O Cena Contemporânea 2011 completou seu oitavo dia de intensa programação nesta terça-feira, dia 30 de agosto. Mais uma peça para conferir. Fui com Ric e um amigo para o CCBB, onde nos encontramos no Bistrô Bom Demais. Fizemos um lanche, trocamos ideias e fomos para a fila que começou a se formar na entrada do Teatro II faltando vinte minutos para o início de Depois do Filme, texto, direção e interpretação de Aderbal Freire-Filho. Sessão completa, ingressos esgotados (R$ 15,00 a inteira), sem chances para a fila de desistência que sempre há em frente à bilheteria do centro cultural antes dos espetáculos pagos. Na plateia muita gente da cena teatral brasiliense, como o diretor Hugo Rodas e os atores Carmem Moretzsohn, William Ferreira e Alessandro Brandão. B. de Paiva, o homenageado desta edição do festival, também estava presente, prestigiando o ator Aderbal, seu conterrâneo do Ceará. O texto foi construído dando continuidade à vida de Ulisses, personagem que Aderbal Freire-Filho interpretou no filme Juventude, dirigido por Domingos de Oliveira. A construção do texto é um roteiro para cinema, com todas as marcações de cenário, luz e posições dos atores. Começa com a projeção de cenas de Juventude, apresentando a quem não viu o filme, o personagem Ulisses. Aderbal se posiciona no centro do teatro ainda durante esta projeção, mirando as imagens como se fizessem parte de sua memória. São suas lembranças que estão sendo projetadas nas paredes do teatro. Fim da projeção e Aderbal, ou melhor, Ulisses, segue nos informando, antes de cada cena, se ele está em espaço interior ou exterior, se é dia ou noite, em que local do Rio de Janeiro ele está. Passeamos com ele pelos bairros da Lapa, Centro, Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon. O cenário foi montado no meio do teatro, com várias cadeiras de ferro que fazem as vezes de assento de carro, murada da Ponte Rio-Niterói, banco da orla da praia, posto de gasolina, sala de apartamento. Poucos objetos são usados para pontuar as cenas: uma canga, um pincel atômico, um espelho redondo com o escudo do América (RJ), um carro de brinquedo. Em aproximadamente 70 minutos, o "filme" é rodado diante de nós. Já vi vários espetáculos que Aderbal esteve envolvido, mas nunca tive a oportunidade de vê-lo atuando, no papel cru de ator. Segundo o catálogo do festival, faziam mais de dez anos que ele não atuava em teatro. Foi muito bom vê-lo em cena. A sacada do nome da peça é ótima: Depois do Filme, afinal, a história se passa após os acontecimentos narrados na película Juventude. A história continua explorando o tema envelhecer, como no filme, as tristezas, as amarguras da velhice, mas com toques de otimismo, de estar valendo a pena viver. Coincidência ou não, até o momento, as duas peças que mais gostei foram dois monólogos nos quais o texto, a direção e a interpretação foram de cearenses: Rá!, com Ricardo Guilherme, e Depois do Filme, com Aderbal Freire-Filho. Vamos em frente, que há muito coisa ainda para ver até domingo, dia 04 de setembro.
Um pouco de tudo do que curto: cinema, tv, teatro, artes plásticas, enogastronomia, música, literatura, turismo.
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quarta-feira, 31 de agosto de 2011
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
ORFEU
Esteve em cartaz no último final de semana em Brasília o musical Orfeu, em nova montagem após cinquenta anos de sua estreia. Para esta nova encenação, o diretor Aderbal Freire Filho ambientou a história clássica de Orfeu e Eurídice nos dias atuais, mantendo a estética idealizada por Vinícius de Moraes em transportar a história para os morros cariocas. Agora, temas o tráfico de drogas, a violência e o baile funk como parte do enredo. O elenco, como na primeira montagem, é formado de atores e atrizes negros, dos quais a mais conhecida do grande público é Isabel Fillardis. Freire Filho adicionou algumas canções da dupla Tom Jobim e Vinícius que não estavam no original, além de ter colocado um personagem que faz um link com a história do passado e a presente. Ele é o poeta. O cenário é composto de um grande painel que nos remete aos barracos amontoados das favelas, mas, para quem é de Brasília, lembra a arte de Athos Bulcão também. Além deste painel, duas escadas de madeira fazem as vezes das escadarias das favelas cariocas, e algumas cadeiras de madeira completam o cenário. Há muita troca de roupa durante as quase duas horas de musical, com algumas araras expostas nas laterias do palco. Também em cena, seis músicos comandados por Jaques Morelembaum e Jaime Alen, garantem a execução da música ao vivo. A iluminação de Maneco Quinderé dá força ao espetáculo. Destaco esta interação da luz com a cena em duas oportunidades: a aparição da morte, vivida por Fillardis, em um figurino todo branco e uma máscara prateada, e a cena de sexo entre Eurídice e Orfeu, muito bonita, por sinal. Há algumas tiradas ótimas, em flerte com a comédia, como quando, em uma mesa de bar, o poeta pede ao garçon uma oficial de justiça mal passada. O garçon traz a tal oficial em seus braços. O poeta pede que ela reabra o clube para que a história da mitologia grega possa continuar e ela responde que mitologia não é sua área, pois é especializada em Direito Civil. O baile funk é ótimo, especialmente a caracterização das "popuzudas", entre elas, uma bichinha pra lá de pintosa. Quanto às interpretações, há altos e baixos, mas, no geral, não há prejuízo para o conjunto do musical. O ator (Érico Bras) que faz Orfeu é muito bom na composição de um sambista do morro, mas não tem uma extensão de voz boa o suficiente para cantar as músicas mais lentas de Tom e Vinícius. No seu todo, o musical cresce na segunda metade, terminando com uma bela e justa homenagem a Vinícius de Moraes. Gostei muito do musical, genuinamente brasileiro, mostrando que não devemos nada aos importados da Broadway. Pena que o teatro não estava lotado, com várias cadeiras vazias nas suas laterais. O preço do ingresso não pode ser motivo destes vazios, pois custou R$ 40,00 (meia entrada - cupom Sempre Você). O público brasiliense perdeu uma ótima opção de entretenimento. Fica a dica para as demais cidades nas quais Orfeu ainda será exibido.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
AS CENTENÁRIAS
Cinco semanas de reuniões, treinamentos, documentos, pancadas, discussões, esclarecimentos. Cheguei ao final desta quinta-feira um bagaço. Ainda havia o agravante de que estava sem dormir. Nada melhor do que deixar todos os problemas no trabalho e ir descansar a mente, assistindo a uma boa peça de teatro. Aproveitando que Kitty estava em Brasília, eu e Ric a levamos para ver As Centenárias, em cartaz na Sala Villa Lobos do Teatro Nacional Cláudio Santoro. Com o cartão de descontos da Drogaria Rosário, conseguimos comprar os ingressos como meia entrada, pelo qual pagamos R$ 35,00 cada um. Marcada para 21 horas, a peça começou com dez minutos de atraso. O teatro estava completamente lotado. Marieta Severo (Socorro) e Andréa Beltrão (Zaninha) são as duas centenárias do título. Elas são carpideiras que prestam seus serviços pelo interior do Nordeste em troca de um prato de comida ou mesmo um trago de cachaça. Elas enganaram a morte no passado, sempre se utilizando do expediente de estar em velórios, onde, por estar muito ocupada, a morte não as pode carregar. E a saga destas velhas é não mais encontrar com a temida morte. Sávio Moll (a morte e manipulador dos vários bonecos em cena) também faz parte do elenco. De maneira leve, até mesmo poética, o texto nos traz uma visão diferente da que estamos acostumados a ter da morte. Desde 2007 em cartaz, a peça já ganhou uma série de prêmios, incluindo o de melhor cenário, de autoria de Fernando Mello da Costa e Rostand Albuquerque. Eles fizeram uma parede só de bonecas de pano, daquelas típicas encontrads em feiras de artesanato pelo Nordeste e em Minas Gerais. As duas atrizes se revezam em diversos papeis, sempre divertidíssimas. Ambas mostram uma sinergia no palco muito acima da média do que tenho visto ultimamente. Andrá Beltrão mostra uma versatilidade incrível para encarnar uma jovem, uma viúva, Zaninha, entre outros personagens. Marieta Severo também mostra seu talento nos papeis de Socorro, nova e velha, do pretendente de Zaninha e de Lampião. Todas as caracterizações são hilárias. Comédia do início ao fim. A direção é de Aderbal Freire Filho para o excelente texto de Newton Moreno, cada vez mais um excelente autor teatral. Já vi outras duas encenações para textos dele: Agreste e Memória da Cana. A peça ainda passará por Goiânia, Curitiba, Porto Alegre e Belo Horizonte. Quem estiver nestas cidades na época, aconselho a assistir, pois é ótima. Ao acabar a peça, com cerca de 90 minutos de duração, nem lembrava de trabalho e seus problemas. Do teatro, fomos comer uma pizza na Pizzaria Valentina, conversando apenas amenidades (e algumas coisinhas do trabalho). O corpo continuava cansado, mas nada como uma boa noite de sono para relaxar (foi o que aconteceu!).
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