Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Funarte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Funarte. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

TOMORROW - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Ainda na noite de quinta-feira, dia 28 de agosto de 2014, após ter conferido Adaptação no CCBB, fui para o Teatro Funarte Plínio Marcos, onde acontecia a estréia de Tomorrow, montagem do grupo escocês Vanishing Point Theatre Company. Quando lá cheguei, uma fila enorme já se formava para entrar. Encontrei-me com Hélida G. e André P. e ficamos batendo papo sobre as peças que já tínhamos visto até então dentro da programação do Cena Contemporânea 2014. Tomorrow é a primeira co-produção do festival. Muita expectativa, ainda mais que um ator brasiliense, William Ferreira, estaria em cena. Teatro completamente lotado. O calor de sempre na sala de espetáculo, já que lá não tem ar condicionado. Antes de iniciar, o diretor da peça, Matthew Lenton apareceu no palco para um recado ao público. Disse que a peça seria falada em inglês, com legendas em português, e que algumas falas não seriam traduzidas, o que era normal, não seria uma pane no sistema de legendagem. Os atores improvisavam em cena. Disse para a plateia prestar atenção no que ocorria no tablado, seria tudo perfeitamente entendível. Informou, ainda, que figurino, aparelhos de iluminação, entre outros objetos, ficaram retidos na alfândega brasileira no aeroporto de Guarulhos. Agradeceu à equipe do festival por ter conseguido providenciar o que precisava para colocar a peça em cena.
A história gira em torno de um asilo de velhos, todos senis, contando a rotina diária deles com os empregados do local. Para envelhecer os atores, o diretor optou por usar aquelas próteses de borracha, muito comum nos filmes hollywoodianos. Embora com feições totalmente distintas, os velhinhos ficaram sem expressão. Não gostei.
A ideia da peça até que é interessante, mas a forma como foi contada não me agradou. A julgar pelos que deixaram o teatro enquanto rolava a encenação, não fui o único a pensar assim. Roubando uma intervenção de minha amiga Hélida G., soou muito moralista, o típico moralismo inglês, que não consegue expiar seus pecados históricos. Tive uma sensação de ser culpado por todas as mazelas contra velhinhos existentes no mundo, especialmente em asilos. A tentativa de colocar a culpa em toda a humanidade é patente. Uma pena que foi assim, pois a iluminação e a movimentação dos atores em cena é muito boa. A cena da tentativa de revolta dos idosos, com direito a tentativa de fuga como se fossem prisioneiros de um cárcere de segurança máxima, é hilária. Mas fica por aí. Ao final, pela primeira vez no festival dentre as peças que assisti, não ouvi nenhum grito de entusiasmo. Ouvi apenas palmas, até diria que foram palmas protocolares. Vi muita gente sentada, sem nem mesmo aplaudir, grupo ao qual me filiei. Na saída, comentários diversos, mas nenhum deles de forma entusiasmada pelo que viram em cena. Realmente não gostei do que vi.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

ELEFANTE - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Já vi vários espetáculos e filmes que têm a velhice e/ou a relação do homem com a morte como tema. Alguns ótimos, outros bons e outros sofríveis. Assim que terminou a peça Elefante, dentro da programação do Cena Contemporânea 2014, imediatamente a coloquei no rol das ótimas. Fui ver a sessão das 21 horas do domingo, dia 24 de agosto, no Teatro Funarte Plínio Marcos. Além das cadeiras normais do local, foram colocadas outras tantas no palco, dando uma sensação de teatro de arena, com a trama sendo desenvolvida em um círculo no centro do palco. Teatro completamente lotado. Iluminação marcada e o texto indicavam o espaço físico onde rolava uma determinada cena, podendo ser na casa do fotógrafo casado com uma médica, na casa dos pais do fotógrafo, ou no consultório médico da mulher do fotógrafo. Não há troca de figurinos. O destaque fica por conta do texto, da direção e da interpretação leve, bem humorada, mas no tom certo, sem a comédia suplantar o drama, ponto alto da peça. Montagem da Probástica Cia de Teatro, grupo do Rio de Janeiro, que conta no elenco com Igor Angelkorte (também responsável pela direção), Samuel Toledo, Fernando Bohrer, Chandelly Braz e Livia Paiva. Elefante tem como mote a velhice, a forma como todos nós lidamos com ela, além de discutir a relação dos humanos com a própria morte.
A história acontece em um tempo onde as pessoas permanecem jovens a partir de uma descoberta de uma pílula da juventude. Mas existe uma ilha, para onde só se vai com autorização do governo, chamada Sênica, onde as pessoas não tomam esta pílula, envelhecem e morrem naturalmente. A pílula garante a juventude sem doenças, mas não garante vida eterna. As pessoas continuam a morrer por causas não naturais, como acidentes e assassinatos. Por causa da longevidade, o governo exerce um rigoroso controle de natalidade, só podendo ter filhos os casais que recebem uma autorização para tal. O fotógrafo vai para a ilha fazer um trabalho encomendado pelo governo para estampar mais uma campanha publicitária da pílula. O contato com os moradores da ilha, especialmente os mais velhos, e com o modo de vida daquele local, transformam sua vida e sua forma de pensar a morte, a sua própria morte. Ele decide largar tudo para viver em Sênica. Dez anos depois, ele retorna com as marcas da velhice esculpidas em seu corpo e também acaba por mudar a vida da sua mulher e de seus pais. Tudo isto é contado de forma leve, mas sem deixar de lado a profundidade do tema. Além da questão da velhice e da morte, a busca desenfreada pela juventude nos dias atuais, por meio da medicina e da tecnologia, também é retratada no texto. Em todo momento, em todas as cenas, mesmo as mais banais, há pontos para uma boa reflexão.
A cena mais tocante acontece quando o fotógrafo, já velho, vai tirando a sua roupa em frente a sua mulher, mostrando suas rugas, sua corcunda, as marcas do tempo em seu corpo. Ela, tocada com a situação, pega uma máquina fotográfica e faz algumas fotos dele ali parado, nu, no centro do palco. Uma lágrima rolou pelo canto dos meus olhos. Muito choro silencioso rolou no teatro.
Lindo, comovente, bem dirigido, bem encenado.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

CONSELHO DE CLASSE - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Começou a 15ª edição do Cena Contemporânea. Comprei ingressos para vários espetáculos. Iniciei a maratona pela peça de estreia da edição 2014 deste ótimo festival de teatro de Brasília.
Terça-feira, 20 de agosto. A peça estava marcada para ter início às 21 horas no Teatro Funarte Plínio Marcos. O estacionamento ao lado do Complexo da Funarte é amplo, sempre com tranquilidade para encontrar vagas. Mesmo assim, fui cedo para lá. Esta foi minha sorte, pois não contava com um estacionamento repleto de carros, a esmagadora maioria de torcedores do Vasco que foram ver um jogo válido pelo campeonato da segunda divisão de futebol que aconteceria no Estádio Nacional Mané Garrincha. Consegui uma vaga mais longe do local onde costumo parar.
Em frente ao teatro, cujas grades estavam fechadas impedindo o acesso ao pequeno hall do local, duas filas se formavam. A da esquerda era de quem tinha ingresso, onde logo me posicionei, enquanto a da direita era daqueles que ainda tentariam comprar entrada para a sessão da noite. Vários torcedores vascaínos passavam por lá e estranhavam aquele público em duas filas. Presenciei uma turma deles pensando que ali era a entrada do estádio.
Na medida em que o tempo passava, as filas cresciam, tanto em linha reta para trás quanto para os lados. Era tanta gente que conhecia tanta gente que alguns bolinhos de pessoas se formavam em determinados pontos da fila. Não sei o motivo, mas só abriram as grades e liberaram a nossa entrada quando os ponteiros do relógio já anunciavam ter passado do horário previsto para o início da peça. A saudação gravada do festival foi ao ar ainda com a maioria das pessoas do lado de fora. Houve uma considerável demora para acomodar todo mundo, inclusive aqueles que estavam sem ingresso. Tive a impressão que todos que estavam sem entrada tiverem êxito e entraram. O teatro ficou completamente lotado para ver Conselho de Classe, uma das peças que celebrou os vinte e cinco anos de carreira da Cia dos Atores, do Rio de Janeiro. A lotação completa era bom sinal, pois mostrava que o público estava ávido por teatro, ávido por celebrar o festival, mas ao mesmo tempo, a mesma lotação me indicava que o calor seria forte ali dentro. E foi.
O espetáculo começou com cerca de quarenta minutos de atraso.
O cenário mostrava uma escola com problemas visíveis de manutenção, ficando iluminado desde a entrada do público.
O texto de Jô Bilac é contundente (adjetivo que "roubei" de Fernando Guimarães), escancarando as mazelas da educação no Brasil, seja na questão do aspecto físico da escola, onde faltava até mesmo água potável, seja pela remuneração ridícula que um professor da rede pública recebe do poder público, no caso, do Governo Estadual do Rio de Janeiro. E ainda há a discussão sobre o papel da escola junto à comunidade, a falta de atualidade na gestão escolar e o conflito de ideologias entre os professores que formam o corpo docente daquela unidade.
São quatro atores que interpretam as professoras durante um conselho de classe perto do final do ano. São quatro homens que interpretam quatro mulheres, mas as diretoras Bel Garcia e Susana Ribeiro preferiram deixá-los com figurino masculino, sem alterações no modo de falar e com pouco gestual feminino. Soou estranho em um primeiro momento, mas esta forma deixou as questões meramente masculinas/femininas devidamente distanciadas das discussões centrais.
Ainda há mais um ator em cena interpretando o diretor substituto que chega como enviado da Secretaria Estadual de Educação para dirigir o conselho de classe e colocar ordem na casa, após um incidente que ocorrera com a diretora titular.
Em cena, o calor era de matar, e, na plateia, o desconforto das cadeiras e a falta de ar condicionado no teatro foram perfeitos, mesmo que de forma não proposital, para a sinergia com o cenário e para uma melhor aproximação com o que se passava na quadra da escola.
Os atores estão muito bem, inclusive o estrangeiro Thierry Trémouroux, mesmo com certa dificuldade em entender algumas frases que ele falava, especialmente quando não estava virado para a plateia. Quem estava nas últimas fileiras da sala tiveram, nitidamente, tal dificuldade. Um cara que estava sentado ao meu lado me perguntou por mais de uma vez o que o ator tinha acado de falar.
Embora os desempenhos individuais sejam dignos de notas elogiosas, o que prevalece durante toda a encenação é a força de grupo. O coletivo é muito forte neste espetáculo. Um ponto alto são os embates vivenciados pelas personagens, o que possibilita interessantes duelos entre os atores.
Pelo que escrevi até aqui, pode parecer, para quem está lendo, que eu gostei da peça, mas há uma questão que me incomodou muito e jogou por terra, na minha visão, a discussão profunda que há no texto. Foi a opção por dar um tom de comédia no desenvolvimento da história. Claro que ri de várias situações, mas creio que esta escolha atrapalhou bastante a reflexão sobre o texto. As professoras ficaram no limiar do estereótipo do funcionário público que não tem compromisso com nada, ou ao contrário, daquele que é engajado politicamente e quer mudar o mundo a partir de ações na comunidade. Não é à toa que quem faz este papel é o único que não tem um tom burlesco na interpretação. No caso a Professora Mabel, vivida por Trémouroux.
Muitos sabem que professores, especialmente os da rede pública de ensino, fazem bicos, são sacoleiros, como a Professora Célia da peça, mas a forma como esta situação é mostrada me soou um tanto quanto excessiva. Ouvi uma pessoa comentando na saída que a mãe dela era professora e que, com certeza, não gostaria de ser retratada como aquela que passa hidratante nas pernas ou lixa a sola dos pés durante uma reunião do conselho de classes da escola onde trabalha. Realmente esta provocou muitas risadas na plateia, mas era totalmente dispensável no contexto.
Ao final da apresentação, as palmas calorosas e os gritos de vivas mostraram-me que a maioria gostou do que presenciou.
Eu saí com a sensação que poderia ter sido melhor, que a direção errou a mão.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

PATTERN & VARIABLE - BALANCE & IMBALANCE

Na terça, nada de peça teatral, mas sim dois números de dança moderna do grupo sul-coreano Bereishit Dance Company. A coreografia é de Park Soon-ho. Programa do Teatro Plínio Marcos, no complexo cultural da Funarte, que recebeu um bom público. Estava acompanhado de Karina, Diana, Hélida G. e Kitty. A primeira coreografia foi Pattern & Variable conta com três homens e duas mulheres dançando no palco. Sem ler a pequena sinopse que entregaram ainda na fila de espera, coisa que só fiz após o final de tudo, percebi que tinha elementos de lutas marciais nos passos dos bailarinos. Depois, li que tudo se passava nos bastidores de uma competição de judô. Ao saber, tudo faz muito sentido. Os passos são bem marcados, como na ginástica artística. Até elementos da capoeira são visivelmente identificados durante os vinte minutos de duração da dança. No centro do palco, um tatame não deixa dúvidas sobre as artes marciais. Um breve intervalo de dez minutos e começa a segunda apresentação, com três músicos sentados na lateral esquerda do palco, tendo três tambores diferentes à frente. Começava a coreografia Balance & Imbalance, sem tatame, com outro tipo de iluminação, cuja sinergia com a música é perfeita. Alguns bailarinos da primeira apresentação voltam a dançar este número, que tem ligações mais fortes com a cultura asiática, seja na formação de símbolos com os próprios corpos dos dançarinos, seja no figurino dos músicos ou o rufar dos tambores. Pela sintonia entre música, dança e performance, gostei mais da segunda parte. Belo espetáculo. Só mesmo em um festival plural como o Cena Contemporânea para trazer atrações de boa qualidade de países tão distantes para Brasília.

dança

quinta-feira, 21 de março de 2013

MINIMANUAL DE QUALIDADE DE VIDA

Fila concorrida para assistir Minimanual de Qualidade de Vida, peça integrante do projeto Em Cena no Planalto. Não tinha ingresso, motivo pelo qual cheguei com quarenta e cinco minutos de antecedência para o início do espetáculo, marcado para 20 horas, para tentar comprar duas entradas. Ainda havia ingresso disponível, ao custo unitário de R$ 20,00 a inteira. Como o lugar não era marcado, comprei as entradas e segui imediatamente para a fila. Fabíola, minha amiga e colega de trabalho, chegou quinze minutos depois. As portas do Teatro Plínio Marcos, na Funarte, se abriram às 19:55 horas. A sala não chegou a ter lotação esgotada, mas recebeu um excelente público. O calor era forte, potencializado pelo fato de a sala não ter ar condicionado. Muita gente se abanava na plateia. Tinha gente com leque. A peça teve início às 20:15 horas. Minimanual de Qualidade de Vida é um monólogo com a atriz Alexandra Richter, cujo texto é de Ana Paula Botelho e Daniela Ocampo. Esta última também responde pela direção. O texto é leve e muito divertido, abordando a questão da qualidade de vida nos dias atuais, com regras ditadas pela sociedade para as quais muita gente faz de tudo para alcançá-las, sem se dar conta de que pode estar se prejudicando, física e mentalmente. A peça começa com um vídeo, mostrando Richter se preparar apressadamente para um compromisso, atropelando quem passa em sua frente para chegar na hora exata. O tal vídeo termina com ela saindo de um elevador, onde terminou de passar sua maquiagem, e uma voz anunciando sua entrada para dar uma palestra sobre qualidade de vida. É a deixa para ela entrar no palco com uma enorme bolsa preta, de onde, mais tarde, tiraria uma fonte de água, item essencial para relaxamento e paz no ambiente. Nós somos a plateia da tal palestra. O objetivo principal é a venda de um manual de qualidade de vida. São 100 capítulos que ela deve repassar ao público. Situações vivenciadas por qualquer um de nós são temas destes capítulos. É claro que ela não segue a sequência correta, pulando capítulos, rejeitando alguns e se detendo mais longamente em outros. Piadas conhecidas ganham nova roupagem na interpretação de Richter, que tem um excelente timing para comédia, ficando com o público nas mãos em questões de minutos. Há intensa participação da plateia, mas nada que agrida as pessoas e ninguém tem que sair do lugar de onde está. No meio da palestra, há um sorteio real, quando um dos presentes ganhou uma cesta de produtos da empresa Três Corações, uma das patrocinadoras da peça. Destaco dois momentos hilários: o capítulo que trata do fanatismo dos homens por jogos de futebol e aquele que explica porque uma mulher geneticamente tem os cromossomos XX e o homem é XY. Os motivos de o homem não ser XX são divertidíssimos, pois o segundo X da mulher simplesmente perdeu uma perninha, que acabou virando o pênis do homem. São 90 minutos de muito riso, muitas gargalhadas. Saí do teatro muito leve de tanto que desopilei o fígado.

artes cênicas

domingo, 29 de julho de 2012

LUÍS ANTÔNIO-GABRIELA - CENA CONTEMPORÂNEA

No sábado fui ver mais uma peça do festival Cena Contemporânea. Desta vez na Sala Plínio Marcos do Complexo Cultural da Funarte. Como não havia assento marcado, cheguei meia hora antes para garantir um bom lugar. A fila já estava grande. A porta do teatro foi aberta exatamente na hora que estava previsto para ter início o espetáculo, mas o atraso não foi grande, pois o público rapidamente se acomodou e os seis atores da Cia Mungunzá de Teatro, radicada em São Paulo, já estavam em cena, juntamente com dois músicos. Eles faziam alguns exercícios de aquecimento de voz e corpo. Quinze minutos e a peça Luís Antônio-Gabriela teve início. Argumento, dramaturgia e direção cabem a Nelson Barkerville. O elenco é formado por Marcos Felipe, Lucas Beda, Sandra Modesto, Verônica Gentilin, Virgínia Iglesias e Day Porto. Para contar uma parte de sua própria vida, o diretor Baskerville utiliza uma mistura de teatro,  dança, música e projeções de vídeo. É, na verdade, uma espécie de documentário encenado, onde nada tem muita cor, predominando os tons cor de pele, preto e palha. O diretor narra a história de seu irmão mais velho, Luís Antônio, e a relação que ambos tiveram até se separarem para sempre. A história é narrada pelos seis atores, que se apresentam com seus verdadeiros nomes informando à plateia os personagens que irão interpretar. Duas personagens se sucedem na narrativa, desde o nascimento, da infância de Luís Antônio e de Nelsinho (o diretor). A história é triste, mas esta tristeza não é usada para deixar o público sensível e pendente para este ou aquele personagem. O público fica um tanto quanto hipnotizado com a história de vida de Luís Antônio, um garoto que tinha trejeitos femininos desde pequeno, que violentou Nelsinho, seu irmão mais novo, foi vítima de violência familiar, em época que se acreditava curar a homossexualidade com porrada, foi expulso de casa, viveu um tempo com os avós, para, enfim, ganhar as ruas, convivendo com drogas e prostituição em Santos, até se mudar para Bilbao, Espanha, no início da década de 80, onde se transformou na travesti Gabriela, chegando a fazer sucesso com dublagens nas boates da cidade. Fica muito doente, vítima da aids, e recebe, após um longo período, a visita de sua irmã, morrendo sozinho no hospital. Os atores dançam, cantam, manejam a iluminação, as câmeras de vídeo, e montam e desmontam o cenário ao longo dos cerca de noventa minutos de duração da peça. A música é executada ao vivo, tanto por dois músicos quanto pelos atores, que também tocam alguns instrumentos em cena. Há muitas cenas interessantes, como a briga familiar em um domingo dentro de uma Rural (nem me lembrava deste carro mais), da dublagem de Gabriela com uma roupa feita com plástico, ou da visita de Gabriela e sua irmã, Maria Cristina, ele muito doente, em uma exposição no Museo Guggenheim, quando várias telas pintadas pelo artista plástico Thiago Hattner são abertas pelos atores (elas estavam o tempo inteiro enroladas e penduradas no teto. Para abrí-las, eles puxaram uma corda), todas retratando travestis. Uma das telas é toda preta, em frente a qual o ator Marcos Felipe, intérprete de Luís Antônio-Gabriela, se posiciona em pose que remete a mais um quadro da mostra no museu. Sua expressão é de alegria e de tristeza simultaneamente, como se fosse um adeus à vida, mas com uma pose em "fotografia" eternizada em uma pintura. Todo o elenco é muito bom, com performances precisas, mas Marcos Felipe é o grande nome da peça. Sua interpretação não dá um ar jocoso ao homossexual, mas transmite toda a sua afetação durante o espetáculo. Ao final, com as luzes apagadas, apenas um display fica ligado no qual o diretor Baskerville pede desculpas publicamente ao irmão por não tê-lo compreendido na época e por não tê-lo encontrado mais depois que ele se mudou do Brasil. Aplausos longos e calorosos para um ótimo espetáculo. Foi a última peça que vi nesta edição do festival e gostei muito. Mesmo tendo achado Apple Love a pior apresentação que já vi em todas as edições do festival, o Cena Contemporânea 2012 teve uma das melhores programações de sua existência, com peças de altíssimo nível como Estamira, Beira do Mundo; (Des)conhecidos e Luís Antônio-Gabriela. Infelizmente não vi Mi Vida Después, da argentina Lola Arias, peça bastante comentada nas rodinhas nos teatros e no ponto de encontro do festival na praça do Museu Nacional da República. Não se consegue ver tudo. Que venha 2013!

teatro

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

6º ARTE & CIDADANIA - ORKESTRA RUMPILEZZ E LETIERES LEITE


Quando terminou o show de Zezé Motta pelo projeto Conexão África-Brasília, na Sala Cássia Eller, eram 21:45 horas. No Complexo Cultural da Funarte, da qual faz parte a sala onde vi o show, estava programado para começar, às 22 horas, o show da Orkestra Rumpilezz, uma big band criada pelo maestro Letieres Leite na Bahia. Este show integrava a programação do 6º Arte & Cidadania, realização do Instituto Zabilim, o mesmo que idealizou e está produzindo, em parceria com a Matéria Prima, o projeto Ocupação Funarte 2011. Já que lá estava e tendo lido ótimas críticas sobre a orquestra, resolvi conferir. Uma gigantesca lona de circo foi montada para abrigar o palco e a plateia, já que nesta época, a chuva é constante em Brasília. Tal lona foi armada no gramado ao lado do Teatro Plínio Marcos. Embora gratuito o ingeresso, todo o espaço foi cercado, havendo uma entrada onde seguranças não deixavam passar quem estava com garrafas de vidro nas mãos. Isto foi uma ótima sacada da produção, que garantiu uma maior tranquilidade para quem quis curtir a noite. No amplo espaço cercado, havia várias lixeiras feitas com garrafas pet vazias, banheiros químicos, pipoqueiros e um bar para venda de cervejas e afins. Fiquei aguardando o início do show grudado na grade de ferro que separava o palco da plateia. Houve um atraso considerável para o início da apresentação da Orkestra Rumpilezz. Enquanto o público ia chegando devagarinho, se acomodando no gramado, um DJ da festa Criolina não deixava o ambiente sem música. Como de costume, música negra, música de balanço, ótima para dançar. Ninguém ficava com o corpo parado. Mesmo sentadas, as pessoas mexiam cabeça, corpo, braços, acompanhando o set list de músicas brasileiras. Às 23:15 horas, um percussionista entrou em cena, se posicionou perto de seu instrumento musical e começou a tocar. Era o início do show. Em seguida, uma profusão de músicos entrou pelos dois lados do palco tocando instrumentos de sopro. Os que entraram pela direita, passaram pela frente do palco, cumprimentaram a plateia e se posicionaram à esquerda, em frente aos suportes para suas partituras, enquanto os que entraram pela esquerda fizeram o caminho contrário. Depois, foi a vez de mais quatro percussionistas entrarem para ficar no centro do palco. Por último o maestro Letieres Leite, também empunhando um instrumento de sopro. Com os integrantes da banda em seus devidos lugares, a primeira música foi executada, já deixando todo mundo ouriçado para o que viria nos 100 minutos que durou o show. Com exceção de uma música, de autoria de Ed Motta (Ballendoah), todas as demais apresentadas são de autoria da Orkestra Rumpilezz e de Letieres Leite. As músicas são longas e não deixam ninguém parado no chão. Curtia cada uma delas, ouvia as explicações de Leite sobre como foram feitas, o que os inspirou, de onde vinham os ritmos, enfim, era uma aula, mas dançante, vibrante, plena de energia positiva. Alguns títulos das composições remetem à cultura negra, como Aláfia e Adupé Fafá. Em outras, a natureza é reverenciada como na bela Floresta Azul. O Samba Nasceu na Bahia é uma ótima música, bem dançante, que mistura os sons dos tambores que vieram da África. Já no bis, o maestro apresentou os percussionistas (os músicos dos instrumentos de sopro foram apresentados durante o show) e mostrou a música que tornou a orquestra conhecida, chamada Taboão. O curioso na formação da banda é a inversão da posição dos percussionistas, pois, geralmente, eles sempre ficam no fundo ou nas laterais do palco, além de usarem figurinos mais largados, mais despojados. Na Orkestra Rumpilezz, os cinco músicos da percussão ficam no centro e à frente de toda a banda, usando smoking branco e sapatos sociais, também brancos, enquanto os quatorze músicos que tocam os instrumentos de sopro usam o mesmo branco, mas são batas, bermudas e sandálias, a maioria usando Havaianas. Fiquei tão entretido com a apresentação da banda que só reparei que o local estava lotadíssimo quando terminou. Praticamente ninguém arredou pé do lugar, pois, em seguida, os DJs da Criolina incendiaram a pista de dança que virou o gramado. Ainda dancei um pouco até a fome me obrigar a procurar alguma coisa para comer. O relógio acusava mais de três horas da madrugada. Resolvi sair dali, pois comida de rua não me agrada (estava cheio de barracas do lado de fora, perto da entrada do espaço do show). Passei em um lanchonete antes de ir para casa. O estacionamento em frente à Funarte estava completamente tomado de carros, assim como os gramados nas proximidades. Um sucesso. Uma verdadeira ocupação do local, como pede o projeto. Uma noite iluminada.





Letieres Leite


música

sábado, 10 de setembro de 2011

TERRA DE VENTO

Brasília está plena de atrações culturais neste final de semana. O tempo continua muito seco, com muitos incêndios provocando acúmulo de fumaça suspensa no ar. Durante o dia não dá vontade nenhuma de sair, pois a secura provoca uma moleza no corpo. No entanto, as noites ficam frescas, facilitando a frequência aos locais de cultura na cidade. Na sexta-feira, eu e Ric fomos conferir uma peça teatral de um grupo de Brasília. Sessão de 21 horas no Teatro Plínio Marcos (Complexo Cultural da Funarte), com ingresso custando R$ 20,00 a inteira. Pouco mais que cinquenta pessoas foram prestigiar a montagem do grupo Sutil Ato para Terra de Vento, texto e direção de Jonathan Andrade. No palco, nove atrizes: Andréa Costa, Ana Maria Gomes, Alice de Holanda, Gleide Firmino, Lisbeth Rios, Núbia Karolyna, Sami Maia, Micheli Santini e Valéria Rocha. Em aproximadamente 70 minutos, a história de nove mulheres que vivem em uma terra onde o mar secou se passa à nossa frente. O lugar acabou sendo chamado de terra de vento, onde a chuva se esqueceu de cair, onde os homens, maridos e filhos destas mulheres, também se foram com o mar. O texto é denso, mas carregado de lirismo, que fica potencializado com o belo cenário (de autoria de Jonathan Andrade e Vitória Biagiolli), onde o branco predomina, evocando um mar de areia alva. O lirismo também se faz presente na música, executada ao vivo. Uma melodia triste que embala a história destas mulheres. No início, fiquei confuso, pois as atrizes trocavam de personagens a todo instante, em avanços e retrocessos no tempo, mas ao final tudo fica esclarecido. Eu divido a peça em três partes. A primeira apresenta as mulheres em tempos cronológicos diferentes, o que pode confundir quem está assistindo (confirmei esta impressão ao sair, quando sempre gosto de ouvir o que as pessoas dizem enquanto deixam o teatro). A segunda parte resgata a história do lugarejo, quando há uma narrativa densa, linear, sobre o que ocorreu naquela terra ao longo de 40 anos (o folder diz que há trinta anos não chove, mas em cena uma das personagens diz que não chove há quarenta), o que nos ajuda a compreender a história de cada uma delas, em três momentos diferentes no tempo. É a parte onde predominam monólogos de uma mesma personagem vivida por três diferentes atrizes. O interessante é que estas atrizes não são nada parecidas uma com a outra, simbolizando uma alteração, ao longo dos anos, na forma de encarar o lugar, na forma de encarar a vida. No início, tudo são flores, mas depois, o calo aperta no sapato. A terceira, a mais bonita em minha opinião, é o epílogo no qual o lirismo predomina, mostra que a vida local é cíclica, que é agradável para algumas das mulheres. Nesta terceira parte, a atriz que faz Maria dá um show de interpretação. O nascimento de seus filhos é todo cheio de simbolismo, onde os gêmeos são representados por barcos em uma terra onde não há mais o mar, significando que já partiram há muito tempo. Ao final, gostei muito da dramaturgia e da encenação, embora algumas atrizes se destaquem mais do que outras na interpretação de suas personagens. Mas como o projeto ainda está em fase de transformação, em constante pesquisa, como está escrito no folder e textualmente falado pelo diretor ao final da peça, creio que melhoras virão. Para quem estiver em Brasília, vale a pena conhecer. Fica em cartaz até 11 de setembro na Funarte e de 16 a 18/09 será encenado no Teatro Dulcina. A questão de não chover calhou bem com a situação que vivemos aqui na cidade, com a falta de chuva. Oxalá que a água venha logo, assim como chegou na terra de vento, mas que não demore 40 anos! 

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

CENA CONTEMPORÂNEA 2011 - DIA 7 - PROPAGANDA


Segunda-feira também é dia de ir ao teatro. Lá fui eu conferir mais um espetáculo do Cena Contemporânea. Desta vez no Teatro Plínio Marcos, no Complexo Cultural da Funarte, para conferir Propaganda, do grupo australiano Acrobat. Na verdade, o grupo é uma família que dedica a vida e a sua arte ao circo e a divulgar um meio de viver melhor, sem agressões ao meio ambiente, pregando a paz e harmonia. Quando cheguei, uma longa fila já se formava na porta do teatro, pois os ingressos (R$ 16,00 a inteira) não tinham assento previamente marcados. Mesmo bem atrás na fila para entrar, sentei-me, junto com um amigo que lá encontrei, na primeira fileira de cadeiras. As pessoas tem medo de ficar muito próximo ao palco, temendo ter alguma interatividade entre artista e público e acabar tendo que participar de determinada cena. Não tenho este receio. O espetáculo é circense. Assim, o que vi como cenário lembrava um picadeiro, mas de forma diferente, com objetos decorativos mais rústicos e vasos de plantas ao redor. O casal Simon Yates e Jo-Ann Lancaster entram em cena com regadores, molhando as plantinhas. O primeiro número é uma série de acrobacias que exigem muita força física e concentração do casal. Ao mesmo tempo em que mostram o vigor, a sincronicidade e movimentos difíceis, eles sempre simulam quedas, dando um toque de comédia à cena. Aliás, a comicidade perpassa todo os sessenta minutos que dura o espetáculo. Como uma das filosofias que eles pregam e fazem propaganda (daí o nome da peça) é o andar nu, em alguns números Jo-Ann fica com os peitos desnudos, mostra a bunda e tem um nu frontal de relance, enquanto Simon Yates fica só de cueca branca. Os números se desenvolvem em um clima alegre, lembrando as comédias do cinema mudo ou desenho animado. Há um número em que um saco com pedras com a palavra CAUSA nele escrita é alçado e posicionado de forma a cair no trampolim armado. Do outro lado do trampolim fica Yates, com uma placa pendurada no pescoço com a palavra EFEITO. Ele puxa uma corda, o saco cai sobre o trampolim e o joga para trás. Em um salto mortal de costas, ele cai em cima de um colchão segurado por duas pessoas. Causa-Efeito de forma didática e divertida. As caras e bocas que ele fez me lembrou o desenho do Papa Léguas com o Coiote. Ótimo! O melhor de tudo para mim, uma escolha difícil, confesso, foi o número de equilíbrio na corda bamba (funambulismo). Yates primeiro dorme na corda, depois se senta, levanta para tomar o café da manhã, é servido por Jo-Ann, derrama o suco de laranja, derrama os cereais, derrama o leite, um ovo cai em sua cabeça, toma uma ducha, veste camisa, calças, coloca gravata e paletó, sem nunca sair de cima da fina corda. O término deste número é mais um toque de comédia. Quando ele pega uma valise, puxa uma corda de dentro dela, desce da corda bamba e segue caminhando na corda que vai saindo da mala se estendendo pelo chão firme do palco, como se o caminhar em corda bamba fizesse parte de sua vida. E não é que faz parte de todas as nossas vidas um eterno andar e equilibrar em uma corda bamba invisível? Em outra parte do espetáculo, a filha do casal é alçada em uma cadeira, como se fosse um anjo (a foto usada na divulgação é deste número), com asas de material usado. Lá do alto, ela exibe cartazes com mensagens escritas em português, tais como "seja gentil", "coma seus vegetais", "desligue a televisão","ame seus inimigos", entre outras. Para cada frase, o público aplaudia, algumas com mais intensidade. O número final foram acrobacias em cima de uma bicicleta que ficava rodando em círculos no picadeiro. Mais uma mensagem do casal: ande mais de bicicleta, deixe o carro de lado, é mais saudável e pode ser divertido. Os australianos nos mostraram um circo diferente, que nos possibilitou um novo olhar para velhos números rotineiros nos espetáculos circenses. Sensacional. Ao final, a trupe distribuiu para a plateia um folheto com algumas mensagens para viver melhor, a Propaganda do viver de maneira simples e positiva. Gostei muito.








sexta-feira, 26 de agosto de 2011

CENA CONTEMPORÂNEA 2011 - DIA 3 - VIDA

Quinta-feira, 25 de agosto, terceira noite do 12º Cena Contemporânea. Mais uma peça para assistir. Ingresso comprado com antecedência, por R$ 16,00 a inteira, para conferir Vida, trabalho baseado na obra de Paulo Leminski, interpretado pelo grupo companhia brasileira de teatro, oriundo de Curitiba, Paraná. O grupo é patrocinado pela Petrobrás, integrando, portanto, a Mostra Petrobrás. A peça estava marcada para ter início às 19:30 horas. Cheguei com quinze minutos de antecedência. Ainda havia gente comprando ingresso nas bilheteria do Teatro Plínio Marcos, no Complexo Cultural da Funarte. Enquanto esperávamos do lado de fora, em noite muito agradável, a mesma trupe que fez a performance na abertura do festival chegou fazendo alarde, divulgando as peças dos grupos presentes no festival que são patrocinados pela empresa estatal do petróleo. Assim que a porta se abriu, uma pessoa ligada à produção informou que havia um erro no catálogo em relação à duração do espetáculo. O tempo correto era 120 minutos e não 90 como constava impresso. Alguns tinham comprado ingresso para a peça Amarillo e não daria tempo de terminar de ver Vida e seguir para o Teatro Nacional. Dado o recado, entramos. Os lugares não eram marcados. Sentei-me na terceira fileira, em frente ao palco. O público compareceu em bom número. Do lado direito do palco, uma pessoa era responsável por manejar os computadores e tocar um instrumento de sopro. A trilha sonora, incluindo uma música em russo, é de autoria de André Abujamra, enquanto texto e direção são de responsabilidade de Márcio Abreu. O espetáculo é leve, divertido, mas nos faz refletir sobre nossas atitudes, sobre os tipos que existem em nossa volta, sobre a convivência em sociedade, sobre o irritante politicamente correto e seus patrulhadores. Tudo isto se passa em um local fechado onde uma banda ensaia uma apresentação para as comemorações do jubileu de uma determinada cidade. No início, apenas um ator, Rodrigo Ferrarini, parece ser um professor que explana sobre as inflexões de algumas frases até que entra em cena Giovana Soar para o didatismo ser em duas línguas, o português e o inglês. Um mapa mundi enfeita a parede do fundo no qual Ferrarini utiliza uma caneta de foco vermelho para mostrar como a humanidade, mesmo falando línguas diferentes, interage. Em dado momento, um lado do quadro se desprende e ele fica pendurado. Os atores lidaram bem com isto, pois me pareceu não fazer parte da encenação este acidente com o mapa. Outro ator entra em cena, o ótimo Ranieri Gonzalez. Os três começam o ensaio. Ferrarini com pratos de bateria, Giovana com um bumbo e Ranieri cantando uma música em russo. Bem mais à frente, entra em cena a guitarrista, vivida por Nadja Naira, que passa a maior parte do tempo muda, em contraponto à falante Giovana. Durante o ensaio, estas personagens vão viver situações inusitadas, sonhos, dramas, dúvidas e aflições da vida. Aplaudido em cena aberta, Ranieri dá um show vestido de mulher cantando uma triste canção (na verdade só entoando a canção, que não tem letra) como se estivesse em um cabaré, enquanto os três outros atores fazem coreografias tipo chacretes e boletes. Outra cena ótima é quando Giovana tira o vestido de Ranieri, deixando-o apenas com cueca e salto alto, com suas várias tatuagens à mostra. Giovana explica a maioria das tatuagens no corpo de Ranieri. Hilária a cena. Quando Nadja enfim fala, após um black out proposital no teatro, despeja uma verborragia inacreditável. Os demais ficam surpresos e sem reação. A cena final é linda, mas não vou contar para não estragar a surpresa.Vida é cheia de energia positiva, é cheia de vida, mostrando que viver vale a pena, mesmo com todas as nossas aflições e fantasmas. Viva a Vida! Para quem perdeu, o grupo avisou, ao final de longos aplausos, que a peça voltará a ser encenada em Brasília no Teatro da Caixa, em fevereiro de 2012.








Rodrigo Ferrarini, Giovana Soar, Nadja Naira e Ranieri Gonzalez agradecem os aplausos do público ao final da peça Vida.


sábado, 28 de agosto de 2010

CENA CONTEMPORÂNEA - DIA 4

O calor tomou conta da sexta-feira em Brasília. Terminei a aula mais cedo, liberando a turma cansada para o primeiro final de semana na cidade. Fui para casa tentar dormir um pouco, pois passei a madrugada em claro. Perto de 19:30 horas levantei-me para ver mais uma peça do festival de teatro Cena Contemporânea. Desta vez, Ric foi comigo. O espetáculo teve lugar na Sala Plínio Marcos do complexo da Funarte no Eixo Monumental. Início da peça marcado para 20 horas. Ingresso a R$ 16,00 (inteira). O teatro não ficou cheio para conferir Kabul, nova peça da Cia Amok Teatro, sediada no Rio de Janeiro. Direção, texto e concepção de Ana Teixeira e Stéphane Brodt. O elenco conta com Stéphane Brodt, Fabiana de Mello e Souza, Kely Brito e Marcus Pina. Também no palco, tocando instrumentos usuais no mundo árabe, o músico Carlos Bernardo. Os atores vestem roupas típicas do Afeganistão, incluindo burcas para as duas atrizes. O cenário mostra a pobreza e a simplicidade do povo afegão no início dos anos noventa. A troca de cenários é rápida, executada pelos próprios atores. Há cabos de aço pendurados no teto que servem de sustentação para os objetos do cenário. São três espaços diferentes, todos montados e desmontados no mesmo espaço cênico: a casa de um casal mais velho, a casa de um casal novo e a prisão feminina. O texto é forte, expondo a falta de esperança de um povo que está sob o domínio de fanáticos religiosos. A voz em off falando sobre as proibições no Afeganistão sob o controle de fundamentalistas é revoltante. Mesmo sabendo dos fatos, ao ouvir todas as proibições e restrições de liberdade de uma só vez, ficamos indignados. Os atores que interpretam o primeiro casal tem um belo trabalho de corpo, demonstrando as dores físicas e psíquicas por que passam seus personagens. Já os atores que fazem o segundo casal, os mais novos, não conseguem passar uma verdade plena. O ator do segundo casal tem um sotaque forçado, feio. É claro que a condenação à morte por pedradas está presente no texto, com final previsível para quem presta atenção na história desde o início (doença da mulher mais velha). Sei que o grupo Amok tem como característica uma pesquisa intensa e montagens bem peculiares, mesmo quando encena texto conhecido, como foi o caso de Macbteh, tornando o trabalho não muito palatável. Em Kabul não é diferente. Segundo a sinopse, a montagem é livremente inspirada no livro As Andorinhas de Cabul, do escritor Yasmina Kadra. Achei o texto pessimista, depressivo, para baixo. Além disto, acrescente-se o fato que a música executada ao vivo, teve um efeito sonífero em mim (e em outras pessoas da plateia). Em dias com muito trabalho fica difícil gostar de um texto assim. Mais uma peça do festival que tem a depressão, o negativo, como mote. Fico pensando se a curadoria quis adotar esta linha ou, por enquanto, trata-se de mera coincidência. Já vi Till, Paisagem com Argonautas, Não Precisa Chorar, Neva e Kabul. Já assisti em outra oportunidade as peças, que também estão na programação do Cena Contemporânea 2010, Ilhar, A Cela, Cabaré das Donzelas Inocentes, Canção Para Dançar Sem Par e In On It. Todas estas peças, mesmo Till da qual gostei muito e dei boas risadas, a tragédia, o pessimismo, a decadência, o negativo, o depressivo estão presentes. Definitivamente, não gostei de Kabul.


Para ver se a noite ficava mais alegre, fui conferir, também na programação do festival, a performance de William Lopes na parede externa do Edifício Sede do Ministério do Esporte (Bloco A) na Esplanada dos Ministérios. Chamada de A Carta do Anjo Louco, a performance na qual o ator desce, fazendo evoluções, a parede, de frente para a pista, preso em cabos, tipo as cordas elásticas que são usadas no esporte radical bungee jumping. Enquanto desce, deixa cair várias folhas de papel, talvez a carta do título, enquanto tira o terno listrado que está vestido. Torna-se então uma espécie de coringa, de bufão, ou o anjo louco, fazendo piruetas sincronizadas com projeção de imagens na parede. Para ver esta performance de quinze minutos o melhor a fazer é pegar um colchonete disponibilizado pela produção e deitar de frente para a tal parede. Foi o que fizemos. O ator desde até a metade do prédio e depois, ainda em evoluções, dando a sensação que a gravidade não existe, ele flutua para o telhado novamente, quando é muito aplaudido. Enfim, depois de três dias não gostando do que via, saí satisfeito. Ligamos para um amigo de Belo Horizonte para jantarmos juntos. O restaurante escolhido foi o Unanimitá, onde apreciamos uma delicioso risoto de endívia, radicchio, gorgonzola, pera e nozes. Fim de uma longa sexta-feira.

domingo, 13 de setembro de 2009

SÁBADO CHEIO DE EVENTOS

E o meu sábado foi pleno de eventos e encontros.
Inicialmente almocei com Ro e Emi e a mãe de Ro, que passa uma temporada em Brasília. Eles escolheram o novo Gazebo (SCES Trecho 02, lote 39 - Centro de Lazer Beira Lago). O lugar é lindo, com vista para a Ponte JK e o Lago Paranoá. O restaurante está com uma decoração bonita em dois andares que acomodam 150 pessoas. Ainda há o subsolo com a adega climatizada e um belo terraço. O serviço é eficiente e os garçons são bem treinados, sabendo esclarecer as dúvidas do cardápio. Por falar em cardápio, li no Correio Braziliense que ele foi elaborado pelo renomado chef francês Pascal Valero. Escolhi uma coxa de pato confitada em leito de risoto de abóbora, com sabor marcante. Para sobremesa, o petit gateau da casa, acompanhado de sorvete de canela. Achei o bolinho de chocolate seco e morno. Preferi o prato salgado. A nota destoante é para o couvert, com uma variedade de pães torrados. Poderiam colocar pães frescos também, pois combina mais com o espírito de comida francesa, culinária adotada pelo restaurante. O local onde está o restaurante ainda está em fase de urbanização, mas quando tudo ficar pronto, será, com certeza, um grande pólo gastronômico da cidade.





Do restaurante, direto para a peça Amor Bem Sucedido Não Interessa A Ninguém, uma colagem de textos de Nelson Rodrigues adaptados pelo diretor Fernando Guimarães para a finalização de uma oficina de trabalho da qual participou Ric. No elenco, além de Ric, André Brunelli, Cássia Gentile, Cleusa Cantuária, Karine Luiz, Jorge Paz e Ricardo Sala. O espetáculo é curto (50 minutos) e tem cenário bem simples, apenas um linóleo listrado de amarelo e branco no chão e duas cadeiras, também amarelas, uma em cada ponta. As esquetes se passam neste linóleo, sempre com um embate entre dois atores. Gosto muito dos textos de Nelson Rodrigues e achei a colagem feita por Fernando Guimarães muito interessante. A montagem merece entrar no circuito teatral brasiliense. A peça foi encenada às 17 horas no Espaço Cultural Mosaico (SCRN 714/715, Bloco D, loja 16, Asa Norte). Ao final, após cumprimentar Ric pelo belo desempenho e saber de Fernando que ele está cada vez melhor e que foi escolha dele fazer apenas um personagem, o diretor me incentivou a assistir o seu espetáculo que está no festival Cena Contemporânea 2009. Fui conferir então A Casa, uma livre adaptação da obra A Casa de Bernarda Alba, de Federico Garcia Lorca, dirigida por Adriano e Fernando Guimarães, em cartaz no Teatro Funarte - Sala Plínio Marcos (Eixo Monumental, Setor de Divulgação Cultural, lote 2). Consigo comprar as derradeiras entradas (para mim e Ric) na bilheteria do teatro. O cenário todo branco chama a atenção e contrasta com o figurino negro do elenco, as atrizes Alice Stamato, Camila Evangelista, Clara Camarano, Jú Welasco, Kika de Moraes, Michelly Scanzi, Natália Leite, Suzana Outeiral e Valéria Rocha. A iluminação também é destaque. A interpretação das atrizes não é uniforme, mas não há nenhuma ruim. Destaco Michelly Scanzi e Valéria Rocha. A trilha sonora mistura música espanhola, rock pesado e música erudita. Gostei muito do que vi.


E de lá, saí voando para mais um espetáculo do festival, Duets, em cartaz na Sala Martins Penna (Teatro Nacional Cláudio Santoro, Setor Cultural Norte). Dança contemporânea de grupo de Israel. Foi uma decepção para mim. Curto, sem graça e um grande dueto sem música. Acho horrível dança sem música. Sempre entendo que música e dança estão intrinsicamente ligados. Quando não se tem a música, vira número de acrobacia e ginástica. Nem tudo pode ser perfeito...


Terminei a noite no grande espaço vazio ao lado do Museu Nacional (Praça do Complexo Cultural da República, Setor Cultural Sul) para ver o show em homenagem aos 50 anos de Brasília, que serão completados em 21 de abril de 2010, e integrante do Ano da França no Brasil. No palco duas virtuoses em seus instrumentos: Hamilton de Hollanda, brasiliense, com seu cavaquinho de sete cordas e Richard Galliano, francês, e seu acordeon. Show sensacional, com plateia jovem totalmente embevecida pelo que via e ouvia. Encontrei com uma amiga e um amigo e ficamos juntos o show inteiro (durou apenas uma hora) e depois dançamos um pouco na grande pista em que se transformou o espaço com a música das DJs Selma e Telma.


Já cansado e com fome, me despedi dos amigos perto de 1:30 horas e fui comer um sanduiche no Marvin (SCLS 103, Bloco A, loja 2, Asa Sul). Pedi um dos novos itens do cardápio, chamado Hollywood Burger, com creme de parmesão, alface e peito de peru integrando o sanduíche com o hamburger de carne bovina. Aprovei a novidade.

Em seguida, hora de dormir.