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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

SOPRO

O Coletivo Irmãos Guimarães vem apresentando, nos últimos anos, um interessante trabalho calcado na obra de Samuel Beckett, especialmente naqueles textos bem curtinhos, quase sem palavras. Não foi diferente com o mais novo trabalho do Coletivo. Estreou na noite de quinta-feira, dia 18 de setembro, no Teatro Sesc Garagem, a montagem Sopro, uma livre adaptação das peças Passos e Ato sem palavras I do dramaturgo inglês Beckett. Para conseguir um ingresso, basta levar dois quilos de alimentos não perecíveis. Os ingressos começam a ser distribuídos uma hora antes do horário previsto para ter início o espetáculo. Cheguei uns cinquenta minutos antes. Na minha frente, apenas quatro pessoas, todas elas do meio teatral brasiliense. Os Irmãos Guimarães sempre gostam de encenar seus espetáculos em locais menores, com plateia reduzida. Ao entrar, o público se depara com apenas uma arquibancada no teatro, quando normalmente são usadas três delas. A arquibancada ficou cheia para ver Sopro.
Uma projeção indica a primeira peça a ser apresentada, baseada em Passos. Uma única atriz (Liliane Rovaris) em cena, caminhando em um tablado feito com madeiras claras destas que se usam para fazer caixotes. Ao fundo, uma porta entreaberta, deixando escapar um feixe de luz. A atriz caminha de um lado para o outro, contando seus passos, enquanto dialoga com sua mãe, que não aparece em cena. Apenas uma voz em off, de alguém que sofre, de alguém que espera alguma coisa. Uma idosa com cerca de noventa anos de idade. A iluminação dá o tom melancólico que a cena necessita. O ir e vir da atriz se torna rotineiro, mas ao mesmo tempo carregado de angústia. Ela fica contando passos até que para em um canto e despeja o texto na forma em que foi escrito, incluindo a menção de quem está falando a frase, se a mãe ou sua filha, em um diálogo de acerto de contas nunca terminado. A angústia e a melancolia da cena me remeteram à solidão, algo tão vivo nos dias corridos em que vivemos.
Em seguida, nova projeção, indicando a segunda parte de Sopro, quando há uma livre adaptação para Ato sem palavras I. No fundo do teatro, uma cena poética, mas carregada de angústia. Uma senhora com bengala, perto dos oitenta anos, tenta se virar sozinha em uma sala, com todas as dificuldades de arrumar a mesa para tomar um simples chá da tarde. Um retrato vivo das intempéries da vida, especialmente as vivenciadas pelos idosos. Para representar tais intempéries, os Irmãos Guimarães optaram por usar um potente ventilador cuja velocidade do vento vai aumentando, não deixando nada em pé sobre a mesa onde a senhora tenta tomar seu chá.
Mais uma vez os Irmãos Guimarães ousaram, não ficaram no óbvio, e trouxeram o tema da solidão para uma reflexão coletiva.
Neste Sopro, a sinergia entre atrizes e cenário é fundamental, pois este último tem um papel importantíssimo no espetáculo, tornando-o visivelmente impactante e angustiante. Na medida em que a velocidade do vento produzido pelo aparelho avançava, eu ficava a pensar se aquela senhora frágil no palco aguentaria ficar de pé até o final. Fiquei imaginando se ela também voasse como os objetos voaram em cena.
Ao sair, fui cumprimentar Fernando, um dos irmãos Guimarães, quando fiquei sabendo que a senhora era Yara De Cunto, importante nome nas artes cênicas do início de Brasília e que não pisava em um palco há 52 anos. Fiquei impressionado com a disposição daquela senhora em enfrentar o ventilador.
Saí com a certeza que ventos de ousadia continuam a soprar da cabeça dos Irmãos Guimarães.

domingo, 31 de agosto de 2014

LA FUNCIÓN POR HACER - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Ainda sábado, 30 de agosto de 2014. Terceira peça do dia. Ainda Cena Contemporânea 2014. Sessão das 21 horas no Teatro Sesc Garagem para ver a montagem espanhola La Función Por Hacer, do grupo Kamikaze Producciones. Pela primeira vez neste festival, exigiram o comprovante de meia entrada na porta do teatro. No meu caso, paguei meia por ser correntista do Banco do Brasil. Sala completamente lotada. Cadeiras dispostas nos quatro cantos do teatro, com o palco ao centro, como se fosse um teatro de arena. As luzes ficaram acesas o tempo inteiro e o ar condicionado, muito frio quando entramos, foi desligado assim que começou o espetáculo. Na medida em que o tempo passava, mais e mais pessoas se abanavam com o que tinham nas mãos. O calor era cada vez mais forte. Os atores suavam em cena, mas ninguém se mexeu para ligar o ar. Ficamos assando até o final da peça, que durou perto de uma hora e meia. Uma mulher da plateia chegou a pedir, em alto e bom som, quando uma das atrizes sai correndo e abre a porta da sala para que ela deixasse a porta aberta. Sei que muitos atores pedem para desligar o ar, mas fico imaginando se eles fariam isto se estivessem se apresentando em algum teatro de Dubai.
Quanto ao espetáculo, é uma adaptação de texto clássico de Luigi Pirandello, Seis Personagens A Procura de Um Autor. Com roupagem naturalista, o grupo traz a história para os dias atuais, e consegue debater a essência do teatro, deixando cada um dos presentes absorvidos com o que se passava no tablado. Atuações ótimas, texto bem falado. Mesmo sem nenhum tipo de tradução, não foi difícil compreender o que os atores falavam, sempre em espanhol, mesmo nos momentos em que os diálogos ocorriam em velocidade máxima.
Um belo espetáculo que faz jus aos vários prêmios que já recebeu na Espanha.
Gostei muito.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

SANDUICHES, TRABALHO E TEATRO

Dia corrido. Agitado. Muito trabalho, muita reunião. Dia também de dar mais alguns passos rumo ao Canadá, de férias. Comprei dólares canadenses e o seguro saúde. Os dólares, reservei pelo telefone, fiz a transferência bancária e fui buscar na loja de câmbio mais próxima. O seguro saúde comprei por e-mail. Facilidades do mundo tecnológico. Fui buscar os dólares canadenses na hora do almoço e tinha pouco tempo para voltar ao trabalho, motivo pelo qual optei em comer um sanduíche no Burger King (Brasília Shopping, Praça de Alimentação - 2º Piso, Asa Norte). Resisti e não tomei refrigerante (lembrando que o refri tem refil grátis nesta lanchonete). Fiquei entretido à tarde com a elaboração de dois textos que me foram pedidos com prazos exíguos e quando dei conta já eram 18:15 horas.




Saí correndo, pois tinha ingresso para o espetáculo Aqueles Dois, da Luna Lunera Companhia de Teatro, grupo de Belo Horizonte - MG. A peça integra o Cena Contemporânea 2009 e se baseia em texto de Caio Fernando Abreu. Com direção e criação coletiva do grupo, o elenco conta com Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves e Rômulo Braga. A peça foi encenada no Teatro SESC Garagem (W4 Sul, Quadra 713/913, Asa Sul) e é sensacional. O teatro estava lotado, como de costume nesta edição do festival, e, ao final, o quarteto mineiro foi longamente aplaudido. A maneira como conduziram o texto de Caio Fernando Abreu é bem diferente, pois há apenas dois personagens, Saul e Raul, e os quatro interpretam ambos os personagens e ainda fazem o papel de narradores, de "alto falante" e ainda interagem com o público, lendo cartas e horóscopos. A trilha sonora é toda executada em um toca discos e apenas discos de vinil compõem a trilha: Carlos Gardel, Angela Ro Ro, entre outros. Saí em êxtase da peça, especialmente com o final.


Após o teatro, fui comer mais um sanduíche no dia, desta feita no Marvin (SCLN 110, Bloco A, loja 10, Asa Norte), onde aproveitei para experimetnar uma das novidades no cardápio, um sanduíche no pão ciabata com carne de hamburger e cenoura e abobrinha raladas e grelhadas na chapa, tudo com um molho especial. Gostei.