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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

VIDAS SECAS

Vidas Secas, 1963, 103 minutos.

Dirigido por Nelson Pereira dos Santos e protagonizado por Átila Iório (Fabiano) e Maria Ribeiro (Sinhá Vitória).

Filme da primeira fase do Cinema Novo, integra a chamada trilogia do sertão, junto com Os Fuzis, de Ruy Guerra, e Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

Adaptado da obra de Graciliano Ramos por Nelson Pereira dos Santos.

Rodado em preto e branco, com iluminação propositalmente saturada, foi totalmente filmado longe dos estúdios, nas cidades alagoanas de Minador do Negrão e Palmeira dos Índios. A polução destas cidades é agradecida nos créditos iniciais do filme. Os planos abertos dão a dimensão da seca que assolava o sertão.

A trama se passa entre os anos 1940 e 1942, quando acompanhamos Fabiano, Sinhá Vitória, seus dois filhos pequenos e a cadela Baleia vagando pelo sertão seco à procura de comida, de um lugar para morar e de trabalho. Encontram uma casa de pau a pique, onde se instalam, com Fabiano trabalhando para o fazendeiro (interpretado por Joffre Soares) dono das terras, como vaqueiro. A miséria do casal é tão grande que o sonho de Vitória é ter uma cama de couro como a do antigo patrão, pois eles dormem em um estrado feito com troncos de árvores, sem colchão. Fabiano não sabe ler, nem escrever, recebe pouco e ainda gasta este pouco em jogatinas de baralho. Quando a seca aperta, sem perspectivas de chuvas, o fazendeiro leva o gado para outras paragens, dispensando os trabalhos de Fabiano. A saga de procurar um novo lugar será encarada novamente pela família, saindo, a pé, em busca de seus sonhos.

É impressionante como o machismo da época em que foi gravado o filme, e mesmo no tempo em que se passa a trama, é retratado na história. Uma cena me marcou bastante neste quesito: Vitória foi buscar água em um riacho que estava quase seco, encheu um recipiente enorme de cerâmica com uma água bem barrenta, e o transportou na cabeça para casa. Ao chegar, Fabiano tem uma discussão com ela sobre a jogatina dele, terminando dizendo que ele trabalha para ganhar o dinheiro e ela não. E o que a mulher mais faz é trabalhar na casa, cuidando dos filhos, fazendo comida, buscando água, cuidando das contas. Outra cena que demonstra como vivia a sociedade naquele interior do Brasil é quando mostra o contraste entre os frequentadores do bar, todos homens, e na igreja, mulheres rezando, enquanto os homens ficavam na porta de entrada. Marca bem os limites de cada gênero na sociedade. Antes que alguém pense, esta é uma constatação, mas de forma alguma estou cancelando a obra. O filme é importantíssimo para a cinematografia brasileira. Eu gosto muito deste filme.

Por fim, deve ser sempre ressaltado a performance da cadela Baleia, um primor, especialmente em uma cena de pura emoção quando seu destino é selado por Fabiano.

Mesmo com iluminação saturada, a fotografia da cena final do filme transmite, ao mesmo tempo, tristeza e beleza.

Revi este filme para a aula do curso sobre Cinema Novo que estou fazendo, on-line, no Cinema com Teoria.

Vi, em 03/02/2022, no Telecine Play.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

TROPA DE ELITE 2

Depois de três tentativas frustradas, consegui comprar entrada para ver o filme brasileiro sensação do momento.  Utilizando o cartão Claro Club, paguei meia entrada (R$ 8,00) no Cinemark Iguatemi, Brasília. O filme é Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora É Outro, dirigido por José Padilha. No elenco, Wagner Moura (Coronel Nascimento), André Ramiro (André Mathias), Milhem Cortaz (Capitão Fábio), Maria Ribeiro (Rosane), Irandhir Santos (Diogo Fraga), Seu Jorge (Beirada), Tainá Muller (Clara), Sandro Rocha (Russo), André Mattos (Fortunato), entre outros. Uma das forças do filme é o elenco, com interpretações marcantes como as de Seu Jorge como o bandido Beirada e André Mattos como o apresentador de programa sensacionalista de tv que depois se torna deputado estadual. Nesta sequência, Coronel Nascimento não está mais à frente do BOPE, pois foi promovido a Subsecretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, mas continua sua batalha por "limpar" a cidade do crime organizado. Dentro da secretaria, descobre que sua luta é muito maior do que pensava. Ele chama de "o sistema" seu novo inimigo, onde o crime tem ligações estreitas com os políticos e a polícia, com policiais formando uma milícia armada que estorque os moradores em troca de proteção contra os criminosos traficantes de drogas. Ele continnua sendo durão como no primeiro filme, já separado da mulher, que se casou, ironicamente, com um defensor dos direitos humanos que sempre combateu os métodos utilizados pelo BOPE comandado pelo então Capitão Nascimento. O filme é mais dinâmico do que o primeiro, o roteiro é redondo, direto, tem mais ação e repete aquilo que fez sucesso, como a tortura por asfixia em um saco plástico e a câmara nervosa acompanhando as perseguições e tiroteios nas favelas e morros cariocas. Pode-se dizer que o filme é uma catarse contra a politicagem imunda que impera, não só na cidade do Rio de Janeiro, mas em todo o país. Embora eu não goste de narrações em off, nesta sequência ela até que funciona bem como elemento esclarecedor para a história em si, mas poderia ser evitada. Merece destaque também a poderosa fotografia de Lula Carvalho, com tons realistas. O cinema estava lotado e as conversas ao final da exibição eram, em sua maioria, positivas e favoráveis ao filme, mostrando que ele pode bater o recorde de público da safra recente do cinema nacional. Embora a primeira frase que aparece na tela nos alerte que, embora possa haver eventuais coincidências com a realidade, se trata de uma obra de ficção, quando acabamos de ver o filme, fica difícil acreditar que todas as situações apresentadas não façam parte do cotidiano nos grandes centros urbanos de nosso país. Gostei muito.