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sábado, 12 de fevereiro de 2022

TERRA EM TRANSE

Terra em Transe, 1967, 111 minutos.

Mais um filme assistido, ou melhor, revisto, para o curso sobre o Cinema Novo que estou fazendo no Cinema com Teoria, ministrado pelo Prof. Alisson Gutemberg.

Terra em Transe faz parte da segunda fase do Cinema Novo. Dirigido por Glauber Rocha, conta com elenco primoroso, todos em performances fantásticas: Jardel Filho (Paulo Martins), Paulo Autran (Porfírio Diaz), José Lewgoy (Felipe Vieira), Glauce Rocha (Sara), Paulo Gracindo (Don Julio Fuentes), Hugo Carvana (Álvaro), Joffre Soares (Padre Gil), Danuza Leão (Sílvia), Mário Lago (Capitão), Flávio Migliaccio (homem do povo), Francisco Milani (Aldo).

Para driblar a censura, que ainda não era tão incisiva como após o AI-5, Rocha colocou a trama em Eldorado, um país fictício localizado na América Latina. Porfírio Diaz, não por acaso é o nome de ditador mexicano que ficou no poder por mais de três décadas, com tema de campanha que une religião católica e conservadorismo, irá concorrer à reeleição como presidente de Eldorado com Felipe Vieira, um político populista. Paulo Martins é poeta que assessorava Porfírio, mas muda de lado ao perceber que ele se distancia das pautas populares. Sara é sua mulher e seu ponto de equilíbrio. É neste contexto político que a história se desenvolve.

Glauber usa de muita alegoria para desenvolver um enredo que era espelho da situação vivida pelo Brasil, alguns anos após o golpe militar de 1964. E como alegoria, irá explorar situações que lembram o desfile de uma escola de samba: passistas e bateria em comício de Felipe Vieira, fantasias luxuosas que retratam o passado de Eldorado, com a chegada do homem branco à costa do país (aqui tem participação luxuosa de Clóvis Bornay, ícone dos desfiles de fantasia no Rio de Janeiro), muita percussão na trilha sonora, em contraste com a música clássica, que faz bem uma distinção entre o popular e o erudito, o porta bandeira (no caso, Glauber subverte a ordem e coloca um homem, Porfírio, para carregar uma bandeira negra - sinal de luto pela situação do Brasil?, mais uma alegoria) e o desfile propriamente dito com as caminhadas do candidato Fellipe com o povo.

O filme ainda traz, diretamente, fortes mensagens como a cena em que Jerônimo, um representante do povo, começa a falar para Felipe, mas é interrompido com a mão de Paulo Martins em sua boca, dizendo que o povo não tem voz. A violência contra quem manifestava também é mostrada, e ainda nem tinha começado o período mais violenta da ditadura brasileira, na cena em que o personagem de Flávio Migliaccio, propositalmente sem nome, é atacado com socos pelo segurança (Maurício do Valle) do candidato.

Outro contraste interessante é entre o Carnaval, como já exposto aqui, e a Ópera, outrora ligada às camadas mais pobres da população, para depois se tornar sinônimo de elite, de gosto apurado e diferenciado. A cena em que Porfírio cai com sua bandeira na escadaria de um palácio é um verdadeiro ato de uma ópera.

Os diálogos e monólogos, especialmente os de Paulo Martins, são difíceis de compreender, com muita erudição. E depois Glauber não entendia porque seus filmes não tinham público...

Revendo o filme, percebi sua atualidade, especialmente quanto ao contexto político em que o Brasil mergulhou com o resultado da eleição de 2018.

Apesar de todas estas considerações acima, que acho muito apropriadas, não gosto do filme, muito por seu áudio. O tempo inteiro o ruído incomoda, com sobreposição de vozes, de trilha sonora e de som ambiente, em volume acima do normal. Várias vezes é difícil entender o que os atores falam, além da compreensão dos diálogos requerer reflexão a todo o momento. Para mim, foi muita alegoria inserida no contexto político, que chegou a ficar caricato. De qualquer forma, reconheço a importância do filme para a história do cinema brasileiro e latino-americano.

Vi, em 10/02/2022, no Telecine Play.

sábado, 5 de fevereiro de 2022

DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL

Deus e o Diabo na Terra do Sol, 1964, 120 minutos.

Mais um filme da primeira fase do Cinema Novo que assisti para o curso que faço, on-line, no Cinema com Teoria. Desta vez, Deus e o Diabo na Terra do Sol, escrito e dirigido por Glauber Rocha, tendo como atores Geraldo del Rey (Manuel), Yoná Magalhães (Rosa), Othon Bastos (Corisco), Maurício do Valle (Antônio das Mortes), Lídio Silva (Sebastião) e Sônia dos Humildes (Dadá).

Filmado em preto e branco no interior da Bahia, no município de Monte Santo, longe dos estúdios. A população da cidade baiana participa como figurante no filme. Lígia Pape é responsável pela tipografia dos letreiros e dos créditos.

Manuel, para defender o que é seu e sua esposa, mata o dono das terras onde trabalha, o que o leva a sair da região, indo para Monte Santo seguir o beato Sebastião. Lá, ele é doutrinado na seita e se convence de que Rosa, sua mulher, está possuída pelo diabo. A cena de purificação de Rosa é uma carnificina, com sacrifício de inocente em nome de um deus nada bom. Segue-se um verdadeiro massacre empreendido por Antônio das Mortes, que poupa apenas Manuel e Rosa, que seguem vagando pelo sertão, sendo conduzidos por um cego, que os leva ao encontro de Corisco e Dadá, remanescentes do bando de Lampião e Maria Bonita, que tinham sido recentemente assassinados pela polícia baiana. Manuel entra no bando. Há saques e estupro na cidade, até a chegada de Antônio das Mortes no local onde estão Corisco, Dadá, Rosa e Manuel. O encontro é movimentado, com cenas que parecem um faroeste.

Foi a terceira vez que vi este filme. O interessante é que o vejo, sem planejamento, de vinte em vinte anos. A primeira delas foi na década de 1980, em Belo Horizonte, em fita VHS, recém deslumbrado com o cinema, querendo ver tudo quanto era filme clássico. Não gostei do que vi. A segunda, já na primeira década dos anos 2000, em Brasília, em uma projeção para jovens entre 16 e 25 anos, era um projeto relativo ao meu trabalho. Na sala, em uma escola pública, havia cerca de 30 jovens. Na medida em que o filme avançava, mais e mais jovens deixavam o recinto. Restaram apenas dois deles no final do filme.

Nesta oportunidade, já tive outros olhos para o filme, fazendo uma análise mais apurada sobre a época em que foi filmado (antes do golpe de 1964), a questão agrária, o messianismo que aproveitava da ignorância e da simplicidade da população interiorana, especialmente do Nordeste. Mas continuava tendo ressalvas quanto ao filme em si.

Por fim, em 2022, o vi pela terceira vez. Mais estudado, vendo detalhes técnicos, observando o conjunto de situações sociais da época, lendo textos sobre o Cinema Novo em preparação para a aula sobre a trilogia do sertão que seria ministrada, on-line, no Cinema com Teoria, no dia 03/02/2022, já comecei a gostar um pouco mais do filme, mas ainda assim, ele continua não fazendo minha cabeça. Fico muito incomodado na cadeira por qualquer filme que haja barulho excessivo. E é o que acontece em Deus e o Diabo na Terra do Sol, o barulho me incomoda, seja pela ladainha dos fiéis que seguem o beato, seja pela gritaria de Rosa que se confunde com a ventania no lugar, seja pelos estampidos das espingardas, ou pela algazarra do bando de Corisco. 

Ao escrever estas linhas, me pus a pensar se a intenção foi mesmo provocar incômodo em quem assiste o filme. Se não for pelas imagens, ou pelo roteiro, que seja pelo som. Pode até ser, em se tratando de Glauber Rocha.

Vi, em 03/02/2022, no Telecine Play.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

DECEPÇÃO

Hoje o dia foi longo. Acordei cedo e fui trabalhar. Primeiro dia de reunião com representantes de todas as unidades regionais do órgão em que trabalho. A reunião começou às 9 horas e terminou às 18:15 horas, com intervalo para almoço de 12:15 às 14:00 horas. Após o término desta longa reunião, entrei em outra reunião que só terminou às 20:20 horas. Foi cansativo.

Para o almoço, novamente tive a companhia de Rogério e escolhemos o Nippon (SCLS 403, Bloco A, loja 28, Asa Sul), de culinária japonesa, como o próprio nome indica. Há muito não ia lá e fiquei surpreso com a melhora no sistema de buffet. Já era bom, agora está melhor, com várias opções de pratos quentes sendo servidas à mesa pelos garçons. Como sempre, o restaurante estava cheio e, ao final, pedimos a Nota Legal.



À noite, após a última reunião, fui direto para o Teatro Nacional Cláudio Santoro (Setor Cultural Norte), mais precisamente na Sala Martins Penna, para ver um espetáculo integrante do festival Cena Contemporânea 2009. A peça é Mercadorias e Futuro, texto, encenação e direção de José Paes de Lira, o Lirinha do grupo musical Cordel do Fogo Encantado. Co-dirige a peça a atriz Leandra Leal. Foi assisitndo este espetáculo, na companhia de duas amigas que encontrei na fila de entrada, que veio a decepção. Lirinha como ator é melhor cantor, sem dúvidas. A peça mistura Regurgitofagia, de Michel Melamed, com elementos do filme Deus e O Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, configurando um texto chato e sem graça. A plateia ria em alguns momentos, mas risos isolados. Para piorar, o microfone do ator pifou no início da peça e não houve como consertar. Para quem se propõe a seguir um festival, seja de música, cinema ou teatro, está sujeito a este tipo de decepção, pois procura-se assistir o máximo e tem-se tanto surpresas positivas quanto negativas. No caso, a surpresa foi muito negativa. Minhas amigas também não gostaram. Vi gente saindo bem antes do final da peça. Torço para esta ser uma exceção, pois ainda assistirei mais algumas até o próximo domingo.