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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

AUTÓPSIA I E II - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

As montagens de grupos de Brasília que integram a programação do Cena Contemporânea 2014 têm me conquistado, seja pela força da interpretação, seja pela ousadia na encenação. E não foi diferente com o espetáculo que fui conferir na noite de terça-feira, 26 de agosto, no Teatro Dulcina. A peça era Autópsia, dividida em duas partes, Autópsia I e Autópsia II, como peças autônomas, cujos ingressos foram vendidos separadamente. Tinha ingresso para as duas. A primeira parte, mais longa, cerca de noventa minutos, estava marcada para ter início às 19 horas, enquanto a segunda, com uma hora de duração, seria às 21 horas. Como em todas as peças que fui nesta edição, formou-se uma fila de bom tamanho para comprar ingressos de última hora. Na porta do Dulcina, fiquei sabendo que os sem ingresso formavam a Fila Amiga. As portas se abriram quando já passavam de 19 horas. O público foi acomodado em cadeiras dispostas no próprio palco. Seriam poucos em apenas duas fileiras de cadeiras. Sentei-me na primeira fila, em posição central, ao lado do diretor do espetáculo, o sempre competente Jonathan Andrade. Praticamente todo mundo que estava na fila de espera conseguiu entrar. Assim que todos se acomodaram, rolou a gravação do festival e, em seguida, as luzes se apagaram, ficando o teatro mergulhado no breu.
Barulho de passos no tablado e sons de um vento emitidos pelos próprios atores indicavam que eles estavam se posicionando em cena. Quando as luzes se ascenderam, os dez atores estavam completamente nus na frente do público. Cada um se apresentou dizendo nome do personagem, altura e idade (estes dois últimos me parecem ser os dados reais dos atores), além de uma frase chave do personagem que logo representariam. E as idades variavam de vinte e poucos anos a sessenta e cinco anos. Todos ali na nossa frente, nus, preparados para a autópsia, não de seus corpos, mas das vidas de suas personagens.
Autópsia é uma adaptação de textos de Plínio Marcos (autor também encenado em Mundaréu neste mesmo Cena Contemporânea). Assim, os personagens sempre marginalizados do dramaturgo, como desempregados, prostitutas, travestis, cafetinas, gigolôs, menores no mundo do crime, se fazem presentes nas esquetes baseadas em Quando as Máquinas Param; Navalha na Carne; Querô, Uma Reportagem Maldita; Dois Perdidos numa Noite Suja e Abajur Lilás. As três primeiras tem suas adaptações apresentadas na parte I e as duas últimas integram a parte II da peça.
A escolha intérprete/personagem me pareceu algo bem estudado, pois em certos momentos a sensação que se tem é que as personagens foram escritas exatamente para aquele ator ou atriz. E Jonathan Andrade se aproveita muito bem desta sinergia em sua excelente direção. Todos os atores e atrizes em cena tem seu destaque, ninguém suplanta ninguém.
Cada esquete tem vida própria, motivo pelo qual não há nenhum prejuízo para quem consegue assistir somente uma das partes. Se fosse Autópsia I, II, III, IV e V seria extramente possível e compreensível. Mas ver as duas partes de uma vez, seguidamente, foi muito bom, pois, embora independentes, as histórias se entrelaçam, possibilitando ao público um melhor dissecar da vida exposta de cada uma das personagens. Temas atuais, sempre presentes nas campanhas políticas que ora vivenciamos, são expostos de maneira crua, real, sem firulas. Desemprego, aborto, dominação, exploração do trabalho alheio, falta de perspectivas na vida, violência, entre outros, são questões que saem das entranhas do tablado para repercutir no público, que reage com risadas, com choro, com inquietação na cadeira, com cara de paisagem. Mas reage!
A violência física e psicológica é muito utilizada nas cinco esquetes. Tinha hora que eu ficava com dó da atriz ou do ator que apanhavam no palco. Os tapas, socos, empurrões e puxões de cabelo eram reais. O barulho dos tapas na cara na esquete de Navalha na Carne eram desconcertantes.
A nudez também é um elemento bastante utilizado em todas as cinco esquetes, mas é nas duas últimas que ela aparece com mais ênfase, ou melhor, de maneira mais provocante e chocante, especialmente em Dois Perdidos numa Noite Suja.
Outro elemento utilizado na encenação é um breve diálogo entre um ator e alguém do público. Neste bate papo, o ator deixa de vivenciar a personagem para abordar algum tema que tenha relação com a cena que acontece no palco. Eu fui um dos escolhidos em Navalha na Carne, quando a atriz que interpreta a prostituta Neusa Sueli me pergunta com quem moro e se eu poderia considerar minha casa como um ninho, um lugar de aconchego.
Enfim, um trabalho visceral, vigoroso, onde os atores não têm medo de serem expostos.
Eles saem de cena e não voltam para receber os aplausos. Quando o público sai do teatro, eles estão do lado de fora, recebendo calorosos apupos e palmas de quem teve o privilégio de assisti-los. Quem passava pelo CONIC, onde fica o Teatro Dulcina, não entendia nada. E, nós, extasiados com o que acabávamos de ver, terminávamos nossa autópsia.
Parabéns ao diretor Jonathan Andrade e ao elenco - Alneiza Faria, Jeferson Alves, Maria Eugênia Félix, Mário Luz, Pedro Ribeiro, Regina Sant'Ana, Ricardo Brunswick, Sami Maia, Sérgio Dhubram e Shevan Lopes. Belíssimo trabalho!

terça-feira, 26 de agosto de 2014

ELEFANTE - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Já vi vários espetáculos e filmes que têm a velhice e/ou a relação do homem com a morte como tema. Alguns ótimos, outros bons e outros sofríveis. Assim que terminou a peça Elefante, dentro da programação do Cena Contemporânea 2014, imediatamente a coloquei no rol das ótimas. Fui ver a sessão das 21 horas do domingo, dia 24 de agosto, no Teatro Funarte Plínio Marcos. Além das cadeiras normais do local, foram colocadas outras tantas no palco, dando uma sensação de teatro de arena, com a trama sendo desenvolvida em um círculo no centro do palco. Teatro completamente lotado. Iluminação marcada e o texto indicavam o espaço físico onde rolava uma determinada cena, podendo ser na casa do fotógrafo casado com uma médica, na casa dos pais do fotógrafo, ou no consultório médico da mulher do fotógrafo. Não há troca de figurinos. O destaque fica por conta do texto, da direção e da interpretação leve, bem humorada, mas no tom certo, sem a comédia suplantar o drama, ponto alto da peça. Montagem da Probástica Cia de Teatro, grupo do Rio de Janeiro, que conta no elenco com Igor Angelkorte (também responsável pela direção), Samuel Toledo, Fernando Bohrer, Chandelly Braz e Livia Paiva. Elefante tem como mote a velhice, a forma como todos nós lidamos com ela, além de discutir a relação dos humanos com a própria morte.
A história acontece em um tempo onde as pessoas permanecem jovens a partir de uma descoberta de uma pílula da juventude. Mas existe uma ilha, para onde só se vai com autorização do governo, chamada Sênica, onde as pessoas não tomam esta pílula, envelhecem e morrem naturalmente. A pílula garante a juventude sem doenças, mas não garante vida eterna. As pessoas continuam a morrer por causas não naturais, como acidentes e assassinatos. Por causa da longevidade, o governo exerce um rigoroso controle de natalidade, só podendo ter filhos os casais que recebem uma autorização para tal. O fotógrafo vai para a ilha fazer um trabalho encomendado pelo governo para estampar mais uma campanha publicitária da pílula. O contato com os moradores da ilha, especialmente os mais velhos, e com o modo de vida daquele local, transformam sua vida e sua forma de pensar a morte, a sua própria morte. Ele decide largar tudo para viver em Sênica. Dez anos depois, ele retorna com as marcas da velhice esculpidas em seu corpo e também acaba por mudar a vida da sua mulher e de seus pais. Tudo isto é contado de forma leve, mas sem deixar de lado a profundidade do tema. Além da questão da velhice e da morte, a busca desenfreada pela juventude nos dias atuais, por meio da medicina e da tecnologia, também é retratada no texto. Em todo momento, em todas as cenas, mesmo as mais banais, há pontos para uma boa reflexão.
A cena mais tocante acontece quando o fotógrafo, já velho, vai tirando a sua roupa em frente a sua mulher, mostrando suas rugas, sua corcunda, as marcas do tempo em seu corpo. Ela, tocada com a situação, pega uma máquina fotográfica e faz algumas fotos dele ali parado, nu, no centro do palco. Uma lágrima rolou pelo canto dos meus olhos. Muito choro silencioso rolou no teatro.
Lindo, comovente, bem dirigido, bem encenado.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

MISANTHROFREAK - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Início da noite de domingo, dia 24 de agosto de 2014. Pouco antes das 19 horas eu já estava na fila para entrar no Teatro Goldoni para conferir mais uma atração do Cena Contemporânea 2014. Era a peça Misanthrofreak, montagem do Grupo Desvio (DF), com atuação, direção, luz e som de Rodrigo Fischer. Mais uma vez, sala completa para ver Fischer em cena. Inspirada em Samuel Beckett, a peça tem pouco menos que uma hora de duração. O ator já estava em cena quando o público começou a entrar e se acomodar nas cadeiras do local.
Dois telões, uma parafernália de equipamentos eletrônicos, papéis A4 espalhados pelo chão, uma boneca inflável, uma mala, um balão prateado em forma de coração, e alguns brinquedos compõem o cenário. Fischer vestia um figurino que me lembrou Carlitos (parafraseando a música de João Bosco e Aldir Blanc, O Bêbado e A Equilibrista). Não há muito texto. O que vale é a movimentação do ator em cena, de sua interação com os equipamentos eletrônicos, com as imagens que rolavam nos telões, com a plateia, e o seu trabalho de corpo. Mesmo com pouco texto, é super compreensível o que se quer passar. No palco, Fischer lida com questões profundas do mundo individualista em que vivemos. Medo, solidão, fracasso, insegurança, sonhos, entre outras questões, são mostrados de forma poética, com humor, o que permitiu uma perfeita sinergia com o público. As referências cinematográficas acontecem a todo o instante, seja no próprio figurino do ator, seja na sua forma de atuar como se estivesse em um filme mudo, seja nas muitas cenas de beijos projetadas no telão, enquanto ele aborda, dança e transa com a boneca inflável. A cena é ao mesmo tempo poética, engraçada e triste.
Um providencial karaokê em que o ator participa termina com a participação natural da plateia.
Há uma cena sensacional, quando ele declara seu amor por alguém que assistia ao espetáculo (no dia, pareceu-me que era um ator estrangeiro de uma peça integrante do festival) e o leva para o altar, com direito a troca de alianças (um enorme anel azul de plástico), enquanto outra pessoa do público segurava uma câmara do cenário, filmando a cerimônia, com transmissão ao vivo para nós do público. É divertida, mas também serve para refletir sobre as nossas dificuldades em tratar certos temas em público.
Gostei muito do que vi. 

domingo, 24 de agosto de 2014

CUARTETO DEL ALBA - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Ainda sábado, dia 23 de agosto de 2014. Depois de ver Mundaréu, peça que estava em cartaz no Teatro II do CCBB, era vez de conferir mais um espetáculo da programação do Cena Contemporânea 2014. Não precisei sair correndo, pois a peça estava programada para o Teatro I do CCBB. Deu tempo até para fazer um rápido lanche no café do centro cultural. A movimentação de pessoas do mundo teatral brasiliense era grande no hall de acesso ao Teatro I. Todos para ver a montagem espanhola da Laurentzi Producciones S.L.. Pela primeira vez nesta edição não vi a sala de teatro completamente tomada, embora estivesse com ótimo público. A peça era Cuarteto del Alba, texto de Carlos Gil Zamora, direção de Lander Iglesias. Ao entrar, a iluminação do cenário que consistia de quatro cordas caindo nos quatro cantos do palco, com uma providencial fumaça cênica, despertou minha curiosidade. Assim que as luzes se apagaram, dois atores e duas atrizes entraram com seus respectivos bancos, se posicionando ao lado das cordas, cada um em seu canto. Começaram a jorrar, em uníssono, um discurso que se perpetuaria ao longo dos setenta minutos de duração do espetáculo. Nada foi traduzido deste embaralhar de palavras inicial. Mas, em seguida, cada um falou, ou melhor, discursou pausadamente, com legendagem simultânea em projeção estrategicamente colocado no alto do palco. A trama, se é que tem uma, é desenvolvida em capítulos. Uma verborragia é despejada no público, tocando em temas tão díspares, mas ao mesmo tempo tão próximos entre si, como política (o fantasma da era Franco na Espanha é uma constante nas últimas peças espanholas que tenho visto e nesta não foi diferente), a desilusão de um amor, a dependência química ou memórias de uma história não vivida. O texto é denso, é bom, mas a forma de executá-lo no palco me pareceu chata, enfadonha. São quatro pessoas em cena, mas que tem seus discursos próprios. Foram quatro monólogos longos, com certa poesia em alguns momentos, méritos para a iluminação de Iñaki Garcia.
Confesso que não gostei. Ao final, como muitos da plateia, nem mesmo aplaudi, quanto mais ficar de pé. Não sei se ainda estava sob o impacto de Mundaréu, peça que tinha visto poucas horas antes, mas esperava mais. Mas festival é assim mesmo. Não há como gostar de tudo.

MUNDARÉU - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Quinto dia do Cena Contemporânea 2014. Mais um ingresso na mão para conferir outra peça integrante da programação do festival. Desta vez no Teatro II do CCBB. Camilo e André também tinham entrada para o mesmo espetáculo. Assistimos juntos. Como estava marcada para ter início às 19 horas, meia hora antes já estávamos na rampa de acesso ao teatro. A montagem era Mundaréu, textos de Plínio Marcos adaptados por Alexandre Ribondi, dirigido por Alice Stefânia e encenado pela companhia brasiliense Dois Tempos Cia de Teatro. A cena inicial aconteceu quando ainda estávamos na fila, do lado de fora, na grade bem perto de onde eu estava. Cena rápida, mas de uma energia fenomenal. Dois adolescentes em um embate para ver quem domina a área no submundo do crime. Duas performances fortes que nos deram o tom de como seria dentro do teatro. Já devidamente acomodados, mais uma vez a produção conta o número de cadeiras vazias e libera a venda de ingressos para quem esperava na bilheteria do CCBB. Teatro lotado. Três músicos posicionados do lado esquerdo do palco. Uma música pontua o seguimento da trama. O cenário nem tem grandes arroubos, todo em ferro, com estruturas que os atores empurravam entre uma cena e outra, bem dentro do clima tenso dos textos sempre atuais de Plínio Marcos. Tais estruturas serviam como cama, como esconderijo, como prisão, tudo dependia do que era retratado no momento. O adolescente é Querô (há um filme brasileiro que narra a história deste personagem), que fora atingido por um tiro dado por um policial. Ele agoniza enquanto um jornalista quer gravar seu depoimento para uma reportagem. Ao mesmo tempo, o grupo nos mostra a mãe de Querô, uma prostituta que tem seu filho retido pela cafetina Violeta logo que ele nasce e vai trabalhar com uma travesti, em prostíbulo definido pelo texto como um mocó. A história tem narrativa não linear, indo e vindo no tempo, fazendo um contraponto entre a história do adolescente Querô e sua mãe Dilma tentando economizar dinheiro para dar ao filho uma vida decente. Os atores se entregam nos seus papéis de forma contundente, passando uma verdade nua e crua. Alice Stefânia tem uma direção segura, sem firulas, onde o que importa é a verdade passada pelos atores em cena, em excelente trabalho corporal.
A cena das mortes de Dilma e Querô, que acontecem em tempos distintos na cronologia da história, mas que nós, o público, presenciamos acontecendo ao mesmo tempo no palco, tem um apelo tão forte junto ao público que algumas pessoas chegaram a se emocionar. Um jovem sentado na mesma fila em que eu estava chorava tanto, com resfolegares intensos, que tive a impressão que Davi Maia, um dos atores do grupo, ao dizer sua fala final, tentava achar, no público, de onde vinha aquele choro.
Além da força do grupo, as interpretações individuais são dignas de nota. Miguel Peixoto, além de fazer a travesti, é um dos músicos do trio que toca ao vivo durante os cerca de setenta minutos do espetáculo.
Helena Miranda dá um show fazendo dois papéis: a cafetina Violeta e a prostituta amiga de Dilma.
Ao sair do teatro, só ouvia elogios dentre aqueles que tiveram o privilégio de assistir àquela sessão. Já é uma das minhas peças favoritas do Cena. E olha que ainda faltam mais oito dias para terminar esta maratona de teatro.

sábado, 23 de agosto de 2014

PERDOA-ME POR ME TRAÍRES - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Fabíola quis ir comigo ao teatro para ver Perdoa-me Por Me Traíres, terceira montagem do grupo brasiliense Novos Candangos, em cartaz no Teatro Goldoni e integrante da programação do Cena Contemporânea 2014. Ela não tinha ingresso. Chegamos uma hora antes do horário previsto para ter início a peça. Fabíola pegou a décima senha para a fila de espera. Às 19 horas, tocaram o tradicional sino do teatro, sinal de que a entrada estava liberada. Todos que tinham bilhete entraram e se acomodaram. Os nove atores já estavam em cena, fazendo uma performance com passos lentos, apenas com roupas íntimas, distribuindo olhares expressivos entre eles. Com todos assentados, a produção contou os lugares vagos, liberando a venda de ingressos para quem estava na fila de espera. Fabíola conseguiu entrar, sentando ao meu lado.
Perdoa-me por Me Traíres tem texto original de Nelson Rodrigues. O grupo adaptou a história de Glorinha, criada pelo seu tio Raul após a morte de sua mãe. Seu tio é apaixonado pela sobrinha e a cria sob rédea curta. Glorinha é levada a um prostíbulo por uma amiga de colégio e se encanta pelo que vê. Para se libertar do tio, Glorinha planeja uma forma de se livrar dele. Lendo o que escrevo, quem conhece Nelson Rodrigues pensa logo em um dramalhão clássico. No entanto, a trupe candanga levou este universo rodrigueano para o universo dos filmes, com elementos de Rocky Horror Picture Show, icônico filme lançado em 1975, dirigido por Jim Sharman. Assim, o drama teve pitadas de comédia e de terror, além de musical, pois o grupo tem a característica de inserir números musicais em suas montagens. O resultado foi inusitado. Teve alguns poucos que abandonaram o teatro antes de terminar a encenação, enquanto outros aplaudiram entusiasticamente ao final, com gritos de satisfação. Uma mulher desceu as escadas do Goldoni repetindo a frase "orgulho de ser brasiliense".
Os seguidores puristas de Nelson Rodrigues não gostariam desta adaptação, cheia de gritos, músicas, elementos alusivos a desenho animado, caras e bocas nas interpretações das personagens. Os que curtem uma ousadia nos palcos, adorariam.
Quanto a mim, digo que gostei, embora alguns pontos não me agradaram. Um deles foi a inserção das músicas. Enquanto na montagem anterior do grupo, Os Beatniks em A Gaivota, o elemento musical tenha funcionado tão bem, desta vez achei desnecessário, não agregando muito ao contexto. Também não gostei do tom dado às interpretações musicais. Outro ponto que achei desnecessário foi colocar a ótima atriz Tati Ramos como um cachorro na primeira parte da trama.
Por falar em partes, é visível a divisão da encenação em duas delas. A primeira, que se passa no prostíbulo, é muito focada na estética do cinema, enquanto na segunda parte, o drama teatral toma conta e tem performances ótimas de Xiquito Maciel e Tati Ramos.
Embora o público soltasse risadas após cada vez que a personagem vivida por Diego de Leon dizia a frase "tá na hora da homeopatia", na segunda parte da história, achei que isto quebrava o clima de drama que rolava no centro do palco. Esta performance me fez lembrar personagens de frase únicas de desenhos animados. Talvez isto seja proposital, quem sabe?
Mas os pontos de destaque positivo suplantam aqueles que dos quais não gostei. Começo por cenário e figurino, ambos concebidos por Cyntia Carla. Ela usou como inspiração tanto o filme Rock Horror Picture Show, quanto o que se usava na década de 1950, época em que foi escrito o texto original da peça. Também achei ótima a interpretação de Xiquito Maciel como o tio Raul. Mas o que mais me chamou a atenção foi a cena do aborto. Justamente a cena que divide a trama em duas partes. Várias referências são fundidas em uma cena original: O Massacre da Serra Elétrica, Rock Horror Picture Show, videoclipes, Irmãos Guimarães, Nelson Rodrigues, desenho animado, enfim, uma miscelânea da cultura pop. O único senão para esta cena fica por conta do cheiro de ketchup que toma conta do ar e fica até o final do espetáculo.
Foi a quarta peça que vi do Cena. Todas até aqui tinham um elemento de ousadia, de quebrar paradigmas. E esta não foi diferente.
O grupo voltará em cartaz no mesmo Teatro Goldoni a partir de 05 de setembro, primeiro final de semana após terminado o festival Cena Contemporânea. Para quem perdeu, nova oportunidade de ver este ousado e inusitado trabalho dos Novos Candangos.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

LA CHICA DE LA AGENCIA DE VIAJES NOS DIJO QUE HABÍA PISCINA EN EL APARTAMENTO - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Quarta-feira, dia 21 de agosto de 2014, terceiro dia do Cena Contemporânea 2014. Ingresso na mão para conferir mais uma peça. Teatro Sesc Garagem, 21 horas. Fila enorme para esperar desistências ou sobras de convites. O teatro ficou muito cheio, com gente espalhada pelo chão em frente às cadeiras (acho que todos que estavam na fila de espera entraram). Muita expectativa para ver La chica de la agencia de viajes nos dijo que había piscina en el apartamento, montagem do grupo espanhol El Conde de Torrefiel. Em cena, nove atores, dos quais seis eram convidados da companhia. Estes convidados eram de Brasília. O texto gira em torno de uma temporada que duas amigas passam em uma praia espanhola. Para a encenação, o grupo utilizou performances coreografadas, projeção de texto narrativo, especialmente durante as performances, contando o que se passa com as duas amigas; além de discursos longos que retratam o bate papo destas amigas, quando as atrizes que as interpretam ficam posicionadas diagonalmente uma em frente à outra, sem se mover. Apenas uma fala em um microfone de pedestal, sem alterar a  voz, sem mover braços ou mesmo alterar as suas expressões faciais. Fica parecendo um tipo de não-interpretação (o que de certa forma dialogava com o que vi na noite anterior no espetáculo Pichet Klunchun and Myself, no CCBB), onde o que mais importa é o texto.
A projeção da narrativa se dá em português, enquanto durante as falas das duas atrizes, Adriana Lodi, em off, faz a tradução simultânea (em texto previamente elaborado). Ficou parecendo aquelas transmissões da entrega do Oscar, com a voz de Lodi se sobrepondo às vozes das atrizes. A voz em off também seguia o tom monocórdio dos discursos. Confesso que este artifício me prejudicou em prestar atenção no texto, pois tinha momentos em que eu tentava seguir a narrativa em português, mas me via tentando entender o espanhol das atrizes. E isto piorava quando havia, no mesmo momento, alguma música da trilha sonora.
O texto é ácido, especialmente com relação à cultura pop que, segundo eles, esmagou qualquer possibilidade de a população, especialmente os mais jovens, de entender o mundo a partir de sua história. O Século XX é classificado pelo grupo como o Século da Merda Bonita. Uma frase chave deste pensamento é projetada quase ao fim do espetáculo: Guernica é um quadro famoso. Ou seja, hoje os espanhóis e os turistas que visitam a Espanha não sabem exatamente o que foi a Guernica. É apenas um quadro pintado por Picasso que ganhou fama mundial. Poucos sabem que se trata de uma batalha durante a guerra civil espanhola.
O texto é falado na forma de um discurso longo, cheio de referências ao mundo pop, particularmente do universo europeu. Citar o livro 2666, obra póstuma do escritor chileno Roberto Bolaño, dizendo que quem o leu entenderá o que a atriz diz a um dado momento, é bem provocativo. Fiz questão de olhar para os lados. Muita gente fazia cara de paisagem, pois muitos ali não sabiam quem era este escritor. Fiquei tentando imaginar qual seria a reação do público de língua espanhola ao ser provocado desta forma quando assistiram La Chica...
Três coreografias pontuam a aventura das amigas. Os atores convidados participam destas coreografias, sem nenhuma fala. A primeira é uma aula de tai chi chuan, quando as amigas decidem viajar juntas. A segunda é em um show de heavy metal na praia onde elas passam as férias e o que acontece depois dele, enquanto a terceira é uma festa tecno na mesma praia, também com participação das duas amigas.
A primeira parte da coreografia dos metaleiros é hilária, mas representa bem o comportamento dos metaleiros e o que acontece no mundinho deles, com um eterno bater de cabeças e rodopios das vastas cabeleiras. A segunda parte, com um bunda lelelê coletivo, no qual as bundas de fora pareciam os rostos das pessoas, é um "soco" na cara da plateia, com direito a "risadinhas" ao vivo. No mínimo, causou um certo desconforto. Alguns riram, outros mexeram nas cadeiras, outros suspiram e outros balançaram a cabeça. O nu da terceira coreografia não choca tanto. Todos ficam completamente sem roupa em cena, formando uma massa humana disforme, movida ao som do tecno e das drogas. Mais uma frase de impacto projetada no telão resume tudo: a cocaína é pop.
Em um dos discursos, a amiga diz para outra uma coisa sensacional: freiras e metaleiros eram os únicos integrantes de grupos (ou tribos, como dizemos por aqui) que se vestem de forma igual tanto no verão quanto no inverno. Adorei isto.
Ao final, o público estava visivelmente dividido. Parte aplaudia com entusiasmo, outros seguiam o protocolo com palmas frias e outra parte permanecia sentada. Fiquei no último grupo, sentado, sem saber direito se tinha ou não gostado. E assim fiquei até chegar em casa, quando pude refletir sobre tudo o que vi. Tirei a conclusão que tinha gostado, com exceção da sobreposição das falas ao vivo e em off (embora entenda que esta talvez seria a melhor forma para o público brasileiro entender o texto, já que as falas em espanhol eram longas, rápidas, cheias de gírias e referências europeias, não cabendo traduções simultâneas com aparelhos nos ouvidos).
A estética narrativa misturando projeção, coreografia e falas discursivas, sem uma interpretação clássica mostra que o mundo teatral pulsa, e muito, neste Século XXI. Espero que o público também consiga seguir este pulsar.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

PICHET KLUNCHUN AND MYSELF - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Segundo dia do Festival de Teatro Internacional de Brasília Cena Contemporânea 2014. O espetáculo para o qual tinha ingresso era Pichet Klunchun and Myself, em cartaz no Teatro I do CCBB. Uma amiga tentou comprar entrada para a mesma sessão um dia antes, mas não conseguiu. Ingressos esgotados para as duas únicas apresentações em Brasília. A mesma informação estava na edição de terça-feira, 20/08/2014, do Correio Braziliense.
Como fui direto do trabalho, cheguei às 19:45 horas no CCBB, onde encontrei Hélida G., que tinha duas entradas para o espetáculo. Ela precisava de mais um. Antes de lancharmos no café ao lado do teatro, fomos à bilheteria para ver se alguém tinha desistido. Para nossa surpresa, a produção do Cena tinha acabado de devolver ingressos destinados aos patrocinadores. Compramos o ingresso que ela tanto queria. Era hora de lanchar.
Eu tinha poucas informações sobre o que veríamos. Sabia que era um espetáculo de dança, mas ao ler a sinopse no livreto do festival, percebi que não seria bem um balé com coreografia. Seria uma espécie de bate papo. Compramos nosso lanche, sentamos em uma das mesas do lado de fora, aguardando as outras duas pessoas que nos acompanhariam, Fabíola e Lana.
Ao lado da entrada do Teatro I montaram uma mesa para entregar ao público um aparelho igual aos usados em conferências com tradução simultânea. Para pegá-lo, bastava entregar um documento que seria devolvido ao final da sessão.
Antes de entrar, perguntei a uma pessoa da produção do Cena o motivo do aparelho. O espetáculo seria todo falado em inglês. Resolvi entrar apenas com meus ouvidos. E foi muito tranquilo.
Houve um pequeno atraso, pouco mais do que dez minutos, para o início. Assim que soou o terceiro sinal, houve uma movimentação para troca de lugares, pois muitos assentos ficaram vazios. Creio que os convites distribuídos pelos patrocinadores não foram utilizados pelos contemplados.
No palco estavam duas cadeiras posicionadas uma em frente à outra em uma distância de uns três metros entre elas. Na cadeira da esquerda se sentou Pichet Klunchun, um bailarino tailandês, que estava descalço. Na cadeira da direita, o bailarino, coreógrafo e diretor francês Jérôme Bel, que tinha um notebook nas mãos. Assim que os dois se acomodaram em suas respectivas cadeiras, teve início um diálogo muito interessante, que foi crescendo ao longo dos 105 minutos de duração do espetáculo. Era uma espécie de entrevista na qual Jérôme conduzia as perguntas. Klunchun é um especialista em Khon, dança tradicional tailandesa. Jérôme perguntou o que é a dança, como ela começou e suas principais características. Klunchun foi mostrando, pacientemente, os passos mais marcantes do Khon, assim como seus principais personagens: homem, mulher, demônio e macaco. E ver o bailarino tailandês executar a coreografia passo a passo, gesto a gesto, com a devida explicação de cada um deles, foi uma das coisas que mais gostei no espetáculo. Quando o entrevistado vira o entrevistador, as performances de Jérôme Bel no palco são ótimas, demonstrando os motivos pelos quais ele está longe de ser uma unanimidade no mundo da dança. Suas peças não tem coreografias mirabolantes. Ele coloca no palco ações que qualquer um que o assiste poderia executar.
E neste interessante embate entre a tradição e o contemporâneo, entre o Ocidente e o Oriente, ganhou quem estava assistindo. O bate papo foi ótimo para provocar reflexões sobre a importância de se manter a tradição, mas também de inovar, de trazer algo diferente para chacoalhar a mesmice que impera no mundo.
Entre os muitos bons momentos, destaco dois:
1) Klunchun interpretando uma mulher quando ela recebe a notícia de que seu marido morrera em uma batalha. Os movimentos mínimos de seu corpo transmitiram toda a tristeza, incluindo um delicado choro.
2) Jérôme interpretando e dublando a canção Killing me softly with his song. Foi divertido, mas como uma possibilidade de se pensar a morte.
E a encenação da morte foi um dos temas debatidos entre eles, assim como a nudez em cena, algo normal para o francês, mas cheio de pudores para o tailandês.
Espetáculo primoroso.

CONSELHO DE CLASSE - CENA CONTEMPORÂNEA 2014

Começou a 15ª edição do Cena Contemporânea. Comprei ingressos para vários espetáculos. Iniciei a maratona pela peça de estreia da edição 2014 deste ótimo festival de teatro de Brasília.
Terça-feira, 20 de agosto. A peça estava marcada para ter início às 21 horas no Teatro Funarte Plínio Marcos. O estacionamento ao lado do Complexo da Funarte é amplo, sempre com tranquilidade para encontrar vagas. Mesmo assim, fui cedo para lá. Esta foi minha sorte, pois não contava com um estacionamento repleto de carros, a esmagadora maioria de torcedores do Vasco que foram ver um jogo válido pelo campeonato da segunda divisão de futebol que aconteceria no Estádio Nacional Mané Garrincha. Consegui uma vaga mais longe do local onde costumo parar.
Em frente ao teatro, cujas grades estavam fechadas impedindo o acesso ao pequeno hall do local, duas filas se formavam. A da esquerda era de quem tinha ingresso, onde logo me posicionei, enquanto a da direita era daqueles que ainda tentariam comprar entrada para a sessão da noite. Vários torcedores vascaínos passavam por lá e estranhavam aquele público em duas filas. Presenciei uma turma deles pensando que ali era a entrada do estádio.
Na medida em que o tempo passava, as filas cresciam, tanto em linha reta para trás quanto para os lados. Era tanta gente que conhecia tanta gente que alguns bolinhos de pessoas se formavam em determinados pontos da fila. Não sei o motivo, mas só abriram as grades e liberaram a nossa entrada quando os ponteiros do relógio já anunciavam ter passado do horário previsto para o início da peça. A saudação gravada do festival foi ao ar ainda com a maioria das pessoas do lado de fora. Houve uma considerável demora para acomodar todo mundo, inclusive aqueles que estavam sem ingresso. Tive a impressão que todos que estavam sem entrada tiverem êxito e entraram. O teatro ficou completamente lotado para ver Conselho de Classe, uma das peças que celebrou os vinte e cinco anos de carreira da Cia dos Atores, do Rio de Janeiro. A lotação completa era bom sinal, pois mostrava que o público estava ávido por teatro, ávido por celebrar o festival, mas ao mesmo tempo, a mesma lotação me indicava que o calor seria forte ali dentro. E foi.
O espetáculo começou com cerca de quarenta minutos de atraso.
O cenário mostrava uma escola com problemas visíveis de manutenção, ficando iluminado desde a entrada do público.
O texto de Jô Bilac é contundente (adjetivo que "roubei" de Fernando Guimarães), escancarando as mazelas da educação no Brasil, seja na questão do aspecto físico da escola, onde faltava até mesmo água potável, seja pela remuneração ridícula que um professor da rede pública recebe do poder público, no caso, do Governo Estadual do Rio de Janeiro. E ainda há a discussão sobre o papel da escola junto à comunidade, a falta de atualidade na gestão escolar e o conflito de ideologias entre os professores que formam o corpo docente daquela unidade.
São quatro atores que interpretam as professoras durante um conselho de classe perto do final do ano. São quatro homens que interpretam quatro mulheres, mas as diretoras Bel Garcia e Susana Ribeiro preferiram deixá-los com figurino masculino, sem alterações no modo de falar e com pouco gestual feminino. Soou estranho em um primeiro momento, mas esta forma deixou as questões meramente masculinas/femininas devidamente distanciadas das discussões centrais.
Ainda há mais um ator em cena interpretando o diretor substituto que chega como enviado da Secretaria Estadual de Educação para dirigir o conselho de classe e colocar ordem na casa, após um incidente que ocorrera com a diretora titular.
Em cena, o calor era de matar, e, na plateia, o desconforto das cadeiras e a falta de ar condicionado no teatro foram perfeitos, mesmo que de forma não proposital, para a sinergia com o cenário e para uma melhor aproximação com o que se passava na quadra da escola.
Os atores estão muito bem, inclusive o estrangeiro Thierry Trémouroux, mesmo com certa dificuldade em entender algumas frases que ele falava, especialmente quando não estava virado para a plateia. Quem estava nas últimas fileiras da sala tiveram, nitidamente, tal dificuldade. Um cara que estava sentado ao meu lado me perguntou por mais de uma vez o que o ator tinha acado de falar.
Embora os desempenhos individuais sejam dignos de notas elogiosas, o que prevalece durante toda a encenação é a força de grupo. O coletivo é muito forte neste espetáculo. Um ponto alto são os embates vivenciados pelas personagens, o que possibilita interessantes duelos entre os atores.
Pelo que escrevi até aqui, pode parecer, para quem está lendo, que eu gostei da peça, mas há uma questão que me incomodou muito e jogou por terra, na minha visão, a discussão profunda que há no texto. Foi a opção por dar um tom de comédia no desenvolvimento da história. Claro que ri de várias situações, mas creio que esta escolha atrapalhou bastante a reflexão sobre o texto. As professoras ficaram no limiar do estereótipo do funcionário público que não tem compromisso com nada, ou ao contrário, daquele que é engajado politicamente e quer mudar o mundo a partir de ações na comunidade. Não é à toa que quem faz este papel é o único que não tem um tom burlesco na interpretação. No caso a Professora Mabel, vivida por Trémouroux.
Muitos sabem que professores, especialmente os da rede pública de ensino, fazem bicos, são sacoleiros, como a Professora Célia da peça, mas a forma como esta situação é mostrada me soou um tanto quanto excessiva. Ouvi uma pessoa comentando na saída que a mãe dela era professora e que, com certeza, não gostaria de ser retratada como aquela que passa hidratante nas pernas ou lixa a sola dos pés durante uma reunião do conselho de classes da escola onde trabalha. Realmente esta provocou muitas risadas na plateia, mas era totalmente dispensável no contexto.
Ao final da apresentação, as palmas calorosas e os gritos de vivas mostraram-me que a maioria gostou do que presenciou.
Eu saí com a sensação que poderia ter sido melhor, que a direção errou a mão.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A DÉCIMA SEGUNDA NOITE - LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO


Enfim, consegui ler mais um livro neste 2014. Aproveitei o voo Brasília-Belo Horizonte para ler, em uma sentada, o ótimo A Décima Segunda Noite, escrito por Luís Fernando Veríssimo para a coleção Devorando Shakespeare da Editora Objetiva. Lançamento de 2006, com 152 páginas. Tinha este livro em minha estante desde o ano de lançamento, mas ficou no esquecimento. Leitura fácil, agradável, prazerosa. Veríssimo faz uma divertida releitura da comédia de erros Noite de Reis escrita pelo inglês William Shakespeare para o teatro. Veríssimo ambienta sua versão em Paris, mas a recheia de personagens brasileiros, com menções, mesmo que distante, dos exilados da época da ditadura, e de contrabando de pedras preciosas dentro de imagens de santos. Um salão de beleza com decoração brasileira no qual um papagaio pintado de verde e amarelo é o narrador de toda a história de amores impossíveis que vão se formando ao longo das confusões que os personagens aprontam. Todos os estereótipos de brasileiros estão presentes: samba, jeitinho, amizades com pessoas ligadas ao poder, alegria, beleza, malandragem, praia, sol, palmeiras, comidinhas típicas, festas. Tudo com muito humor. Quando vi, o avião estava pousando e eu acabando de ler a última página. Gostei muito.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

CONFRARIA VINUS VIVUS - 89ª REUNIÃO

Mais uma reunião da Confraria Vinus Vivus aconteceu no dia 11 de agosto de 2014, a de número 89. Mais uma vez na casa da confrade Vera, quando o tema eram vinhos franceses. O confrade Leo Ladeira não pode se fazer presente, sendo substituído por Kadu. Eis os vinhos da noite.

Vinho 1 – Mas de Daumas Gassac


Safra: 2009.
Álcool: 13%.
Casta: são vinte e uma castas na elaboração do vinho, sendo que 97% é composto por cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc, pinot noir e tannat.
Produtor: Mas de Daumas.
Região: Languedoc-Roussillon, França.
Cor: rubi, rubi.
Aromas: estábulo, aceto balsâmico, acidez doce, erva, mentolado, tomilho, folha verde amassada, vegetal, saco de açúcar, dama da noite.
Boca: não é pesado, mas encorpado, seca atrás da língua, acidez e taninos equilibrados, nada agressivos.
Estágio: sem informação.
Importador: Mistral.
Valor: R$ 318,00.
Observação: maceração longa. Vinhedos com 37 anos de idade. A colheita de 2009 foi considerada a melhor dos últimos 40 anos. Foi o preferido de Keller e Vera.

Vinho 2 – v.i.t.


Safra: 2010.
Álcool: 15,5%.
Casta: 65% grenache e 35% shiraz.
Produtor: Domaine Bila-Haut.
Região: Côtes Du Roussillon, França.
Cor: rubi, com leve toques violáceos.
Aromas: doce, violeta, torrefação, bala de leite, café, fruta vermelha cristalizada.
Boca: acidez presente, mas tem uma leve doçura no paladar, Biotônico Fontoura, chocolate amargo.
Estágio: sem informação.
Importador: Mistral.
Valor: R$ 458,00.
Observação: vinhedos da grenache têm, em média, 70 anos de idade. O preferido da noite por Leo Soares, Kadu e Bruno.

Vinho 3 – La Tyre


Safra: 2001.
Álcool: 14,5%.
Casta: 100% tannat.
Produtor: Montus.
Região: Mandivan, França. (berço da casta tannat)
Cor: negra, com evolução na unha.
Aromas: ferro, ferrugem, couro, mofado, palha seca.
Boca: taninos presentes, mas não é rugoso, evolui muito bem, longo no paladar, pede comida.
Estágio: fermentado em grandes tonéis de madeira a 28º C, com maceração longa (seis semanas), estagiando de 14 a 16 meses em barricas de carvalho de 110 litros.
Importador: Decanter.
Valor: R$ 770,00.
Observação: o campeão da degustação, sendo o preferido por Cláudia, Fernanda, Jarbas, Abílio e Marquinho.

Após a degustação, foi servido o jantar, cuja entrada foi uma salada de folhas verdes, nozes, queijos, torrada e azeite Andorinha em spray. O prato principal foi um cassoulet, enquanto a sobremesa uma torta húngara (chocolate amargo), muito apreciada em Salvador, Bahia, de onde a iguaria veio diretamente para este jantar.
Para a harmonização com os pratos do banquete, utilizamos os vinhos da degustação e ainda:
Château de La Grille – elaborado com a casta cabernet franc, produzido na região de Chinon, França, com 13% de álcool, safra 2003.
Loosen “Dr. L” – vinho branco alemão, da região de Mosel, 100% riesling, com 12% de álcool, safra 2013.



vinho

gastronomia

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

CAZUZA PRO DIA NASCER FELIZ O MUSICAL

Desde a estreia de Cazuza Pro Dia Nascer Feliz O Musical, no Rio de Janeiro, tive muitas oportunidades para conferi-lo, mas nunca conseguia comprar ingresso. Sempre esgotado. Quando soube que o musical começaria a viajar pelo Brasil, fiquei atento à agenda. Para minha sorte, eu estaria em Brasília quando de sua passagem pela capital federal, no mês de maio. Assim que começaram a vender, garanti meu ingresso. Cazuza Pro Dia Nascer Feliz O Musical inauguraria o Teatro Net Brasília. Imaginei que a Net estamparia seu nome e sua logo em um teatro confortável, como é no Rio de Janeiro e agora em São Paulo. Qual não foi a minha surpresa quando cheguei ao teatro. Ele funciona no mesmo local onde outrora funcionaram o Marina Hall e o Ópera Hall. Não alteram praticamente nada. Além do novo nome, apenas colocaram um poderoso ar condicionado. E o barulho deste aparelho atrapalhou as cenas mais intimistas do espetáculo. Ao entrar no imenso salão, todos os defeitos de sempre estavam lá presentes: teto baixo, péssimo tratamento acústico, palco mal iluminado e dificuldade para sair, devido ao aglomerado de gente, além do engarrafamento que se forma na hora de ir embora, pois o acesso ao teatro é estreito, não dando vazão ao fluxo de carros. Para piorar, há aqueles que se julgam espertos e trafegam na contra-mão. Voltando ao musical, as cadeiras dispostas para o público eram simplesmente horríveis. Um espetáculo com mais de duas horas de duração merecia uma cadeira bem mais confortável. Este desconforto foi, inclusive, citado na fala do ator principal em uma das cenas. Ainda bem que o musical vale muito o ingresso pago. O texto de Aloísio de Abreu não deixa nada de fora, diferentemente do que vimos nas telonas no filme dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho (Cazuza O Tempo Não Pára, 2004) que conta a história deste poeta-cantor do pop-rock brasileiro. A relação com os pais, o uso de drogas, a homossexualidade, a relação com os integrantes da banda Barão Vermelho, o namoro conturbado com Ney Matogrosso (totalmente omitido no filme). Tudo relatado e mostrado de forma direta, natural, sem firulas. A direção de João Fonseca é segura e deixa fluir a história tranquilamente, mesmo em momentos mais densos, muito tristes. O destaque maior é para o ator Emílio Dantas, que incorporou o cantor de corpo, voz e alma. Vê-lo no palco, para quem teve a oportunidade de ver um show de Cazuza ao vivo, me deu a sensação de estar ouvindo e vendo o próprio cantor. Dantas é ótimo do primeiro ao último minuto do espetáculo. Ele é tão bom que suplanta todas as deficiências dos demais atores em cena, como Marcelo Várzea, que interpreta João Araújo, o pai de Cazuza, cuja interpretação não convence. São vinte e nove músicas muito bem posicionadas ao longo do espetáculo, onde os grandes sucessos do Barão Vermelho na fase Cazuza, bem como aqueles de sua carreira solo, estão presentes. Ao final, não há como deixar as lágrimas escorrerem pelo rosto. Como diz a música, o poeta está vivo.
Quanto ao Teatro Net Brasília, definitivamente não é um lugar para receber espetáculos que exigem uma plateia assentada. Lugar próprio para shows com público em pé, mesmo assim com necessidades reais de melhorias.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

FUMBAMBAS

Para Renata

Dentro da caixa de correio havia apenas um envelope amarelo. Riva estava exausta, pois as planilhas nas quais trabalhara o dia inteiro a deixaram zonza. Só queria saber de cair na cama. Esperou o elevador com o envelope nas mãos. Não havia indicação de quem enviara aquela carta a ela. Tinha uma das mãos ocupada com papeis do trabalho, o que a impossibilitou em abrir o envelope. Seu cansaço era tão grande que suplantava qualquer resquício de curiosidade. Ao entrar em casa, Riva jogou tudo no tapete da sala e caiu prostrada no sofá. Dali não queria sair. Ficou a olhar para a parede, mas sem fixar algo definido. Era como se mirasse o nada. O envelope amarelo chamava a atenção, jogado no tapete. Adormeceu.
Ela não soube precisar o quanto dormira, mas sabia que tinha adormecido no sofá. Acordou com dores por todo o corpo. Aquele sofá, que tinha custado uma fortuna por ser objeto de design, definitivamente não servia para um corpo cansado. Riva olhou o seu relógio e a noite já avançava na madrugada. Uma leve fome a fez levantar. Abriu a geladeira, pegou o leite e encheu um copo. Deu duas goladas e deixou o resto. Não gostava de leite, mas sempre tinha em casa porque sua mãe lhe dizia que era importante uma mulher na sua idade beber aquele líquido horroroso e insosso. Voltou para a sala e viu o envelope.
Revigorada pelo sono, mesmo com as dores pelo corpo, a curiosidade bateu para saber o que havia dentro do envelope amarelo.
Tentou abri-lo com delicadeza, mas estava muito bem colado. Rasgou nas laterais. Um cintilante convite, também amarelo, era o conteúdo da carta.
Em letras que pareciam saltar do papel, um pequeno texto a chamava para uma festa. Era um amigo que não via há anos e que comemoraria seus cinquenta anos em um barco. Festa restrita. Poucos convidados. Junto ao convite, um mapa. A festa seria no sábado. O barco sairia às 11:00 horas da manhã. No convite havia a solicitação de confirmação via telefone. O que intrigou Riva foi o texto:
"Romualdo convida para seu aniversário de 50 anos com um ano de atraso. Favor confirmar presença pelo telefone abaixo indicado. Mapa para chegar ao local de partida do barco está atrás deste convite. Cuidado, pois a região é cheia de fumbambas".
Romualdo, como sempre, muito original, pensou Riva. Na verdade ele estava completando 51 anos, mas como não conseguiu fazer uma festa quando fez meio século, resolveu dar esta festa agora, por isso o tal convite com um ano de atraso. E ainda tinha o alerta para ter cuidado com os fumbambas. Mas que diabos eram os fumbambas. Riva pegou o celular para consultar o Google, mas ao clicar no ícone do seu navegador, apareceu um aviso de bateria fraca. O telefone apagou em seguida. Ela colocou o celular para carregar e foi tomar banho. Esqueceu completamente da consulta.
Na manhã seguinte, sexta-feira, levantou no horário de sempre para ir trabalhar. Assim que ficou pronta, recolheu os papeis do tapete e deu de cara com o convite novamente. Lembrou de ligar para confirmar presença. A festa seria no dia seguinte, mas como era muito querida de Romualdo, a pessoa que atendeu disse que ela nem precisava da confirmação, pois sabiam que ela estaria no barco na hora marcada. Ao finalizar a ligação, a moça perguntou se Riva iria sozinha. Recebeu resposta afirmativa. Iria de carro, sem levar ninguém. A moça agradeceu a ligação, despedindo-se com um alerta: "cuidado com os fumbambas". Riva desligou o telefone, clicando no navegador, mas nova ligação a impediu de pesquisar sobre os fumbambas. Era do trabalho. Problemas urgentes para resolver. E assim foi sua sexta-feira. Pesada, cansativa, urgências atropelando urgências. Esqueceu completamente dos fumbambas. De volta para casa, Riva tomou um remédio para dormir, acordando por volta de sete horas da manhã do sábado. Arrumou uma bolsa grande, colocando itens de quem vai passar o dia navegando no mar. Pelo que conhecia de Romualdo, a festa seria em um veleiro. Sabia mais ou menos a direção que deveria tomar, mas resolveu se certificar no Google Maps. De sua casa até o destino, cerca de duas horas de carro. Tinha tempo de sobra. Passou um bom protetor solar no rosto, pescoço e braços, deixando para passar no restante do corpo assim que entrasse no barco. Saiu em seguida. Maria Bethânia cantando Roberto Carlos seria a sua trilha sonora no caminho. O dia estava lindo. O celular ficou ligado no acendedor de cigarros para não descarregar, pois Riva usaria o Google Maps o tempo todo. Ela sabia que o aplicativo funcionava como GPS, mesmo sem sinal de internet. Quando Riva acompanhava Bethânia na música Fera Ferida, ela ouviu uma voz feminina mandando-a virar à direita em quatrocentos metros. Era o Google Maps. Riva olhou para a tela do seu celular, percebendo que estava sem sinal de internet. Maldita operadora!
No local indicado, virou à direita. O asfalto acabara. Era hora de percorrer uma estrada de terra. Já tinha rodado por mais de 75 minutos. Faltava pouco para chegar, mas como a estrada era ruim, Riva calculou que ainda teria que rodar por uns quarenta minutos. Voltou a cantar com Bethânia.
Uma curva acentuada à direita a fez reduzir a velocidade. Ao finalizar a curva, uma placa lhe chamou a atenção: "Região de fumbambas, tenha cuidado!" Ela não tinha pesquisado o que era aquilo e estava sem sinal de internet. Tinha que perguntar para Romualdo.
E mais uma curva apareceu em sua frente. Três cruzes brancas no meio da curva chamaram a sua atenção. Será que tinha morrido gente em acidente naquele local? Atrás das cruzes, tinha uma placa caída. Riva apurou a visão. Conseguiu distinguir a palavra "fumbambas". Pensamentos nebulosos lhe passaram pela cabeça. Será que os tais fumbambas tinham matado as pessoas que aquelas cruzes representavam?
Aumentou o volume do som do carro, deixando seu pensamento mergulhar na letra de "Detalhes". Mas apenas fumbambas povoavam sua cabeça. Começou a pensar que seriam integrantes de uma tribo canibal, preservada pela turma dos direitos humanos e que ela corria perigo. Checou se janelas estavam completamente fechadas e travou todas as portas do carro. Colocou um pouco mais de pressão no acelerador.
Outra placa, desta vez enorme, fincada no morro à esquerda da estrada, exibia novo alerta: "local de travessia de fumbambas, dirija com muito cuidado". Meu Deus!, soltou Riva. Não eram canibais, mas sim animais gigantes, pensou. Algo como mamutes, que estavam preservados pela turma do meio ambiente. Seria esmagada debaixo de uma das patas de uma espécime de paquiderme. Pegou o celular, mas sem sinal nenhum. A tela estava travada na página do Google Maps lá do início da estrada de terra.
A paisagem começou a mudar. A mata ia ficando rala, deixando lugar para um terreno arenoso, sinal de que se aproximavam do mar. A lama em certos pontos também indicava que um manguezal estava nas proximidades. Riva estava gelada. A qualquer momento uma horda de fumbambas poderia aparecer e ela estaria frita. Porque não ficara em casa. Bethânia continuava a cantar, alheia a qualquer perigo.
Enfim, o mar surgiu ao longe. Uma placa estava no meio da pista. Era um novo alerta sobre os fumbambas. Riva teve que jogar o carro na areia e quase ficou sem conseguir sair do lugar. Pisou fundo no acelerador, derrapou, jogou areia para todos os lados, mas conseguiu voltar para a estrada. O celular deu um apito. O sinal do GPS voltava a pegar. A mesma voz feminina disse que em seiscentos metros estava o seu destino. Riva avistou o veleiro e uma pequena canoa na praia. Um homem de meia idade a esperava.
Parou o carro ao lado de outros que estavam estacionados, pegou a bolsa, olhou bem para para todos os lados ainda dentro do veículo. Não avistou nenhum fumbamba, nada desconhecido. Desceu, fechou a porta, acionou o controle de travamento à distância, correndo até onde estava a canoa. Respirando ofegantemente, sentiu-se tonta, escorando no senhor, que perguntou se ela estava bem. Riva não conseguia falar nada. Fez sinal de positivo com o polegar, entrando na canoa. O senhor empurrou o pequeno barco e começou a remar em direção ao veleiro.
Na medida em que se aproximavam do veleiro, o som alto, rock brasileiro dos anos oitenta, podia ser ouvido de onde Riva estava. Ela foi relaxando aos poucos. Ao recuperar o fôlego, perguntou para o senhor o que eram os fumbambas. Ele apenas sorriu e disse que ela saberia no barco. Ficou apreensiva.
Riva era a última a chegar para o passeio. Atracaram no veleiro. O senhor a ajudou a subir em uma escada de metal que dava acesso à proa do barco. Romualdo a recebeu com um largo sorriso no rosto e uma taça de Veuve Clicquot nas mãos. Deu ordem para o marinheiro partir. Brindaram. Seguiu-se um longo abraço. Riva perguntou sobre os fumbambas. Romualdo não disse nada, apenas a conduziu até o outro lado do barco, onde uma turma se esbaldava com muita bebida, música e cigarro. Ao lado de cada um dos convidados havia um balde alaranjado no chão. Na mesa, vários bastões de madeira em forma de cilindro. Romualdo colocou Riva em uma cadeira ao seu lado e lhe mostrou o balde.
- Aí estão os fumbambas.
Riva gargalhou alto, muito alto. Ficara apavorada por causa de caranguejos.
Sim, fumbambas nada mais eram do que caranguejos.
Com uma expressão sádica no rosto, devorou os fumbambas de seu balde.
O veleiro já estava ao sabor dos ventos.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

107,8

Parece até indicação de alguma rádio FM no dial do rádio: 107,8! Mas é o meu peso nesta data, 12 de agosto de 2014. Hoje acordei cedo. Levantei às 7 horas da manhã, tão logo o alarme do meu relógio soou. Sentia muita dor no braço esquerdo e na altura do pescoço. Ortopedista agendado para a parte da manhã. Decidi que precisava pesar, pois as dores poderiam ter relação com meu peso e isto poderia ser perguntado pelo médico. Ainda sem nada no estômago, subi na balança que tenho estrategicamente colocada no banheiro de casa. Temia já ter passado dos cento e dez quilos ou mesmo estar no maior peso da minha vida. Quando o painel parou de piscar, fixando o número 107,8, vi que o recorde quase tinha sido igualado, pois já cheguei a pesar 108,6 quilos. Decisão tomada. Sempre leio que nunca é tarde para começar.
Comecei. Tracei uma meta inicial para emagrecer entre 22 e 25 quilos. Sem data marcada para isto acontecer, mas com o firme propósito de alcançá-la. Aqui cabe o lema devagar e sempre.
Meu café da manhã tinha que ser com o que havia em casa. E não havia muita coisa. Tomei meio copo de água com os meus remédios diários, um para refluxo e dois para controle da pressão. Comi a polpa de dois figos bem maduros, tomei um pote de iogurte grego natural. Ainda comi uma fatia pequena de pão alemão com uma fina camada de geleia de framboesa, acompanhado por uma xícara de café Nespresso Arpeggio.
Aproveitei o ensejo para medir minha pressão arterial em aparelho caseiro. 13 X 9. Mesmo com os medicamentos diários, a pressão segue nesta faixa. Aproveitarei o ensejo para reduzir a ingestão de sódio.
Uma longa jornada me aguarda.

dieta

terça-feira, 22 de julho de 2014

DANÇA

Para Girão
- Código localizador e um documento, por favor.
- Aqui está. Não se esqueça de colocar meu número do cartão fidelidade.
- Fique tranquila que não deixarei de inserir seu fidelidade. A senhora não marcou assento. O voo está tranquilo por enquanto.
- Quero qualquer assento no meio.
- No meio? Mas há assentos livres no corredor e na janela.
- No meio, por favor.
- OK, senhora, mas fiquei surpresa, pois nunca vi alguém pedir para se sentar no meio. Pelo contrário, as pessoas sempre reclamam quando só restam poltronas do meio.
- Pois eu adoro o meio. Tenho a chance de sentar entre dois guapos. Quem sabe um deles não se torna meu futuro marido...
Sorrindo, a atendente da TAM devolveu os documentos de Giralda, bem como o seu cartão de embarque, desejando-lhe boa sorte.
O voo estava no horário. Embarque previsto para o portão 25, dali a cinquenta minutos. Com um lenço verde na cabeça, batom vermelho nos lábios, um belo vestido estampado com grafismos lembrando uma tela de Mondrian, Giralda foi esbanjando simpatia pelos corredores do aeroporto.
Na sala de embarque, foi a primeira a se apresentar para embarcar, mas antes se certificou que o voo estava cheio. Estava. Abriu um sorriso enorme. Quem sabe aquele seria o dia de encontrar o homem da sua vida.
Sentou-se na poltrona 14B. As pessoas foram entrando. Giralda ficava a mirar os homens. Alguns eram candidatos em potencial para viverem para sempre ao seu lado, mas eles passavam direto. Nunca viu tanta gente passar para se sentar depois da fileira 14. Na frente, tudo estava ocupado. Após meia hora de embarque, ninguém mais entrou. As poltronas ao seu lado vazias, mas as portas da aeronave não tinham sido fechadas, o que deixava Giralda mais apreensiva. Ela tinha acordado com a certeza de que naquele dia ela conheceria seu futuro marido. A comissária usou o sistema de som para anunciar que estavam esperando mais dois passageiros que vinham de um voo de conexão. Eram os companheiros de fileira de Giralda, com certeza.
Mais cinco minutos e um deles aparece. Parrudo, gorro na cabeça, perto de quarenta anos, barbudo. Giralda gostou do tipo, embora o físico não fosse o que idealizara. O cara pediu licença. Estava na 14A. Giralda se levantou, sorrindo para ele. O parrudo nem notou. Pegou um livro na mochila. Giralda olhou de soslaio para ver o título. O cara parecia ser exotérico, pois lia Eram Os Deuses Astronautas?, de Erich Von Daniken. Ela logo o apelidou mentalmente de astronauta.
Entrou outro homem, um pouco mais velho, cabelos grisalhos, corpo esguio, porte atlético, sorriso permanente no rosto. Cumprimentou Giralda com um balançar de cabeça, retirou um livro da sua pasta e se sentou. Mais um leitor ao seu lado.
As portas do avião se fecharam. Os avisos foram dados. A aeronave partiu na hora. Assim que as luzes se apagaram, com o sinal identificando que os passageiros poderiam usar seus aparelhos eletrônicos, Giralda se acomodou na poltrona, puxando papo com o grisalho do seu lado direito, já que o astronauta tinha o olhar fixo para as páginas de seu livro esotérico. Ela queria saber o que ele estava lendo.
Ele fechou o livro, lhe mostrando a capa. Era a biografia de Isadora Duncan. Disse que gostava de dança e que estava indo para Fortaleza para participar de um festival internacional de dança de salão. Giralda se interessou imediatamente, perguntando o nome dele e querendo saber quem era a parceira dele na competição. João Marcos era seu nome. Quanto à parceira, ele ainda não a conhecera, pois o diferencial daquele festival era eles formarem os pares minutos antes das provas. Giralda gostava de dançar e tinha tido aulas durante anos. Atualmente frequentava aulas de dança egípcia.
- Você também se inscreveu para o festival?, perguntou João.
- Não, nem sabia.
- Ainda dá tempo. Porque não se inscreve assim que chegar. Li que terá um balcão do festival no aeroporto. Quem sabe você não dança comigo!
- E você dança bem?
Ele ruborizou. A pergunta foi direta. Ele não queria responder. Devolveu a pergunta.
- E você, já participou de alguma competição de dança?
- Nunca. Apenas apresentações para amigos.
Giralda esforçava-se para ver se João tinha aliança. Quando conseguiu ver as duas mãos, ficou feliz, pois aparentemente ele não tinha nenhum adorno nos dedos.
João insistiu para que ela se inscrevesse. E elogiou o vestido dela. Giralda ficou radiante. Ele quis saber seu nome.
- Giralda. É Geralda, mas com o “i” no lugar do “e”. E antes que você ria, saiba que adoro meu nome.
João riu e Giralda riu junto. Um braço encostou no outro. Giralda viu os pelos do braço dele se eriçarem. Ela viu que ali tinha futuro. E o papo continuou firme até chegarem ao saguão do aeroporto, onde João procurou o balcão do festival para ela se inscrever. Quando ele chegou perto, uma multidão de fotógrafos disparou cliques e flashes. Giralda nada entendia. João pedia apenas que ela se inscrevesse, ao mesmo tempo em que ia sendo levado por uma mulher esguia. Giralda ficou perplexa. Pediu uma ficha, preencheu. Recebeu seu número e as regras da competição. Não viu mais João. Leu o livreto. A competição seria na noite daquele dia. Tinha apenas cinco horas. Pegou um táxi, deixou as malas na casa de seus pais, e foi arrumar o cabelo, pois esta era uma exigência do festival. Aproveitou para renovar a maquiagem. Precisava de um vestido esvoaçante. Lembrou que tinha feito uma compra em um site chinês de um vestido que usaria em um casamento como dama de honra, mas não tinha gostado quando ele chegou. Achou com cara de princesa Disney. Aquele era o momento de usá-lo.
Na hora indicada, estava no centro de convenções da cidade. Nem sinal de João. Seu coração batia forte. Todas as mulheres estavam em uma sala e os homens em outra. Chegou uma notícia ruim. Eram 17 mulheres e 16 homens. Iriam cortam a última inscrita. Giralda ficou apreensiva. Na certa, ela tinha sido a última. Anunciaram que Carol estava cortada, pois aniversariantes não poderiam participar. Sua alegria voltou. A primeira dupla foi chamada. Veio a segunda, a terceira, a quarta, a quinta. Giralda estava inquieta, pois não sabia quem eram os homens que já tinham sido chamados. As duplas se apresentavam e ninguém podia voltar para a sala onde esperavam para ser anunciados.

Giralda foi a última a ser chamada. Suas mãos estavam molhadas. A ansiedade era grande. Entrou no túnel que conduzia ao salão. As luzes eram fortes, ofuscaram seus olhos. Nada enxergava. Uma mão forte pegou em sua mão. Ela olhou de lado, mas estava cega de tanta luz. Entrou confiante. Os gritos da galera a deixaram mais eufórica. Sortearam o ritmo. Dançaria um tango. A música começou e aquela mão forte a conduziu. Dança marcada, sem erros, aplausos sem fim. A música terminou. Apupos de já ganhou, já ganhou ecoaram no salão. Giralda só via luzes e mais luzes. O resultado saiu. Realmente Giralda tinha ganhado a competição. Quando olhou para o segundo lugar viu João Marcos arrasado. Ela não tinha dançado com ele. Quem era seu par? Estava tão cega que sempre achou que João era seu parceiro o tempo inteiro. Esfregou os olhos. Seu companheiro de dança sorria de braços abertos, acolhendo-a em um aconchegante abraço. Era o parrudo astronauta que viajara ao seu lado. Simplesmente, o melhor dançarino de sua vida. Giralda teve a certeza de que aquele era o seu futuro marido.