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sábado, 31 de agosto de 2013

ENSAIO GERAL

Sexta-feira, início da noite, mais uma peça para conferir no festival Cena Contemporânea. Desta vez, eu, Karina, Fabiola e Helida G. nos encontramos no CCBB, pois o espetáculo estava programado para 19:30 horas no seu Teatro II. No caminho entre o carro e a fila, deixei minha blusa de frio cair. Não demorei nem dez minutos para eu notar a sua falta. Voltei e nada encontrei. Ainda fui até a bilheteria na esperança de alguém ter achado a blusa e lá deixado, mas a busca foi infrutífera. Voltando à peça, assistimos Ensaio Geral, do grupo brasiliense Agrupação Teatral Amacaca (A.T.A.). Direção de Hugo Rodas. Ainda na fila, já ouvíamos os atores cantando, o que garantia um clima de ensaio. O público ia entrando, se acomodando, enquanto os atores-cantores continuavam a música, como se estivessem em uma roda de boteco. Alguns bebiam vinho e soltavam a voz. Entre eles estava o diretor Hugo Rodas. Assim que todos os lugares foram ocupados, as luzes se apagaram, Rodas deixou o palco, ficando em cena três músicos, posicionados à esquerda do cenário, e sete atores, todos eles com instrumentos musicais. O espetáculo dura cerca de uma hora e durante este tempo, um desfile de textos de Caio Fernando Abreu, Carlos Drummond de Andrade, Hilda Hilst, entre outros, são apresentados em pequenas esquetes pelo grupo. Sempre em clima de ensaio para um musical. Cenário e figurino, de autoria do diretor em conjunto com o grupo, são destaques e fazem parte da trama, assim como a utilização de instrumentos cênicos com ótimos efeitos visuais. As esquetes nos remetem ao teatro de Shakespeare, às máscaras do teatro grego, às marionetes, à época medieval, às musas inspiradoras dos artistas do renascimento, a Nelson Rodrigues, mostrando que o grupo bebeu em diversas fontes. Colocar todas estas referências no mesmo espaço rendeu bem, ao contrário do que muita gente pensaria. A expressão corporal, uma característica forte do diretor Hugo Rodas, domina todas as cenas. Duas esquetes mereceram o meu destaque: o ator Tulio Starling declamando a poesia A Língua Lambe, de Carlos Drummond de Andrade, quando o faz de maneira extremamente lasciva, provocando a plateia; e a performance sensual/sexual de Camila Guerra para o texto Dona História, de Hilda Hilst, citada textual e visualmente em cena, já que Márcia Duarte segurava uma máscara da escritora durante a esquete. Ao final, um emocionado Rodas entra em cena para agradecer ao público e homenagear Carol Scartezini, cujo retrato estava na porta do teatro, integrante do grupo que morreu atropelada quando ia de bicicleta para as manifestações de junho em Brasília. Belo espetáculo.

artes cênicas

terça-feira, 27 de agosto de 2013

A FORÇA DA TERRA

Quando apareceu estampada a palavra FIM projetada no telão localizado no fundo do palco, tive a sensação de que um grande suspiro de alívio tomou conta da plateia na Sala Martins Penna do Teatro Nacional Cláudio Santoro. Aplausos meramente protocolares ecoaram no local e, fato raro de se ver em Brasília, ninguém ficou de pé ou deu gritos entusiastas. Isto aconteceu na sessão do dia 22 de agosto de 2013, ao  final do espetáculo A Força da Terra, texto e concepção do Grupo Sonhus Teatro Ritual, de Goiás, em parceria com Hugo Rodas. A peça integrou a programação do festival Cena Contemporânea, edição 2013. Sou um fã de Rodas, mas, pela primeira vez, não gostei do seu trabalho. Quatro atores no palco interagem com imagens projetadas no telão. No início, são imagens dos próprios atores, com intervenções verbais que não acrescentam nada, como uma das atrizes observar que estava bem mais magra no filme. Depois, uma malha furada é suspensa, tornando a projeção "suja", cheia de "ruídos" visuais, dificultando ver com exatidão partes do filme Vidas Secas, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, de onde o espetáculo livremente se baseia. Enquanto o filme passava, algumas cenas do filme eram repetidas pelos quatro atores no palco. Os efeitos visuais são interessantes e criativos, mas não ajudam na compreensão da mensagem que se quer passar. Confesso que ver a terra sendo varrida por uma escova na frente do ator que caminhava sem rumo prendeu mais minha atenção do que a história em si. A performance do ator que faz a cachorra Baleia, estrela do filme de Santos, é ótima, mas, ao mesmo tempo, deprimente. Ficou um misto de gostar/não gostar que não consigo explicar. Para piorar, na terceira parte do espetáculo, já sem a malha furada em frente da tela, imagens dos recentes protestos que tomaram as ruas do Brasil em junho são mostradas, enquanto os quatro atores vestem roupas de gala, representando uma elite que está alheia aos acontecimentos, simulando brindes com taças de champanhe, como um escárnio ao restante da massa que protestava. Posso não ter entendido, mas não consegui identificar uma ligação com Vidas Secas. Foram intermináveis 60 minutos de duração. Definitivamente é minha candidata a pior peça desta edição do festival. E só não será a pior do ano porque Jukebox - Uma Ficção Científica Musical consegue ser bem pior.

artes cênicas

segunda-feira, 25 de julho de 2011

BAGATELAS


Meados do século XX, inverno, interior dos Estados Unidos, uma fazenda, seis personagens, um assassinato. Este é o mote do novo espetáculo do Grupo Cena, em cartaz até o próximo dia 07 de agosto, com sessões de quinta a domingo, no pequeno e aconchegante teatro do Espaço Cena. Fui no último sábado, quando houve três black outs na 205 norte, onde fica o teatro. Por causa da falta de energia, houve um pequeno atraso para a nossa entrada. Mesmo na escuridão, o público não arredou pé do lugar. O texto é de Susan Glaspell, tradução de Danilo Lobo e direção de Guilherme Reis. Reis teve como assistentes Dimer Monteiro e Chico Sant'Anna. Hugo Rodas, juntamente com o grupo, assina a cenografia, figurinos e objetos de cena. O cenário é simples, minimalista, mas o suficiente para deixar a plateia imaginar que estamos vendo uma cozinha de fazenda. O ingresso custou R$ 20,00. O espetáculo tem a duração de 45 minutos. A história é simples: uma investigação de um assassinato do fazendeiro, cuja suspeita recai sobre sua mulher, interpretada por Adriana Lodi. No momento da investigação, ela está na cadeia. Assim, Reis criou uma cena em flashback, mantendo-a no palco nos primeiros momentos da encenação, em uma montagem interessante de luzes. Durante a investigação, estão na casa o promotor (João Antônio), o delegado (William Ferreira), o fazendeiro vizinho (Sérgio Fidalgo), a mulher do delegado (Carmem Moretzsohn) e a mulher do vizinho (Bidô Galvão). O texto, escrito por uma mulher, é feito para mulheres e isto fica claro na encenação. Os personagens masculinos são apenas coadjuvantes, para mostrar o pensamento masculino sobre o papel da mulher na sociedade da época em que foi escrito, em contraponto à atitude feminina, muito bem mostrada pelas três atrizes. As mulheres dominam a encenação. Sem desmerecer os atores, a peça é toda das atrizes. Bidô Galvão me fez sentir o mesmo frio que sua personagem sentia, Adriana Lodi passou toda a amargura enclausurada na solidão vivida pela dona da fazenda, e Carmem Moretzsohn transmitiu a fragilidade feminina diante de fatos contundentes, sem deixar de ser forte e solidária. Quem matou o fazendeiro pouco importa na história, mesmo porque as evidências ficam claras desde o início. O que importa no texto é passar o sentimento feminino, este olhar cuidadoso e peculiar, mostrar a força do sexo frágil (pode ser batida esta frase, mas temos que pensar que o texto é da primeira metade do século passado). Trabalho de atrizes sensacional. Com este espetáculo, o Grupo Cena vai se consolidando em Brasília com montagens inéditas, intimistas, que tocam o público. Tive a oportunidade de ver as cinco montagens que o grupo já encenou na cidade - Dinossauros, Fronteiras, Varsóvia, Heróis e Bagatelas - e sempre saio com a sensação de querer ver mais. Quando anunciam uma nova peça, ou mesmo uma volta aos palcos de alguma das já exibidas, me programo rapidamente para estar presente. É teatro do bom, com certeza. Por falar em volta, aguardo um retorno da bela e triste peça Varsóvia.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

7 X RODAS


Mais uma noite dedicada ao teatro. Novamente eu e Ric estivemos no CCBB, desta vez no Pavilhão de Vidro, para ver a estreia da peça 7 X Rodas. Ingresso, como sempre, custou R$ 7,50 (meia entrada - correntista Banco do Brasil). O espetáculo conta com sete roteiros diferentes para encenação de Hugo Rodas. Para cada roteiro, uma direção distinta. Por ordem alfabética, como está no material de divulgação da peça, são os seguintes os diretores: Adriana Lagomarsino; Adriano e Fernando Guimarães; Alexandre Ribondi e Sérgio Sartório; Fernando Villar; Guilherme Reis; Míriam Virna; e Zé Celso Martinez Corrêa. O público compareceu em peso, lotando os cem lugares disponíveis. Há seis nichos nas laterais e extremidades do Pavilhão de Vidro, com puffs vermelhos espalhados em forma de vários círculos, um dentro do outro, no centro, e alguns deles colocados entre os nichos. Tais nichos são os cenários para cada um dos roteiros. A primeira encenação é uma volta em torno da plateia tocando um bumbo, uma ode à alegria. O espetáculo é uma celebração pelas sete décadas de vida de Hugo Rodas, um uruguaio radicado no Brasil, especialmente em Brasília, desde a década de setenta. Não há uma linearidade, nem uma ligação entre uma cena e outra. A música indica a mudança de roteiro e, portanto, de cena. Como são sete roteiros diferentes, a tendência é de fazermos uma avaliação isolada, estabelecendo qual que nós gostamos mais ou menos. Há uma constante "dança" de corpos da plateia, que se movimenta junto com o ator, sempre se posicionando de frente para onde ele está encenando. Ao final, a plateia, repleta de artistas de Brasília, aplaude, longamente, de pé o mestre de quase todos. Gostei da peça, muito pela celebração, pela emoção de estar vivo e de amar a vida que nos passou Rodas. O interessante é que esta celebração se dá com textos fortes e que nos remetem à morte (guerra, tortura, assassinato). Dentre os roteiros, fico com o que tem o cenário repleto de bonecas, quando Hugo Rodas demonstra seu lado dramático ao dizer um texto que nos remete aos horrores da guerra. Ajudou, e muito, para criar um clima soturno nesta encenação, tanto o som quanto a iluminação, ainda mais com a sombra das árvores balançando do lado de fora do pavilhão, dando um ar de tristeza ao ambiente. Não há identificação, durante o espetáculo, de quem é o roteiro e a direção de cada cena. Viva Hugo Rodas!