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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

UM JANTAR COM HITCHCOCK

Fui conferir o mais novo espetáculo concebido por Alexandre Ribondi que está em cartaz no Teatro Goldoni: Um Jantar com Hitchcock. Era noite de estreia. Sala cheia. Comprei o ingresso meia hora antes do horário previsto para ter início a peça, pelo qual paguei R$ 30,00 (inteira). Fiquei na primeila fila. Quando entrei na sala, todos os onze atores já estavam em cena, com maquiagem forte, todas de forma bem macabra, o que me fez lembrar de filmes como Os Fantasmas se Divertem ou A Noiva Cadáver. Pensei que fosse um set de um filme policial ou mesmo um tabuleiro do jogo Detetive, onde peças como candelabro, livros e chapéus se faziam presentes. 
O texto é inspirado em fato real que inspirou uma peça que inspirou o famoso filme Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock. Desta vez, não conhecia, ou não me lembro de ter visto os atores e atizes em outras peças encenadas em Brasília. 
Dois amigos cometem um crime que consideraram perfeito. Para afastar qualquer suspeita, convidam o professor de filosofia que ministrava aulas na escola que frequentavam para um jantar, assim como as Graças, três irmãs que namoravam o filho deste professor. Para apimentar um pouco mais a história, estas mesmas Graças tinham namorado anteriormente um dos amigos que ofereciam o jantar. Um dos assassinos acaba por não conseguir se controlar e suas atitudes e nervosismo geram desconfiança nos convidados, bem como na empregada da casa. E a verdade é revelada ao final.
Ribondi assina texto e direção. Para uma história tipicamente policial e com um final conhecido para quem já viu o filme, ele trouxe elementos diferentes para a cena. Duas atrizes fazem a mesma empregada, mas não há revezamento no palco. Elas dialogam entre si, como se mente e corpo vivessem separados, mas sempre juntos. As Graças são interpretadas por três atrizes que agem juntas, possuem gestuais e figurinos parecidos, com falas complementares. Era como um coro do teatro grego, ou a tríade divina. Três entidades, uma só unidade. Um dos assassinos também é interpretado por dois atores que tem pesonalidades distintas, mostrando que o personagem tinha duplo caráter. Um ator fazia o papel de narrador, mas também interagia com as personagens. Uma das cenas que mais incomodam a quem está assistindo a peça é protagonizada pelo narrador. De muletas, ele dá uma volta ao redor do baú no centro do palco, apenas falando "blá-blá-blá, blá-blá-blá ". Confesso que fiquei agoniado com a cena.
Além destes elementos que fogem à mesmice do gênero policial, Ribondi introduz no texto uma discussão que pautou as redes sociais por ocasião das eleições de outubro, a existência de uma classe de seres humanos superiores. Ele chamou esta classe de o homem superior. E por ser assim, ele pode fazer o que quiser com os que considera inferior, inclusive matar por diversão, como a dupla fez com o jovem que é assassinado. Ou seja, este ser superior pode até matar um inferior que nada lhe acontecerá. Em um momento, uma das Graças se vira para o público e condena os que se acham superiores aos pobres, aos menos afortunados, aos trabalhadores mais simples, aos nordestinos. Uma nítida reprovação de Ribondi ao que ele viu e leu nas redes sociais.
Outro ponto interessante na encenação é o caráter sensual que está presente no texto e na interpetação dos personagens. As insinuações de um romance homossexual entre os dois amigos que cometeram o crime acontecem em vários momentos, assim como fica uma dúvida no ar se o professor também tem interesses carnais para com o aluno mais racional.
Ao final, uma plateia entusiasmada aplaudiu os atores, mesmo depois que eles saíram de cena, fazendo com que retornassem ao palco para agradecer ao público a recepção calorosa.
Gostei do que vi.

domingo, 24 de agosto de 2014

MUNDARÉU - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Quinto dia do Cena Contemporânea 2014. Mais um ingresso na mão para conferir outra peça integrante da programação do festival. Desta vez no Teatro II do CCBB. Camilo e André também tinham entrada para o mesmo espetáculo. Assistimos juntos. Como estava marcada para ter início às 19 horas, meia hora antes já estávamos na rampa de acesso ao teatro. A montagem era Mundaréu, textos de Plínio Marcos adaptados por Alexandre Ribondi, dirigido por Alice Stefânia e encenado pela companhia brasiliense Dois Tempos Cia de Teatro. A cena inicial aconteceu quando ainda estávamos na fila, do lado de fora, na grade bem perto de onde eu estava. Cena rápida, mas de uma energia fenomenal. Dois adolescentes em um embate para ver quem domina a área no submundo do crime. Duas performances fortes que nos deram o tom de como seria dentro do teatro. Já devidamente acomodados, mais uma vez a produção conta o número de cadeiras vazias e libera a venda de ingressos para quem esperava na bilheteria do CCBB. Teatro lotado. Três músicos posicionados do lado esquerdo do palco. Uma música pontua o seguimento da trama. O cenário nem tem grandes arroubos, todo em ferro, com estruturas que os atores empurravam entre uma cena e outra, bem dentro do clima tenso dos textos sempre atuais de Plínio Marcos. Tais estruturas serviam como cama, como esconderijo, como prisão, tudo dependia do que era retratado no momento. O adolescente é Querô (há um filme brasileiro que narra a história deste personagem), que fora atingido por um tiro dado por um policial. Ele agoniza enquanto um jornalista quer gravar seu depoimento para uma reportagem. Ao mesmo tempo, o grupo nos mostra a mãe de Querô, uma prostituta que tem seu filho retido pela cafetina Violeta logo que ele nasce e vai trabalhar com uma travesti, em prostíbulo definido pelo texto como um mocó. A história tem narrativa não linear, indo e vindo no tempo, fazendo um contraponto entre a história do adolescente Querô e sua mãe Dilma tentando economizar dinheiro para dar ao filho uma vida decente. Os atores se entregam nos seus papéis de forma contundente, passando uma verdade nua e crua. Alice Stefânia tem uma direção segura, sem firulas, onde o que importa é a verdade passada pelos atores em cena, em excelente trabalho corporal.
A cena das mortes de Dilma e Querô, que acontecem em tempos distintos na cronologia da história, mas que nós, o público, presenciamos acontecendo ao mesmo tempo no palco, tem um apelo tão forte junto ao público que algumas pessoas chegaram a se emocionar. Um jovem sentado na mesma fila em que eu estava chorava tanto, com resfolegares intensos, que tive a impressão que Davi Maia, um dos atores do grupo, ao dizer sua fala final, tentava achar, no público, de onde vinha aquele choro.
Além da força do grupo, as interpretações individuais são dignas de nota. Miguel Peixoto, além de fazer a travesti, é um dos músicos do trio que toca ao vivo durante os cerca de setenta minutos do espetáculo.
Helena Miranda dá um show fazendo dois papéis: a cafetina Violeta e a prostituta amiga de Dilma.
Ao sair do teatro, só ouvia elogios dentre aqueles que tiveram o privilégio de assistir àquela sessão. Já é uma das minhas peças favoritas do Cena. E olha que ainda faltam mais oito dias para terminar esta maratona de teatro.

sábado, 26 de janeiro de 2013

CRU

Foram necessários quatros anos desde que sua estreia para que eu conseguisse ver a peça Cru, de Alexandre Ribondi. Sempre que ela estava em cartaz nos teatros de Brasília, ou eu tinha algum compromisso no mesmo horário ou estava fora da cidade. Enfim, na noite desta sexta-feira, 25 de janeiro de 2013, fui ao Teatro Plínio Marcos no Complexo Cultural da Funarte para conferir a tão bem falada peça. Pelo ingresso paguei R$ 10,00 (meia entrada usando o desconto do Sempre Você do Correio Braziliense). O espetáculo integra o projeto Em Cena no Planalto, dentro da Ocupação do Teatro Plínio Marcos 2012-2013. Comprei a entrada poucos minutos antes do horário de início do espetáculo. Um bom público compareceu ao teatro em noite com clima ameno em Brasília. Cru tem direção compartilhada entre o seu autor, Alexandre Ribondi, e Sérgio Sartório, que também integra o elenco com Chico Sant'Anna e Vinícius Ferreira. Foi vencedor de doze prêmios ao longo de suas temporadas nestes quatro últimos anos. A história se passa num açougue, cuja proprietária é Frutinha, uma travesti ousada e sem medo. Tal açougue fica em um rincão qualquer no Centro-Oeste brasileiro. No açougue, além de Frutinha (Ferreira), um senhor misterioso (Sant'Anna) negocia com um pistoleiro (Sartório) a morte de alguém. Em cerca de uma hora de encenação, o tema central dos diálogos é a violência, tratada de forma até mesmo banal, como algo corriqueiro, inserido no cotidiano das grandes cidades. A referência que o pistoleiro faz ao assassinato da freira Doroty Stang (sem citar o nome dela, obviamente) é de uma frieza total, um ponto de vista de quem é o matador de aluguel. Referências também são feitas a Chico Mendes e ao Presidente Lula, ambos também sem mencionar nome algum. O tom realista da encenação impressiona, especialmente nos momentos finais. Quem assiste fica incomodado na cadeira, mexe de um lado para o outro. A violência urbana é apenas uma ligação para explicitar a crueldade humana e dá vazão para um acerto de contas entre os personagens. Final inesperado e muito bem marcado cenicamente. Os três atores estão muito bem em cena, mas destaco a performance de Sérgio Sartório, que faz um pistoleiro sem escrúpulos, sem medo, que ama o seu ofício. Confesso que ele passa medo para a plateia. Ao final, Sartório agradece ao público e cita Jimi Figueiredo, diretor de filme homônimo baseado na peça, que estava na plateia. Desde então fica a minha curiosidade em ver esta história nas telonas. Valeu a pena ter visto este espetáculo. O teatro de Brasília pulsa forte.



teatro
artes cênicas

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

7 X RODAS


Mais uma noite dedicada ao teatro. Novamente eu e Ric estivemos no CCBB, desta vez no Pavilhão de Vidro, para ver a estreia da peça 7 X Rodas. Ingresso, como sempre, custou R$ 7,50 (meia entrada - correntista Banco do Brasil). O espetáculo conta com sete roteiros diferentes para encenação de Hugo Rodas. Para cada roteiro, uma direção distinta. Por ordem alfabética, como está no material de divulgação da peça, são os seguintes os diretores: Adriana Lagomarsino; Adriano e Fernando Guimarães; Alexandre Ribondi e Sérgio Sartório; Fernando Villar; Guilherme Reis; Míriam Virna; e Zé Celso Martinez Corrêa. O público compareceu em peso, lotando os cem lugares disponíveis. Há seis nichos nas laterais e extremidades do Pavilhão de Vidro, com puffs vermelhos espalhados em forma de vários círculos, um dentro do outro, no centro, e alguns deles colocados entre os nichos. Tais nichos são os cenários para cada um dos roteiros. A primeira encenação é uma volta em torno da plateia tocando um bumbo, uma ode à alegria. O espetáculo é uma celebração pelas sete décadas de vida de Hugo Rodas, um uruguaio radicado no Brasil, especialmente em Brasília, desde a década de setenta. Não há uma linearidade, nem uma ligação entre uma cena e outra. A música indica a mudança de roteiro e, portanto, de cena. Como são sete roteiros diferentes, a tendência é de fazermos uma avaliação isolada, estabelecendo qual que nós gostamos mais ou menos. Há uma constante "dança" de corpos da plateia, que se movimenta junto com o ator, sempre se posicionando de frente para onde ele está encenando. Ao final, a plateia, repleta de artistas de Brasília, aplaude, longamente, de pé o mestre de quase todos. Gostei da peça, muito pela celebração, pela emoção de estar vivo e de amar a vida que nos passou Rodas. O interessante é que esta celebração se dá com textos fortes e que nos remetem à morte (guerra, tortura, assassinato). Dentre os roteiros, fico com o que tem o cenário repleto de bonecas, quando Hugo Rodas demonstra seu lado dramático ao dizer um texto que nos remete aos horrores da guerra. Ajudou, e muito, para criar um clima soturno nesta encenação, tanto o som quanto a iluminação, ainda mais com a sombra das árvores balançando do lado de fora do pavilhão, dando um ar de tristeza ao ambiente. Não há identificação, durante o espetáculo, de quem é o roteiro e a direção de cada cena. Viva Hugo Rodas!


sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O HOMEM DE BUENOS AIRES



Recebi um convite de um amigo, que mora em Salvador e está em Brasília fazendo um curso pelo trabalho, para ir ao teatro assistir a peça O Homem de Buenos Aires. Em junho de 2008 já havia assistido a este espetáculo. Nesta nova temporada, houve alteração no elenco feminino. Aceitei o convite e às 20 horas já estava no Teatro Goldoni (Casa D'Italia - 208/209, Eixo L, Asa Sul). Enquanto aguardava meu amigo, aproveitei para comer um pão de queijo no café do local e ler os jornais do dia. Meu amigo chegou com um amigo que não conhecia e ainda com vários colegas de trabalho que também estão no mesmo curso. Conversamos bastante até a hora do sino tocar (antes de toda peça em cartaz no Goldoni, alguém da casa toca um sino para chamar as pessoas para entrar na sala para ver o espetáculo). O texto e a direção da peça são de Alexandre Ribondi e no elenco estão Sérgio Sartório (Jorge/Pepe, mesmo ator da primeira montagem), Daniela Vasconcelos (Maria Rita/Lúcia Helena) e Fernanda Rocha (Deogracia). A história se passa no apartamento de Jorge, também conhecido como Pepe, um deficiente visual com pinta de garanhão. Maria Rita, Deogracia e Lúcia Helena são as mulheres que transitam em sua vida. A peça tem pouco mais que uma hora de duração e, como a própria filipeta de divulgação indica, é uma comédia. Os diálogos são bem construídos e Sartório tem uma bela interpretação, pois consegue passar a fragilidade natural de um deficiente visual, mas também a sensualidade que a personagem exige, além do ótimo sotaque, já que é um homem de língua espanhola. As novas atrizes substituem bem aquelas que encenaram a primeira montagem (Adriana Lodi e Ana Paula Braga). No entanto, há uma grande diferença entre Daniela Vasconcelos e Fernanda Rocha. Enquanto a primeira estava visivelmente nervosa no início da trama, com gestual e falas um pouco excessivos, a segunda dá um show como a vizinha boazuda, tonta e loura. O timing de comédia de Fernanda é ótimo e a peça cresce quando ela entra em cena (lembro-me da interpretação de Ana Paula Braga, excelente por sinal, mas Fernanda conseguiu dar um ar de sonsa que caiu muito bem à personagem). Já na segunda entrada de Daniela, nota-se que a nervosia da estreia passou e ela está melhor, especialmente nas cenas de confronto entre as duas atrizes. Quando Deogracia sai de cena, a peça cai em ritmo, mas Daniela, já fazendo o papel de Lúcia Helena, mãe de Deogracia, está melhor. Para não ficar uma cópia do que é Deogracia, os moviemtnos de cabeça da atriz, balançando os brincos (peça que liga as interpretações das três personagens femininas) é bem interessante. O ponto negativo da peça fica com o final abrupto. Talvez o autor e diretor tenha colocado este final para evitar um dejá vu, pois não havia mais nada a acrescentar no enredo. De qualquer forma, é uma boa peça, destas que a gente dá boas gargalhadas e sai feliz.
Para finalizar a noite e fazer os comentários necessários sobre o que vimos, fomos para o Beirute (SCLS 109 , Bloco A, lojas 2 a 4, Asa Sul). O papo foi muito agradável e não girou somente em torno da peça, mas também sobre cinema e literatura. Gostei muito de rever este meu amigo e da ótima noite de quinta-feira.