jardel Filho (Venceslau Pietro Pietra), entre outros.

Macunaíma, definido pelo irmão ao nascer como um herói nacional, após a morte da mãe parte de uma tapera onde morava no meio do mato para a cidade grande com Jiguê e Maanape, seus irmãos. No meio do caminho, entra em uma fonte de água e se transforma em homem branco. No centro urbano, conhece Ci, uma guerrilheira que luta contra o regime e por ela se apaixona, vivendo às custas dela, pois não gostava de trabalhar. Ao final, retorna para a mesma tapera onde vivia, mas é abandonado pelos irmãos pois segue mentindo e sem trabalhar. Por fim, tem um encontro com Iara, a mãe das águas.

O filme tem um forte diálogo com o Modernismo, afinal é uma adaptação de uma obra ícone do movimento, assim como com o Tropicalismo, movimento que nascia no final dos anos 1960, início dos 1970.

A afirmação de uma cultura nacional, o uso forte de cores e paisagens que enaltecem o Brasil são uma constante no filme. Mas por estar inserido em um período em que a ditadura militar recrudescia no país, há menções visuais ao período, como policiais patrulhando as ruas da cidade grande e a presença de uma guerrilheira, que lutava contra o regime instalado. Também o discurso em praça pública indica a situação política pela qual passava o Brasil.

A antropofagia lançada pelo Modernismo brasileiro é mostrada no filme em cena surreal do casamento da filha de Venceslau, filmada no Parque Lage (Rio de Janeiro), com uma piscina cheia de sangue e corpos dilacerados, com as tripas para fora, onde, após um sorteio, os convidados eram jogados na água e comidos por um ser que não aparece.

Embora goste do filme, o tom clownesco dos personagens me incomoda um pouco (preciso dizer aqui que tenho um trauma com palhaços), assim como o exagero de atuação em algumas cenas (o choro/grito estridente de Macunaíma quando nasce ou quando é contrariado, ainda criança, é muito chato e irritante). A caracterização de Venceslau Pietro Pietra é exagerada propositalmente, deixando Jardel Filho irreconhecível.

Críticas ao racismo (a transformação de Macunaíma preto em branco quando vai para a cidade), ao conservadorismo de parte da sociedade, justamente a que apoiava o regime militar (discurso na praça interrompido por Macunaíma), à corrupção (Venceslau é um empresário corrupto) estão presentes no roteiro.

A cena final, com uma roupa verde na água sendo invadida pelo sangue vermelho de Macunaíma é uma alegoria fortíssima ao regime militar, que torturava e matava os opositores do regime.

Enfim, um bom filme, um clássico do cinema brasileiro.

Vi, em 23/02/2022, na Globoplay.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

COMO ERA GOSTOSO O MEU FRANCÊS


Como Era Gostoso O Meu Francês, 1971, 84 minutos.

Mais um filme que assisti do Cinema Novo, desta vez para a quarta aula do curso ministrado pelo Prof. Alisson Gutemberg para o Clube da Análise Fílmica (Cinema com Teoria).

O filme integra a terceira e última fase do Cinema Novo, quando cores e um tom de comédia foram adotados pelos diretores, especialmente em Como Era Gostoso O Meu Francês e Macunaíma (também tema da mesma aula).

Como era gostoso o meu francês tem direção de Nelson Pereira dos Santos e não é um filme fácil de compreender se não souber um pouco da história do Brasil. A maior parte dos diálogos são na língua tupi (créditos para o grande cineasta Humberto Mauro), idioma falado pelas tribos Tupiniquim e Tupinambá. Há poucas falas em francês e em português de Portugal. Nenhum dos diálogos tem legenda para o português. Assim, temos que entender o que rola nas telas pelas imagens, pelo que sabemos da história brasileira e pelos intertítulos com trechos de documentos históricos assinados por Mem de Sá, Hans Staden, entre outros.

O prólogo do filme nos leva a crer que assistiremos a uma comédia, pois um narrador conta uma história, mas as cenas que vemos são totalmente ao contrário do que se vê. Algo como passar a informação errada, as tão propaladas fake news atuais, como se fosse uma verdade. Mas terminado o prólogo, o filme assume um ar documental. No entanto, faz uma nova leitura do que aprendemos na história, com os índios tendo total controle da situação e lutando de igual para igual com os invasores portugueses e franceses. É uma clara referência à Semana de Arte Moderna de 1922, quando o movimento antropofágico foi lançado. No filme, temos a antropofagia literal, pois os tupinambás eram canibais e prepararam o francês para a comer na comemoração da guerra contra os tupiniquins, e a antropofagia metafórica, o que o movimento modernista pregava, ou seja, deglutir a cultura estrangeira para criar uma nova cultura, totalmente brasileira, no filme representado pela assimilação pelo francês de hábitos e costumes da tribo na qual era prisioneiro, tornando-se um deles, andando nu, caçando e até com o corte de cabelo igual aos demais índios.

Outro ponto a destacar é a influência do Tropicalismo, movimento que se iniciou no final dos anos 1960, início dos 1970, com a valorização das cores e das paisagens brasileiras.

Foi a primeira vez que vi este filme e confesso que fiquei um pouco entediado, muito por ter que ficar ouvindo uma língua que não conheço, sem ter tradução. Quase que um filme mudo, mas com cores e com diálogos.

Vi, em 22/02/2022, no YouTube.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

A GRANDE CIDADE ou AS AVENTURAS E DESVENTURAS DE LUZIA E SEUS 3 AMIGOS CHEGADOS DE LONGE

A Grande Cidade ou As Aventuras e Desventuras de Luzia e seus 3 Amigos Chegados de Longe, 1966, 80 minutos.

Mais um filme do Cinema Novo que assisti pela primeira vez. Foi tema da aula do Clube de Análise Fílmica (Cinema com Teoria), ministrada pelo Prof. Alisson Gutemberg, no dia 17/02/2022.

Faz parte da segunda fase do Cinema Novo, quando a temática girava em torno das grandes cidades, a modernização dos centros urbanos e o contraste entre ricos e pobres.

Dirigido por Carlos Diegues, mais conhecido como Cacá Diegues, tendo como protagonistas Anecy Rocha (Luzia), Leonardo Villar (Jasão), Antônio Pitanga (Calunga) e Joel Barcellos (Inácio).

Luzia chega no Rio de Janeiro, vinda do sertão, interior de Alagoas, para encontrar seu noivo que havia partido alguns anos antes. A única referência que tinha era que ele morava no Morro da Mangueira. Na subida do morro, conhece Calunga, nordestino, que vai ajudá-la em sua busca. Como tinha um endereço na Zona Sul onde morava uma família rica, foi até lá buscar emprego, mas não o conseguiu no primeiro momento, tendo que arrumar um lugar para ficar. Aí entra em cena Inácio, pedreiro, amigo de Calunga, também migrante nordestino, que a deixa ficar em seu cubículo por alguns dias. Enfim, ela encontra Jasão e se decepciona com a frieza do noivo. Jasão tinha um vida de assassino de aluguel, não querendo envolver Luzia em seu dia a dia. Ele mata um senador, sendo, então procurado pela polícia. O final, como era de se esperar, é trágico (o próprio cartaz assim indica).

Cacá Diegues foca na difícil vida do migrante nordestino nos anos 1960, que deixava o sertão árido para tentar a sorte na cidade grande. Lá chegando, tem que viver nas favelas, trabalhando como empregados domésticos, na construção civil ou fazer bicos. Também mostra que alguns vão viver de pequenos golpes, como o malandro Calunga, ou enveredar pelo crime, como o fez Jasão. Quando a família rica da Zona Sul aparece, é algo distante, nem mesmo o nome da mulher que atende Luzia é revelado para nós, os espectadores.

Diegues também mostra no filme algumas referências ao cinema, como o faroeste nas cenas em que aparece Jasão e suas duas pistolas em punho, inclusive com foto de procurado nos jornais como nos cartazes de procura-se nos filmes western. Outra cena interessante é o delírio de Inácio correndo, intercalado com cenas de miséria da população da periferia da cidade, que parece um filme mudo. 

Ainda há referência à mitologia grega com o nome Jasão do personagem vivido por Leonardo Villar. Diegues voltaria ao tema com o filme Orfeu, de 1999.

O crescimento e a modernização dos grandes centros urbanos brasileiros que teve início nos anos 1960 trouxe mazelas que até hoje convivemos com elas.

E quanto à situação política brasileira, o filme deixa claro, em determinadas cenas, que os militares estavam no poder e ostentavam o poderio com tanques e soldados nas ruas.

Vi, em 17/02/2022, no YouTube.


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

A FALECIDA

A Falecida
, 1965, 90 minutos.

Mais um filme do Cinema Novo que assisto para seguir a aula do Prof. Alisson Gutemberg no Cinema com Teoria.

Dirigido por Leon Hirszman, tendo no elenco Fernanda Montenegro (Zulmira), Ivan Cândido (Toninho), Paulo Gracindo (João Guimarães), Nelson Xavier (Timbira), e Joel Barcellos (sócio da funerária).

Rodado em preto e branco, longe dos estúdios, o filme acompanha Zulmira, moradora do subúrbio carioca, sem dinheiro, casada com Toninho, infeliz na vida, doente do pulmão, desejando a morte e um enterro de primeira linha. Toninho está sem emprego e tem uma rotina bem banal: bar, conversar sobre o Vasco, seu time do coração, e casa, onde não costuma interagir com sua mulher. Faz as refeições, deita, dorme, levanta, sem um diálogo com Zulmira. Ela planeja seu enterro, fazendo a cotação na funerária, e, já no leito de morte, pede a Toninho que cumpra seu desejo. Para custear o funeral, ela diz para seu marido procurar por João Guimarães, quando Toninho descobrirá a verdade sobre sua mulher.

Só podia ser texto de Nelson Rodrigues, que sabia, como ninguém, retratar os relacionamentos conturbados das pessoas que viviam na periferia do Rio de Janeiro.

Seguindo a cartilha do Cinema Novo, A Falecida traz a realidade nua e crua da classe baixa da sociedade carioca, mostrando casebres de madeira, com paredes mofadas, e banheiro fora da casa, além dos pequenos golpes sempre presentes na malandragem carioca. Além de colocar o tema do desemprego, mesmo que tangencialmente, na trama. A questão política, diferente de outros filmes do Cinema Novo, não está presente, o que pode demonstrar que a classe menos favorecida não tinha tanta informação ou que já tinha muitos problemas para se preocupar.

Fernanda Montenegro estreia nos cinemas neste filme e já entrega uma performance de tirar o fôlego. A cena em que ela toma banho de chuva, revelando um pequeno momento de felicidade, é marcante.

Vi, em 16/02/2022, no YouTube.

sábado, 12 de fevereiro de 2022

A MENINA QUE MATOU OS PAIS / O MENINO QUE MATOU MEUS PAIS

A Menina que Matou Os Pais, 2021, 80 minutos.

O Menino que Matou Meus Pais, 2021, 87 minutos.

Ambos os filmes são dirigidos por Maurício Eça, tendo como roteiristas Ilana Casoy e Raphael Montes. No elenco, Carla Diaz (Suzane von Richthofen), Leonardo Bittencourt (Daniel Cravinhos), Allan Souza Lima (Cristian Cravinhos), Vera Zimmermann (Marísia von Richthofen), Leonardo Medeiros (Manfred von Richthofen), Augusto Madeira (Astrogildo Cravinhos), Debora Duboc (Nadja Cravinhos)  e Kauan Ceglio (Andreas von Richthofen).

Os filmes contam a mesma história, baseada em fatos reais, especialmente os que constam nos depoimentos de Suzane von Richthofen e de Daniel Cravinhos nos processos judiciais em que foram réus acusados de matarem os pais de Suzane.

Eu vi primeiro A Menina que Matos Os Pais, que traz o relato de Daniel Cravinhos sobe como foi usado por Suzane durante o relacionamento dos dois.

O Menino que Matou Meus Pais traz a versão de Suzane von Richthofen sobre como foi manipulada por Daniel até chegar ao assassinato dos seus pais.

Acusaram os filmes de maniqueístas, mas os depoimentos judiciais dos dois acusados foram desta forma, justamente uma maneira de convencer o Tribunal do Júri que a autoria intelectual do crime era do outro e que tinha sido por ele/ela manipulado para participar do assassinato.

No meu entender, para melhor compreensão de toda a história, o melhor é ver O Menino que Matou Meus Pais antes de A Menina que Matou Os Pais, o contrário do que fiz, pois fica mais fácil de juntar partes do roteiro que parecem soltas em A Menina. Talvez, por isso, tenha gostado mais de O Menino que Matou Meus Pais, pois é mais redondo e não tão dependente de explicações como o outro. Na verdade, não havia necessidade de se fazer dois filmes. Agregando uns vinte minutos a mais em um deles, chegando a uma duração de duas horas, padrão normal de um longa metragem, dava para mostrar as duas versões da mesma história.

Gostei da interpretação dos dois atores principais, embora não tenha sido algo espetacular.

O ponto negativo, para mim, é ter colocado o uso da maconha na conta do articulador do crime. Em um filme, é Suzane quem usa, fazendo com que Daniel também utilize, em outro, é o inverso. Eu não uso maconha, pois passo mal, mas imputar, mesmo que de maneira indireta, o uso da maconha como moldador do caráter dos assassinos é forçar demais a barra. Pode até ser que os roteiristas quiseram ser fiéis aos depoimentos, que podem ter usado isso orientados por seus advogados, já que a sociedade ainda é conservadora em relação ao tema, mas como é uma obra de ficção baseada em fatos reais, poderiam ter alterado esse vício por outro, mais pesado e que realmente altera significativamente o psicológico das pessoas.

Embora também condenado, Cristian Cravinhos não tem seu depoimento retratado no filme.

Vi A Menina que Matou Os Pais, em 09/02/2022, no Prime Vídeo.

Vi O Menino que Matou Meus Pais, em 11/02/2022, no Prime Vídeo.

TERRA EM TRANSE

Terra em Transe, 1967, 111 minutos.

Mais um filme assistido, ou melhor, revisto, para o curso sobre o Cinema Novo que estou fazendo no Cinema com Teoria, ministrado pelo Prof. Alisson Gutemberg.

Terra em Transe faz parte da segunda fase do Cinema Novo. Dirigido por Glauber Rocha, conta com elenco primoroso, todos em performances fantásticas: Jardel Filho (Paulo Martins), Paulo Autran (Porfírio Diaz), José Lewgoy (Felipe Vieira), Glauce Rocha (Sara), Paulo Gracindo (Don Julio Fuentes), Hugo Carvana (Álvaro), Joffre Soares (Padre Gil), Danuza Leão (Sílvia), Mário Lago (Capitão), Flávio Migliaccio (homem do povo), Francisco Milani (Aldo).

Para driblar a censura, que ainda não era tão incisiva como após o AI-5, Rocha colocou a trama em Eldorado, um país fictício localizado na América Latina. Porfírio Diaz, não por acaso é o nome de ditador mexicano que ficou no poder por mais de três décadas, com tema de campanha que une religião católica e conservadorismo, irá concorrer à reeleição como presidente de Eldorado com Felipe Vieira, um político populista. Paulo Martins é poeta que assessorava Porfírio, mas muda de lado ao perceber que ele se distancia das pautas populares. Sara é sua mulher e seu ponto de equilíbrio. É neste contexto político que a história se desenvolve.

Glauber usa de muita alegoria para desenvolver um enredo que era espelho da situação vivida pelo Brasil, alguns anos após o golpe militar de 1964. E como alegoria, irá explorar situações que lembram o desfile de uma escola de samba: passistas e bateria em comício de Felipe Vieira, fantasias luxuosas que retratam o passado de Eldorado, com a chegada do homem branco à costa do país (aqui tem participação luxuosa de Clóvis Bornay, ícone dos desfiles de fantasia no Rio de Janeiro), muita percussão na trilha sonora, em contraste com a música clássica, que faz bem uma distinção entre o popular e o erudito, o porta bandeira (no caso, Glauber subverte a ordem e coloca um homem, Porfírio, para carregar uma bandeira negra - sinal de luto pela situação do Brasil?, mais uma alegoria) e o desfile propriamente dito com as caminhadas do candidato Fellipe com o povo.

O filme ainda traz, diretamente, fortes mensagens como a cena em que Jerônimo, um representante do povo, começa a falar para Felipe, mas é interrompido com a mão de Paulo Martins em sua boca, dizendo que o povo não tem voz. A violência contra quem manifestava também é mostrada, e ainda nem tinha começado o período mais violenta da ditadura brasileira, na cena em que o personagem de Flávio Migliaccio, propositalmente sem nome, é atacado com socos pelo segurança (Maurício do Valle) do candidato.

Outro contraste interessante é entre o Carnaval, como já exposto aqui, e a Ópera, outrora ligada às camadas mais pobres da população, para depois se tornar sinônimo de elite, de gosto apurado e diferenciado. A cena em que Porfírio cai com sua bandeira na escadaria de um palácio é um verdadeiro ato de uma ópera.

Os diálogos e monólogos, especialmente os de Paulo Martins, são difíceis de compreender, com muita erudição. E depois Glauber não entendia porque seus filmes não tinham público...

Revendo o filme, percebi sua atualidade, especialmente quanto ao contexto político em que o Brasil mergulhou com o resultado da eleição de 2018.

Apesar de todas estas considerações acima, que acho muito apropriadas, não gosto do filme, muito por seu áudio. O tempo inteiro o ruído incomoda, com sobreposição de vozes, de trilha sonora e de som ambiente, em volume acima do normal. Várias vezes é difícil entender o que os atores falam, além da compreensão dos diálogos requerer reflexão a todo o momento. Para mim, foi muita alegoria inserida no contexto político, que chegou a ficar caricato. De qualquer forma, reconheço a importância do filme para a história do cinema brasileiro e latino-americano.

Vi, em 10/02/2022, no Telecine Play.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

O DESAFIO

O Desafio, 1965, 81 minutos.

Escrito e dirigido por Paulo Cezar Saraceni, tendo como atores Isabella (Ada), Oduvaldo Viana Filho (Marcelo), Sérgio Britto (Mário), entre outros.

Filme tema, junto com Terra em Transe, de Glauber Rocha, da segunda aula do curso que faço sobre o Cinema Novo com o Prof. Alisson Gutemberg, do Cinema com Teoria. Não conhecia O Desafio e foi uma grata surpresa.

Produzido logo após o golpe militar de 1964, O Desafio, inteligentemente, tem como trama uma história de dois amantes, Ada e Marcelo, com as questões políticas da época ditando os rumos desta relação. Ada é casada com um industrial do setor têxtil, rica, mas infeliz em sua rotina monótona de festas, recepções, onde tem que fazer caras e bocas. Ela encontrou em Marcelo um alento e um escape para sua vida chata. Marcelo trabalha em uma revista, é jornalista, tenta escrever um livro, mas sua preocupação com as consequências do golpe na vida social do país o deixam frustrado e sem perspectivas. No entanto, Marcelo não encarna o povo no filme, pois está mais para a intelectualidade. Amante da literatura, sempre declamando versos de poesias, e das artes cênicas, quando tem a oportunidade de ver uma sessão do espetáculo Opinião que fez estrondoso sucesso no Rio de Janeiro na década de 1960, tendo Maria Bethânia debutando nos palcos cariocas. Inclusive há uma cena com Bethânia no palco cantando Carcará, uma música emblemática para o período. Sem dizer nada diretamente, a música indica a situação vivida no Brasil nos anos 1960.

É importante ressaltar que tudo isso ocorreu antes do AI-5, quando a repressão e a censura tomaram proporções gigantescas. Talvez este filme não passasse pela censura se fosse lançado após 1968.

No curso de novembro, tivemos aulas sobre a Nouvelle Vague francesa, quando pude ir mais a fundo em alguns filmes, entre eles O Demônio das Onze Horas (Pierrot, le Fou), de Godard, lançado em 1965, ou seja, no mesmo ano de O Desafio. Há muitas semelhanças estéticas e de cenografia. Até mesmo com o casal protagonista de ambos os filmes, com mulher burguesa, aborrecida com sua vida, e o homem com aspirações artísticas.

Vi, em 09/02/2022, no YouTube.


sábado, 5 de fevereiro de 2022

DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL

Deus e o Diabo na Terra do Sol, 1964, 120 minutos.

Mais um filme da primeira fase do Cinema Novo que assisti para o curso que faço, on-line, no Cinema com Teoria. Desta vez, Deus e o Diabo na Terra do Sol, escrito e dirigido por Glauber Rocha, tendo como atores Geraldo del Rey (Manuel), Yoná Magalhães (Rosa), Othon Bastos (Corisco), Maurício do Valle (Antônio das Mortes), Lídio Silva (Sebastião) e Sônia dos Humildes (Dadá).

Filmado em preto e branco no interior da Bahia, no município de Monte Santo, longe dos estúdios. A população da cidade baiana participa como figurante no filme. Lígia Pape é responsável pela tipografia dos letreiros e dos créditos.

Manuel, para defender o que é seu e sua esposa, mata o dono das terras onde trabalha, o que o leva a sair da região, indo para Monte Santo seguir o beato Sebastião. Lá, ele é doutrinado na seita e se convence de que Rosa, sua mulher, está possuída pelo diabo. A cena de purificação de Rosa é uma carnificina, com sacrifício de inocente em nome de um deus nada bom. Segue-se um verdadeiro massacre empreendido por Antônio das Mortes, que poupa apenas Manuel e Rosa, que seguem vagando pelo sertão, sendo conduzidos por um cego, que os leva ao encontro de Corisco e Dadá, remanescentes do bando de Lampião e Maria Bonita, que tinham sido recentemente assassinados pela polícia baiana. Manuel entra no bando. Há saques e estupro na cidade, até a chegada de Antônio das Mortes no local onde estão Corisco, Dadá, Rosa e Manuel. O encontro é movimentado, com cenas que parecem um faroeste.

Foi a terceira vez que vi este filme. O interessante é que o vejo, sem planejamento, de vinte em vinte anos. A primeira delas foi na década de 1980, em Belo Horizonte, em fita VHS, recém deslumbrado com o cinema, querendo ver tudo quanto era filme clássico. Não gostei do que vi. A segunda, já na primeira década dos anos 2000, em Brasília, em uma projeção para jovens entre 16 e 25 anos, era um projeto relativo ao meu trabalho. Na sala, em uma escola pública, havia cerca de 30 jovens. Na medida em que o filme avançava, mais e mais jovens deixavam o recinto. Restaram apenas dois deles no final do filme.

Nesta oportunidade, já tive outros olhos para o filme, fazendo uma análise mais apurada sobre a época em que foi filmado (antes do golpe de 1964), a questão agrária, o messianismo que aproveitava da ignorância e da simplicidade da população interiorana, especialmente do Nordeste. Mas continuava tendo ressalvas quanto ao filme em si.

Por fim, em 2022, o vi pela terceira vez. Mais estudado, vendo detalhes técnicos, observando o conjunto de situações sociais da época, lendo textos sobre o Cinema Novo em preparação para a aula sobre a trilogia do sertão que seria ministrada, on-line, no Cinema com Teoria, no dia 03/02/2022, já comecei a gostar um pouco mais do filme, mas ainda assim, ele continua não fazendo minha cabeça. Fico muito incomodado na cadeira por qualquer filme que haja barulho excessivo. E é o que acontece em Deus e o Diabo na Terra do Sol, o barulho me incomoda, seja pela ladainha dos fiéis que seguem o beato, seja pela gritaria de Rosa que se confunde com a ventania no lugar, seja pelos estampidos das espingardas, ou pela algazarra do bando de Corisco. 

Ao escrever estas linhas, me pus a pensar se a intenção foi mesmo provocar incômodo em quem assiste o filme. Se não for pelas imagens, ou pelo roteiro, que seja pelo som. Pode até ser, em se tratando de Glauber Rocha.

Vi, em 03/02/2022, no Telecine Play.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

VIDAS SECAS

Vidas Secas, 1963, 103 minutos.

Dirigido por Nelson Pereira dos Santos e protagonizado por Átila Iório (Fabiano) e Maria Ribeiro (Sinhá Vitória).

Filme da primeira fase do Cinema Novo, integra a chamada trilogia do sertão, junto com Os Fuzis, de Ruy Guerra, e Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

Adaptado da obra de Graciliano Ramos por Nelson Pereira dos Santos.

Rodado em preto e branco, com iluminação propositalmente saturada, foi totalmente filmado longe dos estúdios, nas cidades alagoanas de Minador do Negrão e Palmeira dos Índios. A polução destas cidades é agradecida nos créditos iniciais do filme. Os planos abertos dão a dimensão da seca que assolava o sertão.

A trama se passa entre os anos 1940 e 1942, quando acompanhamos Fabiano, Sinhá Vitória, seus dois filhos pequenos e a cadela Baleia vagando pelo sertão seco à procura de comida, de um lugar para morar e de trabalho. Encontram uma casa de pau a pique, onde se instalam, com Fabiano trabalhando para o fazendeiro (interpretado por Joffre Soares) dono das terras, como vaqueiro. A miséria do casal é tão grande que o sonho de Vitória é ter uma cama de couro como a do antigo patrão, pois eles dormem em um estrado feito com troncos de árvores, sem colchão. Fabiano não sabe ler, nem escrever, recebe pouco e ainda gasta este pouco em jogatinas de baralho. Quando a seca aperta, sem perspectivas de chuvas, o fazendeiro leva o gado para outras paragens, dispensando os trabalhos de Fabiano. A saga de procurar um novo lugar será encarada novamente pela família, saindo, a pé, em busca de seus sonhos.

É impressionante como o machismo da época em que foi gravado o filme, e mesmo no tempo em que se passa a trama, é retratado na história. Uma cena me marcou bastante neste quesito: Vitória foi buscar água em um riacho que estava quase seco, encheu um recipiente enorme de cerâmica com uma água bem barrenta, e o transportou na cabeça para casa. Ao chegar, Fabiano tem uma discussão com ela sobre a jogatina dele, terminando dizendo que ele trabalha para ganhar o dinheiro e ela não. E o que a mulher mais faz é trabalhar na casa, cuidando dos filhos, fazendo comida, buscando água, cuidando das contas. Outra cena que demonstra como vivia a sociedade naquele interior do Brasil é quando mostra o contraste entre os frequentadores do bar, todos homens, e na igreja, mulheres rezando, enquanto os homens ficavam na porta de entrada. Marca bem os limites de cada gênero na sociedade. Antes que alguém pense, esta é uma constatação, mas de forma alguma estou cancelando a obra. O filme é importantíssimo para a cinematografia brasileira. Eu gosto muito deste filme.

Por fim, deve ser sempre ressaltado a performance da cadela Baleia, um primor, especialmente em uma cena de pura emoção quando seu destino é selado por Fabiano.

Mesmo com iluminação saturada, a fotografia da cena final do filme transmite, ao mesmo tempo, tristeza e beleza.

Revi este filme para a aula do curso sobre Cinema Novo que estou fazendo, on-line, no Cinema com Teoria.

Vi, em 03/02/2022, no Telecine Play.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

OS FUZIS

Os Fuzis, 1964, 80 minutos.

Filme da primeira fase do Cinema Novo dirigido por Ruy Guerra, tendo como atores Átila Iório (Gaúcho), Maria Gladys (Luísa), Nelson Xavier (Mário), Paulo César Peréio (Pedro), Ivan Cândido (301), Hugo Carvana (José) e Leonidas Bayer (Sargento).

O filme foi rodado em preto e branco, longe de estúdios, na cidade baiana de Milagres, um local bem pobre e devastado pela seca. Tem ares de documentário, especialmente quando os moradores da cidade, que participam de todo o filme, são focados e até mesmo entrevistados. Mas ao mesmo tempo, tem seu lado ficcional, quando os atores profissionais estão em cena.

Interessante como a mentalidade da época, vista nos dias atuais, é bem refletida no filme. Enquanto os homens, adultos e poucas crianças, ficam em um bar em uma aposta com Pedro, um dos soldados, onde armas, munição e cachaça estão no centro da aposta, as mulheres, e muitas crianças, estão em oração na igreja, ou seguindo um beato com um boi que ele acredita ser milagroso. Homens e mulheres com separações distintas de seus "papéis" na sociedade. E ainda tem uma cena que Mário tenta forçar um beijo em Luísa em um beco escuro, mesmo ela não querendo, acabando em um estupro. Machismo e misogenia em cena.

A trama: soldados, enviados pela polícia de Salvador, chegam à cidade para proteger alimentos na venda do vereador (político típico do interior, como um coronel), enquanto a população passa fome. Neste espaço temporal, chegam à cidade um beato com seu boi santo e um caminhoneiro (Gaúcho), com o caminhão carregado de cebolas. A roda do caminhão estraga, fazendo Gaúcho ficar mais dias na cidade. Um dos soldados, brincando de tiro ao alvo em um cabrito, mata um camponês, gerando desconforto entre os demais companheiros soldados e uma indignação da população local, mas sem nenhum levante. Mais para o final do filme, em um breve momento de ação nos moldes de um faroeste, Gaúcho se revolta pela morte de uma criança por fome, pega um fuzil de um soldado e tenta impedir os caminhões carregados de sacos de alimento sair da cidade.

Alguns pontos me fizeram refletir:

1. foi um homem branco (a maioria da população local era negra), do sul do país, que demonstrou alguma atitude para tentar matar a fome dos locais. Foi preciso chegar um homem do Sul para tentar resolver a questão da fome em uma cidade nordestina? Mas a posição de Gaúcho é ambígua desde o início. É machão, quase compra uma menina de 14 anos em uma parada com seu caminhão, tem um passado como soldado, a princípio, não se revolta com a fome que assola Milagres, tendo, inclusive um caminhão carregado de cebolas que está apodrecendo, para depois, ao ver a criança morta pela fome, se revolta.

2. como a religião se aproveita da miséria humana para se afirmar, como o beato do filme com sua promessa de um milagre operado por seu santo boi (apesar da atitude do beato em relação ao boi no final do filme), recebido com ramos de palmeira, como Jesus foi recebido na Galileia, e sendo seguido por uma multidão.

3. os cineastas do Cinema Novo, com suas ideias de esquerda, eram oriundos da classe média e faziam filmes para a classe média consumir, perpetuando a ideia de que os camponeses, especialmente os do Nordeste, não eram capazes de reagir. E ainda fico pensando o quanto tais moradores, sempre com agradecimentos nos créditos dos filmes, foram explorados nas filmagens. Fica a questão: receberam cachê enquanto figurantes, ou mesmo como atores não profissionais?

Apesar destas considerações acima, gostei muito do filme, sendo a primeira vez que o assisti.

Vi, em 01/01/2022, no Now.


quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

7 PRISIONEIROS


7 Prisioneiros
, 2021, 93 minutos.

Produzido por Fernando Meirelles e Ramin Bahrani, dirigido por Alexandre Moratto, tendo como protagonistas os atores Rodrigo Santoro (Luca) e Christian Malheiros (Mateus).

Venceu os prêmios Orizzonti Extra (prêmio do público) e Sorriso Diverso Venezia Award (melhor filme em língua estrangeira), ambos no Festival Internacional de Cinema de Veneza.

Mateus e mais três jovens do interior de São Paulo decidem deixar a família e o trabalho na roça para tentar a sorte na capital. Eles são aliciados por um homem que, na despedida dos jovens, entrega um pacote de dinheiro para seus familiares, sinalizando que o futuro seria melhor. Em São Paulo, são deixados em um ferro velho controlado por Luca, que será um verdadeiro carrasco para eles. Os quatro ficam alojados com condições degradantes em um aposento no próprio local de trabalho e têm seus documentos retidos. Logo descobrem que o tal futuro promissor viraria um pesadelo. Mateus, líder nato, passa a questionar Luca sobre seus direitos e pagamento de salários, quando descobre que estavam devendo um montante astronômico, pois seriam descontados do salário deles o dinheiro entregue para a família, o alojamento, a comida, os itens de higiene. Trabalhariam sem nada receber até quitar a dívida, que, logicamente, aumentaria sempre.

O filme me deixou tenso na maior parte da projeção, pois sempre esperava Mateus liderar a turma para não só escapar, mas também se vingar, e para isso teve várias oportunidades. No entanto, o que vemos é a perpetuação do ciclo, pois Mateus, aos poucos, vai saindo do lado dos jovens escravizados (escravidão contemporânea), passando para o lado do opressor. Neste rito de passagem, ele tem acesso às estratégias de funcionamento do tráfico de pessoas para o trabalho forçado em São Paulo. Tal tráfico é tanto de jovens como ele, mas também de imigrantes que viam no Brasil uma oportunidade melhor do que em seus países de origem.

Percebe-se, ainda, que Luca não é simplesmente um patrão frio e mal, pois ele faz parte de uma engrenagem da qual existem pessoas acima dele, incluindo um político que entra em campanha para novas eleições. Ele dá ordens, mas também as recebe. A questão é muito mais complexa do que possa parecer.

Mateus fez uma opção clara: deixar seu passado para trás e ter um futuro melhor para si e para sua família, mesmo que isso custe a liberdade e a dignidade de outras pessoas, incluindo seus companheiros que iniciaram a jornada junto com ele.

Ao final, um dos companheiros queima, com um cigarro, o braço de Mateus. Ao partir com Luca para uma nova etapa (participar da campanha política), ele, dentro do carro, olha para a queimadura. Ele abandonava ali seu passado, mas a sua marca ficaria para sempre.

O final não é o que esperamos, mas reflete a vida como ela é.

Há alguns erros no roteiro, especialmente no que diz respeito à fiscalização trabalhista que acontece no ferro velho. Os fiscais se identificam como fiscais do Ministério Público do Trabalho - MPT, enquanto nos seus coletes está escrito Auditoria Fiscal do Trabalho. O MPT não tem fiscais, mas sim procuradores do trabalho, enquanto a fiscalização trabalhista é de competência do Ministério do Trabalho e Previdência. O modus operandi da fiscalização também é eivado e erros.

Vi, em 01/12/2021, na Netflix.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

CIDADE DE DEUS

🔟 - Cidade de Deus (Cidade de Deus), 2002, 130' - filme dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund. Revi este filme 19 anos depois que o assisti no cinema. Continua atual, forte, sem glamour, mostrando a formação e o crescimento da milícia dentro da comunidade Cidade de Deus. Elenco de novatos, muitos deles vindos de comunidades carentes, super afiados, entregando excelentes performances. Tem participações especiais e sensacionais de Matheus Nachtergaele (Sandro Cenoura) e Seu Jorge (Zé Galinha). É o primeiro longa metragem de Alice Braga (Angélica), que depois faria carreira de sucesso em Hollywood. A escolha das cores, sempre com a predominância de tons amarelados, tem relação profunda com as cenas, desde a mais inocente, quando os bandidos ainda eram bem bobinhos, até a mais vibrante, forte, exalando calor, nas cenas das brigas de quadrilhas para dominarem o tráfico de drogas na comunidade. A questão da ausência do Estado faz com que Zé Pequeno (Leandro Firmino), o chefe de um bando, seja adorado pelos moradores da comunidade, pois ele os protege de roubos, assaltos, e outros crimes. Aborda, ainda, a simbiose entre a polícia e o tráfico. Como disse, mais atual do que nunca, mesmo passados quase 20 anos. Vi no Telecine.