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domingo, 31 de agosto de 2014

LA FUNCIÓN POR HACER - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Ainda sábado, 30 de agosto de 2014. Terceira peça do dia. Ainda Cena Contemporânea 2014. Sessão das 21 horas no Teatro Sesc Garagem para ver a montagem espanhola La Función Por Hacer, do grupo Kamikaze Producciones. Pela primeira vez neste festival, exigiram o comprovante de meia entrada na porta do teatro. No meu caso, paguei meia por ser correntista do Banco do Brasil. Sala completamente lotada. Cadeiras dispostas nos quatro cantos do teatro, com o palco ao centro, como se fosse um teatro de arena. As luzes ficaram acesas o tempo inteiro e o ar condicionado, muito frio quando entramos, foi desligado assim que começou o espetáculo. Na medida em que o tempo passava, mais e mais pessoas se abanavam com o que tinham nas mãos. O calor era cada vez mais forte. Os atores suavam em cena, mas ninguém se mexeu para ligar o ar. Ficamos assando até o final da peça, que durou perto de uma hora e meia. Uma mulher da plateia chegou a pedir, em alto e bom som, quando uma das atrizes sai correndo e abre a porta da sala para que ela deixasse a porta aberta. Sei que muitos atores pedem para desligar o ar, mas fico imaginando se eles fariam isto se estivessem se apresentando em algum teatro de Dubai.
Quanto ao espetáculo, é uma adaptação de texto clássico de Luigi Pirandello, Seis Personagens A Procura de Um Autor. Com roupagem naturalista, o grupo traz a história para os dias atuais, e consegue debater a essência do teatro, deixando cada um dos presentes absorvidos com o que se passava no tablado. Atuações ótimas, texto bem falado. Mesmo sem nenhum tipo de tradução, não foi difícil compreender o que os atores falavam, sempre em espanhol, mesmo nos momentos em que os diálogos ocorriam em velocidade máxima.
Um belo espetáculo que faz jus aos vários prêmios que já recebeu na Espanha.
Gostei muito.

A BICICLETA DO POETA - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Ao sair do Teatro II do CCBB no final da tarde de sábado, 30 de agosto, deparei-me com o início da performance do artista Emmanuel Marinho, oriundo da cidade de Dourados, em Mato Grosso do Sul. Ele estava andando em uma bicicleta (era na verdade um triciclo), cantando uma música de sua autoria. Algumas pessoas foram se posicionando na grama, bem próximo de onde acontecia a cena. Fiz o mesmo. Era o início do poético espetáculo A Bicicleta do Poeta, também integrante da programação do Cena Contemporânea 2014. Em cerca de 45 minutos, o ator/poeta cantou, declamou suas poesias, mexeu com o público, que foi chegando aos poucos, distribuiu poemas, deu tarefas para pessoas que estavam na plateia, enfim, interagiu de forma tranquila, espontânea, agradável e feliz com o público. Suas poesias que tinham os bichos do Pantanal e do Cerrado como tema são divertidas e agradam a crianças e adultos. Duas meninas que aparentavam ter cinco anos estavam absortas com os "causos" poéticos de Emmanuel. Até mesmo seu nome entrou na roda, em um poema que fala da ema, do anel, do ano e de Emmanuel. Também teve poesia que remetia a fatos históricos recentes da política brasileira, como o mandato de Fernando Collor na Presidência da República.
Mas o melhor foi a movimentação que ele fez para a sua bicicleta voar. Quando me vi, estava eu ajudando o artista, segurando um pano/cartaz com um poema que se apropriava da famosa frase "gentileza gera gentileza", enquanto ele declamava e cantava. Depois, todos fomos chamados a ajudar a bicicleta a  voar, quando seguimos, em cortejo, atrás do poeta e de sua bicicleta pelos espaços abertos do CCBB, despertando a curiosidade daqueles que estavam no restaurante ou simplesmente passeando pelo vão central do centro cultural. Poeticamente, a bicicleta voou, assim como todos nós.
Fui embora mais leve.

FIOS DE HISTÓRIAS - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Fios de Histórias foi mais uma peça da programação do Cena Contemporânea 2014 de procedência local. Dirigida ao público infantil, é baseada em livro de Salman Rushdie chamado Haroun e o Mar de Histórias. Idealizada por Mariza Vargas e dirigida por Míriam Virna, a peça entrou em cartaz no Teatro II do CCBB, que recebeu excelente público, entre adultos e crianças, para a sua sessão de estreia ocorrida no sábado, dia 30 de agosto, às 17 horas.
O cenário, adereços e figurino chamam a atenção pelo material utilizado em suas confecções: papelão, plástico, tampinhas de garrafas pet, entre outros itens recicláveis. Este uso já demonstra a preocupação de transmitir uma mensagem de preservação do meio ambiente, no caso, da água. O espetáculo dura cerca de uma hora e cumpre seu papel de entreter senhores, senhoras, meninos e meninas, como eles anunciam logo no início.
A interpretação é claramente baseada em desenhos animados, o que garantiu uma melhor aproximação com as crianças presentes, que não desgrudavam os olhos do palco, prestando atenção nas aventuras de Haroun e seu pai, Rashid Kalifa, um contador de histórias que perde o poder de contar histórias quando Soraya, sua mulher, o abandona. Pai e filho vão à Cidade Tagarela e lideram a luta contra o malvado Kathan Shud para salvar o Mar de Histórias.
Com exceção de Kael Studart, que interpreta o garoto Haroun, todos os demais atores se revezam em mais de um papel. E justamente o que faz um único papel, Studart, é o ponto fraco da peça. Sua interpretação é linear. Nem mesmo com expressões faciais fortes, que usa e abusa durante o espetáculo, ele consegue passar verdade. Já os demais atores estão bem caracterizados em cena, com destaque para a ótima interpretação de Mário Luz, ator que também esteve em outra montagem neste festival: Autópsia. Ele interpreta o gavião-avião, o vizinho de Haroun, o pretendente da princesa e o terrível Kathan Shud. A aparição dele como o pretendente da princesa foi tão forte que assustou uma criança que estava na primeira fila. O menino chorava tanto que seus pais tiveram que tirá-lo do teatro na mesma cena.
Usando muita fantasia, o texto trata de temas muito atuais, como a necessidade de preservação do meio ambiente, e o valor da amizade.
História deliciosa.

sábado, 30 de agosto de 2014

OTHELO - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Othelo, clássico de William Shakespeare, foi a décima quarta peça que vi no festival Cena Contemporânea 2014. Foi na noite de sexta-feira, dia 29 de agosto, no Teatro I do CCBB, sessão das 21 horas. Teatro bem cheio para conferir esta montagem de um grupo argentino, integrado por quatro atores, conduzido por Gabriel Chamé Buendía. Confesso que fui para o teatro sem muita vontade de ver a peça, pois não gostei do que li na sinopse disponível no catálogo do festival. Buendía propõe releituras dos grandes clássicos do teatro, especialmente de textos escritos por Shakespeare, utilizando linguagens pouco ortodoxas, como o teatro burlesco ou elementos do clown (detesto esta palavra!), além de abusar do teatro corporal, no qual os atores tem que demonstrar excelente preparo físico e muita maleabilidade em cena. Não gosto do teatro que abusa de linguagem própria de palhaços no circo. É certo que já vi, e gostei, de peças encenadas pelo grupo Clowns de Shakespeare, do Rio Grande do Norte, o que me motivou um pouquinho para conferir esta montagem de Othelo.
Mas foi duro de aguentar. Quase duas horas de espetáculo, cheio de gagues típicas de programas de humor que passam na TV aberta ou das comédias pastelão que são sucesso de público nos palcos do Brasil. Há elementos interessantes nesta montagem, como a utilização de projeções ao vivo de algumas cenas, com os atores fazendo caras e bocas, além de recursos cênicos de movimento de água utilizando panos prateados, mas, no geral, não me agradou a peça.
O texto ficou em segundo plano. O que se sobressaiu foi a comédia burlesca, resvalando no pastelão. Era como se eu estivesse vendo Os Melhores do Mundo falando em espanhol. Com quarenta minutos de espetáculo, já tinha visto o suficiente para saber que não iria gostar. Com uma hora e vinte minutos, pensei que estava vendo um filme que nunca tem fim, como Lawrence da Arábia ou E O Vento Levou...
Ao final, a esmagadora maioria do público presente no teatro aplaudiu de pé, com gritos calorosos, demonstrando a satisfação que teve em ver aquela montagem de Othelo. Percebi que minha sintonia era totalmente diferente, mas não estava só. Karina e André P. também não gostaram. Carol, também minha amiga, gostou muito. Realmente não apreciei o espetáculo.

NOCTILUZES - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Festival Cena Contemporânea 2014, décimo primeiro dia, sexta-feira, 29 de agosto. Chegou a vez de Noctiluzes, outra montagem brasiliense na programação do festival. Teatro Goldoni, 19 horas. A peça já tinha estado em cartaz no Teatro II do CCBB, no primeiro semestre deste ano. Em cena, a Cia Plágio de Teatro. Quando li que era uma encenação de texto do argentino Santiago Serrano, fiquei empolgado, pois gostei muito de dois textos dele que já foram encenados por atores de Brasília, Dinossauros e Fronteiras. Ambos poéticos, ambos com personagens que não se conhecem, ambos com reflexões profundas sobre o ser humano, suas decepções, desilusões e sua necessidade de interagir com outros.
Noctiluzes me instigou mais ainda por ser um texto escrito por Serrano para o grupo brasiliense.
Em cena, os atores Chico Sant'Anna, que dá vida a um cego; Sérgio Sartório, responsável também por tradução e direção, que interpreta um homem que precisa cumprir uma promessa feita para a esposa; e Vinícius Ferreira, vivendo um homem desiludido. Nenhum dos três se conhece, mas estão no mesmo píer de uma cidade portuária que não mais recebe navios. É noite. Cada um está no píer por motivos que só eles sabem e não querem, a princípio, compartilhar seus medos e segredos com ninguém. Ao longo dos cerca de 80 minutos de duração do espetáculo, surpresas e reviravoltas pontuam a história, deixando o público cada vez mais ligado. As tiradas do cego são sensacionais.
A poesia de Serrano continua presente neste texto, assim como a discussão da solidão, da falta de solidariedade, mas também tem a construção de elos fortes de amizade, mesmo entre desconhecidos, a comunhão em prol de um bem comum.
As interpretações dos atores estão em ponto certo, sem arroubos gestuais, em perfeita comunhão com a situação. O cenário, simples, mas carregado de significados, também é digno de nota. Gostei muito.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

TOMORROW - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Ainda na noite de quinta-feira, dia 28 de agosto de 2014, após ter conferido Adaptação no CCBB, fui para o Teatro Funarte Plínio Marcos, onde acontecia a estréia de Tomorrow, montagem do grupo escocês Vanishing Point Theatre Company. Quando lá cheguei, uma fila enorme já se formava para entrar. Encontrei-me com Hélida G. e André P. e ficamos batendo papo sobre as peças que já tínhamos visto até então dentro da programação do Cena Contemporânea 2014. Tomorrow é a primeira co-produção do festival. Muita expectativa, ainda mais que um ator brasiliense, William Ferreira, estaria em cena. Teatro completamente lotado. O calor de sempre na sala de espetáculo, já que lá não tem ar condicionado. Antes de iniciar, o diretor da peça, Matthew Lenton apareceu no palco para um recado ao público. Disse que a peça seria falada em inglês, com legendas em português, e que algumas falas não seriam traduzidas, o que era normal, não seria uma pane no sistema de legendagem. Os atores improvisavam em cena. Disse para a plateia prestar atenção no que ocorria no tablado, seria tudo perfeitamente entendível. Informou, ainda, que figurino, aparelhos de iluminação, entre outros objetos, ficaram retidos na alfândega brasileira no aeroporto de Guarulhos. Agradeceu à equipe do festival por ter conseguido providenciar o que precisava para colocar a peça em cena.
A história gira em torno de um asilo de velhos, todos senis, contando a rotina diária deles com os empregados do local. Para envelhecer os atores, o diretor optou por usar aquelas próteses de borracha, muito comum nos filmes hollywoodianos. Embora com feições totalmente distintas, os velhinhos ficaram sem expressão. Não gostei.
A ideia da peça até que é interessante, mas a forma como foi contada não me agradou. A julgar pelos que deixaram o teatro enquanto rolava a encenação, não fui o único a pensar assim. Roubando uma intervenção de minha amiga Hélida G., soou muito moralista, o típico moralismo inglês, que não consegue expiar seus pecados históricos. Tive uma sensação de ser culpado por todas as mazelas contra velhinhos existentes no mundo, especialmente em asilos. A tentativa de colocar a culpa em toda a humanidade é patente. Uma pena que foi assim, pois a iluminação e a movimentação dos atores em cena é muito boa. A cena da tentativa de revolta dos idosos, com direito a tentativa de fuga como se fossem prisioneiros de um cárcere de segurança máxima, é hilária. Mas fica por aí. Ao final, pela primeira vez no festival dentre as peças que assisti, não ouvi nenhum grito de entusiasmo. Ouvi apenas palmas, até diria que foram palmas protocolares. Vi muita gente sentada, sem nem mesmo aplaudir, grupo ao qual me filiei. Na saída, comentários diversos, mas nenhum deles de forma entusiasmada pelo que viram em cena. Realmente não gostei do que vi.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

MISANTHROFREAK - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Início da noite de domingo, dia 24 de agosto de 2014. Pouco antes das 19 horas eu já estava na fila para entrar no Teatro Goldoni para conferir mais uma atração do Cena Contemporânea 2014. Era a peça Misanthrofreak, montagem do Grupo Desvio (DF), com atuação, direção, luz e som de Rodrigo Fischer. Mais uma vez, sala completa para ver Fischer em cena. Inspirada em Samuel Beckett, a peça tem pouco menos que uma hora de duração. O ator já estava em cena quando o público começou a entrar e se acomodar nas cadeiras do local.
Dois telões, uma parafernália de equipamentos eletrônicos, papéis A4 espalhados pelo chão, uma boneca inflável, uma mala, um balão prateado em forma de coração, e alguns brinquedos compõem o cenário. Fischer vestia um figurino que me lembrou Carlitos (parafraseando a música de João Bosco e Aldir Blanc, O Bêbado e A Equilibrista). Não há muito texto. O que vale é a movimentação do ator em cena, de sua interação com os equipamentos eletrônicos, com as imagens que rolavam nos telões, com a plateia, e o seu trabalho de corpo. Mesmo com pouco texto, é super compreensível o que se quer passar. No palco, Fischer lida com questões profundas do mundo individualista em que vivemos. Medo, solidão, fracasso, insegurança, sonhos, entre outras questões, são mostrados de forma poética, com humor, o que permitiu uma perfeita sinergia com o público. As referências cinematográficas acontecem a todo o instante, seja no próprio figurino do ator, seja na sua forma de atuar como se estivesse em um filme mudo, seja nas muitas cenas de beijos projetadas no telão, enquanto ele aborda, dança e transa com a boneca inflável. A cena é ao mesmo tempo poética, engraçada e triste.
Um providencial karaokê em que o ator participa termina com a participação natural da plateia.
Há uma cena sensacional, quando ele declara seu amor por alguém que assistia ao espetáculo (no dia, pareceu-me que era um ator estrangeiro de uma peça integrante do festival) e o leva para o altar, com direito a troca de alianças (um enorme anel azul de plástico), enquanto outra pessoa do público segurava uma câmara do cenário, filmando a cerimônia, com transmissão ao vivo para nós do público. É divertida, mas também serve para refletir sobre as nossas dificuldades em tratar certos temas em público.
Gostei muito do que vi. 

domingo, 24 de agosto de 2014

CUARTETO DEL ALBA - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Ainda sábado, dia 23 de agosto de 2014. Depois de ver Mundaréu, peça que estava em cartaz no Teatro II do CCBB, era vez de conferir mais um espetáculo da programação do Cena Contemporânea 2014. Não precisei sair correndo, pois a peça estava programada para o Teatro I do CCBB. Deu tempo até para fazer um rápido lanche no café do centro cultural. A movimentação de pessoas do mundo teatral brasiliense era grande no hall de acesso ao Teatro I. Todos para ver a montagem espanhola da Laurentzi Producciones S.L.. Pela primeira vez nesta edição não vi a sala de teatro completamente tomada, embora estivesse com ótimo público. A peça era Cuarteto del Alba, texto de Carlos Gil Zamora, direção de Lander Iglesias. Ao entrar, a iluminação do cenário que consistia de quatro cordas caindo nos quatro cantos do palco, com uma providencial fumaça cênica, despertou minha curiosidade. Assim que as luzes se apagaram, dois atores e duas atrizes entraram com seus respectivos bancos, se posicionando ao lado das cordas, cada um em seu canto. Começaram a jorrar, em uníssono, um discurso que se perpetuaria ao longo dos setenta minutos de duração do espetáculo. Nada foi traduzido deste embaralhar de palavras inicial. Mas, em seguida, cada um falou, ou melhor, discursou pausadamente, com legendagem simultânea em projeção estrategicamente colocado no alto do palco. A trama, se é que tem uma, é desenvolvida em capítulos. Uma verborragia é despejada no público, tocando em temas tão díspares, mas ao mesmo tempo tão próximos entre si, como política (o fantasma da era Franco na Espanha é uma constante nas últimas peças espanholas que tenho visto e nesta não foi diferente), a desilusão de um amor, a dependência química ou memórias de uma história não vivida. O texto é denso, é bom, mas a forma de executá-lo no palco me pareceu chata, enfadonha. São quatro pessoas em cena, mas que tem seus discursos próprios. Foram quatro monólogos longos, com certa poesia em alguns momentos, méritos para a iluminação de Iñaki Garcia.
Confesso que não gostei. Ao final, como muitos da plateia, nem mesmo aplaudi, quanto mais ficar de pé. Não sei se ainda estava sob o impacto de Mundaréu, peça que tinha visto poucas horas antes, mas esperava mais. Mas festival é assim mesmo. Não há como gostar de tudo.

MUNDARÉU - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Quinto dia do Cena Contemporânea 2014. Mais um ingresso na mão para conferir outra peça integrante da programação do festival. Desta vez no Teatro II do CCBB. Camilo e André também tinham entrada para o mesmo espetáculo. Assistimos juntos. Como estava marcada para ter início às 19 horas, meia hora antes já estávamos na rampa de acesso ao teatro. A montagem era Mundaréu, textos de Plínio Marcos adaptados por Alexandre Ribondi, dirigido por Alice Stefânia e encenado pela companhia brasiliense Dois Tempos Cia de Teatro. A cena inicial aconteceu quando ainda estávamos na fila, do lado de fora, na grade bem perto de onde eu estava. Cena rápida, mas de uma energia fenomenal. Dois adolescentes em um embate para ver quem domina a área no submundo do crime. Duas performances fortes que nos deram o tom de como seria dentro do teatro. Já devidamente acomodados, mais uma vez a produção conta o número de cadeiras vazias e libera a venda de ingressos para quem esperava na bilheteria do CCBB. Teatro lotado. Três músicos posicionados do lado esquerdo do palco. Uma música pontua o seguimento da trama. O cenário nem tem grandes arroubos, todo em ferro, com estruturas que os atores empurravam entre uma cena e outra, bem dentro do clima tenso dos textos sempre atuais de Plínio Marcos. Tais estruturas serviam como cama, como esconderijo, como prisão, tudo dependia do que era retratado no momento. O adolescente é Querô (há um filme brasileiro que narra a história deste personagem), que fora atingido por um tiro dado por um policial. Ele agoniza enquanto um jornalista quer gravar seu depoimento para uma reportagem. Ao mesmo tempo, o grupo nos mostra a mãe de Querô, uma prostituta que tem seu filho retido pela cafetina Violeta logo que ele nasce e vai trabalhar com uma travesti, em prostíbulo definido pelo texto como um mocó. A história tem narrativa não linear, indo e vindo no tempo, fazendo um contraponto entre a história do adolescente Querô e sua mãe Dilma tentando economizar dinheiro para dar ao filho uma vida decente. Os atores se entregam nos seus papéis de forma contundente, passando uma verdade nua e crua. Alice Stefânia tem uma direção segura, sem firulas, onde o que importa é a verdade passada pelos atores em cena, em excelente trabalho corporal.
A cena das mortes de Dilma e Querô, que acontecem em tempos distintos na cronologia da história, mas que nós, o público, presenciamos acontecendo ao mesmo tempo no palco, tem um apelo tão forte junto ao público que algumas pessoas chegaram a se emocionar. Um jovem sentado na mesma fila em que eu estava chorava tanto, com resfolegares intensos, que tive a impressão que Davi Maia, um dos atores do grupo, ao dizer sua fala final, tentava achar, no público, de onde vinha aquele choro.
Além da força do grupo, as interpretações individuais são dignas de nota. Miguel Peixoto, além de fazer a travesti, é um dos músicos do trio que toca ao vivo durante os cerca de setenta minutos do espetáculo.
Helena Miranda dá um show fazendo dois papéis: a cafetina Violeta e a prostituta amiga de Dilma.
Ao sair do teatro, só ouvia elogios dentre aqueles que tiveram o privilégio de assistir àquela sessão. Já é uma das minhas peças favoritas do Cena. E olha que ainda faltam mais oito dias para terminar esta maratona de teatro.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

LA CHICA DE LA AGENCIA DE VIAJES NOS DIJO QUE HABÍA PISCINA EN EL APARTAMENTO - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Quarta-feira, dia 21 de agosto de 2014, terceiro dia do Cena Contemporânea 2014. Ingresso na mão para conferir mais uma peça. Teatro Sesc Garagem, 21 horas. Fila enorme para esperar desistências ou sobras de convites. O teatro ficou muito cheio, com gente espalhada pelo chão em frente às cadeiras (acho que todos que estavam na fila de espera entraram). Muita expectativa para ver La chica de la agencia de viajes nos dijo que había piscina en el apartamento, montagem do grupo espanhol El Conde de Torrefiel. Em cena, nove atores, dos quais seis eram convidados da companhia. Estes convidados eram de Brasília. O texto gira em torno de uma temporada que duas amigas passam em uma praia espanhola. Para a encenação, o grupo utilizou performances coreografadas, projeção de texto narrativo, especialmente durante as performances, contando o que se passa com as duas amigas; além de discursos longos que retratam o bate papo destas amigas, quando as atrizes que as interpretam ficam posicionadas diagonalmente uma em frente à outra, sem se mover. Apenas uma fala em um microfone de pedestal, sem alterar a  voz, sem mover braços ou mesmo alterar as suas expressões faciais. Fica parecendo um tipo de não-interpretação (o que de certa forma dialogava com o que vi na noite anterior no espetáculo Pichet Klunchun and Myself, no CCBB), onde o que mais importa é o texto.
A projeção da narrativa se dá em português, enquanto durante as falas das duas atrizes, Adriana Lodi, em off, faz a tradução simultânea (em texto previamente elaborado). Ficou parecendo aquelas transmissões da entrega do Oscar, com a voz de Lodi se sobrepondo às vozes das atrizes. A voz em off também seguia o tom monocórdio dos discursos. Confesso que este artifício me prejudicou em prestar atenção no texto, pois tinha momentos em que eu tentava seguir a narrativa em português, mas me via tentando entender o espanhol das atrizes. E isto piorava quando havia, no mesmo momento, alguma música da trilha sonora.
O texto é ácido, especialmente com relação à cultura pop que, segundo eles, esmagou qualquer possibilidade de a população, especialmente os mais jovens, de entender o mundo a partir de sua história. O Século XX é classificado pelo grupo como o Século da Merda Bonita. Uma frase chave deste pensamento é projetada quase ao fim do espetáculo: Guernica é um quadro famoso. Ou seja, hoje os espanhóis e os turistas que visitam a Espanha não sabem exatamente o que foi a Guernica. É apenas um quadro pintado por Picasso que ganhou fama mundial. Poucos sabem que se trata de uma batalha durante a guerra civil espanhola.
O texto é falado na forma de um discurso longo, cheio de referências ao mundo pop, particularmente do universo europeu. Citar o livro 2666, obra póstuma do escritor chileno Roberto Bolaño, dizendo que quem o leu entenderá o que a atriz diz a um dado momento, é bem provocativo. Fiz questão de olhar para os lados. Muita gente fazia cara de paisagem, pois muitos ali não sabiam quem era este escritor. Fiquei tentando imaginar qual seria a reação do público de língua espanhola ao ser provocado desta forma quando assistiram La Chica...
Três coreografias pontuam a aventura das amigas. Os atores convidados participam destas coreografias, sem nenhuma fala. A primeira é uma aula de tai chi chuan, quando as amigas decidem viajar juntas. A segunda é em um show de heavy metal na praia onde elas passam as férias e o que acontece depois dele, enquanto a terceira é uma festa tecno na mesma praia, também com participação das duas amigas.
A primeira parte da coreografia dos metaleiros é hilária, mas representa bem o comportamento dos metaleiros e o que acontece no mundinho deles, com um eterno bater de cabeças e rodopios das vastas cabeleiras. A segunda parte, com um bunda lelelê coletivo, no qual as bundas de fora pareciam os rostos das pessoas, é um "soco" na cara da plateia, com direito a "risadinhas" ao vivo. No mínimo, causou um certo desconforto. Alguns riram, outros mexeram nas cadeiras, outros suspiram e outros balançaram a cabeça. O nu da terceira coreografia não choca tanto. Todos ficam completamente sem roupa em cena, formando uma massa humana disforme, movida ao som do tecno e das drogas. Mais uma frase de impacto projetada no telão resume tudo: a cocaína é pop.
Em um dos discursos, a amiga diz para outra uma coisa sensacional: freiras e metaleiros eram os únicos integrantes de grupos (ou tribos, como dizemos por aqui) que se vestem de forma igual tanto no verão quanto no inverno. Adorei isto.
Ao final, o público estava visivelmente dividido. Parte aplaudia com entusiasmo, outros seguiam o protocolo com palmas frias e outra parte permanecia sentada. Fiquei no último grupo, sentado, sem saber direito se tinha ou não gostado. E assim fiquei até chegar em casa, quando pude refletir sobre tudo o que vi. Tirei a conclusão que tinha gostado, com exceção da sobreposição das falas ao vivo e em off (embora entenda que esta talvez seria a melhor forma para o público brasileiro entender o texto, já que as falas em espanhol eram longas, rápidas, cheias de gírias e referências europeias, não cabendo traduções simultâneas com aparelhos nos ouvidos).
A estética narrativa misturando projeção, coreografia e falas discursivas, sem uma interpretação clássica mostra que o mundo teatral pulsa, e muito, neste Século XXI. Espero que o público também consiga seguir este pulsar.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

PICHET KLUNCHUN AND MYSELF - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Segundo dia do Festival de Teatro Internacional de Brasília Cena Contemporânea 2014. O espetáculo para o qual tinha ingresso era Pichet Klunchun and Myself, em cartaz no Teatro I do CCBB. Uma amiga tentou comprar entrada para a mesma sessão um dia antes, mas não conseguiu. Ingressos esgotados para as duas únicas apresentações em Brasília. A mesma informação estava na edição de terça-feira, 20/08/2014, do Correio Braziliense.
Como fui direto do trabalho, cheguei às 19:45 horas no CCBB, onde encontrei Hélida G., que tinha duas entradas para o espetáculo. Ela precisava de mais um. Antes de lancharmos no café ao lado do teatro, fomos à bilheteria para ver se alguém tinha desistido. Para nossa surpresa, a produção do Cena tinha acabado de devolver ingressos destinados aos patrocinadores. Compramos o ingresso que ela tanto queria. Era hora de lanchar.
Eu tinha poucas informações sobre o que veríamos. Sabia que era um espetáculo de dança, mas ao ler a sinopse no livreto do festival, percebi que não seria bem um balé com coreografia. Seria uma espécie de bate papo. Compramos nosso lanche, sentamos em uma das mesas do lado de fora, aguardando as outras duas pessoas que nos acompanhariam, Fabíola e Lana.
Ao lado da entrada do Teatro I montaram uma mesa para entregar ao público um aparelho igual aos usados em conferências com tradução simultânea. Para pegá-lo, bastava entregar um documento que seria devolvido ao final da sessão.
Antes de entrar, perguntei a uma pessoa da produção do Cena o motivo do aparelho. O espetáculo seria todo falado em inglês. Resolvi entrar apenas com meus ouvidos. E foi muito tranquilo.
Houve um pequeno atraso, pouco mais do que dez minutos, para o início. Assim que soou o terceiro sinal, houve uma movimentação para troca de lugares, pois muitos assentos ficaram vazios. Creio que os convites distribuídos pelos patrocinadores não foram utilizados pelos contemplados.
No palco estavam duas cadeiras posicionadas uma em frente à outra em uma distância de uns três metros entre elas. Na cadeira da esquerda se sentou Pichet Klunchun, um bailarino tailandês, que estava descalço. Na cadeira da direita, o bailarino, coreógrafo e diretor francês Jérôme Bel, que tinha um notebook nas mãos. Assim que os dois se acomodaram em suas respectivas cadeiras, teve início um diálogo muito interessante, que foi crescendo ao longo dos 105 minutos de duração do espetáculo. Era uma espécie de entrevista na qual Jérôme conduzia as perguntas. Klunchun é um especialista em Khon, dança tradicional tailandesa. Jérôme perguntou o que é a dança, como ela começou e suas principais características. Klunchun foi mostrando, pacientemente, os passos mais marcantes do Khon, assim como seus principais personagens: homem, mulher, demônio e macaco. E ver o bailarino tailandês executar a coreografia passo a passo, gesto a gesto, com a devida explicação de cada um deles, foi uma das coisas que mais gostei no espetáculo. Quando o entrevistado vira o entrevistador, as performances de Jérôme Bel no palco são ótimas, demonstrando os motivos pelos quais ele está longe de ser uma unanimidade no mundo da dança. Suas peças não tem coreografias mirabolantes. Ele coloca no palco ações que qualquer um que o assiste poderia executar.
E neste interessante embate entre a tradição e o contemporâneo, entre o Ocidente e o Oriente, ganhou quem estava assistindo. O bate papo foi ótimo para provocar reflexões sobre a importância de se manter a tradição, mas também de inovar, de trazer algo diferente para chacoalhar a mesmice que impera no mundo.
Entre os muitos bons momentos, destaco dois:
1) Klunchun interpretando uma mulher quando ela recebe a notícia de que seu marido morrera em uma batalha. Os movimentos mínimos de seu corpo transmitiram toda a tristeza, incluindo um delicado choro.
2) Jérôme interpretando e dublando a canção Killing me softly with his song. Foi divertido, mas como uma possibilidade de se pensar a morte.
E a encenação da morte foi um dos temas debatidos entre eles, assim como a nudez em cena, algo normal para o francês, mas cheio de pudores para o tailandês.
Espetáculo primoroso.

CONSELHO DE CLASSE - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Começou a 15ª edição do Cena Contemporânea. Comprei ingressos para vários espetáculos. Iniciei a maratona pela peça de estreia da edição 2014 deste ótimo festival de teatro de Brasília.
Terça-feira, 20 de agosto. A peça estava marcada para ter início às 21 horas no Teatro Funarte Plínio Marcos. O estacionamento ao lado do Complexo da Funarte é amplo, sempre com tranquilidade para encontrar vagas. Mesmo assim, fui cedo para lá. Esta foi minha sorte, pois não contava com um estacionamento repleto de carros, a esmagadora maioria de torcedores do Vasco que foram ver um jogo válido pelo campeonato da segunda divisão de futebol que aconteceria no Estádio Nacional Mané Garrincha. Consegui uma vaga mais longe do local onde costumo parar.
Em frente ao teatro, cujas grades estavam fechadas impedindo o acesso ao pequeno hall do local, duas filas se formavam. A da esquerda era de quem tinha ingresso, onde logo me posicionei, enquanto a da direita era daqueles que ainda tentariam comprar entrada para a sessão da noite. Vários torcedores vascaínos passavam por lá e estranhavam aquele público em duas filas. Presenciei uma turma deles pensando que ali era a entrada do estádio.
Na medida em que o tempo passava, as filas cresciam, tanto em linha reta para trás quanto para os lados. Era tanta gente que conhecia tanta gente que alguns bolinhos de pessoas se formavam em determinados pontos da fila. Não sei o motivo, mas só abriram as grades e liberaram a nossa entrada quando os ponteiros do relógio já anunciavam ter passado do horário previsto para o início da peça. A saudação gravada do festival foi ao ar ainda com a maioria das pessoas do lado de fora. Houve uma considerável demora para acomodar todo mundo, inclusive aqueles que estavam sem ingresso. Tive a impressão que todos que estavam sem entrada tiverem êxito e entraram. O teatro ficou completamente lotado para ver Conselho de Classe, uma das peças que celebrou os vinte e cinco anos de carreira da Cia dos Atores, do Rio de Janeiro. A lotação completa era bom sinal, pois mostrava que o público estava ávido por teatro, ávido por celebrar o festival, mas ao mesmo tempo, a mesma lotação me indicava que o calor seria forte ali dentro. E foi.
O espetáculo começou com cerca de quarenta minutos de atraso.
O cenário mostrava uma escola com problemas visíveis de manutenção, ficando iluminado desde a entrada do público.
O texto de Jô Bilac é contundente (adjetivo que "roubei" de Fernando Guimarães), escancarando as mazelas da educação no Brasil, seja na questão do aspecto físico da escola, onde faltava até mesmo água potável, seja pela remuneração ridícula que um professor da rede pública recebe do poder público, no caso, do Governo Estadual do Rio de Janeiro. E ainda há a discussão sobre o papel da escola junto à comunidade, a falta de atualidade na gestão escolar e o conflito de ideologias entre os professores que formam o corpo docente daquela unidade.
São quatro atores que interpretam as professoras durante um conselho de classe perto do final do ano. São quatro homens que interpretam quatro mulheres, mas as diretoras Bel Garcia e Susana Ribeiro preferiram deixá-los com figurino masculino, sem alterações no modo de falar e com pouco gestual feminino. Soou estranho em um primeiro momento, mas esta forma deixou as questões meramente masculinas/femininas devidamente distanciadas das discussões centrais.
Ainda há mais um ator em cena interpretando o diretor substituto que chega como enviado da Secretaria Estadual de Educação para dirigir o conselho de classe e colocar ordem na casa, após um incidente que ocorrera com a diretora titular.
Em cena, o calor era de matar, e, na plateia, o desconforto das cadeiras e a falta de ar condicionado no teatro foram perfeitos, mesmo que de forma não proposital, para a sinergia com o cenário e para uma melhor aproximação com o que se passava na quadra da escola.
Os atores estão muito bem, inclusive o estrangeiro Thierry Trémouroux, mesmo com certa dificuldade em entender algumas frases que ele falava, especialmente quando não estava virado para a plateia. Quem estava nas últimas fileiras da sala tiveram, nitidamente, tal dificuldade. Um cara que estava sentado ao meu lado me perguntou por mais de uma vez o que o ator tinha acado de falar.
Embora os desempenhos individuais sejam dignos de notas elogiosas, o que prevalece durante toda a encenação é a força de grupo. O coletivo é muito forte neste espetáculo. Um ponto alto são os embates vivenciados pelas personagens, o que possibilita interessantes duelos entre os atores.
Pelo que escrevi até aqui, pode parecer, para quem está lendo, que eu gostei da peça, mas há uma questão que me incomodou muito e jogou por terra, na minha visão, a discussão profunda que há no texto. Foi a opção por dar um tom de comédia no desenvolvimento da história. Claro que ri de várias situações, mas creio que esta escolha atrapalhou bastante a reflexão sobre o texto. As professoras ficaram no limiar do estereótipo do funcionário público que não tem compromisso com nada, ou ao contrário, daquele que é engajado politicamente e quer mudar o mundo a partir de ações na comunidade. Não é à toa que quem faz este papel é o único que não tem um tom burlesco na interpretação. No caso a Professora Mabel, vivida por Trémouroux.
Muitos sabem que professores, especialmente os da rede pública de ensino, fazem bicos, são sacoleiros, como a Professora Célia da peça, mas a forma como esta situação é mostrada me soou um tanto quanto excessiva. Ouvi uma pessoa comentando na saída que a mãe dela era professora e que, com certeza, não gostaria de ser retratada como aquela que passa hidratante nas pernas ou lixa a sola dos pés durante uma reunião do conselho de classes da escola onde trabalha. Realmente esta provocou muitas risadas na plateia, mas era totalmente dispensável no contexto.
Ao final da apresentação, as palmas calorosas e os gritos de vivas mostraram-me que a maioria gostou do que presenciou.
Eu saí com a sensação que poderia ter sido melhor, que a direção errou a mão.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

CENA CONTEMPORÂNEA 2013

Terminado o festival Cena Contemporânea, edição 2013, resolvi fazer um ranking dos espetáculos que vi dentre aqueles que integraram a programação do evento. Ao todo vi 12 (doze) peças, sendo 11 (onze) durante o festival e 1 (uma) no início do ano, Sexton. Já que fez parte da grade do Cena e tendo eu assistido aqui em Brasília mesmo, quando esteve em cartaz no CCBB, resolvi colocá-la em meu ranking. Postei meus comentários e impressões de todas elas separadamente aqui neste blog. Esclareço que o saldo foi positivo, uma vez que até o número 9 eu gostei, restando apenas três que realmente não me agradaram. Eis o meu ranking de preferência, em ordem de preferência, sendo a primeira a que mais gostei e assim por diante:

01. Cine_Monstro
02. Antes da Chuva
03. Ensaio Geral
04. La Femme Qui Tua Les Poissons
05. Sexton
06. À Deriva
07. A Primeira Vista
08. Pattern & Variable e Balance & Imbalance
09. Fogo Fátuo
10. Duas Mulheres em Preto e Branco
11. Murga Madre
12. A Força da Terra

artes cênicas

sábado, 31 de agosto de 2013

DUAS MULHERES EM PRETO E BRANCO

O Cena Contemporânea termina no domingo, 01º de setembro, mas meu último espetáculo foi na noite de sábado, 31 de agosto. Teatro da Caixa Cultural, sessão das 20:30 horas, com as amigas Fabiola, Karina e Hélida G. O local tinha muitas cadeiras vazias, especialmente nas fileiras mais à frente, sinal de que os convidados não retiraram seus ingressos, cujo valor foi o de sempre, ou seja, R$ 10,00 cada um. No palco, as atrizes Paula de Renor e Sandra Possani encenaram o texto de Ronaldo Correia de Brito, Duas Mulheres em Preto e Branco. Direção de Moacir Chaves. A peça gira em torno de duas amigas inseparáveis desde a época da faculdade, que se veem em uma situação de disputa pelo mesmo homem, o marido de uma delas. Música, cenário e forma narrativa remetem aos filmes policiais, de suspense, mas a interpretação deixa a desejar. O texto parece sair forjado da boca das atrizes, sem passar verdade. Há muitas citações, especialmente de escritores, poetas, filmes e livros que os militantes de esquerda nas décadas de sessenta e setenta adoravam. Colocar estas referências na história das duas mulheres, Sandra e Letícia, me soou datado demais, sem muito atrativo para os mais jovens. O mote não é resgatar um período da história que marcou algumas gerações de brasileiros, motivo pelo qual a citação constante destes ícones e ídolos da contra cultura podem gerar um certo desconforto na plateia, o que foi fato pelos comentários que ouvi na saída do teatro. Filmes de Fellini e a música de Nino Rota, seu principal criador de trilhas sonoras, são constantemente citados. Voltando para a história das duas amigas, a forma de narrá-la, alternando diálogos diretos e narrativas de fatos acontecidos, também não me agradou muito. O que gostei foi da movimentação constante das atrizes no palco, do belo cenário que nos indica que a vida delas estava desestruturada, e da dança entre as duas, um forte indicativo de como será o final. Minhas amigas Hélida G. e Fabiola ficaram sonolentas durante os setenta minutos da peça, aproveitando para dormir. Ninguém de nós gostou do que viu.

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ENSAIO GERAL

Sexta-feira, início da noite, mais uma peça para conferir no festival Cena Contemporânea. Desta vez, eu, Karina, Fabiola e Helida G. nos encontramos no CCBB, pois o espetáculo estava programado para 19:30 horas no seu Teatro II. No caminho entre o carro e a fila, deixei minha blusa de frio cair. Não demorei nem dez minutos para eu notar a sua falta. Voltei e nada encontrei. Ainda fui até a bilheteria na esperança de alguém ter achado a blusa e lá deixado, mas a busca foi infrutífera. Voltando à peça, assistimos Ensaio Geral, do grupo brasiliense Agrupação Teatral Amacaca (A.T.A.). Direção de Hugo Rodas. Ainda na fila, já ouvíamos os atores cantando, o que garantia um clima de ensaio. O público ia entrando, se acomodando, enquanto os atores-cantores continuavam a música, como se estivessem em uma roda de boteco. Alguns bebiam vinho e soltavam a voz. Entre eles estava o diretor Hugo Rodas. Assim que todos os lugares foram ocupados, as luzes se apagaram, Rodas deixou o palco, ficando em cena três músicos, posicionados à esquerda do cenário, e sete atores, todos eles com instrumentos musicais. O espetáculo dura cerca de uma hora e durante este tempo, um desfile de textos de Caio Fernando Abreu, Carlos Drummond de Andrade, Hilda Hilst, entre outros, são apresentados em pequenas esquetes pelo grupo. Sempre em clima de ensaio para um musical. Cenário e figurino, de autoria do diretor em conjunto com o grupo, são destaques e fazem parte da trama, assim como a utilização de instrumentos cênicos com ótimos efeitos visuais. As esquetes nos remetem ao teatro de Shakespeare, às máscaras do teatro grego, às marionetes, à época medieval, às musas inspiradoras dos artistas do renascimento, a Nelson Rodrigues, mostrando que o grupo bebeu em diversas fontes. Colocar todas estas referências no mesmo espaço rendeu bem, ao contrário do que muita gente pensaria. A expressão corporal, uma característica forte do diretor Hugo Rodas, domina todas as cenas. Duas esquetes mereceram o meu destaque: o ator Tulio Starling declamando a poesia A Língua Lambe, de Carlos Drummond de Andrade, quando o faz de maneira extremamente lasciva, provocando a plateia; e a performance sensual/sexual de Camila Guerra para o texto Dona História, de Hilda Hilst, citada textual e visualmente em cena, já que Márcia Duarte segurava uma máscara da escritora durante a esquete. Ao final, um emocionado Rodas entra em cena para agradecer ao público e homenagear Carol Scartezini, cujo retrato estava na porta do teatro, integrante do grupo que morreu atropelada quando ia de bicicleta para as manifestações de junho em Brasília. Belo espetáculo.

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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

MURGA MADRE

Fui para o Teatro da Caixa Cultural com as amigas e colegas de trabalho Kitty, Karina, Diana e Hélida G. para ver mais um espetáculo da programação da edição 2013 do Cena Contemporânea. Desta vez era uma peça uruguaia, com dez anos de sucesso ininterrupto por aquelas paragens. Sessão das 20:30 horas, ingressos, como os demais, comprados ao preço unitário de R$ 10,00, em data anterior ao início do festival. O teatro recebeu um bom público, mas não lotou. Em cena, dois atores, Pablo Routin e Edú Lombardo, interpretam dois bufões, ou algo similar, saídos de uma autêntica Comedia Dell'Arte, ou do Carnaval de Veneza, mas sem as máscaras, que são substituídas por pesada maquiagem branca. Fui sem saber o que era murga, uma figura típica do carnaval uruguaio, que também nada conheço. Logo no início, percebi que não gostaria, pois elementos de clown estão presentes e, confesso, tenho preguiça deste tipo de personagem. O texto é todo falado em espanhol, com legendas em português que passavam em local acima do palco. É um musical que se inspira nos tipos do carnaval uruguaio e muitos destes tipos acabam por não ter uma tradução em português. Assim, além de murga, cuplé foi outra palavra muito falada e que fiquei sem saber o que era. Depois, já em casa, consultei o santo Google e descobri que ambos são estilos musicais. Os números musicais são muito mais interessantes do que a parte falada do texto. Com poucos objetos em cena, apenas duas cadeiras e duas mesas, nada atraía minha atenção para o palco. Com quinze minutos de espetáculo, já tinha gente se levantando e saindo do teatro, enquanto eu já tinha consultado o relógio por duas vezes. Ainda repetiria este gesto por mais umas dez vezes antes de encerrar a peça, que tem duração de pouco menos que uma hora. Outras pessoas não aguentaram e também se retiraram do local. Fomos ficando, mas Kitty e Hélida G. não deixaram por menos e acabaram por tirar uma boa soneca. Uma criança ria muitos de uma cena que resvalava na comédia pastelão, com os atores dando tapas na cara um do outro e agradecendo. A criança ria e o público ria da sua risada gostosa. Quando os atores saíram de cena e uma projeção no fundo do palco os mostra sentados na lua, o público começou a bater palma. Aproveitamos para levantar e sair, mesmo com as luzes ainda apagadas, pois ainda rolava um filminho na tela. Achei muito ruim, mas não posso considerar esta peça como a pior do festival porque eu desconheço as figuras e ritmos do carnaval uruguaio. Acredito que se conhecesse um pouco, entenderia o texto e poderia gostar da peça. Desolé.

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LA FEMME QUI TUA LES POISSONS (A MULHER QUE MATOU OS PEIXES)

E segue o Cena Contemporânea. Quarta-feira, dia 28 de agosto, fui com Carol, Arnóbio, Kitty, Cris, Hélida G., Karina, Diana e Fabiola conferir o espetáculo programado para 21 horas na Sala Martins Penna do Teatro Nacional Cláudio Santoro. Compramos os ingressos com antecedência, pagando R$ 10,00 cada um. Teatro completamente lotado para assistir Emmanuelle Lafon e Vladimir Kudryavtsev no espetáculo La Femme Qui Tua Les Poissons (A Mulher Que Matou Os Peixes), texto da sempre ótima Clarice Lispector. Direção e adaptação de Bruno Bayen. São 80 minutos de duração. Texto falado 95% em francês, com legendas em português. O controlador das legendas pregava uma peça, de vez em quando, na plateia, acelerando ou retardando a sincronia da fala, muitas vezes em ritmo alucinado, da atriz com as frases em português. Entendi quase tudo do que ela falava, o que me permitiu somente recorrer às legendas vez ou outra. Texto magnífico, que mescla trechos da obra de Lispector, mostrando o quão frágil é o ser humano. Um simples esquecimento leva à morte os peixes vermelhos de seu filho, desencadeando na mulher uma profunda reflexão sobre as suas atitudes cotidianas e sua relação com o mudo ao seu redor. A performance de Emmanuelle Lafon é sensacional. Ela ocupa todos os espaços do palco, como uma gigante na arte de interpretar. A atriz mostrou insatisfação apenas com a fisionomia, ou mesmo aumentado a voz, sem deixar o texto de lado, quando um telefone celular ecoou no teatro. Algumas palavras em português, como saudade (de difícil tradução) e coitadinho, foram mantidas no texto em francês interpretado por Lafon. O ator pouca participação tem na peça, sendo quase que mais um item do cenário primoroso de Renata S. Bueno, que também assina o figurino. Uma parte do texto dita em forma de declamação não possui legendas, pois o momento é muito lírico e é preciso não desviar a atenção da atriz. Assim, a solução foi colocar alguém declamando o mesmo texto em português, imediatamente após cada frase dita por Lafon. Para quem entende francês, logo se percebeu que a tradução não correspondia ao que a atriz dizia. Para piorar, ao final, ficou nítido que quem lia trocou a ordem dos papeis, pois a fala da atriz inicial foi traduzida enquanto ela declamava a parte final do seu texto. Um erro horroroso, que fez o público que entende francês rir em uma situação delicada e singela. Mas isto não prejudicou o todo. Ainda bem. Palmas entusiasmadas ao final, com um emocionado diretor em cena agradecendo ao Brasil por ter proporcionado a ele e ao mundo a excelente escritora Clarice Lispector. Gostei muito.

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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

PATTERN & VARIABLE - BALANCE & IMBALANCE

Na terça, nada de peça teatral, mas sim dois números de dança moderna do grupo sul-coreano Bereishit Dance Company. A coreografia é de Park Soon-ho. Programa do Teatro Plínio Marcos, no complexo cultural da Funarte, que recebeu um bom público. Estava acompanhado de Karina, Diana, Hélida G. e Kitty. A primeira coreografia foi Pattern & Variable conta com três homens e duas mulheres dançando no palco. Sem ler a pequena sinopse que entregaram ainda na fila de espera, coisa que só fiz após o final de tudo, percebi que tinha elementos de lutas marciais nos passos dos bailarinos. Depois, li que tudo se passava nos bastidores de uma competição de judô. Ao saber, tudo faz muito sentido. Os passos são bem marcados, como na ginástica artística. Até elementos da capoeira são visivelmente identificados durante os vinte minutos de duração da dança. No centro do palco, um tatame não deixa dúvidas sobre as artes marciais. Um breve intervalo de dez minutos e começa a segunda apresentação, com três músicos sentados na lateral esquerda do palco, tendo três tambores diferentes à frente. Começava a coreografia Balance & Imbalance, sem tatame, com outro tipo de iluminação, cuja sinergia com a música é perfeita. Alguns bailarinos da primeira apresentação voltam a dançar este número, que tem ligações mais fortes com a cultura asiática, seja na formação de símbolos com os próprios corpos dos dançarinos, seja no figurino dos músicos ou o rufar dos tambores. Pela sintonia entre música, dança e performance, gostei mais da segunda parte. Belo espetáculo. Só mesmo em um festival plural como o Cena Contemporânea para trazer atrações de boa qualidade de países tão distantes para Brasília.

dança

À DERIVA

Depois de conferir cinco peças da programação do Cena Contemporânea 2013, tirei o domingo para descansar. Mas na segunda-feira, 26 de agosto, reiniciei a minha maratona, indo com Diana e Kitty assistir ao único espetáculo do festival em cartaz naquela noite: À Deriva, novo trabalho do grupo Teatro do Instante, daqui de Brasília. Chegamos ao CCBB, onde uma tenda foi montada nos jardins justamente para a estreia deste espetáculo, por volta de 19:30 horas, ou seja, meia hora antes do previsto para o início da peça. Com ingressos adquiridos com antecedência, pelo qual pagamos R$ 10,00 cada um, ficamos sentados em pequenas poltronas brancas colocadas perto da entrada da tenda. Ao entrarmos, fomos alertados para não tirar as cadeiras do lugar, pois os atores circulavam por trás delas. O espaço acomodava poucas pessoas e ficou lotado. Os atores já estavam sentados nas mesmas cadeiras disponíveis para a plateia. Tais assentos estavam dispostos em forma de um quadrado, com todas as ações acontecendo no meio da tenda, em seus quatros cantos e por trás das cadeiras, muitas delas de forma simultânea. Assim, muita gente acabava escolhendo que cena ver, pois é impossível prestar atenção em tudo ao mesmo tempo. Mas isto não impede o perfeito entendimento do texto. Em cena, dois atores e cinco atrizes dão vida a personagens que estão repletos de memórias. Memórias do passado, memórias do presente, memórias do futuro, memórias que nunca existiram, memórias de um mundo particular, memórias coletivas, memórias individuais, ou simplesmente, memórias. O mundo frenético em que vivemos é sintetizado na personagem de Alice Stefânia, de longe, a melhor performance do espetáculo. Mas todos os outros atores em cena tem momentos marcantes nos 60 minutos de duração de À Deriva. A dramaturgia é de Jonathan Andrade, o que, para mim, sempre é sinal de qualidade. Direção de Giselle Rodrigues. Gostei tanto que vou assistir de novo, já que eles anunciaram que voltarão a encenar no mesmo local nos dias 05, 06 e 07 de setembro.

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A PRIMEIRA VISTA

Sábado, dia 24 de agosto, sessão das 21 horas na Sala Martins Penna do Teatro Nacional Cláudio Santoro. Ingresso comprado antecipadamente por R$ 10,00. Teatro lotado. Na minha companhia, as amigas e companheiras de trabalho Karina, Fabiola, Maíra e Hélida G. No palco, as atrizes Drica Moraes e Mariana Lima encenam A Primeira Vista. Direção de Enrique Diaz para o texto do canadense Daniel Macivor. Para quem viu em 2010 a peça In On It, do mesmo autor, podemos dizer que A Primeira Vista é uma versão feminina para aquele texto. Logicamente não se trata de uma encenação da mesma história. Os textos mantém um diálogo, uma conexão, pois tratam das idas e vindas de um casal gay. No caso de A Primeira Vista, duas mulheres se encontram em um acampamento (uma atividade tipicamente canadense) e a partir deste encontro, há um ir e vir no tempo, quando a relação das personagens, que não tem nomes definidos, é contada. O cenário é difuso, sem que o público possa identificar direito onde elas estão. Em um local incerto e em tempo também desconhecido, elas contam a história de suas vidas, especialmente quando seus momentos se entrelaçavam. A química das duas atrizes está perfeita no palco. Mesmo sabendo previamente que Drica Moraes fora indicada para o Prêmio Shell 2013 como melhor atriz justamente por sua performance nesta peça, não consigo dizer quem é a melhor em cena. O texto traz algumas características comuns às outras duas peças que assisti do mesmo autor; a já citada In On It e Cine_Monstro, vista recentemente no mesmo festival Cena Contemporânea de que faz parte A Primeira Vista. Assim, a ironia, o humor negro, encontros e desencontros, espontaneidade e morte estão presentes. As situações vividas pelas personagens rendem boas risadas ao longo dos cerca de 80 minutos de duração do espetáculo. Ao final, conseguimos entender perfeitamente o cenário difuso por onde passa toda a história. Muito bom.

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