O relógio marcava pouco mais de 16 horas quando chegamos no local onde ocorria o Mercato Mondiale del Tartufo, onde se comercializa a trufa branca de Alba. Ele integra o grande evento anual que toma conta da cidade entre os meses de outubro e novembro de cada ano. Além do comércio de trufas, há muitas outras atividades dentro da programação da feira internacional, cujo nome é Fiera Internazionale del Tartufo Bianco D'Alba, que chegou à sua 83ª edição em 2013. O mercado funciona sempre aos sábados e domingos, de 9 às 20 horas, com entrada paga (€ 2), localizado no Cortille della Madalena, complexo que abriga a igreja de igual nome e o Museo Cívico F. Eusébio. O ingresso para o mercado dava livre acesso ao museu. Em 2013, o período da feira foi entre 12 de outubro e 17 de novembro. Nossa visita se deu no dia 27 de outubro, domingo. O acesso ao pátio do complexo Madalena se dá pela principal rua do centro histórico de Alba, a Via Vittorio Emanuele. A falta de organização já é sentida antes mesmo de entrar. Não há filas nos guichês da bilheteria, mas sim aglomerados de pessoas. Senti-me na China. E onde não há fila organizada, vale a lei do mais forte. Para quem gosta de criticar o Brasil, esta viagem à Itália me mostrou que as pessoas precisam ter mais conhecimento de causa antes de detonar as coisas no nosso país, dizendo que a desorganização é característica do brasileiro. Para conseguir acesso a um dos guichês, fiquei prendendo com o corpo quem tentava furar fila, enquanto Vera, Cláudia, Emi e Rogério tentavam comprar a entrada. Um cartaz indicava que por mais € 8, tínhamos direito a uma degustação. Nada indicava que tal degustação era limitada qualitativa e quantitativamente. Se fosse no Brasil, o Código do Consumidor "gritaria". Resolvemos comprar o ingresso de € 10. Assim que passamos pelo controle de entrada, tivemos que ir a um balcão localizado à direita, onde entregavam uma taça de vidro com um porta-taça bem feio, feito de tactel. Este porta-taça podia ser pendurado no pescoço. A taça não tinha nenhum logo ou escrito que a identificasse como sendo da feira. Com as taças nas mãos, partimos para conhecer os expositores. O local é pequeno, com pé direito alto, mas como é uma grande tenda de lona, e por ser "winter time", o calor que fazia lá dentro era insuportável. Tiramos os casacos rapidamente. Estava muito cheio. As pessoas não pediam licença para passar. Simplesmente atropelavam quem estivesse na frente. Para complicar ainda mais, casais empurravam carrinhos de bebês com crianças enormes lá dentro. Nunca vi tanta preguiça de levar uma criança segurando-a pelas mãos.Isto ocorre em todos os cantos da Europa. Enquanto podem, os pais levam carrinhos de bebês. E pior ainda, eram os cães de todos os tamanhos e raças que seus donos insistem em levar para estes locais públicos fechados. Era um festival de menino gritando, chorando e cães latindo. Como a ideia era comprar uma trufa branca para a Confraria VinusVivus, saímos pesquisando preços, sentindo os aromas, vendo tamanhos e pesos. Depois de rodar por todas as barracas, algumas impossíveis de entrar, paramos no setor dos caçadores de trufas, que fica no meio, como a grande atração do mercado. Muito interessante ter visto as roupas a caráter que alguns usavam e que há uma transmissão de geração para geração da arte da caçada. Vi velhos e jovens nas barracas destas trufas frescas, recém caçadas. No entanto, preferimos comprar em barraca de empresa estabelecida no mercado de trufas, pois tinham embalagem adequada para o transporte até o Brasil, ou seja, vidro hermeticamente fechado e um macio guardanapo, quase uma gaze, para envolver a trufa. Na feira, há outros produtos da região sendo comercializados, como torrones, bolos, queijos, entre eles o robiola, biscoitos, balas, avelãs de todas as formas e processos, vinhos, embutidos, cosméticos feitos com leite de mula, trufas negras, chocolates, grappas, entre outros. No fundo da tenda ficava o balcão para a troca do tíquete que pagamos pelos vinhos. Lá, enquanto esperávamos uma eternidade para sermos atendidos, pois o empurra empurra era generalizado, li o que estava escrito em italiano no tal tíquete. A degustação se limitava a duas taças e somente dos vinhos dolcetto ou barbera. Barolos e barbarescos estavam fora desta degustação. Conseguimos pegar duas taças. Vera desistiu e saiu para ver como fazia para comprar algo para comer. O mesmo caixa que vendia os tíquetes de comida, também vendia para taças de vinho. Ali, um barolo ou um barbaresco saíam por € 4 a taça. Ou seja, pagamos o mesmo valor para beber vinhos mais simples. Por tais vinhos, havia taças vendidas a € 3. Mais um ponto negativo para a feira. Na hora de pegar a taça do barolo, uma lista nos foi entregue para escolhermos qual rótulo queríamos, mas logo o senhor foi avisando que o Gaja estava fora, pois só vendiam a garrafa. Escolhemos um Pio Cesare. Conseguimos uma mesa alta para apoiar as taças, bebemos nosso vinho, largamos as taças por lá e voltamos para as barracas. Era hora de comprar. Cada um foi para um canto, pois as "necessidades" eram diferentes. Eu comprei dois tabletes de torrone, um pacote de torrone aos pedaços, um saco de avelãs confitadas com açúcar, um vidro de pasta trufada e dois vidros de manteiga trufada. Ali mesmo começou meu estresse se eu conseguiria entrar no Brasil com estas manteigas, fato que me acompanhou até passar pela alfândega em Guarulhos, onde não fui parado. Com as compras feitas, saímos logo da feira. Para se alcançar a rua, o trajeto da saída impunha uma passagem obrigatória em uma espécie de ateliê coletivo de artistas plásticos e ceramistas da região. Oportunidade para conhecer as técnicas, ver estas pessoas trabalhando e comprar os seus produtos. Passamos sem parar. Lá fora, colocamos os casacos e cachecóis, pois o frio era de 12º C. Ainda tínhamos mais uma loja para ir. Queríamos comprar mais vinhos.
Um pouco de tudo do que curto: cinema, tv, teatro, artes plásticas, enogastronomia, música, literatura, turismo.
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sexta-feira, 8 de novembro de 2013
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
PIAZZA DUOMO - GASTRONOMIA EM ALBA (ITÁLIA)
Tínhamos reserva confirmada no Piazza Duomo para 20 horas, mesa para cinco pessoas. Eu, Rogério e Emi chegamos na Piazza Risorgimento cinco minutos antes. A praça estava lotada, com muitas barracas de comidas e bebidas debaixo das arcadas da sede da prefeitura de Alba. No centro, colocaram mesas altas, com tampo redondo, que serviam de apoio para quem bebia e conversava. Não havia cadeiras. No centro das mesas, velas iluminavam o ambiente. Um palco montado em um canto da praça indicava que ali haveria um show. Não conseguimos identificar o restaurante. Resolvemos perguntar em um bar bem próximo da Catedral San Lorenzo e nos indicaram o outro lado da catedral, em sua lateral esquerda, para onde fomos e nada achamos. Nova consulta em outro bar e nos foi apontada a primeira rua à esquerda, mas era mais uma informação errada. Demos uma grande volta pelas ruas ali perto, chegando novamente na Piazza Risorgimento. Um jovem que trabalhava em uma das barracas de comida da praça nos mostrou por onde entrava no restaurante que procurávamos. Embora o endereço seja na praça, o que temos no térreo é um restaurante chamado Piola, do mesmo proprietário do Piazza Duomo, que fica no segundo piso. Há uma entrada privativa para ele na via lateral, na Vicolo dell'Arco, 1, na esquina com a Piazza Risorgimento, por onde entramos. Fomos recebidos na porta por uma jovem atendente que nos conduziu até o segundo piso, onde já estavam sentadas Vera e Cláudia. O Piazza Duomo integra a lista dos 50 melhores restaurantes do mundo, editada anualmente pela revista britânica The Restaurant, figurando no 41º lugar na edição 2013, além de ter três estrelas Michelin.
Endereço: 4, Piazza Risorgimento, Alba, Itália. (www.piazzaduomoalba.it).
Contato: +39 0173 356 167 - info@piazzaduomoalba.it
Especialidade: cozinha piemontesa, com toques contemporâneos, sob o comando do chef Enrico Crippa.
Contato: +39 0173 356 167 - info@piazzaduomoalba.it
Especialidade: cozinha piemontesa, com toques contemporâneos, sob o comando do chef Enrico Crippa.
Quando fui: jantar de 26 de
outubro de 2013, sábado. Éramos 05 pessoas, com reserva feita com mais de um mês de antecedência pela guia Silvia Aprato da empresa de turismo Tasting Tours. O restaurante ocupa o segundo piso de uma edificação antiga localizada na principal praça de Alba. Em seu interior, nada lembra os prédios antigos que estão do lado de fora. Amplas janelas se abrem para a praça. As paredes são brancas com alguns desenhos como adorno. Iluminação ótima, bem clara. Nas mesas não há nenhum tipo de decoração, apenas uma toalha branca, pois a quantidade de amuse bouche que chega é assustadora, não havendo possibilidade de concorrência com nenhum objeto decorativo. Ficamos por mais de três horas no restaurante.
Serviço: ótimo atendimento na entrada, bem como eficiente serviço de mesa, incluindo o vinho e a trufa branca. Foram diligentes ao perguntar a cada um de nós se havia alguma intolerância ou restrição alimentar. No meu caso, respondi que não comia espinafre. O restaurante é adepto do movimento Slow Food, com a indicação no menu da procedência de seus produtos e matérias-primas utilizadas na elaboração de seus pratos, todos eles da região do Piemonte. O que não gostei foi da falta de isolamento acústico das janelas. Como acontecia um show de rock na praça, o barulho incomodava, mesmo com as janelas fechadas. Para piorar, como estávamos em época pré-inverno, não havia como esfriar o ambiente com o ar condicionado. Assim, tínhamos que optar entre o barulho e o calor. Emi, sempre em um eterno calor, pedia para abrir a janela a todo instante, mas logo tinham que fechá-la, pois a música alta incomodava.
O que bebemos: pedimos auxílio ao sommelier para fazer uma harmonização com o menu degustação com trufas brancas. Fomos prontamente atendidos, custando-nos € 80 por pessoa (quatro vinhos para seis pratos). A harmonização está descrita na sessão abaixo. Começamos com uma taça (€ 10) do espumante rosé Ettore Germano, brindando nossa amizade e a felicidade de estarmos juntos na viagem. Acompanhou os vinhos água mineral com e sem gás Lauretana. Ao final um forte café espresso Illy.
O que comi: os cinco da mesa não tiveram dúvidas em escolher o menu degustação com trufas brancas, chamado Menu Tartufo (€ 150, sem as trufas, que custava € 7 o grama), já que estávamos na melhor época para apreciar esta iguaria gastronômica. Todos os seis pratos do menu, incluindo a sobremesa, recebem lascas de trufas brancas raladas por sobre o prato na hora, à vista do cliente. Assim que escolhemos o menu degustação, o garçom nos trouxe à mesa uma seleção de trufas brancas e uma balança de precisão. Ele mesmo sugeriu uma delas, o que aceitamos. Pesou em nossa frente, anotando o peso de 61,4 gramas. Paga-se apenas o que se consome, motivo pelo qual o que resta da trufa ao final é pesado novamente e a diferença é o que se deve pagar. No caso, consumimos 49,2 gramas (€ 344,40). Antes do menu, encheram o centro da mesa com inusitados e diferentes mimos do chef. Sempre em porções com cinco unidades cada um, vieram uma espécie de pururuca de arroz, palitos de espaguete assados, flan caramel com missô (o melhor de todos, com a mistura de sabores doce e salgado), azeitonas falsas (a verde era um tartare de vitelo, muito bom, e a preta era um lagostim, que tinha um forte gosto de mar), queijo do Piemonte, minisalgadinhos, gressinos, foie gras com crispy de milho e espuma de campari (outro mimo muito interessante na boca, pois a gordura do foie gras casou bem com o amargo do Campari), entre outras variedades.
Em seguida, começou a sequência do menu, todos os seis pratos com bela apresentação:
1. Capesante, radici, nocciola - harmonizado com o vinho branco da região da Alsácia, França, Grand Cru Bruderthal Gewurstraminer 2008. Trata-se de vieiras grelhadas, com avelãs frescas e folhas de baby rúcula. Harmonização meia boca. As vieiras estavam deliciosas sem as trufas. Com elas, acho que o sabor se perdeu.
2. Di razza fassona - harmonizado com o vinho tinto de Abruzzi, Itália, Marina Cveltic Cabernet Sauvignon 1997. Um dos pratos mais típicos do Piemonte, trata-se de uma espécie de tartare de carne bovina da raça fassona. Harmonização excelente. Vinho muito bom. Sabor da carne bem marcante, com e sem as trufas. Aprovado.
3. Crema di patate, Lasang Souchong - harmonizado com o vinho tinto de Abruzzi, Itália, Marina Cveltic Cabernet Sauvignon 1997. O melhor prato da degustação, sem dúvidas, opinião compartilhada pelos cinco do grupo. É um creme consistente de batatas com um molho do chá chinês Lasang Souchong. Dentro do creme havia um ovo de codorna cuja cor era acinzentada, meio transparente, tipo fumê. Ao morder, uma gema mole e deliciosa, harmonizando perfeitamente com o creme. O molho de chá deu um toque inusitado, alterando o sabor da batata. Ficou bom tanto sem, quanto com a trufa branca. Aprovadíssimo. A harmonização deixou a desejar.
5. Cotornice e foie gras - harmonizado com o vinho tinto italiano Bernardot Barbaresco 1993, do produtor Bricco Asili, da região de Langhe, no Piemonte. Originalmente, este prato tem como acompanhamento espinafre refogado, mas no meu caso, como tinha falado sobre esta minha restrição alimentar, eles trouxeram o prato acompanhado por pequenas folhas de couve de bruxelas. Trata-se de uma codorna assada, com pele, e molho de foie gras. A carne da codorna estava dura e sem graça. O molho nada acrescentou, bem como as lascas de trufas brancas, que só lhe deram perfume. Não gostei, muito menos da harmonização.
6. Monte bianco - bem harmonizado com o vinho de sobremesa Château Rieussec Sauternes 1er Grand Cru Classé 2000, produzido pela vinícola Lafite Rothschild na França. A trufa branca foi um excesso, não harmonizando nenhum um pouco. É um marrom glacê legítimo, feito com castanhas portuguesas, com chantilly em seu topo, o que remonta ao famoso Monte Bianco, monte que fica na fronteira da Itália com a França, onde recebe o nome de Mont Blanc, que também dá nome à versão francesa desta sobremesa. Não aprecio chantilly. Acabei deixando boa parte da sobremesa no prato, embora tenha gostado do marrom glacê.
Para acompanhar o café espresso, uma série de novas amuse bouche, desta feita todas doces. O que mais me chamou a atenção foi a garrafinha com um creme doce à base de leite que tomamos de uma golada só. O pirulito de chocolate também era diferente na boca, onde explodia um sabor azedinho por causa do limão de seu recheio.
Valor individual da conta: € 345. Foi a conta mais cara que já paguei, individualmente, em um restaurante na minha vida até então.
flan caramel com missô
pururuca de arroz
seleção de amuse bouche
azeitonas falsas (fake olives)
foie gras com crispy de milho e espuma de campari
a trufa branca escolhida antes de ser ralada em nossos pratos
Em seguida, começou a sequência do menu, todos os seis pratos com bela apresentação:
1. Capesante, radici, nocciola - harmonizado com o vinho branco da região da Alsácia, França, Grand Cru Bruderthal Gewurstraminer 2008. Trata-se de vieiras grelhadas, com avelãs frescas e folhas de baby rúcula. Harmonização meia boca. As vieiras estavam deliciosas sem as trufas. Com elas, acho que o sabor se perdeu.
2. Di razza fassona - harmonizado com o vinho tinto de Abruzzi, Itália, Marina Cveltic Cabernet Sauvignon 1997. Um dos pratos mais típicos do Piemonte, trata-se de uma espécie de tartare de carne bovina da raça fassona. Harmonização excelente. Vinho muito bom. Sabor da carne bem marcante, com e sem as trufas. Aprovado.
4. Plin di fonduta - harmonizado com o vinho tinto italiano Bernardot Barbaresco 1993, do produtor Bricco Asili, da região de Langhe, no Piemonte. Trata-se de outro prato típico piemontês. É um ravioli de massa fresca feita com ovo e recheado com fondue de queijo da região. Ficou excelente com as trufas, que potencializaram o sabor e o aroma do prato. A harmonização foi fraca, pois o vinho era muito forte para a massa.
Para acompanhar o café espresso, uma série de novas amuse bouche, desta feita todas doces. O que mais me chamou a atenção foi a garrafinha com um creme doce à base de leite que tomamos de uma golada só. O pirulito de chocolate também era diferente na boca, onde explodia um sabor azedinho por causa do limão de seu recheio.
seleção de amuse bouche doces
Valor individual da conta: € 345. Foi a conta mais cara que já paguei, individualmente, em um restaurante na minha vida até então.
Minha avaliação: * * *. Mesmo com vários prêmios e integrante de listas dos melhores restaurantes, não tive uma experiência que me surpreendesse positivamente no Piazza Duomo. A harmonização ruim, o prato com codorna, as trufas na sobremesa, o barulho da música externa e o calor do ambiente interno pesaram nesta avaliação.
I PIACERI DEL GUSTO
Assim que chegamos da caça às trufas, resolvemos dar mais uma volta pelas ruas do centro de Alba para ver o movimento. Não havia mais as barracas da feira, mas uma multidão ia e vinha na Via Vittorio Emanuele. Fizemos o mesmo, andando bem devagar, olhando as vitrines, observando as pessoas. Um aglomerado de gente nos chamou a atenção em frente ao número 23/A da rua. Um forte aroma de alho não deixava dúvidas que havia trufas no pedaço. Era uma barraca da delicatessen I Piaceri del Gusto montada na estreita calçada do lado de fora da loja. Trufas negras e brancas, com seus respectivos preços, atraíam curiosos e compradores. Como estávamos procurando o vinho que tínhamos bebido no almoço para comprar, entramos. A loja é uma mistura de delicatessen, livraria com foco na culinária, e adega. Indicaram o subsolo como o local para procurar o vinho. Desci logo atrás de Rogério e Vera. A loja tem uma bem montada adega com vinhos de pequenos produtores da região, especialmente de barolos e barbarescos. Um verdadeiro achado para os apreciadores destes vinhos. O vendedor que nos atendeu era muito simpático e ao saber que éramos brasileiros, perguntou de qual cidade. Vera respondeu que éramos de Brasília e de Belo Horizonte. Ele disse que seu pai tinha morado em BH, quando da construção e inauguração da fábrica da Fiat, em meados dos anos setenta. Logo disse que eu era nascido na capital mineira, mas que morava em Brasília, apontando para Rogério como morador de BH. Procurei Emi para também identificá-lo como morador da cidade mineira. Olhei para trás e vi um homem de costas com a careca parecida com a de Emi. Dei um super tapa na ombro dele, afirmando bem paulatinamente "B E L O H O R I Z O N T E!". Nem vi o homem virar, continuando a conversar com o vendedor. Nesta altura, Vera já sabia que o vinho que procurava estava em falta, pedindo uma sugestão ao nosso atendente. Cláudia não parava de rir atrás de mim. Eu sem saber o que se passava. O vendedor indicou um vinho para Vera, dizendo que era muito bom. Só havia duas garrafas. Como ainda não tinha comprado nenhuma unidade de vinho até então, resolvi levar esta sugestão, o Carobric Barolo 1998 (€ 82), do produtor Paolo Scavino. Cláudia continuava a rir, mas conseguiu chegar até mim para dizer que eu tinha confundido e dado um tapa em um chinês, pensando que era Emi. Ela viu tudo, mas ria tanto que não conseguia se desculpar com o homem por mim. Olhei para trás e vi o tal chinês que olhava para mim com cara de incrédulo. Ao invés de pedir desculpas, comecei a rir junto com Cláudia. Vera, Rogério e o vendedor nada entendiam. Subimos a escada rindo muito, deixando o chinês atônito no subsolo. Emi estava na parte de cima. Ele nunca descera ao subsolo. Ainda rindo, paguei o vinho, esperamos Vera fazer o mesmo, voltando para a rua, onde dei de cara com a sorveteria Scchero. Os sorvetes italianos são sensacionais, motivo pelo qual entrei para comprar uma bola (€ 1). Escolhi um sabor da terra, ou seja, avelã, do qual gostei muito. Seguimos a via com os copinhos de sorvete nas mãos. Já mais no final da rua, entramos na loja Sisley. Vera e Cláudia resolveram voltar para o hotel, enquanto eu fiquei com Rogério e Emi na loja. Enquanto esperava Emi experimentar roupas e calçados, vi despretensiosamente algumas peças, encontrando um cardigã cinza que achei com o preço muito bom (€ 39,90). Comprei e deixei os meninos para trás, voltando ao hotel, pois tínhamos reserva para 20 horas no aclamado e premiado Piazza Duomo, restaurante integrante da seleta lista dos 50 melhores do mundo, edição 2013, onde ocupa a posição número 41. Demorei menos do que dez minutos para chegar ao hotel. Tinha uns quarenta minutos para estar pronto novamente para sair.
TARDE DE CAÇA ÀS TRUFAS BRANCAS
Sábado, 26/10/2013, 14:30 horas. Era chegado o momento do grande motivo para estarmos no Piemonte: participar de uma caça às trufas brancas. Para tanto, contratamos o serviço com antecedência junto à Tasting Tours, mesma empresa que nos levou para conhecer duas vinícolas no dia anterior. O ponto de encontro foi o Hotel Calissano, onde Vera e Cláudia estavam hospedadas. O nosso guia, Sandro, foi pontual, bem como o motorista com a van que nos levaria até La Casa del Trifulau (www.lacasadeltrifulau.it), local de partida para a tão esperada caçada. A distância entre Alba e Costigliole d'Asti, uma fração da cidade de Asti, onde fica o bosque em que iríamos caçar, é em torno de vinte quilômetros, percurso que fizemos em meia hora. Previamente fomos alertados para duas coisas: a possibilidade de nada encontrarmos na caçada e as eventuais trufas encontradas eram do caçador, jamais nossas. Chegamos ao destino às 15 horas, uma casa branca na encosta de uma colina, de onde se tem uma linda vista dos vinhedos da região. A casa fica na estrada, logo após uma curva, motivo para se ficar atento ao tráfego de carros. O endereço é Strada Canelli, 1. Descemos a escada, chegando a um amplo quintal, onde há uma estrutura para receber turistas. Fomos apresentados ao dono da casa e a um grupo de ingleses que também participaria da caçada. Ao redor de uma mesa de madeira enorme recebemos as boas vindas, ouvimos um pouco da história das tradições locais, especialmente dos produtos da região, a maioria deles oriundos da atividade agrícola, como o cultivo de uvas, os queijos frescos e os embutidos, além da principal atração local, a trufa branca (tartufo bianco). O dono da casa nos mostrou ilustrações da trufa branca e das árvores com as quais elas fazem uma espécie de simbiose para viver. As mesmas árvores que encontraríamos no bosque do outro lado da estrada onde fica a casa. Aprendemos um pouco mais sobre as trufas. As trufas negras são encontradas em qualquer parte do mundo, motivo pelo qual seu preço é bem mais em conta, chegando a custar dez vezes menos do que as brancas. Já a espécie branca somente é encontrada na Itália (Piemonte, Toscana e um pouco na fronteira com a Eslováquia) no período de setembro a janeiro, com o ápice acontecendo entre meados de outubro e meados de novembro. Ou seja, estávamos no local certo, no tempo certo. Um grama de uma trufa branca chega a custar nos restaurantes mais refinados da região até € 7. Assim que retirada da terra, a trufa não resiste muito, devendo ser consumido em até uma semana. Quanto mais fresca, maior o aroma de alho que ela exala. Após estas explicações, era a vez de conhecermos o caçador que nos levaria ao bosque juntamente com os seus cães farejadores. Giorgio era o caçador. Ele nos levou até o canil, apresentando primeiro um pastor alemão, que não era um farejador, mas sim o protetor e guardião dos outros três cães do local, estes sim os verdadeiros cães farejadores de trufas. Na região, todo caçador de trufas, chamados de trifulau (um dialeto local que vem de trifula, como eles chamam a trufa), devem possuir um registro. Com tal registro, eles podem caçar em qualquer área da região, não importando se o terreno é público ou privado. O caçador é o dono da trufa que encontra, não devendo nada ao dono da propriedade. Por causa disto e pelo preço alto desta iguaria culinária, há muitos caçadores e casos de assassinatos de cães não são raros, motivo pelo qual os três farejadores da La Casa del Trifulau tinham um cão guardião. Giorgio nos apresentou seus cães, da raça pointer inglês. Duas fêmeas e um macho. Diana, a mais velha, com sete anos, é mãe de Esferina e de Brio, ambos com três anos de idade. Todos três são muito dóceis e não estranharam a gente. Os ingleses não enturmavam, ficando distantes, só observando, enquanto nós chegamos perto dos cães, acariciando a cabeça deles e até dando comida para Diana. Giorgio escolheu Diana e Brio para a caçada daquela tarde. Antes de deixarmos a casa, ele aconselhou a quem estivesse com sapatos inapropriados a calçar uma das botas de borracha que havia no quintal. Emi e Vera calçaram as botas. Na subida, outro conselho do caçador: pegar um bastão de madeira para ajudar na caminhada no bosque. Peguei um dos bastões. Os dois cães estavam amarrados na mesma corrente e estavam doidos para entrar no meio das árvores. Foi só atravessar a estrada que Giorgio os soltou. Seguimos a trilha morro acima. O bosque é formado por uma árvore conhecida como pioppo, a melhor para encontrar trufas brancas. Paramos em uma pequena clareira, onde Giorgio nos explicou mais um pouco sobre o processo de caça. Os cães não podem seguir em linha reta, pois a direção do vento altera a todo instante no bosque e é pelo vento que chega ao apurado olfato deles o aroma das trufas. Com palavras de ordem, Giorgio instigava Diana e Brio a subir e a descer o morro, até que Diana parou, ficou em posição ereta, mirando um lugar distante, com as narinas bem abertas. Era chegado o momento. Ela correu até uma árvore, com o caçador atrás, e começou a cavar. Ele falava rápido algumas palavras para a cadela. Um aroma de alho dominou o ambiente. Diana tinha achado uma trufa branca. O caçador não deixou o cão ir até o fim. Ele o afastou, jogando ração para o lado e terminou de cavar. Achei estranho que a trufa encontrada não tinha nenhum sinal de raiz, já que na explicação ouvida minutos antes, aprendi que a raiz de uma trufa se entrelaça com a raiz da árvore. Fiquei desconfiado que se tratava de uma farsa, algo para enganar turista. Seguimos em frente, subindo o morro. Estava achando chatérrima aquela sinergia com a natureza. Mais à frente, Diana e Brio começaram a cavar juntos, o que chamou a atenção de Giorgio. O forte cheiro de alho foi bem diferente do primeiro. O caçador afastou os cães, mantendo um sorriso de satisfação no rosto. Ele acabou de desenterrar, e, desta vez, até o barulho de raiz se soltando da terra eu ouvi. Quando peguei esta segunda trufa, vi que tinha pedacinhos de raiz arrancados. Agora sim, era real a caçada. Dei-me por satisfeito naquela aventura na natureza, mas ainda subimos mais um pouco e os cães encontraram mais uma, bem menor, mais igualmente aromática. Era o fim de nosso passeio no bosque. Voltamos para a casa, onde o dono tinha preparado uma mesa com produtos da região: o vinho tinto Matota d'Asti Barbera 2012, do produtor Baldi Pierfranco, salaminho, fatias de queijo robiola (feito com 50% de leite de cabra e 50% de leite de vaca), e lascas de trufas brancas, colhidas em outro dia, raladas na hora por sobre o queijo. Durante este lanche, o dono da casa nos deu uma aula de como fazer um ovo frito com a trufa branca. E ainda fez propaganda de um livro que ele tinha lançado sobre a arte de caçar trufas, à venda no local. Ninguém comprou nada, nem trufas, nem livro. Voltamos para o carro. No trajeto de volta, paramos uma vez para tirar fotos de mais vinhedos e castelos. Chegamos em Alba perto de 18 horas. Tinha gostado da experiência, mas não repetiria.
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segunda-feira, 4 de novembro de 2013
DULCIS VITIS - GASTRONOMIA EM ALBA (ITÁLIA)
Cláudia tinha pesquisado restaurantes em Alba e achou o Dulcis Vitis interessante, enviando um e-mail solicitando reserva para o jantar de 24 de outubro de 2013, quinta-feira, em nossa primeira noite de férias no norte da Itália. Eu, Rogério e Emi fomos a pé do Hotel I Castelli até o restaurante, onde chegamos no horário da reserva. Cláudia e Vera já estavam sentadas na única mesa ocupada do restaurante, no salão à esquerda de quem entra. A mesa ficava próxima às janelas que davam para a rua, mas tinham cortinas que garantiam a privacidade de quem nela estava. Cláudia não passava bem, já tendo chamado um táxi para voltar para o hotel. Assim que chegamos, ela foi embora.
Endereço: Via Ratazzi, 7-7/A, Alba, Itália - www.dulcisvitis.it
Contato: +39 0173364633 - Reservas: prenotazioni@dulcisvitis.it
Contato: +39 0173364633 - Reservas: prenotazioni@dulcisvitis.it
Especialidade: culinária do norte da Itália, especialmente da região do Langhe e de Roero, sob o comando do chef Bruno Cingolani.
Quando fui: noite de 24 de
outubro de 2013, quinta-feira. Éramos 04 pessoas, com reserva feita por e-mail com mais de um mês de antecedência. O restaurante tem iluminação mais baixa, o que valoriza o amarelo envelhecido que domina as paredes. Seu teto tem tijolos aparentes, em formato abobadado, enquanto a decoração tem mobiliário antigo e muitas garrafas de vinho dos produtores da região, especialmente de Barolo.
Serviço: como só havia nossa mesa ocupada na primeira hora em que estivemos no restaurante, as duas garçonetes ficaram atentas o tempo inteiro, sempre estando à disposição para nossos chamados. Por volta de 21 horas, uma outra mesa foi ocupada, com quatro pessoas, no mesmo salão em que estávamos. O serviço continuou muito eficiente. Os pratos chegaram ao mesmo tempo na mesa, na sequência correta do menu degustação. Como é um lugar para apreciar a enogastronomia local, o tempo de chegada dos pratos à mesa obedece a este requisito. O chef é muito simpático e conversou conosco o tempo todo, mas sem ser invasivo. Atendeu prontamente ao nosso pedido para indicar um vinho, o segundo da noite. Para nossa surpresa, ele nos trouxe um vinho sem sabermos o produtor, o rótulo e o preço. O vinho era muito bom. Ao final, o vinho custava mais barato do que o que havíamos escolhido para o início de nosso jantar. O restaurante faz questão de informar, nas primeiras páginas do cardápio, todos os produtores que fornecem os insumos para ele. Tais produtores são todos da região, o que garante o movimento da economia rural local. Este é um dos pilares do movimento Slow Food, criado na Itália, exatamente na região em que estávamos.
O que bebemos: dois vinhos tintos. Iniciamos com um Barbaresco 2006 Vigneto Brich Ronchi do produtor Albino Rocca, com 14,5% de álcool (€ 82). Vinho com bom corpo e ótima harmonização com os pratos do menu degustação. Em seguida, foi a vez do vinho indicado pelo chef Bruno Cingolani, um Barolo Renato Corino 2007, de Arborina, com 14,5% de gradação alcoólica (€ 65), cujo produtor, Corino, ocupava a outra mesa do salão. O vinho é muito bom, harmonizou melhor com o aromático prato de ovos fritos com trufas brancas, mostrando-se elegante e encorpado. Para acompanhar os vinhos, água mineral com e sem gás Lurisia (€ 5 a garrafa de um litro). Ao final, um bem tirado café espresso Illy (€ 4), servido em uma xícara da mesma marca em edição especial chamada Pedro Almodóvar. Depois de encerrada a conta, o chef sentou conosco, oferecendo-nos dois aperitivos. Uma taça do vinho de sobremesa Barbaresco El Chinà Cascina Luisin e uma dose da grappa Bocchino Cantina Privata.
O que comi: Todos na mesa não tiveram dúvidas em pedir o menu degustação. Como havia duas opções, optamos pelo menor, o que tinha dois pratos com as famosas trufas brancas de Alba. O menu recebe o singelo nome de piccolo menù degustazione al tartufo bianco d'Alba (€ 125), consistindo de dois pratos quentes e de uma sobremesa. Enquanto esperávamos os pratos, uma providencial cesta de pães artesanais, sem conservantes, foccacias e gressinos (grissini) foi colocada em nossa mesa (coperto: € 4). Tínhamos comentado entre nós o que lemos nas últimas folhas do menu, onde havia uma sugestão de degustação de azeites. Ao ser perguntado sobre esta degustação, o chef pediu à garçonete que trouxesse cinco tipos diferentes de azeites produzidos na região. Assim, degustamos os pães e foccacias embebidos nos extra virgens Costa Digiano, Lu Cavalire, Benza Primuruggiu, Franci Villa Magna e Tenuta Maffone. Cada um com sabor diferente, alguns mais amargos, outros mais puxados para um toque suave e doce. Gostei mais do Costa Digiano, com sabor amargo e bem acentuado, harmonizando perfeitamente com a foccacia, devido ao sal proeminente nesta iguaria italiana. Para completar, ainda havia uma manteiga fantástica acompanhando a cesta de pães. Antes de iniciar a sequência do menu, o chef nos brindou com uma amuse bouche leve, feita com uma fina fatia de salmão cru recheada com uma pasta de bacalhau e maionese, também servida à parte no mesmo prato. Sabor intenso, que preparou nossas papilas gustativas para o que viria a seguir.
Prato 1: ravioli di ricotta seirass, burro di montagna, parmigiano d'alpeggio e tartufo bianco d'Alba. Nosso primeiro prato com trufas brancas da viagem. A garçonete colocou os pratos com o ravióli recheado com ricota seirass cujo perfume de manteiga e queijo parmigiano era intenso. Em seguida, Bruno veio com uma vasilha onde estavam as trufas brancas frescas, guardadas com todo o cuidado. Escolheu uma delas, pegou o ralador apropriado e começou a ralar finas fatias em cada um de nossos pratos. Um aroma de alho invadiu o ambiente e alterou, para melhor, o perfume que subia do prato. Experimentei a massa recheada com e sem a trufa, preferindo a segunda opção. A ricota seirass é típica do Piemonte, sendo feita com leite de vaca e de ovelha. É muito leve, cujo sabor foi fortalecido pela presença da trufa branca. Amei.
Prato 2: crostone di pane ai sapori antichi, bagna caoda, uovo all'occhio di bue e tartufo biano d'Alba. Este segundo prato deixou o primeiro no chinelo. Perfume e sabor intensos, com harmonia entre ingredientes fortes, difíceis de combinar um com o outro, como a bagna caoda, um tempero feito à base de alho, azeite, creme de leite fresco, manteiga e anchovas, e a trufa branca, também ralada na hora pelo chef em nossos pratos. Eram dois ovos fritos, com as claras unidas como se fossem uma só e as duas gemas no centro, inundados de bagna caoda, tudo isto em um leito de uma fatia de pão tostado à moda antiga do Piemonte. Prato aparentemente simples, mas com sabor inigualável. Para sempre ficará em minha memória afetiva esta experiência gastronômica.
Prato 3: a sobremesa, um bunet di amaretti e cioccolato Gobino. Trata-se de uma receita típica do Piemonte. É uma espécie de pudim de farinha de amêndoas e chocolate. No caso, o chef utiliza a marca Gobino, tradicional chocolataria de Turim. A sobremesa foi servida com um physalis parcialmente encoberto por chocolate como decoração do pudim. Tinha um sabor forte, com leve toque de rum. Não me surpreendeu como os pratos salgados do menu.
Valor que me coube no total da conta: € 190.
Minha avaliação: * * * * 1/2. Experiência enogastronômica de primeira, que mereceu uma segunda visita em nossa curta estadia em Alba. O chef Bruno Cingolani é uma simpatia, sabendo atender bem e conquista os clientes com ótimo papo, contando sobre a culinária da região.
Gastronomia Alba (Itália)
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