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domingo, 29 de abril de 2012

UM DIA NA ILHA DE SANTIAGO - CABO VERDE

Após uma semana de intenso trabalho na Cidade da Praia, capital de Cabo Verde, tivemos o sábado livre para conhecer um pouco a Ilha de Santiago, uma das dez ilhas que formam o país africano de língua portuguesa. Nosso voo de volta estava marcado para 23:45 horas do sábado. Assim, o dia era todo nosso. Éramos oito pessoas, seis brasileiros e duas portuguesas. Contratamos uma van com motorista e uma guia para fazer um percurso pela ilha, iniciando na Cidade da Praia, percorrendo o interior até Tarrafal, cidade no extremo oposto, retornando pelo litoral. Pagamos 11000$00, cerca de € 110, para o tour. Às 9:00 horas, motorista e guia já estavam na portaria do Hotel Vista, onde estávamos hospedados. Os seis brasileiros entraram no carro, quando fomos até o Hotel América para buscar as duas portuguesas. Grupo completo, fomos para a parte mais baixa da Praia, onde fizemos nossa primeira parada: Mercado de Sucupira. Na verdade, é uma feira enorme, um labirinto de barracas, puxadinhos, bancas, galpões, que vendem de tudo: roupas, calçados, tecidos, artesanato, comida típica, verduras, legumes, frutas, cereais, galinhas vivas, peixes, doces, cds, cabelos, cosméticos, jóias, bijuterias, enfim, de tudo um pouco, incluindo muito produto de grife falsificado made in China. Quem me conhece sabe que não gosto deste tipo de lugar, mas como estava em grupo, acabei curtindo o tal mercado. As barracas e lojinhas que vendem cabelo foram novidade para mim. Muita trança e mechas embrulhadas em embalagens individuais ficam penduradas nas barracas que também funcionam como um salão de beleza, onde as mulheres colocam ali mesmo os apliques que compram. Cabo Verde é um país muito musical e isto se nota fortemente neste mercado, pois além de sempre haver música tocando, há um sem número de lojinhas vendendo cds, a maioria deles visivelmente piratas, com o melhor do ritmo local. Até uma versão em crioulo, dialeto local, da música Ai Se Eu Te Pego eu ouvi enquanto estava na feira. O artesanato caboverdiano não é bonito e isto já tinham me avisado durante o evento. As peças interessantes que achamos no mercado vinham quase todas do Senegal. Para comprar, a negociação é regra. Muita barganha para levar um cesto de palha para casa. Não era para mim, apenas ajudei uma das brasileiras a barganhar, pois o vendedor era senegalês e resolvia falar francês de uma hora para outra. Quando achamos o setor de tecidos, aqueles bem coloridos, típicos da África, um fato me chamou a atenção. Em todas as barracas há um ou dois homens (nunca mulheres) que cortam e costuram blusas, vestidos, saias, na hora. É escolher o tecido, o modelo, tirar as medidas, sentar e esperar. Enquanto o pessoal comprava os tais tecidos, fui conhecer o pedaço da feira que vendia os alimentos. Praticamente tudo que lá é vendido é de produção familiar, sem agrotóxicos. Não há muita variedade de legumes, frutas e verduras, com as mesmas coisas que vemos todos os dias em feiras e mercados brasileiros. No mesmo local estão as galinhas vivas que podem ser abatidas ali mesmo e as bancas com os peixes, que chegam todos os dias pescados no mar local e limpos na frente do freguês. O cheiro não é muito agradável nesta parte do mercado. Outro lugar que me chamou a atenção foi um galpão com muitos tambores. As pessoas abriam tambor por tambor, que estavam repletos de roupas. As roupas eram separadas e vendidas ali mesmo. Curioso, fui perguntar de onde vinham os tambores. Todos eles eram despachados dos Estados Unidos por parentes de caboverdianos que viviam na América. Durante a visita à ilha, vimos vários tambores em frente às casas, com as roupas expostas no chão para quem quisesse comprar. Ainda no mercado, em barracas com produtos senegaleses, vi a flor seca do bissap, cujo suco tomamos a semana inteira durante os almoços no evento internacional do qual participei. Parece um hibisco e seu suco tem uma cor bem viva, bonina, com sabor muito doce. Saímos do mercado e pegamos a estrada em direção a São Domingo. No caminho, vimos um campo de captação de vento para a geração de energia eólica. A paisagem era árida, muito seca, marrom. A guia nos disse que a vegetação só fica verde no período de chuvas, que acontece nos meses de julho e agosto. O céu estava claro, azul, mas com uma espécie de névoa, deixando o horizonte um pouco embaçado. A pobreza é visível durante a viagem, com muitas casas sem terminar, sem esgoto ou saneamento básico, com muitas galinhas e cabras pelas ruas. Nossa primeira parada foi na Barragem do Poilão, construída pelos chineses para represar a água da chuva, possibilitando a irrigação das plantações no seu entorno, além de garantir o abastecimento de água à população local durante a seca. Um inusitado pagode chinês foi construído em uma das extremidades da barragem. Segundo a guia nos disse, um festival do milho ocorre no local anualmente no dia 01º de novembro. Deixamos o interior em direção ao litoral, passando por pequenos vilarejos, em estradas bem ruins, motivo pelo qual a van sacolejava muito, impedindo uma maior velocidade. Paramos duas vezes para tirar fotos do belo litoral, sem praias, apenas pedras, tanto na cidade Pedra Badejo quanto na cidade Calheta de São Miguel. Após quase três horas de viagem, chegamos à Tarrafal, uma cidade litorânea usada pelos caboverdianos como um balneário, pois ali há praias com areia. Era nosso destino. Descemos, e, com fome, fomos direto almoçar no restaurante Baía Verde. Após o almoço, o grupo foi até onde alguns senegaleses vendiam artesanato. Uma colega quis comprar uma máscara, mas a que ela gostou estava quebrada. O vendedor disse que era uma máscara antiga, achando que ela era trouxa e cairia neste conto do vigário. Claro que ela não comprou. Todos quiseram descer até a praia e entrar no mar. Fui com eles para conhecer a pequena baía, mas logo me alojei em uma sombra, enquanto a turma se refestelava nas águas caboverdianas. Depois foi um problema para achar água doce para tirar o sal do corpo, principalmente dos cabelos. Demoraram cerca de trinta minutos nesta aventura. Voltamos para o carro, seguindo em direção a uma pequena localidade chamada Chão Bom onde está o Museu da Resistência, também conhecido como Campo de Concentração do Tarrafal. Pagamos 100$00 cada um para entrar e conhecer onde presos políticos do governo português ficavam confinados entre as décadas de 1930 a 1970. Em tom amarelo, com conservação mediana, a edificação é considerada monumento nacional. A visita é bem rápida. Uma frase dita por um médico que trabalhou no local mostra bem o grau de sacanagem que havia naquela prisão: "não estou aqui para curar, mas para passar certidões de óbito". Quando saímos do museu, fomos cercados por dezenas de crianças e adolescentes pedindo uma moeda ou uma caneta para a escola. Dá para cortar o coração a cara que as crianças fazem. Seguimos em frente, tomando a estrada que liga Tarrafal à Cidade da Praia pelo interior da ilha. A volta foi mais tranquila, pois o maior trecho é percorrido em estradas asfaltadas. No caminho, vimos as montanhas e a vegetação que estão na área do Parque Natural da Serra da Malagueta. Passamos por dentro da cidade de Assomada, mais estruturada do que as outras que vimos na ida, chegando novamente em São Domingo. Antes de retornar à Praia, o motorista pegou o caminho da Cidade Velha, primeira capital do país, onde estão monumentos históricos como o Forte de São Filipe, as ruínas da Sé Catedral e do Pelourinho, que, na época do tráfico negreiro, funcionava como um entreposto entre a África e o Brasil. Infelizmente quando chegamos nas muradas do Forte de São Filipe já era noite, impedindo-nos de entrar e conhecê-lo. Resolvemos não descer para a Cidade Velha, já que o forte fica em um planalto, voltando para o nosso hotel, onde chegamos por volta de 20 horas, cansados e tendo que ser rápidos para tomar banho, acabar de fechar as malas, fazer o check out para ir para o aeroporto, já que o nosso transporte sairia do hotel às 21:15 horas. Para piorar, todos estavam no mesmo quarto, uma vez que tivemos que entregar os demais quartos antes de sairmos em excursão pela ilha. No fim, tudo deu certo. Embarcamos perto de meia noite para nosso regresso à Brasília, fazendo uma conexão em Lisboa, Portugal.


Barraca de venda de cabelos - Mercado de Sucupira


Tecidos no Mercado de Sucupira


Paisagem árida da Ilha de Santiago - Cabo Verde


Pagode chinês na Barragem do Poilão


Barragem do Poilão


Litoral de Calheta de São Miguel


Praia de Tarrafal


Praia de Tarrafal


Praia de Tarrafal


Museu da Resistência - Chão Bom, Tarrafal


Museu da Resistência - Chão Bom, Tarrafal


Museu da Resistência - Chão Bom, Tarrafal


Museu da Resistência - Chão Bom, Tarrafal


Museu da Resistência - Chão Bom, Tarrafal

turismo

sexta-feira, 27 de abril de 2012

GASTRONOMIA EM TARRAFAL (CABO VERDE) - BAÍA VERDE



Endereço
: Baía de Tarrafal, Tarrafal, Ilha de Santiago, Cabo Verde.

Especialidade: peixes e frutos do mar.

Ambiente: simples, com mesas azuis de plástico. A placa da entrada é coberta por folhagens das árvores que decoram o local, com predominância da cor que empresta seu nome ao restaurante: verde. No corredor que dá acesso ao salão há um tapete verde, imitando grama, conferindo um ar kitsch ao lugar. Vasos de plantas ficam ao longo do corredor de entrada. As amplas janelas permitem aos clientes uma vista deslumbrante da baía. Todas as mesas ao longo das janelas estavam ocupadas, motivo pelo qual fomos acomodados em uma mesa na segunda fileira, permitindo-nos ver a paisagem. O teto é de folha de zinco, com panos coloridos cobrindo sua parte central, de onde pendem ventiladores que amenizam o calor, além de alguns penduricalhos prateados/dourados. Televisores ligados em canal esportivo completavam a decoração.



Praia de Tarrafal




Serviço: simples, informal, mas que deu conta do recado. Só mulheres atendem às mesas. Os pratos não demoraram a serem servidos.

Quando fui: almoço do dia 21 de abril de 2012, sábado. Éramos nove pessoas.

O que bebi: uma garrafa de Fanta laranja.

O que comi: o cardápio não é extenso. Tem três ou quatro variedades de peixes e algumas opções de pratos com mariscos. Atum e serra são destaques. Pedi um serra grelhado, acompanhado por legumes e banana verde cozidos. Embora a garçonete nos disse que os pratos eram individuais, os peixes são muito bem servidos. Meu prato consistiu de duas postas grandes de serra, servido com pele, e muitos legumes cozidos. Acabou sobrando muita coisa na mesa. O peixe estava grelhado além do ponto, ficando algumas partes da carne duras. Gostei mais dos legumes, bem cozidos, sem tempero, preservando o sabor natural da couve, do repolho, da batata, da mandioca, da cenoura (era muito doce), da abóbora e da banana verde, este o melhor de todos os acompanhamentos servidos.



serra grelhado


Quanto paguei: 1500$00 (€ 15), valor individual.

A avaliação a seguir leva em consideração a experiência por mim vivenciada durante a minha visita ao restaurante, desde o momento da reserva (quando há), passando pela recepção, acomodação na mesa, atendimento, tempo de chegada dos pedidos, até o pagamento da conta. Esta avaliação varia de um a cinco asteriscos, representados pelo símbolo (*), podendo ter a variação de meio asterisco, representada pelo formato (1/2).

Minha avaliação: * * 1/2. Valeu pela paisagem, pelo descanso após uma longa viagem de van por estradas ruins e pela banana verde cozida.

Gastronomia Tarrafal (Cabo Verde)
turismo

quarta-feira, 25 de abril de 2012

GASTRONOMIA NA CIDADE DA PRAIA (CABO VERDE) - TIA IRENE



Endereço: Rua da Felicidade, s/nº, Achada de Santo Antônio, Cidade da Praia, Cabo Verde.

Especialidade: culinária caboverdiana, com predominância de peixes e frutos do mar.

Ambiente: fica em loja no térreo de um edifício alaranjado, ao lado do Supermercado Felicidade. Há uma espécie de varanda em uma invasão na calçada, toda fechada, onde as mesas são de plástico, e um salão interno, com cadeiras em vime, mesas cobertas com toalhas, um bar ao fundo, um console ao centro e uma televisão ligada em canal esportivo transmitindo jogos de futebol de times portugueses. Na parede há quadros coloridos de artistas locais.





Serviço: esforçado, mas longe de ser profissional. Não houve demora no atendimento da mesa, nem para tirar os pedidos, nem na chegada dos pratos. O chef Carlos é uma simpatia em pessoa. Divertido, foi à mesa para ver se tudo esteve do nosso agrado e ainda ofereceu uma dose de licor de amêndoas amargas como cortesia ao final do jantar. Além dos pratos do cardápio, há sempre uma sugestão do dia, geralmente prato com algum pescado fresco.

Quando fui: jantar do dia 16 de abril de 2012. Repeti a dose no jantar do dia 18 de abril de 2012. Em ambas as ocasiões éramos dez pessoas.

O que bebi: no primeiro jantar experimentei o vinho branco do Fogo, produzido em uma das ilhas que fazem parte do país, a Ilha do Fogo. Para acompanhar, água sem gás Trindade. O vinho me surpreendeu (e olha que não sou apreciador de vinho branco!), pois é leve, refrescante, foi servido na temperatura ideal e harmonizou otimamente com o peixe grelhado que pedi. A água é produzida na Ilha de Santiago, sendo bem leve. O curioso é que sempre é servida em garrafas de 1,5 litro nos restaurantes. No segundo jantar, estava com leve dor de cabeça, motivo pelo qual só bebi uma garrafa de Coca Cola. Há muito não bebia refrigerante normal. Tinha até me esquecido do sabor. É difícil encontrar as versões light e zero dos refrigerantes em Cabo Verde. Nas duas noites finalizei o jantar com um chá de erva cidreira, além de beber uma dose do licor de amêndoas amargas oferecido pelo chef e proprietário do restaurante.

O que comi: compartilhamos nas duas noites as entradas da casa: um cesto com pão francês cortado em rodelas e torradas levemente salgadas (uma delícia, por sinal), além de um prato com azeitonas verdes e queijo branco em cubos com um fio de azeite português extra virgem. Nos dois jantares pedi a sugestão do dia. Na primeira noite, um filé de peixe serra grelhado com um molho de cebolas e pimentões cozidos, acompanhado de purê de batatas temperado com salsinha. Fiquei fã deste peixe. Carne branca, macia, com sabor marcante. Ele ficou ainda melhor com as cebolas. O purê de batatas estava bem diferente do que costumo comer. Tinha menos leite e menos manteiga, sobressaindo o sabor das batatas e da salsinha. Gostei muito. A sugestão do dia no segundo jantar era um carril de atum com camarões fritos, acompanhado de legumes sortidos cozidos. Perguntei o que era carril, obtendo a resposta de ser o nosso conhecido curry. Como tenho dificuldades na digestão deste tempero, pedi o prato sem o molho, o que fui prontamente atendido. A fama do atum do mar de Cabo Verde é grande, tanto o fresco quanto o enlatado, e pude comprovar isto ao saborear este prato. A cor do peixe é diferente do que estamos acostumados a comer no Brasil, menos vermelha, mas a textura da carne é muito macia e o sabor é fantástico. Aliado ao tempero utilizado no preparo do prato, ficou maravilhoso. Achei que meu pedido foi acertado, pois o prato original vem com um espesso molho curry que, segundo os que o experimentaram, sufocou o sabor do peixe. Entre os legumes, destaco a mandioca cozida e, embora não sendo legume, a banana verde, também cozida. Embora só tenha experimentado um pouquinho do prato, destaco ainda a cataplana de mariscos que minhas colegas dividiram. Além de ter uma apresentação muito bonita, seu aroma e sabor são especiais. 



peixe serra grelhado


atum com camarões fritos


a versão original do prato da foto acima: carril de atum com camarões fritos


cataplana de mariscos

Quanto paguei: 2.000$00 (€ 20).

A avaliação a seguir leva em consideração a experiência por mim vivenciada durante a minha visita ao restaurante, desde o momento da reserva (quando há), passando pela recepção, acomodação na mesa, atendimento, tempo de chegada dos pedidos, até o pagamento da conta. Esta avaliação varia de um a cinco asteriscos, representados pelo símbolo (*), podendo ter a variação de meio asterisco, representada pelo formato (1/2).

Minha avaliação: * * * 1/2. Não só fui duas vezes, como também o indiquei para um colega de trabalho que chegou na Cidade da Praia enquanto eu estava lá.

Gastronomia Cidade da Praia (Cabo Verde)
turismo

sexta-feira, 20 de abril de 2012

1822 - LAURENTINO GOMES


Quando li 1808, de Laurentino Gomes, gostei muito da narrativa, ágil, gostosa de se ler, sem ser chata como costuma ser os livros de história. Assim que saiu 1822, do mesmo autor, com enfoque na época da Independência do Brasil, coloquei o livro em minha lista de leitura necessária. O tempo foi passando e nada de adquirir o livro. Em agosto de 2011, quando me recuperava de uma cirurgia na casa de meus pais e tendo comprado um iPad, decidi comprar este título como o primeiro em versão eletrônica da minha vida. Comprei pelo sítio eletrônico da Libraria Cultura e o baixei imediatamente para meu tablet. E lá ele ficou até este mês de abril de 2012. Aproveitei a viagem, a trabalho, para Praia, Cabo Verde, e as longas esperas em aeroportos por causa das conexões para conferir 1822. Gostei muito da narrativa. Novamente, leve, ágil, fácil de ler. É daqueles livros que dá vontade de ler em uma única sentada, mesmo tendo mais de 300 páginas. Mesmo sabendo da história da independência brasileira, há muitos fatos que para mim eram desconhecidos, tais como o fato de D. Pedro I estar montado em uma mula no momento do Grito da Independência ao invés do imponente cavalo pintado por Pedro Américo em quadro eternizado nos livros de história que estudei durante o primeiro e o segundo graus. Também gostei da experiência de ler em um tablet. Aliás, cada dia mais vejo que este pequeno e leve gadget é um parceiro essencial para vários momentos, pois nele pode se navegar na internet, checar e responder e-mails, ver filmes (tenho vários baixados em meu iPad), ler livros, revistas e jornais, trabalhar, divertir, ouvir música, enfim, com pouco mais de um quilo de peso, levamos um mundo conosco para onde formos.

literatura

quarta-feira, 18 de abril de 2012

UM VOO DIFERENTE ENTRE LISBOA (PORTUGAL) E CIDADE DA PRAIA (CABO VERDE)

Um comunicado no sistema de som no terminal de embarque do Aeroporto de Lisboa informa que o voo da Transportes Aéreos de Cabo Verde, previsto para decolar às 19 horas, sofreria um atraso de 50 minutos. Eu estava exausto, pois saíra de Brasília no início da noite de sábado, fazendo uma conexão em Salvador (BA), chegando no final da manhã de domingo em Lisboa, Portugal. Assim que toda a delegação brasileira que participaria de evento na Cidade da Praia, capital de Cabo Verde se reuniu, pois foram itinerários diferentes até a capital portuguesa, deixamos as bagagens de mão no guarda-volumes, e fomos dar um giro pela cidade, visitando rapidamente o Mosteiro dos Jerônimos, o Padrão dos Descobrimentos, comemos o famoso pastel de belém na histórica pastelaria que o criou, seguindo para o bairro do Chiado, onde almoçamos, retornando ao aeroporto. Estávamos no check in da cia aérea por volta de 17:45 h. O atendimento foi informal, com muita simpatia. As bagagens de porão só veríamos no nosso destino final. Com sono, vontade de tomar um bom banho e cansado, não gostei do anúncio do atraso, mas não havia outra forma, tinha que esperar sentado em frente ao portão 41. Passada mais de uma hora, começaram a chamar para o embarque, iniciando pelas prioridades. Pediram para ninguém fazer fila, mas o povo insistia em se perfilar, com malas, sacolas, carrinhos de bebê, pacotes, bolsas enormes e afins. Nossos assentos eram situados na parte traseira da aeronave, motivo pelo qual fomos um dos primeiros a embarcar. O bagageiro já estava parcialmente cheio com objetos da tripulação e do avião. De qualquer forma, todos nós conseguimos acomodar nossas malas de mão. Os passageiros iam entrando e ficava cada vez mais problemático colocar as malas no compartimento superior da aeronave. Meu assento era no corredor. Na janela estava uma senhora com uma criança de um ano e meio no colo. Ela falava ao celular e o menino arrancava todos os protetores de cabeça dos assentos da frente. Assim que terminou a ligação, a senhora passou o celular para uma mulher da fileira de trás, que também fez uma chamada. Mais duas mulheres usaram o mesmo telefone. Fiquei a pensar se aquele celular seria comunitário. Um dos últimos passageiros a entrar foi um senhor que carregava uma sacola verde limão. Seu assento era na janela de uma fileira onde estavam duas colegas de delegação. Não havia lugar no bagageiro para sua sacola. Ele ficou a caminhar pelo corredor, abrindo e fechando os bagageiros, sem sucesso. Ele largou a sacola no meio do corredor e resolveu se sentar. Depois de se acomodar, acho que mudou de ideia, pedindo licença às colegas. A sacola continuava no mesmo lugar. Ele a pegou, retornou ao seu lugar, tentando acomodá-la debaixo do assento a sua frente. Era muito larga para caber. Então, ele abriu a sacola. Era uma impressora grande, com uma resma de papel ofício e muitos livros. Retirou tudo, colocando, enfim, a impressora debaixo do assento. Obviamente que ficou muito desconfortável para ele. Quando pensei que todos já estavam acomodados, uma senhora resolve levantar da saída de emergência, saindo a procurar um local para sua enorme bolsa. Vendo que não havia lugar, deixou-a no corredor, indo para o fundo do avião bater papo. As comissárias já se posicionavam para demonstrar as questões de segurança, e a tal senhora ainda de pé. Uma das comissárias larga tudo, pega a bolsa e vai atrás da passageira. O avião já taxeava. A senhora retorna e assenta. A demonstração volta a ocorrer. A senhora resolve se levantar para trocar de lugar com alguém da fileira de trás. Ela fica na frente da comissária, atrapalhando tudo. A outra aeromoça pede que a senhora se acomode, pois estava atrapalhando a decolagem. Todos assentados, o avião decolou com uma hora e meia de atraso. Logo que se pode sair dos assentos, um trança-trança se estabeleceu no voo. O capitão resolve falar, com discurso bem informal. Pelo falar, identifiquei que era brasileiro. Enquanto isto, o menino ao meu lado aprontava e sua mãe fingia que nada via. De repente, como se estivesse com uma grande necessidade, ela quase passou por cima de mim, saindo com o menino em direção ao banheiro à frente da aeronave. Demorou um tempo razoável. Quando voltou, tive a impressão que ela cheirava a cigarro. Era fato! Uma comissária uou o sistema de som pra avisar que era terminantemente proibido fumar dentro do avião, inclusive nos banheiros. Olhei para a mulher. Ela fez cara de paisagem. O serviço de bordo começou com muita simpatia. O comandante voltou a falar. Desta vez para informar que uma das aeromoças estava fazendo aniversário, pedindo aos passageiros para cantar parabéns. Todos bateram palmas, cantando a plenos pulmões, enquanto um comissário registrava o momento em fotos. Achei hilário. O serviço continuou. Fiquei surpreso, pois ofereceram jantar em um voo de quatro horas, muito diferente do que ocorre no Brasil atualmente. O cesto de pães caiu no chão e teve gente que pegou alguns para comer. O menino ao meu lado fazia uma verdadeira instalação de arte com a comida, jogando coisas no chão, lambuzando o assento em sua frente. Sua mãe continuava fazendo cara de paisagem. O voo foi muito tranquilo, com poucas turbulências. Decorridos três horas de viagem, o garoto dormiu. A mãe não teve dúvidas. Pegou, sem pedir licença, o meu travesseiro particular para acomodar a cabeça do menino. Olhei para ela, recebendo apenas uma afirmativa: é para ficar mais confirtável para o menino. Deixei! Em seguida, ela se levantou, quase me atropelando de novo, dizendo que estava aflita. Perguntei se fumaria de novo? Ela me lançou um olhar ameaçador. Chamei a comissária e pedi para ficar de olho. No entanto, houve um momento de turbulência e todos tiveram que voltar aos seus assentos. Ela pediu para eu me sentar na janela para facilitar a sua saída. Recusei, alegando que não apreciava viajar na janela. Ela passou por cima de mim. Não voltaram a apagar o sinal de apertem os cintos, pois começamos a descer. Para o anúncio da descida, as comissárias convidaram uma das muitas crianças a bordo. Assim que começamos os procedimentos de aterrizagem, a comissária voltou a falar, mas não concluiu sua informação, pois teve uma crise de risos, levando os passageiros às gargalhadas. O voo chegou com atraso. O desembarque foi rápido, mas a espera das malas foi longa, acrescido o fato de todos nós estarmos apreensivos se elas chegariam. A minha chegou toda amassada. Uma Rimowa! Fui procurar alguém da cia para fazer a reclamação, custando a achar. Sempre remetiam a um colega que nunca aparecia. Enfim, uma mulher resolveu anotar minha reclamação em um pedaço de papel. Não era um formulário. Perguntei sobre minha cópia, recebendo a resposta de que deveria voltar na manhã seguinte ao aerporto para pegá-la. Tinha que levar cópia do passaporte, cópia do bilhete aéreo, cópia da fatura da mala (!) e a própria mala avariada. Ali constatei que minha reclamação seria inútil. Desisti, mas peguei nome e telefone de quem procurar no dia seguinte. Para piorar, a mala de uma colega foi arrombada, sendo furtado o seu notebook. Outra demora insana para fazer uma reclamação. Conseguimos deixar o aeroporto no início da madrugada. Um carro nos esperava. No hotel, foi entrar no quarto, tomar um banho, e dormir. Antes, porém, desfiz a mala e consegui desamassá-la totalmente. Afinal, é uma Rimowa!

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