Sábado para descansar. Depois de levar Ric ao aeroporto, voltei para casa para relaxar a tensão acumulada da semana. Pedi comida pelo telefone: China in Box. Só fui sair no início da noite para conferir mais duas peças do festival de teatro Cena Contemporânea. A primeira, às 19 horas, no Teatro Sesc Garagem, encenada pelos goianos do Grupo de Teatro Artes & Fatos, chamada A Balada do Palhaço. Ingresso a R$ 16,00 a inteira. O teatro não ficou cheio para ver a performance dos atores Edson de Oliveira e Bruno Peixoto nos papeis dos palhaços Bobo Plin e Menelão, respectivamente. Não gosto de palhaços, nunca gostei, mas fiquei curioso ao saber que o texto era de Plínio Marcos, famoso pelas peças Navalha na Carne e Dois Perdidos Numa Noite Suja, nas quais as personagens são outsiders. A direção do espetáculo cabe a Danilo Alencar. Em cena, os palhaços vivem um dilema antes do início de uma apresentação: Bobo Plin, o palhaço do circo, não quer mais se apresentar. Ele quer descobrir sua alma. Menelão, o dono do circo decadente tenta demovê-lo desta ideia e fazer seu número, mesmo que seja para um público pequeno. Os recursos cênicos são interessantes, especialmente a iluminação e as performances circenses, como números com malabares e de equilíbrio em tambores. Esquetes típicas com palhaços estão, obviamente, presentes, como os tombos e brincadeiras com o público (mas não é peça interativa). Para quem conhece os textos de Plínio Marcos, vê-se claramente as perturbações presentes em suas personagens marginalizadas, tais como prostitutas, travestis e aproveitadores, todos encenados pelos dois palhaços. Soltei boas gargalhadas. Há também momentos de reflexão, nos quais a dor da solidão, o desespero e as críticas à sociedade moderna estão presentes. Foi muito aplaudido no final. Achei médio, embora tenha gostado se comparado com os demais espetáculos que vi até então. Atrasado, saí correndo para a Sala Martins Penna do Teatro Nacional Cláudio Santoro para conferir a segunda peça da noite, cujo ingresso também custou R$ 16,00. Ao chegar ao local, tive dificuldades para estacionar, já que acontecia a Virada Cultural (um arremedo da Virada Paulista) do DF, em sua primeira edição. Os dois palcos foram montados em parte do estacionamento do teatro, que tinha dois espetáculos naquela noite. Resultado: carros por tudo quanto é lado, incluindo locais não permitidos. Tive que parar o carro perto da rodoviária e descer correndo para não perder o início de Dizer Chuva e Que Chova (Decir Llucia y Que Llueva), segundo espetáculo da companhia espanhola Kabia - Espacio de Investigación Dramática de Gaitzerdi Teatro na programação do festival. Dirigido por Borja Ruiz, o mesmo diretor de Paisagem com Argonautas, desta feita com mais atores em cena, incluindo Juana Lor, a atriz que sola em Paisagem. Puro experimentalismo. Não denominaria o que vi de peça teatral, mas sim um show de efeitos cênicos, visualmente muito bonito. O pouco texto é desconexo, não se relacionando, na maioria das vezes, com o que se desenrola em cena. As referências ao cinema e ao teatro são visíveis: a sombra que se rebela contra o seu "dono" nos remete a desenhos animados, além do filme Dick Tracy; o figurino, os guarda-chuvas e o balé na chuva nos remete ao clássico do cinema Cantando na Chuva; vômitos em vermelho e xixi saindo pelos fundos da calça nos remetem a comédias estilo pastelão; as três cantoras que ficam no palco emolduradas por janelas nos remete aos filmes japoneses, com a quase ausência de movimentos; e a areia saindo da mala enquanto uma atriz caminha pelo palco me remeteu ao dinamarquês Odin Teatret, em peça encenada no CCBB, em edição de 2005 deste mesmo festival, chamada Salt, onde a protagonista tem uma mala cheia de sal. Naquela peça, há uma chuva de sal no palco, mesmo efeito utilizado pelo Kabia quando promove uma "tempestade" de areia fina no palco da Martins Penna. Enquanto teatro, não gostei. Enquanto espetáculo, achei um delírio visual. As cantoras me incomodaram um pouco. Se fosse o diretor, daria o mesmo destino a elas ao dado ao pobre pombo (de madeira) no meio da apresentação: um tiro certeiro e fatal. Enquanto performance, é muito bem ensaiado e sincronizado. Depois de oito peças assistidas, continuo com Till, do Grupo Galpão, que abriu o festival, como a minha favorita.
Um pouco de tudo do que curto: cinema, tv, teatro, artes plásticas, enogastronomia, música, literatura, turismo.
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domingo, 29 de agosto de 2010
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
CENA CONTEMPORÂNEA - DIA 2
A minha quarta-feira foi tumultuada com muitos problemas a resolver, além do dia ter sido muito quente e seco. Cheguei ao final do dia sem vontade de fazer nada, mas tinha ingressos para duas peças de teatro que integram o festival internacional Cena Contemporânea. Respirei fundo, enfrentei um trânsito na hora do rush para chegar ao Teatro SESC Garagem, local da primeira peça. Dificuldade para estacionar, já que há faculdades nas proximidades. Entrei na fila às 19 horas, mesmo horário em que as portas foram abertas. O teatro não lotou, mas recebeu um público grande. Diria que faltou pouco para lotar. O ingresso custou R$ 8,00 a meia entrada (cupom Sempre Você). O espetáculo é do grupo espanhol Kabia - Espacio de Investigación Dramática de Gaitzerdi Teatro. Paisagem com Argonautas (Paisaje con Argonautas) é o nome da peça que tem direção de Borja Ruiz. No palco uma atriz (Juana Lor) e um músico (Iñio Olazábal) encenam um texto do alemão Heiner Muller, cuja tradução em português foi entregue na entrada, pois a atriz interpretava em espanhol. A própria sinopse do texto diz que o texto é desconexo, fato ratificado pela atriz em cena, quando ela para a interpretação para explicar, em português, o que significava. Além do texto, uma reprodução de um quadro de Paul Klee no qual um anjo é lavado pelo vento em uma paisagem com fundo vermelho e uma sombra de uma árvore seca, devastadora. Enquanto a atriz está em cena, o músico executa a música ao vivo, tocando alguns instrumentos bem diferentes ou inusitados. A atriz tem uma performance arrebatadora, especialmente quando simula uma bailarina de uma caixa de música, ou provocadora, quando levanta a saia preta e mostra que está portando um pênis falso. Mas o texto é chato, pra baixo, pessimista. O texto retrata o caos, a miséria, a impossibilidade de se voltar atrás, atrocidades, dores, morte. A peça durou apenas quarenta minutos e a plateia ficou dividida. Alguns aplaudiram de pé, enquanto outros batiam palmas protocolares. Fiquei no segundo grupo. Saí do teatro para outro teatro. Desta vez o teatro da Caixa Cultural, onde vi a segunda peça da noite, Não Precisa Chorar (No Vayas a Llorar), do Teatro Viento de Agua, de Cuba. A dramaturgia é de Boris Villar, enquanto Maribel Barrios faz a encenação. O texto se baseia em fatos reais ocorridas em Havana no ano de 1994, quando milhares de cubanos se jogaram ao mar em embarcações toscas com o objetivo de saírem da ilha para alcançar a sonhada liberdade na Flórida. Mais um texto pessimista, cheio de rancor, de morte, de saudades. Maribel é ao mesmo tempo a mulher abandonada por um ente querido e os cubanos que se aventuraram em uma balsa de madeira e pneus, além de fazer a voz cavernosa que nos remete à própria morte. O teatro não estava cheio, cujo ingresso também paguei R$ 8,00 (meia entrada). Ao final de ciquenta minutos, comentários diversos eram ouvidos na saída do teatro, inclusive em relação à reação da plateia que também se dividiu ao aplaudir a atriz, muitos permanecendo sentados. Fica a sensação de que algo faltou, que a utilização dos recursos de projeção eram excessivos, que a repetição de nomes de pessoas que morreram soa sem sentido para encenação fora de Cuba, de que o texto ficou datado. Noite ruim.
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