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quinta-feira, 19 de julho de 2012

FOI CARMEN - CENA CONTEMPORÂNEA

Segunda noite do Cena Contemporânea 2012. Ingresso para a peça Foi Carmen, uma concepção de Antunes Filho, dirigida por ele e encenada pelos atores Mariah Teixeira, Lee Thalor, Emile Sugai e Patrícia Carvalho, integrantes do Grupo de Teatro Macunaíma & Centro de Pesquisa Teatral (CPT) do SESC de São Paulo. Muita gente no foyer da Sala Martins Penna do Teatro Nacional Cláudio Santoro para conferir o espetáculo. A sala está cada vez mais decadente, com cheiro de mofo, carpetes imundos e rasgados. Fora o desconforto natural das poltronas (há muito já deveriam ter trocado todo o conjunto de poltronas das salas que integram o complexo do Teatro Nacional), há muitas delas rasgadas ou com braços quebrados. Mas ainda assim o público comparece quando a programação é de qualidade. Com quinze minutos de atraso, anunciaram que as pessoas que estavam mais atrás poderiam ocupar os lugares vagos nas primeiras fileiras. O teatro não ficou lotado, mas recebeu um bom público. Depois da acomodação da plateia, as luzes se apagaram, a gravação do festival foi executada e, enfim, a peça teve início, com o palco sem cenário. Mariah Teixeira entra em cena vestida de colegial carregando duas cadeiras de madeira contando os passos. Coloca as cadeiras no lado oposto, olha, as pega de volta e regressa de costas, diminuindo a contagem inicial até o centro, onde as coloca, saindo para buscar a terceira cadeira. Ao longo da peça, ela vai aparecer várias vezes fazendo uma contagem quase que infinita. A forma como anda me lembrou aqueles patinhos que são alvo em barraquinhas localizadas em parques de diversão. Juro que deu vontade de pegar uma espingarda e atirar nela quando estava perto do número 100. Os outros três atores, vestidos de negro e com movimentos que lembram o teatro tradicional japonês, o butô, entram em cena para se sentarem nas três cadeiras, como espectadores de um show de Carmen Miranda. Carmen é a inspiração para o espetáculo, mas não é a história dela, mas sim o que ficou da cantora luso-brasileira no imaginário popular. Lee Thalor, depois de sair como um dos três personagens vestidos de negro, volta como um malandro carioca, todo de branco, mas falando uma língua diferente, não identificável (li depois que é uma língua criada pelo Macunaíma), como se tivesse discorrendo sobre a pequena notável, deixando escapar em  português palavras que a identificam, como banana, balangandãs, morro e samba. Em seguida, é a vez de Emile Sugai surgir vestida à caráter, lembrando a cantora, mas com uma meia preta escondendo seu rosto. Ficava nítido que o importante era mostrar ao público apenas os elementos que ficaram no imaginário popular. Com uma pulsante trilha sonora, a atriz vai dando a volta no palco com uma cesta nas mãos, tirando de dentro dela peças fortemente ligadas à Carmen, numa espécie de desconstrução do mito. Desta forma, ficam pelo chão do palco colares, panos com paetês coloridos, pandeiro, bananas de plástico com purpurina, uma flor vermelha, uma boneca e as famosas sandálias plataforma. Com nenhum diálogo entre os personagens, a peça não agradava a todos, com gente saindo antes do final. Em outra performance, a atriz Patrícia Carvalho, quase deitada no tablado, entra em uma espécie de transe, incorporando a cantora, saindo sambando pelo salão. Com esta performance, encerrava-se a identificação dos elementos que remetem à Carmen, pois nada melhor do que um carnaval, com direito a confete no ar, para fazer o público lembrar da cantora. Com cerca de 60 minutos, a peça termina com os quatro atores em cena, como se estivessem em um baile de carnaval, dançando ao som de um sucesso da homenageada. As luzes se apagaram, aplausos protocolares por parte de alguns, que permaneceram sentados, e apupos e gritos entusiasmados por parte de outros. A reação do público mostrou que Antunes Filho continua dividindo opiniões. Bela reflexão sobre mitos, sobre o imaginário do povo. Belo espetáculo.

teatro

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