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domingo, 24 de agosto de 2014

MUNDARÉU - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Quinto dia do Cena Contemporânea 2014. Mais um ingresso na mão para conferir outra peça integrante da programação do festival. Desta vez no Teatro II do CCBB. Camilo e André também tinham entrada para o mesmo espetáculo. Assistimos juntos. Como estava marcada para ter início às 19 horas, meia hora antes já estávamos na rampa de acesso ao teatro. A montagem era Mundaréu, textos de Plínio Marcos adaptados por Alexandre Ribondi, dirigido por Alice Stefânia e encenado pela companhia brasiliense Dois Tempos Cia de Teatro. A cena inicial aconteceu quando ainda estávamos na fila, do lado de fora, na grade bem perto de onde eu estava. Cena rápida, mas de uma energia fenomenal. Dois adolescentes em um embate para ver quem domina a área no submundo do crime. Duas performances fortes que nos deram o tom de como seria dentro do teatro. Já devidamente acomodados, mais uma vez a produção conta o número de cadeiras vazias e libera a venda de ingressos para quem esperava na bilheteria do CCBB. Teatro lotado. Três músicos posicionados do lado esquerdo do palco. Uma música pontua o seguimento da trama. O cenário nem tem grandes arroubos, todo em ferro, com estruturas que os atores empurravam entre uma cena e outra, bem dentro do clima tenso dos textos sempre atuais de Plínio Marcos. Tais estruturas serviam como cama, como esconderijo, como prisão, tudo dependia do que era retratado no momento. O adolescente é Querô (há um filme brasileiro que narra a história deste personagem), que fora atingido por um tiro dado por um policial. Ele agoniza enquanto um jornalista quer gravar seu depoimento para uma reportagem. Ao mesmo tempo, o grupo nos mostra a mãe de Querô, uma prostituta que tem seu filho retido pela cafetina Violeta logo que ele nasce e vai trabalhar com uma travesti, em prostíbulo definido pelo texto como um mocó. A história tem narrativa não linear, indo e vindo no tempo, fazendo um contraponto entre a história do adolescente Querô e sua mãe Dilma tentando economizar dinheiro para dar ao filho uma vida decente. Os atores se entregam nos seus papéis de forma contundente, passando uma verdade nua e crua. Alice Stefânia tem uma direção segura, sem firulas, onde o que importa é a verdade passada pelos atores em cena, em excelente trabalho corporal.
A cena das mortes de Dilma e Querô, que acontecem em tempos distintos na cronologia da história, mas que nós, o público, presenciamos acontecendo ao mesmo tempo no palco, tem um apelo tão forte junto ao público que algumas pessoas chegaram a se emocionar. Um jovem sentado na mesma fila em que eu estava chorava tanto, com resfolegares intensos, que tive a impressão que Davi Maia, um dos atores do grupo, ao dizer sua fala final, tentava achar, no público, de onde vinha aquele choro.
Além da força do grupo, as interpretações individuais são dignas de nota. Miguel Peixoto, além de fazer a travesti, é um dos músicos do trio que toca ao vivo durante os cerca de setenta minutos do espetáculo.
Helena Miranda dá um show fazendo dois papéis: a cafetina Violeta e a prostituta amiga de Dilma.
Ao sair do teatro, só ouvia elogios dentre aqueles que tiveram o privilégio de assistir àquela sessão. Já é uma das minhas peças favoritas do Cena. E olha que ainda faltam mais oito dias para terminar esta maratona de teatro.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

À DERIVA

Depois de conferir cinco peças da programação do Cena Contemporânea 2013, tirei o domingo para descansar. Mas na segunda-feira, 26 de agosto, reiniciei a minha maratona, indo com Diana e Kitty assistir ao único espetáculo do festival em cartaz naquela noite: À Deriva, novo trabalho do grupo Teatro do Instante, daqui de Brasília. Chegamos ao CCBB, onde uma tenda foi montada nos jardins justamente para a estreia deste espetáculo, por volta de 19:30 horas, ou seja, meia hora antes do previsto para o início da peça. Com ingressos adquiridos com antecedência, pelo qual pagamos R$ 10,00 cada um, ficamos sentados em pequenas poltronas brancas colocadas perto da entrada da tenda. Ao entrarmos, fomos alertados para não tirar as cadeiras do lugar, pois os atores circulavam por trás delas. O espaço acomodava poucas pessoas e ficou lotado. Os atores já estavam sentados nas mesmas cadeiras disponíveis para a plateia. Tais assentos estavam dispostos em forma de um quadrado, com todas as ações acontecendo no meio da tenda, em seus quatros cantos e por trás das cadeiras, muitas delas de forma simultânea. Assim, muita gente acabava escolhendo que cena ver, pois é impossível prestar atenção em tudo ao mesmo tempo. Mas isto não impede o perfeito entendimento do texto. Em cena, dois atores e cinco atrizes dão vida a personagens que estão repletos de memórias. Memórias do passado, memórias do presente, memórias do futuro, memórias que nunca existiram, memórias de um mundo particular, memórias coletivas, memórias individuais, ou simplesmente, memórias. O mundo frenético em que vivemos é sintetizado na personagem de Alice Stefânia, de longe, a melhor performance do espetáculo. Mas todos os outros atores em cena tem momentos marcantes nos 60 minutos de duração de À Deriva. A dramaturgia é de Jonathan Andrade, o que, para mim, sempre é sinal de qualidade. Direção de Giselle Rodrigues. Gostei tanto que vou assistir de novo, já que eles anunciaram que voltarão a encenar no mesmo local nos dias 05, 06 e 07 de setembro.

artes cênicas

terça-feira, 29 de novembro de 2011

SIMPLES MORTAIS

Em Brasília, três histórias distintas se desenvolvem na tela. Três histórias envolvendo personagens da classe média. Personagens com seus problemas, com suas frustrações. Três histórias que não se cruzam, ou melhor, os personagens, por viver na mesma cidade, acabam se cruzando, mas não interagem nas histórias alheias. Um núcleo é formado por um servidor público, Amadeu, e seu filho. Ambos procuram na música uma satisfação maior na vida. São procuras distintas, mas com o mesmo objetivo. Outro núcleo mostra um escritor, também professor de literatura, em crise conjugal, em crise criativa e que se vê apaixonado por uma de suas alunas. O terceiro núcleo tem uma apresentadora de jornal televisivo bem sucedida na profissão, mas frustrada por não conseguir ficar grávida de seu jovem marido, um ator teatral. Em apertada síntese, são estas histórias que vemos em cerca de 80 minutos de projeção do filme Simples Mortais, dirigido por Mauro Giuntini em sua estreia em longa metragem. O elenco tem Leonardo Medeiros vivendo Jonas, o professor de literatura, Tatiana Muniz, como Yara, a aluna que provoca, de maneira sensual, Jonas e uma série de atores e atrizes de Brasília, tais como Chico Sant'Anna (Amadeu, o servidor público), Narciza Leão (Diana, a apresentadora de TV), Sérgio Sartório (Gabriel, marido de Diana, o ator de Romeu e Julieta, encenada durante o desenrolar do filme), Alice Stefânia (a mulher de Jonas), Eduardo Moraes (Kdu, filho de Amadeu), entre outros.
O filme acabou de estrear nos cinemas, mas o vi pela primeira vez em 2007 durante uma sessão da Mostra Brasília, dentro da programação do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, no mesmo Cine Brasília em que estive na quarta-feira, dia 23/11/2011 para o seu lançamento nacional. Em 2008, o filme participou do Cine PE, onde o atores Chico Sant'Anna e Eduardo Morares ganharam como melhor ator e melhor ator coadjuvante, respectivamente. E o melhor do filme está na história dos personagens que estes atores vivem. Há duas cenas que se destacam, mostrando a interpretação forte do excelente ator Sant'Anna, presença forte nos palcos de Brasília. Em uma destas cenas, pai e filho fumam maconha e travam uma conversa ótima, terminando na cozinha, onde dominados pela famosa larica, preparam um jantar. A outra é no aniversário de 50 anos de Amadeu, quando seu filho o presenteia com uma puta. Hilária e densa, ao mesmo tempo.
As outras duas histórias são mais fracas, não convencem em termos de vericidade. As cenas dos ensaios teatrais são desnecessárias. Talvez apenas uma delas fosse suficiente. No entanto, há momentos interessantes nelas, como quando Diana (Narciza Leão), em surto, começar a rir de uma notícia que está dando ao vivo. 
O filme tem seus méritos, mas fiquei com uma sensação ao final da projeção que o roteiro quis ter um ar de filmes como Crash - No Limite (Crash, 2004), vencedor do Oscar de melhor filme, dirigido por Paul Haggis, ou Babel (Babel, 2006), de Alejandro González Iñarritu. Ambos são filmes com histórias que não se conectam, mas tem um elo em comum. Em Simples Mortais, tais elos são fracos. Não funcionou. Faltou algo.
Além da atuação de Chico Sant'Anna, gostei também de ver que Brasília foi retratada como mais uma cidade, sem mostrar seus monumentos, sem centrar as histórias em intrigas políticas, embora os políticos estejam presentes, já que uma das personagens é uma jornalista. Giuntini conseguiu humanizar Brasília. Afinal, ele retrata simples mortais.
Como bom colecionador, assim que estiver disponível para venda direta ao consumidor, vou comprar o dvd, embora considere o filme mediano.

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